{"id":38836,"date":"2015-12-28T11:06:37","date_gmt":"2015-12-28T13:06:37","guid":{"rendered":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/?p=38836"},"modified":"2015-12-28T11:47:32","modified_gmt":"2015-12-28T13:47:32","slug":"uma-analise-sobre-o-cd-da-serie-a-do-carnaval-do-rio-de-janeiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2015\/12\/uma-analise-sobre-o-cd-da-serie-a-do-carnaval-do-rio-de-janeiro\/","title":{"rendered":"Uma an\u00e1lise sobre o CD da S\u00e9rie A do Carnaval do Rio de Janeiro"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Depois dos tr\u00eas textos analisando a safra de sambas-enredo do Grupo Especial, venho hoje comentar as 14 obras que comp\u00f5em a S\u00e9rie A. J\u00e1 estabilizado como um dos maiores espet\u00e1culos do Carnaval brasileiro, os desfiles do segundo grupo reservam mais uma vez sambas de boa categoria e prometem um n\u00edvel t\u00e9cnico bastante alto (apesar dos graves problemas financeiros) \u00e0 medida que o desn\u00edvel entre as escolas mais fortes e mais fracas, embora ainda consider\u00e1vel, venha diminuindo progressivamente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Comparando com os demais anos da S\u00e9rie A, que come\u00e7ou em 2013 substituindo o Acesso A da LESGA, e desconsiderando as reedi\u00e7\u00f5es, temos uma safra de n\u00edvel bastante superior \u00e0 de 2013 e um pouco mais competente que a de 2014. Fica abaixo da safra de 2015, mas aquela foi um ponto fora da curva, especialmente pelos tr\u00eas melhores sambas que compunham o grupo. Assim sendo, fica acima da m\u00e9dia recente. Vale destacar tamb\u00e9m a presen\u00e7a maci\u00e7a de compositores consagrados em escolas do Grupo Especial, o que contribui para o bom n\u00edvel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A pol\u00eamica produ\u00e7\u00e3o do CD \u00e9 sem d\u00favida alguma o fator que deixar\u00e1 o CD de 2016 longe dos \u00e1lbuns mais aclamados da hist\u00f3ria. Voltando a comandar a produ\u00e7\u00e3o do disco, Ivo Meirelles claramente tentou fazer algo diferente para alavancar as vendas de um produto que est\u00e1 longe de ser um sucesso e que reduz sua presen\u00e7a ao nicho dos extremamente aficionados. O resultado, no entanto, foi um desastre. A ideia de inserir os gritos de guerra dos int\u00e9rpretes no meio do samba foi muito mal pensada e na grande maioria das faixas ficou muito esquisito. Isso sem falar nos refr\u00e3es que s\u00e3o mais curtos do que os gritos, o que nos faz ficar sem ouvir o \u201c<em>vamos nessa\u201d<\/em> de Ronaldo Yll\u00ea ou o <em>\u201carrepia\u201d<\/em> de Luizinho Andan\u00e7as.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ivo ainda manteve o padr\u00e3o adotado por Leonardo Bessa em 2015 de fazer a primeira passada sem acompanhamento da bateria e tamb\u00e9m de valorizar os coros para dar um ar, digamos, mais cl\u00e1ssico ao CD. O resultado, ao contr\u00e1rio do que se viu em 2015, foi um desastre. Faltou cuidado na produ\u00e7\u00e3o e em algumas faixas fica n\u00edtida a colagem de \u00e1udios. Isso sem falar em uma das maiores bizarrices que j\u00e1 vi em um \u00e1lbum de sambas-enredo que \u00e9 a voz macabra ao fundo da faixa do Imp\u00e9rio Serrano. Enfim, ousar \u00e9 sempre louv\u00e1vel, mas o resultado definitivamente foi terr\u00edvel. Vamos aos sambas. Ah, para n\u00e3o dizer que s\u00f3 tenho cr\u00edticas, o encerramento das faixas destacando as baterias ficou muito bom. Ideia a ser levada adiante nos pr\u00f3ximos anos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>14) Imp\u00e9rio da Tijuca: \u201cO Tempo Ruge, a Sapuca\u00ed \u00c9 Grande e o Imp\u00e9rio Aplaude o Felomenal\u201d \u2013 Rogerinho<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Composi\u00e7\u00e3o:<\/strong> <strong>Jussara Pereira \/ Dalton da Nelci \/ Luiza Fontella \/ Adriana Vieira \/ Lid<\/strong><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"IMP\u00c9RIO DA TIJUCA - 2016 CD OFICIAL\" width=\"525\" height=\"295\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/jBu79ds6sQU?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Depois de alguns anos com algum sucesso com enredos afro, o Imp\u00e9rio da Tijuca resolveu mudar e partir para um samba trash em sua homenagem \u00e0 Jos\u00e9 Wilker. O resultado, entretanto, n\u00e3o foi nada bom. N\u00e3o d\u00e1 para negar que \u00e9 um samba animado e que pode contagiar um p\u00fablico que \u00e9 majoritariamente carioca. Embora n\u00e3o seja muito estilo de composi\u00e7\u00e3o do Morro da Formiga, pode at\u00e9 haver uma boa recep\u00e7\u00e3o por conta da melodia pra cima, da letra popularesca e das men\u00e7\u00f5es a personagens conhecidas do grande p\u00fablico. Tecnicamente, por\u00e9m, \u00e9 de longe o pior samba que vai passar pela Sapuca\u00ed em 2016.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O refr\u00e3o principal come\u00e7a de maneira inusitada e trata com um coloquialismo um tanto esquisito a morte de seu homenageado. <em>\u201cBye bye menino, bye bye gigante\u201d<\/em> \u00e9 uma \u00f3bvia e clara refer\u00eancia ao filme \u201cBye Bye Brasil\u201d, mas a inser\u00e7\u00e3o neste contexto ficou quase desrespeitosa. Tamb\u00e9m estranhei bastante o verso <em>\u201cO Imp\u00e9rio aplaude o artista errante\u201d<\/em>, j\u00e1 que n\u00e3o me parece ser esse o perfil de Jos\u00e9 Wilker a ser mostrado no enredo. Para completar, a op\u00e7\u00e3o da escola por suprimir a repeti\u00e7\u00e3o do verso <em>\u201cO tempo ruge e a Sapuca\u00ed \u00e9 grande&#8230;\u201d<\/em> provocou uma vis\u00edvel quebra no conjunto mel\u00f3dico da estrofe.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Devo dizer que \u00e0 parte este refr\u00e3o, n\u00e3o tenho muitos questionamentos em termos de letra. Ela \u00e9 clara, objetiva e, se n\u00e3o \u00e9 muito rebuscada, costura com cuidado \u00e0s men\u00e7\u00f5es \u00e0 obras e personagens de Jos\u00e9 Wilker para que n\u00e3o fique sem contextualiza\u00e7\u00e3o. A melodia, por\u00e9m, apresenta uma constru\u00e7\u00e3o extremamente deficiente e apela para subidas de tom bastante inc\u00f4modas como em <em>\u201cCrescia um ator \u201cfelomenal\u201d\u201d<\/em>, <em>\u201cFoi a alma do cinema nacional\u201d<\/em>, <em>\u201cHoje! \u201cEu vou lhe usar\u201d fantasia \/ Quero cair nessa folia e consagrar\u201d<\/em> (aqui me permitam um elogio \u00e0 letra, que foi muito bem tirada e se aproveitou do \u00faltimo papel marcante e que criou um bord\u00e3o repetido a exaust\u00e3o feito por Jos\u00e9 Wilker) e <em>\u201cSeu show vai continuar\u201d<\/em>. O refr\u00e3o do meio tamb\u00e9m apresenta alguns problemas, como a m\u00e9trica totalmente falha do verso <em>\u201cNossa cena se abre pra multid\u00e3o\u201d<\/em> e a melodia truncada que tem dificuldades para formar um conjunto mel\u00f3dico. O mesmo problema se repete em passagens como <em>\u201cEm hor\u00e1rio nobre eternizou \/ O milagreiro do amor\u201d<\/em>. Rogerinho n\u00e3o teve um bom desempenho tecnicamente, mas pode contribuir para a boa aceita\u00e7\u00e3o do samba na Sapuca\u00ed por conta do seu estilo de canto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>13) Caprichosos de Pilares: \u201cTem Gringo no Samba!\u201d \u2013 Thiago Brito<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Composi\u00e7\u00e3o: Gabriel Fraga \/ Rute Labre \/ R\u00e9gis \/ Franco Cava \/ Ric Santiago \/ Luiz Careca<\/strong><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"CAPRICHOSOS DE PILARES - 2016 CD OFICIAL\" width=\"525\" height=\"295\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/zg7WtyZl678?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa foi a grande surpresa negativa do CD porque eu gostava muito da vers\u00e3o que venceu a disputa. O samba deu boa vida a um enredo extremamente complicado. A composi\u00e7\u00e3o aposta em um desenho mel\u00f3dico simples, sem muitos descompassos e com poucas varia\u00e7\u00f5es. A grande maioria das cr\u00edticas que acabo fazendo podem ser creditadas a um trabalho ruim da ala musical da azul-e-branca depois da disputa. H\u00e1, para mim, por exemplo, uma altern\u00e2ncia mel\u00f3dica mal costurada do verso <em>\u201cBrilhei, me fiz um grande vencedor!!!\u201d<\/em> para o verso <em>\u201cReflete a natureza em meus olhos\u201d<\/em>. Esse\u00a0 \u00e9 um problema que n\u00e3o aparecida na vers\u00e3o concorrente porque o segundo verso tinha uma descida de tom que se encaixava ao desenho mel\u00f3dico. Agora, tenta manter a mesma entona\u00e7\u00e3o, dando inclusive uma leve subida, e acaba se perdendo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Diga-se de passagem, outra coisa que me decepcionou muito foi o desempenho do int\u00e9rprete Thiago Brito. A exemplo do que aconteceu em 2014 e 2015, o cantor exagerou ao cantar em um tom excessivamente alto, mais alinhado ao seu estilo vocal, e prejudicou a constru\u00e7\u00e3o mel\u00f3dica do samba que foi feita para ser cantada de maneira mais s\u00f3bria. O andamento tamb\u00e9m me incomodou um pouco. Achei muito para tr\u00e1s e a melodia acabou ficando travada, com versos muito prolongados como em <em>\u201cNas voltas que o mundo d\u00e1&#8230; Caminhei!\u201d<\/em> e <em>\u201cDe cores, cren\u00e7as e culturas&#8230; Carnaval!!!\u201d<\/em>. Por outro lado, gosto muito do refr\u00e3o da melodia do refr\u00e3o do meio, que \u00e9 contagiante e vem sendo conduzida em \u00f3timo andamento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A letra mostra um esfor\u00e7o quase comovente para tentar explicar um enredo que \u00e9 de longe dos mais confusos do ano. Os compositores foram inteligentes ao apresentar o eu-l\u00edrico apenas no \u00faltimo verso antes do refr\u00e3o principal e mais ainda ao se apegar nos pontos mais, digamos, propensos a virarem poesia. O samba, por exemplo, recebe uma men\u00e7\u00e3o discreta na sinopse e \u00e9 apresentado como um dos meios que integraram brasileiros e membros de outras nacionalidades. No samba-enredo, por\u00e9m, ele toma conta de metade da primeira parte e de todo o refr\u00e3o do meio. \u00d3timo para a funcionalidade da obra, p\u00e9ssimo tecnicamente, visto que foge completamente do enredo ao abordar, no citado refr\u00e3o do meio, pontos que n\u00e3o fazem parte do tema como o surgimento do g\u00eanero e tamb\u00e9m por dar uma import\u00e2ncia totalmente desproporcional a este trecho do desfile. Outro problema \u00e9 o verso <em>\u201cO som que imortaliza e consagra\u201d<\/em>, visto que n\u00e3o fica claro o que foi imortalizado e consagrado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na segunda parte, a letra n\u00e3o tem nenhuma sacada espetacular, mas cumpre bem o seu papel. Faz um apanhado geral de pontos que ser\u00e3o abordados no desfile e consegue estabelecer bem uma conex\u00e3o entre eles. Por outro lado, volta a derrapar visivelmente em dois momentos. Primeiramente, ficou dif\u00edcil inserir o Petkovic dentro da letra. O resultado foi um verso mal concebido e de dif\u00edcil entendimento: <em>\u201cEnt\u00e3o, da vida esqueci as ilus\u00f5es\u201d<\/em>. Mais adiante, tamb\u00e9m me causa estranheza o verso <em>\u201cReflete a natureza em meus olhos\u201d<\/em>, que apresenta um erro de concord\u00e2ncia que dificulta o entendimento da passagem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>12) Unidos do Porto da Pedra: \u201cPalha\u00e7o Carequinha: Paix\u00e3o e Orgulho de S\u00e3o Gon\u00e7alo! T\u00e1 Certo ou N\u00e3o T\u00e1?\u201d \u2013 Anderson Paz<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Composi\u00e7\u00e3o: Porkinho \/ Kiko Ribeiro \/ Vitor Gabriel \/ Daniel Katar \/ M\u00e1rcio Souza \/ Wilson Bizzar \/ William do Barreto \/ Flavinho Segal<\/strong><\/p>\n<p>https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=k-YPgOhWTs4<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tenho achado as cr\u00edticas \u00e0 esse samba um tanto exageradas. Concordo que n\u00e3o \u00e9 uma obra de extrema qualidade e que tecnicamente fica devendo muito, mas acho esse samba agrad\u00e1vel para se ouvir de maneira um pouco mais despretensiosa. O ponto mais positivo, ao meu ver, \u00e9 a leveza e a alegria. \u00c9 um samba simples, com uma inoc\u00eancia que praticamente desapareceu do Carnaval atual, mas que me faz muita falta. Tem, sim, muitas falhas, mas passa longe de ser um desastre.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para come\u00e7ar, gosto muito do refr\u00e3o principal. \u00c9 animado, pra cima, e, mesmo sem apresentar algo muito inovador, cumpre bem a fun\u00e7\u00e3o de apresentar a escola e o homenageado. Sinto, no entanto, uma falta de cuidado com o verso final, <em>\u201cCom essa trupe conquistei seu cora\u00e7\u00e3o\u201d<\/em>, cuja melodia na primeira passada do refr\u00e3o simplesmente n\u00e3o fecha. Por outro lado, acho a letra da primeira parte muito bonita, em especial por conta dos versos <em>\u201cVem ver&#8230; No picadeiro a magia acontecer \/ Vem ver uma crian\u00e7a sorrir \/ Com brilho nos olhos, se divertir\u201d<\/em>. O problema \u00e9 que essa estrofe \u00e9 bastante melodiosa e \u00e9 cantada em um tom decrescente, de modo que a subida absurda no in\u00edcio do refr\u00e3o do meio chega a surpreender e incomodar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por\u00e9m, apesar deste sen\u00e3o, acho esse refr\u00e3o do meio bem constru\u00eddo melodicamente. \u00c9 animado e sem descompassos mel\u00f3dicos ou varia\u00e7\u00f5es desagrad\u00e1veis. A letra \u00e9 apenas razo\u00e1vel e derrapa feio no verso <em>\u201cParab\u00e9ns&#8230; Carequinha!\u201d<\/em>. Sem contextualiza\u00e7\u00e3o alguma dentro da estrofe, fica claro que ele est\u00e1 ali apenas para tapar buraco e fechar a melodia. Melodia que, ali\u00e1s, tem uma falha grave de m\u00e9trica logo no primeiro verso da segunda parte \u2013 <em>\u201cNo encanto do cinema\u201d<\/em> -, registre-se. Entretanto, h\u00e1 de se destacar e elogiar o verso <em>\u201cN\u00e3o \u00e9 bobo, \u00e9 o her\u00f3i da crian\u00e7ada\u201d<\/em>. A letra ainda apresenta parte do legado do Palha\u00e7o Carequinha, o que \u00e9 bom, mas faz um jogo de palavras for\u00e7ado e deficiente de sentido em <em>\u201cPara o mundo \u00e9 medalha de ouro\u201d<\/em>. Ressalve-se a \u00f3tima grava\u00e7\u00e3o de Anderson Paz. Valorizou muito o samba.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>11) Inocentes de Belford Roxo: \u201cCac\u00e1 Diegues \u2013 Retratos de Um Brasil em Cena\u201d \u2013 Nino do Mil\u00eanio<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Composi\u00e7\u00e3o: Serginho Castro \/ Tentenzinho Jr. \/ Rud\u00e1 Neto \/ Marcelo Fernandes<\/strong><\/p>\n<p>https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=AsejNMXxYXc<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O samba da Inocentes de Belford Roxo, apesar de alguns deslizes, \u00e9 bem feito. No entanto, devo confessar que n\u00e3o me chama muita aten\u00e7\u00e3o. O enredo desenvolvido de maneira bastante convencional gerou uma letra que em muitos momentos \u00e9 apenas um recorte de obras marcantes de Cac\u00e1 Diegues, restando pouco espa\u00e7o para bons momentos. Por outro lado, descreve fielmente o enredo e tem boas passagens, especialmente na primeira parte, quando o enredo \u00e9 menos descritivo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O refr\u00e3o principal \u00e9 bem feito, mas a subida de tom em <em>\u201cO cinema hoje invade a passarela\u201d <\/em>me incomoda bastante. A primeira parte \u00e9, com sobras, o melhor momento do samba. Extremamente melodiosa, com desenhos musicais bem arranjados e uma letra bem constru\u00edda, descreve a origem nordestina do homenageado e sua inser\u00e7\u00e3o no mundo das artes. Tamb\u00e9m me agrada bastante o refr\u00e3o do meio, que pede um andamento mais acelerado e \u00e9 bastante \u201cpra cima\u201d, apresentando com boa costura personagens de filmes marcantes de Cac\u00e1 Diegues.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na segunda parte, o samba entra na espinhosa miss\u00e3o de citar v\u00e1rias obras e contextualizar todas elas em uma letra que fa\u00e7a sentido. Com boa melodia e sem nenhum descompasso, a estrofe evolui muito bem e tem uma mudan\u00e7a mel\u00f3dica excelente no verso <em>\u201cValeu Cac\u00e1! Por vir ao mundo e alegrar a tanta gente\u201d<\/em>. Contudo, confesso que n\u00e3o entendi bem essa hist\u00f3ria de agradecer uma pessoa pelo fato dela existir. Outro pequeno deslize \u00e9 justamente na hora de costurar as men\u00e7\u00f5es aos trabalhos do homenageado. Em toda a letra isso \u00e9 feito de maneira competente, mas no trecho <em>\u201cAcende a chama nesse rio de f\u00e9&#8230; Deus \u00e9 brasileiro de verdade!\u201d <\/em>ficou confuso. Uma outra coisa que me incomoda s\u00e3o os tr\u00eas versos terminados em \u201cdade\u201d em uma sequ\u00eancia de cinco: <em>\u201cliberdade\u201d<\/em>, <em>\u201cfelicidade\u201d <\/em>e <em>\u201cverdade\u201d<\/em>. Nino do Mil\u00eanio, apesar de not\u00f3ria evolu\u00e7\u00e3o, n\u00e3o fez uma grava\u00e7\u00e3o de qualidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>10) Uni\u00e3o do Parque Curicica: \u201cCora\u00e7\u00f5es Mamulengos\u201d \u2013 Ronaldo Yll\u00ea e Elba Ramalho<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Composi\u00e7\u00e3o: Washington Motta \/ Pitimb\u00fa \/ Vagner Silva \/ Alexandre Alegria \/ Telmo \/ L\u00e9o do Taberna \/ Marcelo Val\u00eancia \/ Adelson \/ M\u00e1rcio Andr\u00e9 Filho<\/strong><\/p>\n<p>https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=xGuJMB-yjg0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ta\u00ed a mais grata surpresa de todo esse CD. Era um dos sambas que eu menos gostava n\u00e3o s\u00f3 na \u00e9poca das eliminat\u00f3rias, como tamb\u00e9m na grava\u00e7\u00e3o divulgada pela escola alguns dias depois da final da disputa de samba-enredo. No entanto, fiquei impressionado com o quanto esse samba cresceu e ganhou outra vida, outra cara no CD oficial. A escola soube trabalhar a obra com maestria e muitos dos problemas mel\u00f3dicos que o samba tinha simplesmente desapareceram.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O refr\u00e3o principal \u00e9 um dos mais caprichados do Carnaval de 2016. O convite para \u201cmamulengar\u201d \u00e9 feito como manda o manual: de maneira alegre, leve e com versos que te conquistam com facilidade, assim como a melodia muito bem constru\u00edda. Destaco o verso <em>\u201cEu vou passar, mas a saudade fica!\u201d<\/em>, que tem tudo a ver com o enredo. Ali\u00e1s, esse \u00e9 outro samba que me conquista pela alegria, pela simplicidade e pelo capricho com que sua letra \u00e9 modelada, transmitindo assim a ess\u00eancia do enredo e do assunto de que tratar\u00e1 a escola.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A letra tem come\u00e7o, meio e fim muito bem desenhados. Fica evidente a ideia de que uma caravana desembarca em uma cidade para apresentar um teatro de bonecos. Da letra, destaco nesta primeira parte a passagem <em>\u201cEi&#8230; Do ba\u00fa surgiu \/ Vixe&#8230; Tantos olhos coloriu \/ Das m\u00e3os os bonecos ganham vida\u201d<\/em>. Na segunda parte ela acaba mais recortando alguns pontos importantes do enredo e n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o bonita, mas tem um encerramento muito bacana para colocar ponto final ao enredo: <em>\u201cEst\u00e1 na hora eu vou partir \/ Alegrar outra cidade\u201d<\/em>. Por outro lado, acho que h\u00e1 um erro na passagem <em>\u201cAcol\u00e1 vem Lampi\u00e3o&#8230; Pra vencer o desafio \/ Desse povo nordestino&#8230; Oi\u201d<\/em>, porque ele d\u00e1 a entender que o desafio foi feito pelo povo nordestino, quando na verdade a vit\u00f3ria foi para ele. E o curioso \u00e9 que o melhor verso do samba est\u00e1 justamente na sequ\u00eancia, aproveitando o fio que comanda as marionetes para dizer que o povo nordestino <em>\u201cleva a vida por um fio\u201d<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Melodicamente, o samba tem nuances muito bem feitas como a transi\u00e7\u00e3o mel\u00f3dica provocada pelo verso <em>\u201cEi&#8230; Do ba\u00fa surgiu\u201d<\/em>, a excelente estrofe central com uma levada menos cadenciada e mais alegre e o prolongamento maravilhoso dos versos <em>\u201cEita que fole danado \/ Audaciosa num batuque arretado!\u201d<\/em>. Por outro lado, me s\u00e3o extremamente inc\u00f4modas as subidas de tom dos versos <em>\u201cMamulengos, doce ilus\u00e3o\u201d<\/em> e <em>\u201cAcol\u00e1 vem Lampi\u00e3o&#8230; Pra vencer o desafio\u201d<\/em>. Isso sem falar na total quebra de continuidade mel\u00f3dica a partir do verso <em>\u201cEst\u00f3rias magia da arte\u201d<\/em>. Ronaldo Yll\u00ea teve um desempenho brilhante na condu\u00e7\u00e3o do samba e a participa\u00e7\u00e3o de Elba Ramalho ficou espetacular. Ainda assim, tradicionalista que sou nesse sentido, prefiro que o samba seja cantado apenas pelo int\u00e9rprete. O lindo alusivo \u201cSou eu que trago a for\u00e7a da Uni\u00e3o\u201d na voz de Ronaldo e Elba \u00e9 um dos melhores momentos do CD.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>9) Acad\u00eamicos de Santa Cruz: \u201cDiz Mata! Digo Verde, a Natureza Veste a Incerteza, e o Amanh\u00e3? (O Clamor da Floresta)\u201d \u2013 Pavarotti e Gabby Moura<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Composi\u00e7\u00e3o: Andr\u00e9 F\u00e9lix \/ Freitas Junior \/ Z\u00e9 Gl\u00f3ria \/ Marquinho Beija-Flor \/ Roni Remandiola \/ Betinho \/ De Ara\u00fajo \/ J. Giovani<\/strong><\/p>\n<p>https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=gCREOXSNWco<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O samba da Santa Cruz para o Carnaval de 2016 inegavelmente tem qualidade, mas acho um tanto superestimado. A composi\u00e7\u00e3o aposta em uma melodia densa, mas mais bem constru\u00edda do que as que costumavam vir da escola da Zona Oeste. A tem\u00e1tica n\u00e3o chega a ser in\u00e9dita, mas ganhou uma abordagem um pouco diferente e isso se refletiu naquele que talvez seja a melhor composi\u00e7\u00e3o de um enredo com cunho \u00fanica e exclusivamente ambientalista. Acho curioso como o samba apresenta poucos clich\u00eas, o que n\u00e3o era esperado por conta da tem\u00e1tica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O refr\u00e3o principal \u00e9 bom, mas o verso <em>\u201cA Santa Cruz \u00e9 meu clamor, \u00e9 minha sede\u201d <\/em>n\u00e3o ficou nada legal. Est\u00e1 ali fechando a melodia e nada mais. Por outro lado, o in\u00edcio do samba \u00e9 excelente, especialmente pela melodia acelerada do verso <em>\u201cEcoa um grito de guerra do alto da mata\u201d<\/em> e pela abordagem feita do enredo. A mensagem de uma natureza unida contra toda a maldade que sofre \u00e9 transmitida com clareza e lirismo e o samba apresenta passagens muito bonitas como <em>\u201cVai tocar o mais frio cora\u00e7\u00e3o \/ Pra cada palmo de devasta\u00e7\u00e3o \/ Nasce um ramo de amor\u201d<\/em>. O samba cresce tamb\u00e9m em seu refr\u00e3o de meio, que tem uma melodia mais alegre e uma letra mais solta, com bons versos como <em>\u201cCaipora me chamou, Curupira vai ou vem?\u201d<\/em> e <em>\u201cEsta terra tem magia! Tem poder!\u201d<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Embora tenha havido um cuidado especial nessa transi\u00e7\u00e3o, ainda vejo com um pouco de estranheza a diferen\u00e7a dos desenhos mel\u00f3dicos desse refr\u00e3o para a segunda parte. De uma passagem extremamente \u201cpra cima\u201d o samba desce abruptamente em <em>\u201cSeiva da selva de Anhang\u00e1\u201d<\/em>. \u00c0 parte este problema, a melodia \u00e9 agradabil\u00edssima, tem perfeito entrosamento com a letra e uma m\u00e9trica notoriamente cuidadosa. Acho, no entanto, a letra infeliz em duas passagens. A primeira, pelo excesso do recurso do jogo de palavras que acabou dificultando o entendimento de seu conjunto em <em>\u201cBrotam as flores pras dores do mundo sarar\u201d<\/em>. Outro ponto que n\u00e3o me agradou foi o verso <em>\u201cFolha da mais verdejante matiz eu sou\u201d<\/em>, visto que a palavra \u201cmatiz\u201d \u00e9 um substantivo masculino e, portanto, o correto seria \u201cdo mais verdejante matiz\u201d. A faixa foi muito bem gravada pelo int\u00e9rprete Pavaortti, mas a participa\u00e7\u00e3o de Gabby Moura, embora em alguns trechos tenha abrilhantado a obra, n\u00e3o me agradou muito.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>8) Acad\u00eamicos da Rocinha: \u201cNova Roma \u00c9 Brasil, Brasil \u00c9 Rocinha\u201d \u2013 Lel\u00e9u<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Composi\u00e7\u00e3o: Edinho \/ Diego do Carmo \/ Vitor Coutinho \/ Rico Bernardes \/ Rafael Mikai\u00e1 \/ Wander Timbalada<\/strong><\/p>\n<p>https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=rRzvwh17q5E<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em sua volta \u00e0 Marqu\u00eas de Sapuca\u00ed, a Acad\u00eamicos da Rocinha surpreende pela qualidade de seu samba, que contrasta com o enredo que n\u00e3o \u00e9 dos mais claros, nem dos mais inovadores. Se a sinopse era confusa, o samba por seu turno \u00e9 de simples entendimento e tem uma melodia extremamente cuidadosa, com boas varia\u00e7\u00f5es e desenhos musicais agrad\u00e1veis aos ouvidos. O samba \u00e9 bastante leve, animado, prop\u00edcio para uma escola que ir\u00e1 abrir os desfiles e, muito provavelmente, encontrar uma Sapuca\u00ed ainda vazia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O refr\u00e3o principal \u00e9 muito bom. A melodia alegre combina com a letra forte e descontra\u00edda que, ao mesmo tempo, consegue exaltar a escola e o povo brasileiro, que \u00e9 na verdade a ess\u00eancia de todo o enredo. O tratado da Princesinha da Zona Sul sobre a miscigena\u00e7\u00e3o ganha uma divis\u00e3o muito clara ao longo do samba. O come\u00e7o do samba tem uma pequena derrapada pela aus\u00eancia de sentido do verso <em>\u201cVoa borboleta encantada\u201d<\/em> no conjunto da letra, mas por outro lado apresenta sacadas \u00f3timas como o trecho <em>\u201cEssa terra aben\u00e7oada! \/ Que aos trancos e barrancos \u201cpegou\u201d \/ E assim miscigenou\u201d<\/em>.\u00a0 A primeira parte ainda se destaca pela melodia extremamente bem feita. Os versos apresentam subidas e descidas de tom muito bem planejadas, de modo que nenhuma soa desagrad\u00e1vel. Pelo contr\u00e1rio, ali\u00e1s. S\u00e3o varia\u00e7\u00f5es criativas e agrad\u00e1veis como as apresentadas nos versos <em>\u201cEssa terra aben\u00e7oada!\u201d<\/em>, <em>\u201cO \u00edndio guerreiro, valente a lutar\u201d<\/em>, <em>\u201cSe planta, floresce, eu sei que vai dar\u201d<\/em> e <em>\u201cHeran\u00e7as, costumes, em cada palmo desse ch\u00e3o\u201d<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O refr\u00e3o do meio tamb\u00e9m me agrada muito pela melodia contagiante e que flui com facilidade, al\u00e9m do verso <em>\u201cTanta riqueza brilha no olhar\u201d<\/em>, que foi muito bem pensado. Por outro lado, acho que o verso <em>\u201cNesse banquete s\u00f3 n\u00e3o come quem n\u00e3o quer\u201d<\/em> passa uma mensagem que, licen\u00e7a po\u00e9tica \u00e0 parte, n\u00e3o representa com muita fidelidade o que se pretende contar no enredo. Pelo menos no sentido em que \u00e9 poss\u00edvel contextualizar, acaba sendo quase uma contradi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A segunda parte, por\u00e9m, \u00e9 espetacular. A melodia n\u00e3o cansa e apresenta desenhos mel\u00f3dicos muito agrad\u00e1veis em trechos como <em>\u201cL\u00e1 no terreiro&#8230; Batuque! \/ Ecoa o som do tambor \/ \u00d4 deixa a gira girar, semeia amor \/ O negro \u00e9 ra\u00e7a, mostra seu valor\u201d<\/em> e <em>\u201cO meu Nordeste \u00e9 arte, \u00e9 cultura \/ H\u00e1 esperan\u00e7a caminhando pelas ruas\u201d<\/em>. Esse \u00faltimo verso, ali\u00e1s, \u00e9 outro que merece elogios. A ideia da esperan\u00e7a caminhando nas ruas do Nordeste \u00e9 um dos pontos altos da sinopse e foi muito bem encaixada na letra do samba. Gosto tamb\u00e9m do verso <em>\u201cVai Brasil, trago a favela no meu cora\u00e7\u00e3o\u201d<\/em> tanto pela letra quanto pela melodia, mas considero o trocadilho <em>\u201cUm coliseu de emo\u00e7\u00e3o\u201d<\/em> for\u00e7ado e pouco criativo. Registre-se tamb\u00e9m a extraordin\u00e1ria grava\u00e7\u00e3o do int\u00e9rprete Lel\u00e9u, sem d\u00favida alguma uma das tr\u00eas melhores de todo o CD.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>7) Acad\u00eamicos do Cubango: \u201cUm Banho de Mar \u00e0 Fantasia\u201d \u2013 Hugo Junior<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Composi\u00e7\u00e3o: Sardinha \/ Gustavo Soares \/ Diego Moura \/ Wagner Big \/ Diego Nicolau \/ Marco Moreno \/ Julio Alves \/ Samir Trindade \/ Elson Ramires \/ Cl\u00e1udio Russo<\/strong><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"CUBANGO - 2016 CD OFICIAL\" width=\"525\" height=\"295\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/U7zsVrE2hps?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Outra sinopse extremamente confusa que ganhou um samba lindo e surpreendente. A constru\u00e7\u00e3o mel\u00f3dica dessa obra e a poesia da letra s\u00e3o extremamente surpreendentes mesmo vindos de uma parceria talentosa. A Cubango trocou uma linha de enredos afro que vinha fazendo muito sucesso e s\u00f3 n\u00e3o se pode dizer que mant\u00e9m o n\u00edvel dos sambas porque os dois \u00faltimos eram muito acima da m\u00e9dia. Ainda assim, a verde-e-branco de Niter\u00f3i tem uma obra de muita qualidade e que poderia estar melhor posicionada em uma safra um pouco mais fraca.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O refr\u00e3o principal \u00e9 um achado. A melodia alegre combina com uma letra quase despretensiosa e que utiliza de recursos comuns como usar o clarear do dia ou o termo <em>\u201cbanho de alegria\u201d<\/em> para compor uma estrofe de f\u00e1cil entendimento e contextualiza\u00e7\u00e3o dentro do enredo. Acho apenas que o verso <em>\u201cQuero me banhar \u00e0 fantasia\u201d <\/em>n\u00e3o ficou legal. O enredo trata da \u00e1gua em primeira pessoa e a\u00ed fica evidente que o sentido do t\u00edtulo \u00e9 de dar um banho na fantasia e n\u00e3o se banhar \u00e0 fantasia (at\u00e9 porque seria um pouco estranho a \u00e1gua se banhar).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Enfim, \u00e0 parte este deslize, o samba \u00e9 muito competente. A primeira parte \u00e9 muito bem constru\u00edda e tem trechos lindos como <em>\u201cBrilha na linha do olhar\u201d<\/em> e <em>\u201cDa branca espuma o verde nasceu\u201d<\/em>. Quem leu a sinopse sabe o quanto esse trecho era complicado de entender e os compositores tiraram uma boa poesia desse setor. Outra parte da letra que me chama a aten\u00e7\u00e3o \u00e9 a que trata dos mist\u00e9rios do mar. A clareza da passagem \u00e9 louv\u00e1vel: <em>\u201cBravura a navegar \/ No Reino de Netuno a imensid\u00e3o \/ Do tenebroso mar da imagina\u00e7\u00e3o\u201d<\/em>. O problema \u00e9 que a melodia nesse primeiro verso n\u00e3o fechou e o <em>\u201cbravura\u201d <\/em>na verdade \u00e9 cantado como \u201cbravur\u00e1\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O refr\u00e3o do meio, por seu turno, \u00e9 \u00f3timo. Ainda falando de mist\u00e9rios, traz personagens conhecidas como a Iara e a Sereia com uma melodia com boas varia\u00e7\u00f5es e m\u00e9trica bem desenvolvida. O samba tamb\u00e9m se preocupa em trazer o p\u00fablico para o cen\u00e1rio do desfile e a letra passa bem o esp\u00edrito do mar como um \u201chabitat\u201d em <em>\u201cPor essas ondas mora Yemanj\u00e1 \/ Depois dos oceanos, Olokum\u201d<\/em>. A segunda parte reserva ainda \u00f3timas varia\u00e7\u00f5es mel\u00f3dicas como em <em>\u201cVem preservar\u201d<\/em> e em <em>\u201cVelejar \/ E orgulhar futuras gera\u00e7\u00f5es\u201d<\/em>. A letra, no entanto, peca por n\u00e3o esclarecer muito bem quem \u00e9 o eu-l\u00edrico na passagem <em>\u201c\u00c1gua \u00e9 vida, vida sou eu \/ A cristalina l\u00e1grima de Deus\u201d<\/em>. Pode at\u00e9 se subentender que \u00e9 a pr\u00f3pria \u00e1gua, mas a\u00ed haveria uma desconex\u00e3o com a cabe\u00e7a do samba que n\u00e3o fala da \u00e1gua em primeira pessoa. Em sua estreia como cantor principal da Cubango, Hugo Junior n\u00e3o teve bom desempenho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>6) Unidos de Padre Miguel: \u201cO Quinto dos Infernos\u201d \u2013 Luizinho Andan\u00e7as<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Composi\u00e7\u00e3o: Marcelo do Rap \/ Toninho do Trailer \/ Samir Trindade \/ JR Beija-Flor \/ Thiago Alves \/ Alan Santos \/ Pebo Pinheiro \/ Alair Perobelli \/ Wallace Harmonia \/ Diego Rodrigues<\/strong><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"UNIDOS DE PADRE MIGUEL - 2016 CD OFICIAL\" width=\"525\" height=\"295\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/2Nsbq463XNo?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O samba da Unidos de Padre Miguel para o Carnaval de 2016 resgata duas caracter\u00edsticas de que sinto uma imensa falta no Carnaval atual. A primeira, \u00e9 a cr\u00edtica pol\u00edtica, o grito de alerta, o \u201cbasta\u201d que a grande maioria dos brasileiros sente com tanta coisa errada que aparece por aqui. Ainda mais pelo papel social da escola de samba, penso que o g\u00eanero deveria ter mais enredos e sambas assim, que representem o sentimento do povo quanto aos seus governantes. A segunda, que \u00e9 indispens\u00e1vel para que a primeira n\u00e3o seja ranzinza, \u00e9 o bom humor. O Carnaval anda certinho demais. Todo mundo anda com muito medo de cair no \u201ctrash\u201d, de fazer uma piada, de cair no popular. Claro que tem enredo que n\u00e3o permite isso, mas de vez em quando \u00e9 bom ouvir uma coisa mais popularesca.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E esse samba \u00e9 popular at\u00e9 a raiz dos cabelos. Sem deixar de se preocupar em apresentar uma letra forte, com trechos importantes, e uma melodia cuidadosa e que n\u00e3o apela para constru\u00e7\u00f5es mais simples, o samba tem tudo para conquistar o p\u00fablico. Nem tanto pelo refr\u00e3o principal que, embora bom, n\u00e3o se destaca muito. A obra come\u00e7a a camar a aten\u00e7\u00e3o na primeira parte, que apresenta uma boa melodia e transi\u00e7\u00f5es bem resolvidas nas passagens <em>\u201cPreste aten\u00e7\u00e3o no que eu vou falar \/ Desde os tempos de Cabral\u201d<\/em>, <em>\u201cVirou galhofa colonial \/ L\u00e1 vem Jo\u00e3o, seu banquete \u00e0 frente\u201d<\/em> e <em>\u201cSe ele soubesse pulava no mar \/ Com a sinh\u00e1 se misturou\u201d<\/em>. A ressalva fica para a transi\u00e7\u00e3o mel\u00f3dica em <em>\u201cIgual ao \u00edndio nos deixaram pelados \/ Neg\u00e3o veio de l\u00e1, da \u00c1frica pra c\u00e1\u201d<\/em> n\u00e3o foi muito bem executada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A letra, como j\u00e1 se percebe em alguns versos destacados, \u00e9 sensacional. Outro destaque \u00e9 o verso <em>\u201cComeu o frango restou osso pra gente\u201d<\/em>, que \u00e9 divertid\u00edssimo, embora, para mim, a grande sacada do samba esteja no significado quase oculto dos versos <em>\u201cCom a sinh\u00e1 misturou \/ Mas o doce o rei levou\u201d<\/em>. O melhor momento da obra vem logo na sequ\u00eancia: o extraordin\u00e1rio refr\u00e3o do meio. Al\u00e9m da melodia cuidadosa, o destaque fica para os versos <em>\u201cMamaram nas tetas das Minas Gerais\u201d <\/em>e <em>\u201cA farra do quinto tirou nosso couro\u201d<\/em>. A segunda parte come\u00e7a com uma descida de tom muito bem amarrada, mas apresenta tamb\u00e9m uma letra um pouco confusa em seu in\u00edcio: <em>\u201cL\u00e1 vai o rei \/ Com a mesma frouxid\u00e3o que aqui chegou \/ E hoje eu sei \/ O jeitinho que o pa\u00eds herdou\u201d<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por outro lado, na sequ\u00eancia aparecem outros versos muito bem pensados. A grande sacada \u00e9 misturar o discurso politizado do enredo com uma linguagem coloquial, popularesca, vista em versos como <em>\u201cVamos proclamar felicidade pra geral \/ Mandar pros infernos, varrer todo mal\u201d<\/em>. Outros pontos bastante positivos s\u00e3o a transi\u00e7\u00e3o mel\u00f3dica vista no verso <em>\u201cUnidos \u00e9 hora de \u201ckizombar\u201d amor\u201d <\/em>e o excelente trocadilho <em>\u201cLiberdade ainda que folia\u201d<\/em>, que resume muito bem a ideia de aproveitar essa festa para clamar pela liberdade que o Brasil vem desejando em muitos aspectos nesse momento. Estreando pela escola e voltando \u00e0 Sapuca\u00ed, Luizinho Andan\u00e7as fez excelente grava\u00e7\u00e3o e deu uma outra vida ao samba.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>5) Alegria da Zona Sul: \u201cOgum\u201d \u2013 Tigan\u00e1<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Composi\u00e7\u00e3o: Pixul\u00e9 \/ Thiago Meiners \/ Rafael Tubino \/ Andr\u00e9 Kaballa \/ Alex Bag\u00e9 \/ James Bernardes \/ Junior Santana \/ Jos\u00e9 Mario \/ LC Vasques \/ Shazam \/ Gilson Souza \/ Victor Alves<\/strong><\/p>\n<p>https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=RLjvay_P0vY<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se sentindo cada vez mais pressionada e vendo sua perman\u00eancia na Marqu\u00eas de Sapuca\u00ed cada vez mais amea\u00e7ada, a Alegria da Zona Sul resolveu apostar em uma \u201cbola de seguran\u00e7a\u201d nesse enredo sobre Ogum. O resultado, pelo menos por enquanto, foi bastante satisfat\u00f3rio e a escola tem em 2016 um dos melhores sambas de sua hist\u00f3ria. Mesmo sem ser uma composi\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica ou extremamente acima da m\u00e9dia, \u00e9 um samba de muita qualidade que est\u00e1 entre os melhores do ano.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O refr\u00e3o principal tem uma constru\u00e7\u00e3o mel\u00f3dica densa, pesada, em perfeita ordem com a letra que faz uma sauda\u00e7\u00e3o a Ogum. Gosto muito da ideia de iniciar o samba com os versos <em>\u201cQuando toca o adarrum \/ \u00c9 batuque pra Ogum\u201d<\/em>. A \u00f3tima e homog\u00eanea constru\u00e7\u00e3o mel\u00f3dica do samba d\u00e1 uma leve derrapada pela falha na m\u00e9trica dos primeiros versos da primeira parte: <em>\u201cVamos bater os tambores \/ Ex\u00fa vai guardar os caminhos\u201d<\/em>. Por outro lado, a constru\u00e7\u00e3o mel\u00f3dica do verso <em>\u201cFloresce a vida no ay\u00ea\u201d<\/em> \u00e9 bastante criativa e muito agrad\u00e1vel aos ouvidos. A estrofe ainda apresenta algumas subidas de tom muito bem feitas no verso <em>\u201cDescobre os minerais, a forja de metais\u201d<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Outro ponto de destaque do samba da Alegria da Zona Sul \u00e9 o refr\u00e3o do meio. Os desenhos mel\u00f3dicos s\u00e3o bastante diferentes do que \u00e9 apresentado no resto do samba, mas tanto a entrada quanto a sa\u00edda foram muito bem arranjadas, como se nota claramente em <em>\u201cEle \u00e9, ele \u00e9&#8230; Soberano Onir\u00ea\u201d<\/em>, que \u00e9 o primeiro verso, e <em>\u201cE seu nome correu terra, c\u00e9u e mar\u201d<\/em>, o \u00faltimo. Por outro lado, a letra n\u00e3o apresenta a clareza necess\u00e1ria no verso <em>\u201cCom o seu alakor\u00f4 vai conquistar\u201d<\/em>, onde n\u00e3o se entende exatamente o que Ogum vai conquistar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A segunda parte come\u00e7a influenciada pela constru\u00e7\u00e3o mel\u00f3dica bem feita da sa\u00edda do refr\u00e3o e tem uma descida de tom muito bem armada em <em>\u201cBaixando as armas voltou ao Orun\u201d<\/em>. O ponto alto da estrofe \u00e9 a transi\u00e7\u00e3o mel\u00f3dica no verso <em>\u201cE ent\u00e3o vai come\u00e7ar o ritual\u201d<\/em>, que surpreende e n\u00e3o cansa. Da\u00ed em diante, diga-se, o samba aposta em um andamento mais lento e por uma letra que descreve bem a devo\u00e7\u00e3o \u00e0 Ogum. Bastante melodioso, o trecho nos leva sem sobressaltos para o refr\u00e3o principal e fecha com muita compet\u00eancia o \u00f3timo samba da Alegria da Zona Sul. Tigan\u00e1 tem boa condu\u00e7\u00e3o do samba, mas se perde pelo excesso de gritos na hora de cantar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>4) Para\u00edso do Tuiuti: \u201cA Farra do Boi\u201d \u2013 Daniel Silva e Ciganerey<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Composi\u00e7\u00e3o: Rafael J\u00fanior \/ Jorge Maia \/ W Correia \/ Dilson Marimba \/ Cl\u00e1udio Russo<\/strong><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"PARA\u00cdSO DO TUIUTI - 2016 CD OFICIAL\" width=\"525\" height=\"295\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/5mcdINs5z6c?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esse samba \u00e9 uma das mais gratas surpresas do ano. A constru\u00e7\u00e3o mel\u00f3dica \u00e9, sem sobra de d\u00favidas, uma das melhores dos \u00faltimos anos e faz com que o samba simplesmente n\u00e3o canse. A letra \u00e9 inteligent\u00edssima, faz uso de boas sacadas e reproduz com muita clareza a hist\u00f3ria que ser\u00e1 contada pela escola de S\u00e3o Crist\u00f3v\u00e3o. As rimas tamb\u00e9m s\u00e3o todas muito bem constru\u00eddas e o conjunto da letra apresenta conex\u00e3o entre suas partes, fazendo com que a hist\u00f3ria tenha in\u00edcio, meio e fim.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Gosto bastante do refr\u00e3o principal que consegue estabelecer boa conex\u00e3o entre o cen\u00e1rio retratado no enredo e o morro. O destaque, ao meu ver, \u00e9 a passagem <em>\u201cDesce o morro, faz a farra \/ Arretada Tuiuti\u201d<\/em>. O in\u00edcio da primeira parte, por sua vez, tem uma das melhores letras de todo o Carnaval de 2016: <em>\u201cSer t\u00e3o criativo nos sert\u00f5es da f\u00e9 \/ Pra n\u00e3o ser mais um ao deus-dar\u00e1\u201d<\/em>. Excelente. Tamb\u00e9m h\u00e1 de destacar a passagem mel\u00f3dica em <em>\u201cNo Cear\u00e1\u201d<\/em> e a \u00f3tima rima em <em>\u201cContam que a \u00e1gua rareia \/ E a f\u00e9 aperreia a imagina\u00e7\u00e3o\u201d<\/em>. A primeira parte na verdade \u00e9 dividida em duas estrofes, com uma mudan\u00e7a clara de uma para a outra. Clara e muito bem feita, pontue-se. Nessa segunda estrofe da primeira parte, agrada-me muito a passagem <em>\u201cOxente, um presente ao padinho \/ Um danado de um boi mansinho\u201d<\/em>. Por outro lado, a mudan\u00e7a feita pela escola que provocou uma subida de tom no verso <em>\u201cFez causo popular, lai\u00e1, lai\u00e1&#8230;\u201d<\/em> arrebentou com o conjunto mel\u00f3dico de maneira inc\u00f4moda.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O refr\u00e3o do meio \u00e9 outro ponto alt\u00edssimo do samba por conta da melodia animada e dos versos muito bem tirados: <em>\u201cQuem foi que mandou o chuvar\u00e9u? \/ \u00c9 \u00e1gua, meu Deus! T\u00e1 caindo o c\u00e9u\u201d<\/em>. A primeira estrofe da segunda parte come\u00e7a tamb\u00e9m com muita compet\u00eancia, deixando muito claro o protagonismo do Boi Zeb\u00fa no enredo. Nesse trecho, aparecem duas passagens mel\u00f3dicas bastante interessantes: <em>\u201cVirou xod\u00f3, floresceu a planta\u00e7\u00e3o\u201d<\/em> e <em>\u201c\u00ca, boi \u00e1pis do sert\u00e3o\u201d<\/em>. Esse verso tamb\u00e9m serve de transi\u00e7\u00e3o para o trecho final, que come\u00e7a com a morte do boi e ganha contornos po\u00e9ticos interessant\u00edssimos: <em>\u201cParte, mas deixa a saga \/ Que o tempo afaga pelas m\u00e3os de Vitalino\u201d<\/em>. Isso sem falar no maravilhosamente melodioso verso <em>\u201cCad\u00ea o boi? T\u00e1 bumbando na quermesse!\u201d<\/em>. Daniel Silva tem uma das melhores performances de todo o CD e agrega e agrega muito ao \u00f3timo samba da Tuiuti.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>3) Imp\u00e9rio Serrano: \u201cSilas Canta Serrinha\u201d \u2013 Pixul\u00e9<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Composi\u00e7\u00e3o: Arlindo Cruz \/ Aloisio Machado \/ Arlindinho \/ Andinho Samara \/ Z\u00e9 Gl\u00f3ria \/ Lucas Donato \/ Ronaldo Nunes<\/strong><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"IMP\u00c9RIO SERRANO - 2016 CD OFICIAL\" width=\"525\" height=\"295\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/q8U5pluM7Dw?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eis a\u00ed um samba que considero extremamente subestimado. Embora n\u00e3o tenha tido uma boa primeira impress\u00e3o da obra, ainda no dia em que foi inscrita na disputa, hoje reconhe\u00e7o que \u00e9 uma composi\u00e7\u00e3o de muita qualidade e cuja letra tamb\u00e9m figura entre as mais belas e inspiradas de todo o Carnaval de 2016. A melodia, que a princ\u00edpio me causou um pouco de estranhamento, \u00e9 bastante criativa e tem desenhos musicais ricos. \u00c9 um samba mais \u201cpesado\u201d do que a Serrinha est\u00e1 acostumada a apresentar, o que n\u00e3o implica em ser menos competente. Muito pelo contr\u00e1rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como n\u00e3o podia deixar de ser, o samba \u00e9 cantado em primeira pessoa pelo pr\u00f3prio Silas de Oliveira, o que facilita bastante a compreens\u00e3o da letra. Gosto demais do refr\u00e3o principal, mas especialmente dos dois \u00faltimos versos. <em>\u201cEsse \u00e9 o povo que me consagrou\u201d<\/em> \u00e9 uma prova da forte rela\u00e7\u00e3o entre Silas de Oliveira e o Imp\u00e9rio Serrano e <em>\u201cImperiano volte ao seu lugar: vencedor!\u201d<\/em> \u00e9 quase uma convoca\u00e7\u00e3o para que toda a Serrinha v\u00e1 \u00e0 luta e fa\u00e7a a escola voltar ao seu lugar, que \u00e9 o Grupo Especial. A primeira parte mostra com muita beleza a hist\u00f3ria da escola como se v\u00ea em\u00a0<em>\u201cTalvez a mais bela de uma favela\u201d<\/em> e chama a aten\u00e7\u00e3o para os prim\u00f3rdios do bairro de Madureira com Silas cantando que <em>\u201cfoi assim que meus av\u00f3s contaram\u201d<\/em>. Essa sacada \u00e9 muito inteligente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ainda na primeira parte aparece um outro trecho muito bonito: <em>\u201cO negro fez do morro moradia \/ Pedindo ao rei banto prote\u00e7\u00e3o, sa\u00fade&#8230; \/ Como nos bons tempos de al\u00e9m-mar\u201d<\/em>. As origens da regi\u00e3o que hoje abriga o Imp\u00e9rio Serrano est\u00e3o marcadas pela forte presen\u00e7a de escravos e esse trecho aponta com muita clareza a esperan\u00e7a dos escravizados por um futuro pr\u00f3spero como o passado vivido na \u00c1frica. H\u00e1 de se apontar tamb\u00e9m a constru\u00e7\u00e3o mel\u00f3dica suave, onde os versos ganham espa\u00e7amentos longos. \u00c9 curioso que o samba em alguns momentos\u00a0 &#8211; como no trecho destacado no in\u00edcio do par\u00e1grafo \u2013 parece estar perto de \u201cexplodir\u201d, mas essa \u201cexplos\u00e3o\u201d vai sendo adiada at\u00e9 o refr\u00e3o do meio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A levada deste refr\u00e3o \u00e9 maravilhosa. Se o samba n\u00e3o tem muito a cara do Imp\u00e9rio Serrano, o mesmo n\u00e3o podemos dizer dessa estrofe. A\u00ed aparecem duas coisas que me chamam aten\u00e7\u00e3o. A primeira \u00e9 a excelente passagem <em>\u201cVeio gente da estiva, da resist\u00eancia tamb\u00e9m \/ Todo mundo chegou no balan\u00e7o do trem\u201d<\/em>. A segunda \u00e9 uma das coisas que mais me agradam em refr\u00e3es de meio: a continuidade na estrofe seguinte. O \u00faltimo verso ganha um prolongamento sensacional no primeiro verso da segunda parte: <em>\u201c\u00d4 \u00f4 tinha samba na rua\u201d<\/em>&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa estrofe, ali\u00e1s, tamb\u00e9m tem letra muito esclarecedora e mostra os passos que levaram ao surgimento do Imp\u00e9rio Serrano. Gosto do trocadilho com a escola Prazer da Serrinha para apontar o surgimento do Imp\u00e9rio: <em>\u201cFoi com prazer que eu desci a Serrinha \/ Numa noite dourada, num sonho real \/ Estava nascendo o Imp\u00e9rio Serrano \/ Reizinho do meu lugar \/ Pro santo guerreiro aben\u00e7oar&#8230;\u201d<\/em>. Esse verso, ali\u00e1s, foi muito bem pensado e encaixou muito bem a transi\u00e7\u00e3o mel\u00f3dica para uma \u00faltima estrofe antes do refr\u00e3o principal. Uma estrofe absolutamente extraordin\u00e1ria. Al\u00e9m de ser muito melodiosa, apresenta ainda uma letra linda. Embora haja uma concorr\u00eancia muito forte com um outro samba que veremos adiante, talvez seja a mais linda de todo o CD em termos de letra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u201cQuando parti&#8230; De longe eu vi mudar \/ Tudo se modernizar&#8230;\u201d<\/em>. Aqui \u00e9 flagrante a men\u00e7\u00e3o \u00e0 morte de Silas de Oliveira. Esse segundo verso puxa uma passagem que se aproveita de um dos versos mais famosos do homenageado para construir uma letra sensacional. <em>\u201c\u00c9 a evolu\u00e7\u00e3o&#8230; A brisa que afaga a juventude \/ Com charme e negritude \/ Mas a arte se eternizou \/ Nos baluartes que mostraram seu valor\u201d<\/em>. \u00c9 genial. Ao mesmo tempo em que relembra o \u201cessa brisa que a juventude afaga\u201d de \u201cHer\u00f3is da Liberdade\u201d para falar dos tempos modernos e da evolu\u00e7\u00e3o <em>\u201cCom charme e negritude\u201d<\/em>, o samba faz quest\u00e3o de lembrar que a arte foi eternizada pelos antigos, pelos baluartes que fizeram a hist\u00f3ria do Imp\u00e9rio Serrano \u201cmostrando seu valor\u201d. Simplesmente magn\u00edfico. Um samba\u00e7o! E para ajudar, Pixul\u00e9 tem um desempenho assombroso na grava\u00e7\u00e3o, provando mais uma vez ser um dos melhores cantores da atualidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>2) Renascer de Jacarepagu\u00e1: \u201cIbej\u00eds \u2013 Nas Brincadeiras de Crian\u00e7as: Os Orix\u00e1s que Viraram Santos no Brasil\u201d \u2013 Diego Nicolau e Evandro Malandro<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Composi\u00e7\u00e3o: Cl\u00e1udio Russo \/ Teresa Cristina \/ Moacyr Luz<\/strong><\/p>\n<p>https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=fUI2OlvLCTc<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esse samba \u00e9 de uma felicidade rar\u00edssima. Em qualquer dos \u00faltimos 10 ou 15 anos do Grupo de Acesso seria o melhor samba in\u00e9dito do grupo. Ao meu ver, \u00e9 melhor inclusive que os dois \u00faltimos da pr\u00f3pria Renascer de Jacarepagu\u00e1. Como j\u00e1 comentei aqui, acho que anda faltando muita leveza no Carnaval. E esse samba \u00e9 de uma leveza t\u00e3o grande que merecia ser tocado at\u00e9 nos bailes. \u00c9 alegre, brincalh\u00e3o e passa deixa as mensagens importantes que tem para passar para uma audi\u00e7\u00e3o mais atenta. Ou seja: serve para brincar, se divertir sem compromisso e tamb\u00e9m tem qualidade musical de letra e melodia inquestion\u00e1veis.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O refr\u00e3o principal me d\u00e1 uma muito incomum (repetindo o que falei para o samba da S\u00e3o Clemente na semana retrasada) vontade de ser um desfilante. A melodia \u00e9 deliciosa. A grande sacada \u00e9 pegar express\u00f5es e brincadeiras de crian\u00e7a que s\u00e3o conhecid\u00edssimas de todo mundo para, no fim das contas, passar um recado dos mais importantes: <em>\u201cQuero futuro pro meu b\u00ea-\u00e0-b\u00e1\u201d<\/em>. A criatividade \u00e9 o ponto forte tamb\u00e9m quando falamos de melodia. Depois de um refr\u00e3o extremamente empolgante, o samba come\u00e7a com uma descida de tom maravilhosa em <em>\u201cHoje a Renascer de Jacarepagu\u00e1\u201d<\/em>. Tamb\u00e9m h\u00e1 de se elogiar muito a passagem <em>\u201cUm tabuleiro de doces \/ Sinh\u00e1 mandou preparar \/ Cocada branca, pa\u00e7oca \/ E bolo com guaran\u00e1\u201d<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O samba n\u00e3o tem um refr\u00e3o central, mas sim uma estrofe de meio que tamb\u00e9m come\u00e7a com uma descida de tom linda. Novamente, a composi\u00e7\u00e3o vai crescendo e se faz valer de express\u00f5es conhecidas do grande p\u00fablico: <em>\u201cO cravo brincou com a rosa \/ A flor se abriu em bot\u00e3o \/ Pai Francisco entrou na roda \/ Tocando o seu viol\u00e3o\u201d<\/em>. \u00c9 claro que a ideia de colocar o Pai Francisco tocando viol\u00e3o no meio do samba \u00e9 extraordin\u00e1ria, mas tem como deixar de dizer que o ponto mais brilhante do samba \u00e9 essa licen\u00e7a po\u00e9tica no primeiro verso? Todo mundo sabe que a cantiga diz que o cravo <strong>brigou <\/strong>com a rosa. Mas, no samba, nas brincadeiras de crian\u00e7a da Renascer, o cravo e a rosa brincam juntos e a flor se abre em bot\u00e3o. Isso \u00e9 coisa de g\u00eanio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A uniformidade do samba \u00e9 algo interessante. A terceira estrofe usa a mesma constru\u00e7\u00e3o das duas anteriores: uma descida de tom muito bem feita e o samba crescendo melodicamente a cada verso at\u00e9 atingir ao \u00e1pice no final. Mesmo usando express\u00f5es de dif\u00edcil entendimento, a estrofe apresenta clareza. Doum \u00e9 apresentado como o mensageiro dos orix\u00e1s que est\u00e1 presente em todos os lugares. Os dois versos finais do samba tamb\u00e9m merecem todos os aplausos. Toda vez que ou\u00e7o <em>\u201cNas matin\u00eas dos carnavais \/ Batalhas de confetes no sal\u00e3o!\u201d<\/em> consigo imaginar exatamente essa batalha de confete no sal\u00e3o embalada pelo pr\u00f3prio samba. \u00c9 um casamento perfeito entre letra e melodia. O samba, ainda por cima, n\u00e3o poderia estar em melhores vozes que n\u00e3o a dessa dupla excepcional formada por Diego Nicolau e Evandro Malandro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>1) Unidos do Viradouro: \u201cO Alab\u00ea de Jerusal\u00e9m, a Saga de Ogundana\u201d \u2013 Z\u00e9 Paulo Sierra<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Composi\u00e7\u00e3o: Paulo C\u00e9sar Feital \/ Z\u00e9 Gl\u00f3ria \/ Felipe Fil\u00f3sofo \/ Maria Preta \/ F\u00e1bio Borges \/ William \/ Z\u00e9 Augusto \/ Bertolo<\/strong><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"VIRADOURO - 2016 CD OFICIAL\" width=\"525\" height=\"295\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/3zo1Sto0-K0?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma obra-prima daquelas que n\u00e3o aparecem todo dia. O samba da Viradouro \u00e9 uma das obras mais brilhantes que j\u00e1 tive a oportunidade de escutar at\u00e9 hoje. Muito se diz que \u00e9 o maior desde \u201cO Dono da Terra\u201d, considerando apenas o Grupo de Acesso, mas eu acho que d\u00e1 para ir al\u00e9m. Quanto, n\u00e3o sei. Mas \u00e9 uma obra arrebatadora e emocionante tanto na letra espetacular quanto na linda melodia. Foi outro raro caso de samba concorrente que me conquistou logo na primeira audi\u00e7\u00e3o, sem que eu precisasse me esfor\u00e7ar para perceber as sacadas da letra e os desenhos musicais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O enredo passa uma clara mensagem de paz e toler\u00e2ncia que tem como marca maior a presen\u00e7a de um africano na vida de Jesus Cristo. Por isso, os compositores j\u00e1 come\u00e7am pelo refr\u00e3o principal misturando orix\u00e1s das religi\u00f5es africanas com um santo cat\u00f3lico. A mensagem \u00e9 refor\u00e7ada de maneira brilhante porque tudo isso \u00e9 interligado pela pr\u00f3pria escola, que sa\u00fada Oxum e Xang\u00f4 e lembra que S\u00e3o Jo\u00e3o Batista \u00e9 o protetor da escola. A cabe\u00e7a do samba tem uma melodia mais acelerada e, ao mesmo tempo, extremamente bela, recorrendo novamente a Oxum, Xang\u00f4 e ainda \u00e0 Olodumar\u00e9. Conv\u00e9m aqui reparar que at\u00e9 este momento o eu-l\u00edrico do samba \u00e9 um sujeito indefinido. Isso muda atrav\u00e9s de uma primeira parte muito bem constru\u00edda que merece aten\u00e7\u00e3o especial.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Este eu-l\u00edrico indefinido pede: <em>\u201cQue o africano caminheiro \/ Des\u00e7a em solo brasileiro \/ Pra falar da luz de Nazar\u00e9\u201d<\/em>. Ao mesmo tempo em que pede para o Alab\u00ea de Jerusal\u00e9m transmita seus ensinamentos, o samba j\u00e1 o apresenta como <em>\u201cafricano caminheiro\u201d <\/em>e, na sequ\u00eancia, como <em>\u201cporta-voz da harmonia e da paz\u201d<\/em> e <em>\u201cmensageiro dos orix\u00e1s\u201d<\/em>. Na sequ\u00eancia, come\u00e7a a se preparar a grande sacada do refr\u00e3o do meio: <em>\u201cEnfim, j\u00e1 baixou na Aldeia \/ Que Aparecida clareia \/ Com a b\u00ean\u00e7\u00e3o do Cristo Redentor \/ E a Sapuca\u00ed incendeia \/ Na chama da sua candeia&#8230; Incorporou\u201d<\/em>. Durante todo esse trecho mostra-se o Alab\u00ea \u201cdescendo em solo brasileiro\u201d. A presen\u00e7a dele ali naquele contexto do desfile fica marcante. O Cristo Redentor aben\u00e7oa, a Sapuca\u00ed pega fogo (diga-se de passagem, gosto muito da ideia de retratar a Avenida como uma <em>\u201cAldeia \/ Que Aparecida clareia \/ Com a b\u00ean\u00e7\u00e3o do Cristo Redentor\u201d<\/em> \u2013 isso \u00e9 muito bonito,,,). Pois agora note o <em>\u201cIncorporou\u201d<\/em> do \u00faltimo verso. Neste momento, a Viradouro passa a incorporar o pr\u00f3prio Alab\u00ea de Jerusal\u00e9m.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E \u00e9 por isso que a partir dali o samba come\u00e7a a ser cantado pelo pr\u00f3prio Alab\u00ea de Jerusal\u00e9m em primeira pessoa! \u00c9 espetacular! Voc\u00eas j\u00e1 devem ter notado como eu sou implicante com essas mudan\u00e7as de sujeito no meio do samba&#8230; Por isso mesmo toda essa constru\u00e7\u00e3o da letra usada para fazer essa transi\u00e7\u00e3o me deixou de queixo ca\u00eddo. Mais ainda porque a mensagem do refr\u00e3o do meio \u00e9 muito bonita. Al\u00e9m da apresenta\u00e7\u00e3o \u201cpessoalmente\u201d da personagem principal, tem o recado claro: <em>\u201cVim falar de amor, de toler\u00e2ncia e igualdade\u201d<\/em>. Uma outra marca bastante louv\u00e1vel desse samba \u00e9 a afirma\u00e7\u00e3o constante daquilo que se prop\u00f5e a fazer.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A segunda parte, digo isso sem nenhuma brincadeira ou ironia, deveria estar colada na porta de cada centro religioso \u2013 seja l\u00e1 de que religi\u00e3o for. Nem tanto pela saga do Alab\u00ea e de sua paix\u00e3o por Judith, ambos destacados no in\u00edcio da estrofe com muita beleza, mas pelo que vem na sequ\u00eancia. <em>\u201cO Rei dos reis que conheci se espanta \/ E chora com essa guerra santa \/ E sangra esse planeta azul\u201d<\/em>. Os versos s\u00e3o bonitos por si s\u00f3, mas ganham ares de genialidade quando contextualizados. Ogundana acompanhou Jesus Cristo. Logo, Jesus \u00e9 o <em>\u201cRei dos reis\u201d<\/em>. Fica claro ent\u00e3o que ele desce em solo brasileiro para dizer que Jesus se espanta com tanta bobagem que se faz em nome dele aqui na Terra. Fala se n\u00e3o \u00e9 para muito l\u00edder religioso botar a m\u00e3o na consci\u00eancia e pensar um pouco&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas, se a ideia era que ele baixasse especificamente na Sapuca\u00ed, \u00e9 preciso colocar o Brasil no meio dessa hist\u00f3ria. E o samba faz isso com brilhantismo. Ainda mais se tratando de um pa\u00eds que sempre ficou marcado pela diversidade de cren\u00e7as, os versos <em>\u201c\u00d3 meu Brasil, cuidado com a intoler\u00e2ncia \/ Tu \u00e9s a p\u00e1tria da esperan\u00e7a\u201d<\/em> s\u00e3o muito pertinentes. \u00c9 uma mensagem para um pa\u00eds que tem recuado muito nesse sentido nos \u00faltimos anos. \u00c9 outra coisa que muita gente tinha que ouvir para refletir um pouco.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u201cUm pa\u00eds que tem coroa assim t\u00e3o forte \/ N\u00e3o pode abusar da sorte \/ Que lhe dedicou Olorum\u201d<\/em>. Esse trecho me causou alguma estranheza no in\u00edcio, mas com uma leitura mais atenta da sinopse consegui perceber que era mais uma sacada brilhante. O enredo, j\u00e1 em seu trecho final, pede: \u201cDemonstrai gratid\u00e3o pelos elementos que Terra vos empresa\u201d. Portanto, a tal coroa \u00e9 a materializa\u00e7\u00e3o desses elementos. Olorum, o criador de todas as coisas, dedicou ao nosso pa\u00eds, subentende-se, essa coroa, esses bens. O Brasil, portanto, tem que ser grato e saber preservar. Simplesmente espetacular. Z\u00e9 Paulo Sierra conduz o samba com corre\u00e7\u00e3o na maior parte do tempo, mas acaba exagerando na empolga\u00e7\u00e3o em um ou outro trecho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Notas<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Agora as notas para os sambas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Acad\u00eamicos da Rocinha: 4,7 (letra) + 5,0 (melodia) = 9,7<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Alegria da Zona Sul: 4,9 (letra) + 4,9 (melodia) = 9,8<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Unidos do Porto da Pedra: 4,8 (letra) + 4,7 (melodia) = 9,5<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Acad\u00eamicos de Santa Cruz: 4,7 (letra) + 4,9 (melodia) = 9,6<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Unidos do Viradouro: 5,0 (letra) + 5,0 (melodia) = 10,0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Renascer de Jacarepagu\u00e1: 5,0 (letra) + 5,0 (melodia) = 10,0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Imp\u00e9rio da Tijuca: 4,8 (letra) + 4,5 (melodia) = 9,3<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uni\u00e3o do Parque Curicica: 4,9 (letra) + 4,7 (melodia) = 9,6<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para\u00edso do Tuiuti: 5,0 (letra) + 4,9 (melodia) = 9,9<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Inocentes de Belford Roxo: 4,8 (letra) + 4,7 (melodia) = 9,5<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Imp\u00e9rio Serrano: 5,0 (letra) + 5,0 (melodia) = 10,0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Caprichosos de Pilares: 4,6 (letra) + 4,7 (melodia) = 9,3<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Unidos de Padre Miguel: 4,9 (letra) + 4,9 (melodia) = 9,8<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Acad\u00eamicos do Cubango: 4,8 (letra) + 4,9 (melodia) = 9,7<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Depois dos tr\u00eas textos analisando a safra de sambas-enredo do Grupo Especial, venho hoje comentar as 14 obras que comp\u00f5em a S\u00e9rie A. 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