{"id":37700,"date":"2015-10-19T13:55:14","date_gmt":"2015-10-19T15:55:14","guid":{"rendered":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/?p=37700"},"modified":"2015-10-19T13:55:14","modified_gmt":"2015-10-19T15:55:14","slug":"bala-o-gigante-nicolau-do-salgueiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2015\/10\/bala-o-gigante-nicolau-do-salgueiro\/","title":{"rendered":"Bala \u2013 o Gigante Nicolau do Salgueiro"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><em>(Por Jo\u00e3o Gustavo Melo,\u00a0Jornalista e Diretor Cultural do G.R.E.S. Acad\u00eamicos do Salgueiro)<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entre os anos 1950 e 1960 foi publicada na Fran\u00e7a e na B\u00e9lgica uma s\u00e9rie de hist\u00f3rias em quadrinhos intitulada \u201cO Pequeno Nicolau\u201d, criada por Ren\u00e9 Gosciny e ilustradas por Jean-Jacques Semp\u00e9. As perip\u00e9cias do menino em idade escolar foram um sucesso estrondoso de p\u00fablico. Logo vieram os livros e, d\u00e9cadas mais tarde, dois filmes distribu\u00eddos no mundo inteiro. Enquanto isso, aqui no Brasil, outro menino levado, o nosso Nicolau carioca tamb\u00e9m fazia arte. N\u00e3o teve oportunidade de estudar. Mas isso n\u00e3o impediuque ele se tornasse o maior vencedor de sambas de enredo da hist\u00f3ria da Academia de Samba do Salgueiro. Seu nome completo era Jo\u00e3o Nicolau Carneiro Firmo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O apelido Bala, como ficou para a posteridade o gigante Nicolau do Salgueiro, veio da velocidade com que driblava os advers\u00e1rios nas peladas do morro tijucano. <em>\u201cChegou a trabalhar como pedreiro e estucador. Mas foi como engraxate que ganhou a vida, em diversos pontos da Tijuca: passou pelo Caf\u00e9 \u00c9den, pelo Tijuca T\u00eanis Clube e pelo Bob\u2019s da rua General Roca. Aos clientes, de vez em quando dava o prazer de ouvir uma melodia sua, j\u00e1 que costumava trabalhar cantarolando\u201d<\/em>, explica o jornalista e escritor Leonardo Bruno, autor do livro \u201cExplode Cora\u00e7\u00e3o: Hist\u00f3rias do Salgueiro\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Foram nada menos que 12 sambas, o primeiro deles conquistado ainda em 1955, no segundo carnaval dos Acad\u00eamicos do Salgueiro. Portanto, n\u00e3o \u00e9 exagero afirmar que a hist\u00f3ria da agremia\u00e7\u00e3o alvirrubra passa obrigatoriamente pela poesia d\u201dO\u201d Bala &#8211; assim mesmo, sujeito determinado por artigo definido por todos os que o conheceram e o admiraram.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Patrim\u00f4nio tijucano que durante d\u00e9cadas engraxou os sapatos de muitos senhores distintos no Roquinha, ponto de encontro de sambistas e bo\u00eamios da Tijuca, na esquina da General Roca com Bar\u00e3o de Mesquita. \u201cDizem ent\u00e3o, dizem ent\u00e3o\u201d que os cal\u00e7ados por ele polidos sa\u00edam batucando sincopados pela cidade ap\u00f3s o brilho que o poeta dava nos tais pisantes. \u00c9 hist\u00f3ria&#8230; beirando a poesia.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Salgueiro 1955 - \u00e1udio\" width=\"525\" height=\"394\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/cxtgUVCCw6E?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O destino, por\u00e9m, reservou a Bala o caminho da consagra\u00e7\u00e3o.O carnaval de 1969 pode ser considerado como um ponto de virada da carreira do poeta. Ao lado do parceiro Manuel Rosa, Bala comp\u00f4s, com sensibilidade sobrenatural, o inesquec\u00edvel \u201cBahia de Todos os Deuses\u201d, mesmo sem nunca ter colocado os p\u00e9s na \u201cterra da felicidade\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os versos do samba que ecoaram na avenida Presidente Vargas numa manh\u00e3 ensolarada de segunda-feira de carnaval inspiraram o produtor Jotair Assad, do departamento de jornalismo rec\u00e9m-fundada da TV Globo de televis\u00e3o, a levar o poeta \u00e0 Bahia pela primeira vez.<em> \u201cO sucesso que o samba alcan\u00e7ou (&#8230;) proporcionou-lhe a oportunidade de ir at\u00e9 l\u00e1 conhecer os locais citados na composi\u00e7\u00e3o e receber pessoalmente os agradecimentos da imprensa, do povo e das autoridades baianas\u201d<\/em>, escreveu o bi\u00f3grafo da escola, Haroldo Costa, no livro \u201cSalgueiro: Academia do Samba\u201d.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Salgueiro 1969 - \u00e1udio\" width=\"525\" height=\"394\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/o2RZPgLfSa8?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A arte do Bala era t\u00e3o pujante, que ele tamb\u00e9m ficou conhecido por um samba derrotado.O carnaval de 1971 se aproximava. O enredo era \u201cFesta para um Rei Negro\u201d. A disputa com a obra de Zuzuca \u2013 que ficou para sempre conhecida como \u201cPega no Ganz\u00ea\u201d &#8211; dividiu a agremia\u00e7\u00e3o. De um lado, a comunidade do morro do Salgueiro estava fechada com o Bala e parceiros. Do outro lado, a cidade inteira conhecia e cantava o samba de Zuzuca. Bem, o resultado, muitos j\u00e1 sabem: deu Zuzuca e os versos \u201cPega no Ganz\u00ea, Pega no Ganz\u00e1\u201d foram imortalizados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por outro lado, quem \u00e9 da antiga at\u00e9 hoje cantarola <em>\u201cSenhor, oh, senhor, agora eu sei&#8230; que eu tamb\u00e9m tenho um rei\u201d<\/em>. Trecho de magn\u00edfico poder de s\u00edntese que descreve o sentimento dos negros escravizados que trabalhavam nas lavouras de cana-de-a\u00e7\u00facar, no s\u00e9culo XVII. Nesse per\u00edodo, Maur\u00edcio de Nassau governava Pernambuco e chamou \u00e0 capital Recife um grupo de reis e pr\u00edncipes africanos para tratar de assuntos diplom\u00e1ticos. Imaginem o impacto dos irm\u00e3os de cor ao verem que tamb\u00e9m tinham sua realeza! Da\u00ed a magia do samba derrotado. A obra apresentava tanta qualidade musical que Jair Rodrigues a registrou em um compacto. O samba ganhou, enfim, a posteridade merecida.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Salgueiro 1987 -   E Por Que Nao? (REPOSTAGEM\/LINK \u00daNICO)\" width=\"525\" height=\"394\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/ILTNLACy85w?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Depois do rev\u00e9s de 1971, vieram muitas vit\u00f3rias marcantes. \u201cE a natureza, com seu cen\u00e1rio multicor\u201d abriu-se para ver o Bala vencer em 1979. \u201cBotou banca na avenida\u201d em 1983, com \u201cTra\u00e7os e Tro\u00e7as\u201d; ressurgiu feito um \u201cciclone feiticeiro\u201d, com \u201cVento Sul&#8230; Anos 30&#8230; Vargas\u201d, de 1985; clamou a todos para \u201cver felicidade, salgueirando a humanidade\u201d, com \u201cE Por Que N\u00e3o\u201d, de 1987; espalhou na avenida um suave aroma de caf\u00e9, com \u201cO Negro que Virou Ouro Nas Terras do Salgueiro\u201d, de 1992.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">At\u00e9 que no ano seguinte fez a avenida explodir de emo\u00e7\u00e3o com a mais consagradora apresenta\u00e7\u00e3o de um samba na avenida: \u201cPeguei um Ita no Norte\u201d, de obra contestada na disputa ocorrida na quadra, passou a ser considerado um dos maiores hinos do carnaval brasileiro. Mas n\u00e3o antes sem \u201cdeixar essa cidade louca, com \u00e1gua na boca\u201d no ano seguinte, 1994, com \u201cRio de L\u00e1 Pra C\u00e1\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Perip\u00e9cias de um g\u00eanio que nos deixou na manh\u00e3 de um domingo nublado. Por ironia do destino, uma semana ap\u00f3s o Salgueiro ter escolhido o 63\u00ba samba a levar para a avenida. Na festa ocorrida na quadra na noite de 11 de outubro, foram cantados muitos sucessos inesquec\u00edveis do gigante Nicolau. O menino veloz, irrequieto e talentoso, que fez o povo cantar em tantos carnavais, caloua voz na manh\u00e3 nublada do domingo, 18 de outubro. Dia em que o morro fez sil\u00eancio para ouvir seu poeta entoar a dissonante melodia do adeus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao Bala, nosso gigante Nicolau do Salgueiro, nosso eterno muito obrigado!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Jo\u00e3o Gustavo Melo<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>(Por Jo\u00e3o Gustavo Melo,\u00a0Jornalista e Diretor Cultural do G.R.E.S. 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