{"id":29970,"date":"2014-10-14T04:44:08","date_gmt":"2014-10-14T07:44:08","guid":{"rendered":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/?p=29970"},"modified":"2014-10-13T15:07:38","modified_gmt":"2014-10-13T18:07:38","slug":"festas-de-devocao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2014\/10\/festas-de-devocao\/","title":{"rendered":"Festas de Devo\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Outubro \u00e9 m\u00eas de devo\u00e7\u00f5es no Brasil, tempo de festas que ritualizam a vida e revigoraram a ideia generosa da f\u00e9 como pertencimento. Falo do C\u00edrio de Nazar\u00e9 e da Festa da Penha; em Bel\u00e9m do Par\u00e1 e no Rio de Janeiro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A hist\u00f3ria da Penha \u00e9 conhecida. Reza a tradi\u00e7\u00e3o que, no s\u00e9culo XVII, um portugu\u00eas, Baltazar de Abreu Cardoso, saiu para ca\u00e7ar em suas terras. Subitamente apareceu, trai\u00e7oeira, uma cobra venenosa. Apavorado, o portuga apelou aos c\u00e9us: Valei-me, minha Nossa Senhora da Penha! Feito o apelo, surgiu um lagarto imenso que botou a pe\u00e7onhenta para correr. Baltazar de Abreu Cardoso ergueu uma ermida no local do milagre e prometeu fazer anualmente uma festan\u00e7a para relembrar o fato. Surgia assim uma das maiores tradi\u00e7\u00f5es cariocas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Feita a devida refer\u00eancia ao sagrado, constato que milagre maior que o da santa foi o do povo carioca, que tomou para si a festa e a transformou, no in\u00edcio da Rep\u00fablica, numa esp\u00e9cie de folia pr\u00e9-carnavalesca e espa\u00e7o de exerc\u00edcio da cidadania informal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Rep\u00fablica das oligarquias criminalizava a cultura popular. A onda era modernizar e higienizar o Rio de Janeiro em padr\u00f5es europeus, adotando Paris, a capital francesa, como modelo de conduta e estrutura\u00e7\u00e3o urbana. E tome de derrubar corti\u00e7os e criminalizar as refer\u00eancias culturais do povo mais humilde. Neste clima, as manifesta\u00e7\u00f5es populares dos descendentes de escravos &#8211; o samba, a capoeira e a macumba, por exemplo &#8211; eram duramente reprimidas, vistas como s\u00edmbolos do atraso e da barb\u00e1rie.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2014\/10\/festas-de-devocao\/900x598\/\" rel=\"attachment wp-att-29972\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-medium wp-image-29972\" src=\"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2014\/10\/900x598-300x199.jpg\" alt=\"900x598\" width=\"300\" height=\"199\" srcset=\"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2014\/10\/900x598-300x199.jpg 300w, https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2014\/10\/900x598-511x340.jpg 511w, https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2014\/10\/900x598.jpg 900w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a>Mas o povo deu o n\u00f3 em pingo d\u00b4\u00e1gua. A rapaziada virou dona da festa e dela fez seu pertencimento. Os capoeiras cortaram o mato nas rodas de volta ao mundo, as baianas prepararam a comida do santo e os bambas mostraram os sambas que tinham acabado de compor. A festa transformou-se, depois do Carnaval, no maior evento popular do Rio de Janeiro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os poderosos fizeram de tudo para impedir o furdun\u00e7o. Em 1904, 1907 e 1912, a prefeitura proibiu rodas de samba nas proximidades da Penha. A rapaziada foi l\u00e1, zombou da proibi\u00e7\u00e3o e fez. Havia ordem de pris\u00e3o para praticantes da capoeira. O berimbau puxou o toque de S\u00e3o Bento Grande e o povo gingou. A baiana temperou o acaraj\u00e9, a cerveja gelou e o Rio de Janeiro mostrou que o espa\u00e7o da civiliza\u00e7\u00e3o da nossa cidade \u00e9 mesmo a rua.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por tudo isso sou dos que acham que a cidade do Rio de Janeiro deveria zelar pelos festejos da Penha com cuidado maternal. A festa \u00e9 parte integrante da Hist\u00f3ria carioca. A decad\u00eancia dos festejos &#8211; por uma s\u00e9rie de motivos que demandariam in\u00fameras discuss\u00f5es \u2013 \u00e9 emblem\u00e1tica, em larga medida, dos paradoxos de uma cidade que, vez por outra, parece querer negar seus tra\u00e7os culturais mais fecundos; sobretudo aqueles que se manifestam nos bairros suburbanos, distantes da Zona Sul.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A maioria da popula\u00e7\u00e3o pode ter, enfim, se esquecido de Nossa Senhora da Penha. Que a santinha, todavia, n\u00e3o se esque\u00e7a do Rio de Janeiro e proteja cada vez mais o povo mi\u00fado, aquele que \u00e9 o que de melhor existe nas terras sagradas e carnavalescas da Guanabara.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">J\u00e1 o C\u00edrio mant\u00e9m uma vitalidade arrebatadora. A festa recria a hist\u00f3ria de Pl\u00e1cido, caboclo ribeirinho que, em 1700, \u00e0 beira do igarap\u00e9 Murucutu, achou uma pequena imagem de Nossa Senhora de Nazar\u00e9. Pl\u00e1cido cuidou da imagem, bastante desgastada pelo tempo, e\u00a0montou um\u00a0modesto\u00a0altar em sua casa. Diz o povo do Par\u00e1 que a imagem voltou, misteriosamente, ao local onde tinha sido encontrada algumas vezes. A santinha queria mesmo ficar no igarap\u00e9.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O caboclo viu na volta da santa um sinal divino e, por isso, ergueu uma ermida \u00e0 beira do Murucutu. O povo, sabendo do milagre da volta da imagem, passou a visitar a ermida e reverenciar Nossa Senhora. A festa do C\u00edrio de Nazar\u00e9, at\u00e9 hoje, reproduz\u00a0o misterioso\u00a0retorno da Virgem ao local onde fora encontrada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2014\/10\/festas-de-devocao\/rcc20131013009\/\" rel=\"attachment wp-att-29973\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright size-medium wp-image-29973\" src=\"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2014\/10\/rcc20131013009-300x187.jpg\" alt=\"rcc20131013009\" width=\"300\" height=\"187\" srcset=\"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2014\/10\/rcc20131013009-300x187.jpg 300w, https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2014\/10\/rcc20131013009-542x340.jpg 542w, https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2014\/10\/rcc20131013009.jpg 1700w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a>Se a f\u00e9 me falta, sobra o apre\u00e7o pelos ritos do povo. O C\u00edrio, ao longo dos tempos, se transformou em vigorosa celebra\u00e7\u00e3o da vida em comunidade. Comidas, cantos, louvores, brinquedos, leil\u00f5es, namoros, cheiros e licores bordam a festan\u00e7a daquilo que constitui, para mim, o verdadeiro sentimento religioso do Brasil\u00a0&#8211; afeto celebrado em festa e recria\u00e7\u00e3o, pelo rito, da miudeza\u00a0provis\u00f3ria da vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por fim, um alerta: esse Brasil ritualizado, temo, pode estar se perdendo em meio ao desencantamento trazido pela intoler\u00e2ncia dos fundamentalismos. Sei, por exemplo, que ano ap\u00f3s ano crescem as prega\u00e7\u00f5es evang\u00e9licas contra a festa paraense.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O meu Brasil, o da Festa da Penha e do C\u00edrio do Nazar\u00e9, \u00e9 o que n\u00e3o comporta intoler\u00e2ncias e inventa celebra\u00e7\u00f5es que sacralizam o profano e profanam o sagrado. Um pa\u00eds que ritualiza as maneiras de abra\u00e7ar afetuosamente a vida naquilo que ela \u00e9 de mais surpreendente: um milagre dos homens.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Outubro \u00e9 m\u00eas de devo\u00e7\u00f5es no Brasil, tempo de festas que ritualizam a vida e revigoraram a ideia generosa da f\u00e9 como pertencimento. 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