{"id":22817,"date":"2014-02-11T06:12:28","date_gmt":"2014-02-11T08:12:28","guid":{"rendered":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/?p=22817"},"modified":"2014-02-10T14:22:18","modified_gmt":"2014-02-10T16:22:18","slug":"historia-e-outros-assuntos-os-anos-de-chumbo-argentinos-crimes-e-contradicoes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2014\/02\/historia-e-outros-assuntos-os-anos-de-chumbo-argentinos-crimes-e-contradicoes\/","title":{"rendered":"Hist\u00f3ria e Outros Assuntos &#8211; &#8220;Os anos de chumbo na Argentina: crimes e contradi\u00e7\u00f5es&#8221;"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify\">Retornando ap\u00f3s um per\u00edodo sab\u00e1tico, a <strong>coluna de Fabr\u00edcio Augusto Souza Gomes,<\/strong> &#8211; professor e doutorando em Hist\u00f3ria &#8211; retorna ao blog, nos contando um pouco sobre a ditadura argentina e, especialmente, dos m\u00e9todos cru\u00e9is de tortura empregados pelos militares &#8211; marcas dolorosas que resistem ao tempo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><b><span style=\"text-decoration: underline\"><em>Os anos de chumbo na Argentina: crimes e contradi\u00e7\u00f5es<\/em><\/span><br \/>\n<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Este ano completam-se 50 anos do golpe empresarial-militar no Brasil. Um golpe que inaugurou um regime de exce\u00e7\u00e3o que durou 21 anos &#8211; e a durabilidade da ditadura militar no Brasil ainda \u00e9 tema controverso, seja pelos crimes ainda n\u00e3o investigados pela Comiss\u00e3o Nacional da Verdade, seja pela pr\u00f3pria raz\u00e3o de ser e objetivos dessa comiss\u00e3o; e tamb\u00e9m pelo tempo de dura\u00e7\u00e3o da ditadura. Para alguns, esta se encerrou em 1979, com a Anistia; para outros, em 1988, com a Constitui\u00e7\u00e3o daquele ano; e por fim, h\u00e1 quem defenda a id\u00e9ia de que a ditadura s\u00f3 foi embora com a primeira elei\u00e7\u00e3o direta para presidente da Rep\u00fablica, em 1989.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Mas quando falamos em ditadura militar, acabamos por dar destaque apenas ao caso brasileiro. Muitos esquecem que tivemos v\u00e1rias ditaduras militares em nuestra Am\u00e9rica, entre as d\u00e9cadas de 1960 a 1980. Mesmo assim, quando estas s\u00e3o citadas, muitos o fazem apenas para equivocadamente compar\u00e1-las com a ditadura brasileira. Definitivamente n\u00e3o houve a famigerada &#8220;ditabranda&#8221;, como alguns historiadores revisionistas e polemizadores gostam de afirmar. E ainda assim \u00e9 poss\u00edvel encontrar pragm\u00e1ticos defensores de ditaduras, infelizmente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Vamos ent\u00e3o analisar o caso argentino. A Argentina, nossa vizinha. Em dezembro de 2013 celebraram-se os 30 anos do fim da ditadura militar argentina, com a posse do presidente civil Ra\u00fal Alfons\u00edn em 10\/12\/1983. Um tema pouco explorado &#8211; embora agora, com os processos investigativos em andamento, tenhamos farto material surgindo \u00e0 respeito desse doloroso tema &#8211; diz respeito aos crimes cometidos durante os anos de chumbo naquele pa\u00eds.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Vamos ent\u00e3o relembrar os m\u00e9todos de tortura utilizados na ditadura argentina, bem como alguns casos emblem\u00e1ticos de torturados, e os nomes de torturadores &#8211; lembrar para nunca mais esquecer e para que nunca mais aquele per\u00edodo de trevas se repita.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Um dos instrumentos de tortura utilizado pelos militares argentinos foi a <i>picana<\/i> el\u00e9trica. Criada nos anos 1930 por Leopoldo Lugones Hijo &#8211; filho do escritor nacionalista L.Lugones &#8211; a <i>picana<\/i> era um instrumento para assustar o gado com choques el\u00e9tricos nos currais e, assim, direcion\u00e1-lo para o abate ou embarque. Aplicado a seres humanos, tornou-se no instrumento preferido de tortura na Argentina.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Outra t\u00e1tica de tortura utilizada era o &#8220;submarino molhado&#8221;: consistia em afundar a cabe\u00e7a de uma pessoa em uma tina d\u2019\u00e1gua. Ocasionalmente a tina tamb\u00e9m estava cheia de excrementos humanos. J\u00e1 o &#8220;submarino seco&#8221; consistia em colocar a cabe\u00e7a de uma pessoa dentro de um saco de pl\u00e1stico e esperar que ela ficasse quase asfixiada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O &#8220;rato no c\u00f3lon&#8221; consistia na coloca\u00e7\u00e3o de um rato, faminto, no c\u00f3lon de um homem. Nas mulheres, o rato era colocado na vagina.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><a href=\"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2014\/02\/image.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-22820\" alt=\"image\" src=\"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2014\/02\/image-533x340.jpg\" width=\"533\" height=\"340\" srcset=\"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2014\/02\/image-533x340.jpg 533w, https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2014\/02\/image-300x191.jpg 300w, https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2014\/02\/image.jpg 714w\" sizes=\"auto, (max-width: 533px) 100vw, 533px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Mulheres e homens foram estuprados sistematicamente pelos militares e policiais argentinos. As mulheres ocasionalmente recebiam a op\u00e7\u00e3o de serem estupradas ou de serem eletrocutadas na parte interna da vagina e \u00e2nus. Havia tamb\u00e9m a op\u00e7\u00e3o de &#8220;esfolamento&#8221; (pr\u00e1tica talvez inspirada nos \u00edndios mapuches, que vieram do outro lado da Cordilheira dos Andes e arrasavam os <i>tehuelches<\/i>, esfolando os seus p\u00e9s): amarravam um prisioneiro em uma mesa e come\u00e7avam a esfolar a pele da sola dos p\u00e9s com uma gilette ou bisturi.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Alguns homens foram empalados pelas for\u00e7as de seguran\u00e7a com cabos de vassoura (durante a ditadura de Juan Manuel de Rosas, no s\u00e9culo XIX, torturavam os opositores introduzindo um sabugo de milho no reto anal). Discursos de Hitler embalavam sess\u00f5es de tortura da ditadura argentina (judeus foram atacados com mais sadismo).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Um dos casos mais sinistros de torturas foi o do adolescente Floreal Avellaneda, sequestrado no dia 15 de abril de 1976. Filho de um casal de sindicalistas militantes do Partido Comunista, Floreal tinha 14 anos quando foi seq\u00fcestrado. O menino sofreu torturas nas m\u00e3os e genitais. Depois, foi empalado vivo. Uma semana depois, a pol\u00edcia uruguaia encontrou em uma praia perto de Montevid\u00e9u o cad\u00e1ver de um jovem violentamente torturado com a marca de uma tatuagem com as letras \u201cFA\u201d. Posteriormente, com a volta da democracia, a m\u00e3e de Floreal pode confirmar que tratava-se de seu filho. Ele havia sido arremessado de um dos avi\u00f5es que realizavam os \u201cv\u00f4os da morte\u201d sobre o rio da Prata.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A lista de torturadores argentinos \u00e9 extensa. O\u00a0 capit\u00e3o de corveta Jorge \u201cTigre\u201d Acosta foi um dos criadores dos \u201cvoos da morte\u201d. e uma das \u201cestrelas\u201d da Escola de Mec\u00e2nica da Armada (ESMA), o maior centro de torturas da Argentina, a 700 metros do est\u00e1dio Monumental de Nu\u00f1ez, do River Plate, e palco da final da Copa do Mundo de 1978, naquele pa\u00eds.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O oficial, que falava sozinho \u00e0 noite, em del\u00edrio m\u00edstico, explicava aos colegas e prisioneiros que mantinha longas conversas noturnas com \u201c<i>Jesucito<\/i>\u201d (O pequeno Jesus). Ele perguntava a &#8220;<i>Jesucito<\/i>&#8221; qual dos prisioneiros deveria torturar no dia seguinte e jogar dos avi\u00f5es. Famoso pelos requintes de crueldade que aplicava aos detidos, Acosta tamb\u00e9m foi um dos principais sequestradores dos beb\u00eas de prisioneiras da ESMA (ali nasceu maioria crian\u00e7as desaparecidas).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Julio Sim\u00f3n &#8211; &#8220;<i>El Turco Juli\u00e1n<\/i>&#8221; &#8211;\u00a0 foi chefe dos interrogadores do centro de deten\u00e7\u00e3o \u201c<i>El Olimpo<\/i>&#8220;. Sua divers\u00e3o era jogar \u00e1gua fervendo em cima de seus prisioneiros pol\u00edticos. Deleitava-se em torturar os deficientes f\u00edsicos, jogando-os do alto de uma escada. Al\u00e9m disso, saboreava cada minuto no qual estuprava a esposa de um prisioneiro na sua frente. Ele ostentava uma su\u00e1stica no uniforme argentino e tinha especial irrita\u00e7\u00e3o com Jos\u00e9 Poblete &#8211; um jovem militante peronista que havia perdido ambas as pernas em um acidente. Sim\u00f3n lhe havia retirado a cadeira de rodas e as pernas ortop\u00e9dicas, e divertia-se \u2013 \u00e0s gargalhadas \u2013 jogando-o para cima ou obrigando-o a desfilar na frente dos outros policiais arrastando-se sobre os tocos de seus membros.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O ex-policial foi condenado pelo seq\u00fcestro e torturas infligidas ao casal Gertrudis Hlaczik e Jos\u00e9 Poblete Roa em 1978. Ele tamb\u00e9m foi considerado culpado do seq\u00fcestro de Claudia, o beb\u00ea de apenas oito meses do casal, e do ocultamento de sua identidade. Ele fazia Gertrudis andar nua pelos corredores, enquanto que Jos\u00e9, sem as pernas, devia se arrastar com as m\u00e3os pelo ch\u00e3o. Sim\u00f3n e os outros guardas o chamavam de \u201c<i>cortito<\/i>\u201d (curtinho), por causa da aus\u00eancia dos membros inferiores. O torturador tamb\u00e9m costumava jogar Poblete do alto de uma escada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Os casos de delitos sexuais transcorreram majoritariamente nos campos de deten\u00e7\u00e3o de \u201cClub Atl\u00e9tico\u201d, \u201cEl Olimpo\u201d e \u201cBanco\u201d. Os envolvidos estupraram \u2013 segundo as den\u00fancias \u2013 centenas de mulheres detidas nos centros de tortura. Geralmente elas eram amarradas nuas nas camas nas celas. Primeiro eram torturadas com choques el\u00e9tricos nos mamilos e nos \u00f3rg\u00e3os genitais. Posteriormente eram penetradas por um ou mais policiais e militares. Para os estupros, os militares e policiais costumavam preferir as estudantes universit\u00e1rias jovens. Freq\u00fcentemente, quando um casal era detido, os seq\u00fcestradores violavam a esposa na frente do marido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Al\u00e9m de ter sido a mais sanguin\u00e1ria, a ditadura argentina foi um fracasso tanto na \u00e1rea militar como na esfera econ\u00f4mica. Protagonizou v\u00e1rios &#8220;fiascos&#8221; militares. Entre 1976 e 1978, a ditadura colocou quase a totalidade das For\u00e7as Armadas para perseguir uma guerrilha que j\u00e1 estava praticamente desmantelada desde um ano antes do golpe de 1976, em 1975.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><a href=\"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2014\/02\/ditadura-argentina_tv.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-22819\" alt=\"ditadura-argentina_tv\" src=\"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2014\/02\/ditadura-argentina_tv-550x241.jpg\" width=\"550\" height=\"241\" srcset=\"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2014\/02\/ditadura-argentina_tv-550x241.jpg 550w, https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2014\/02\/ditadura-argentina_tv-300x131.jpg 300w, https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2014\/02\/ditadura-argentina_tv.jpg 681w\" sizes=\"auto, (max-width: 550px) 100vw, 550px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Em 1978, a Junta Militar argentina levou o pa\u00eds a uma escalada armamentista contra o Chile. Em dezembro daquele ano, a invas\u00e3o argentina ao territ\u00f3rio chileno foi detida gra\u00e7as \u00e0 intermedia\u00e7\u00e3o do Papa. O custo da corrida armamentista colocou a Argentina em graves problemas financeiros. Em 1982, perante uma crise social, perda de sustentabilidade pol\u00edtica e problemas econ\u00f4micos, o ent\u00e3o ditador Leopoldo Galtieri \u2013 famoso por seu intenso &#8220;approach ao scotch&#8221; \u2013 decidiu invadir as ilhas Malvinas para distrair a aten\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o. Resultado: ap\u00f3s breve per\u00edodo de combate e levar uma colossal (e previs\u00edvel) surra, as for\u00e7as do ditador renderam-se \u00e0s tropas brit\u00e2nicas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Em sete anos de regime de exce\u00e7\u00e3o, a d\u00edvida externa subiu de US$ 8 bilh\u00f5es para US$ 45 bilh\u00f5es. A infla\u00e7\u00e3o do governo civil derrubado pela ditadura, que era considerada um \u00edndice \u201cabsurdamente alto\u201d pelos militares, havia sido de 182% ao ano. Mas este \u00edndice foi superado pela pol\u00edtica econ\u00f4mica ca\u00f3tica da Ditadura, que encerrou sua administra\u00e7\u00e3o com 343% de infla\u00e7\u00e3o anual.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A pobreza durante a ditadura disparou de 5% da popula\u00e7\u00e3o argentina para 28%. A participa\u00e7\u00e3o da ind\u00fastria no PIB caiu de 37,5% para 25%, o que equivaleu a um retrocesso dos n\u00edveis dos anos 1960. Al\u00e9m disso, a ditadura criou uma ciranda financeira, conhecida como \u201cla plata dulce\u201d, ou, \u201co doce dinheiro\u201d. Ao mesmo tempo em que tomavam medidas neoliberais, como a abertura irrestrita das importa\u00e7\u00f5es, os militares continuavam mantendo imensas estruturas nas empresas estatais, que se transformaram em cabides de emprego de generais, coron\u00e9is e seus parentes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Os militares tamb\u00e9m estatizaram US$ 15 bilh\u00f5es de d\u00edvidas das principais empresas privadas do pa\u00eds (al\u00e9m das d\u00edvidas das filiais argentinas de empresas estrangeiras) No meio desse caos econ\u00f4mico, os militares provocaram um d\u00e9ficit fiscal de 15% do PIB. A repress\u00e3o provocou um \u00eaxodo de centenas de milhares de profissionais do pa\u00eds. Os militares, em cargos burocr\u00e1ticos, exacerbaram a corrup\u00e7\u00e3o na m\u00e1quina estatal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Recentemente os senadores argentinos aprovaram a promo\u00e7\u00e3o do general Milani &#8211; que foi escolhido por Cristina Kirchner para ser chefe do Ex\u00e9rcito &#8211; ao posto de tenente-general. Ele \u00e9 acusado de ter &#8216;desaparecido&#8217; pessoas na ditadura argentina, nos anos 1970. Paradoxal. As M\u00e3es da Pra\u00e7a Mayo da prov\u00edncia de La Rioja, onde Milani agiu na ditadura, marcharam para exigir a remo\u00e7\u00e3o do general. Sem efeito.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A pol\u00edtica externa da ditadura argentina foi confusa e incoerente. Pediu &#8211; e obteve &#8211; respaldo a Cuba durante a Guerra das Malvinas. Acreditou que os EUA ficariam ao seu lado na Guerra das Malvinas, j\u00e1 que a ditadura havia sido um basti\u00e3o anticomunista na Am\u00e9rica do Sul, e at\u00e9 havia colaborado na guerrilha dos \u2018contras\u2019 na Am\u00e9rica Central (exporta\u00e7\u00e3o de know-how, digamos assim). Os militares n\u00e3o levaram em conta que pesaria mais a velha alian\u00e7a EUA-Gr\u00e3 Bretanha por motivos hist\u00f3ricos (al\u00e9m da participa\u00e7\u00e3o dos dois pa\u00edses na OTAN, claro).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A ditadura tinha um discurso anticomunista, mas continuou vendendo trigo para a URSS, e n\u00e3o aderiu ao boicote estadunidense contra os Jogos Ol\u00edmpicos de Moscou, em 1980.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Os militares argentinos deram o golpe e instauraram talvez a ditadura mais sanguin\u00e1ria da hist\u00f3ria da Am\u00e9rica do Sul com o argumento de que a guerrilha controlava grande parte do pa\u00eds. Um total del\u00edrio. A pequena guerrilha, mais especificamente o ERP, dominava \u00e0s duras penas pequena porcentagem de Tucum\u00e1n, menor prov\u00edncia da Argentina (Tucum\u00e1n tem 1% do territ\u00f3rio argentino).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Mitificar a guerrilha foi \u00fatil para os militares e tamb\u00e9m para o prest\u00edgio dos guerrilheiros. A nenhum dos dois lados era conveniente admitir a realidade, de que a \u00e1rea controlada pela guerrilha era \u00ednfima. Os militares e os saudosistas daqueles tempos afirmavam (e ainda afirmam) que o pa\u00eds estava em guerra civil nos anos 1970 mas, \u201cguerra civil\u201d, rigorosamente, seriam conflitos de propor\u00e7\u00f5es mais substanciais, tais como a Guerra da Secess\u00e3o dos EUA, a Guerra Civil Espanhola, a Guerra Civil Russa, a Guerra das Duas Rosas (Lancasters versus Yorks, na Inglaterra), ou a Guerra Civil da Gr\u00e9cia ap\u00f3s o fim da Segunda Guerra Mundial. Ou ainda a Guerra Civil da Nicar\u00e1gua, ou a de El Salvador.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Ou seja: bombardeios de cidades, grandes \u00eaxodos de refugiados, centenas de milhares de mortos, uma boa parte de um pa\u00eds controlado por um dos lados, e outra parte controlada por outro lado. Isso n\u00e3o ocorreu na Argentina nos 1970.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O ex-ditador general Jorge Rafael Videla, ex-senhor da vida e da morte, morreu em sua cela em maio do ano passado, sentado no vaso sanit\u00e1rio. Serial-killer e piroman\u00edaco, Videla era um ditador que queimava bibliotecas. Em setembro de 1980 as autoridades da ditadura de Videla proibiram o uso do livro \u201cO Pequeno Pr\u00edncipe\u201d, do franc\u00eas Antoine de Saint-\u00c9xupery, nas escolas, por consider\u00e1-lo \u201csubversivo\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">As autoridades militares tamb\u00e9m proibiram um livro de engenharia el\u00e9trica, o \u201cCuba electrol\u00edtica\u201d (isto \u00e9, \u2018c\u00e9lula eletrol\u00edtica\u2019). Os censores acreditaram que o \u2018cuba\u2019 referia-se \u00e0 ilha caribenha, controlada pelo regime comunista de Fidel Castro. O regime proibiu o ensino da teoria matem\u00e1tica dos conjuntos, por considerar que era \u201csubversiva\u201d. A palavra \u201cvetor\u201d tamb\u00e9m foi proibida nas escolas, j\u00e1 que os militares consideravam que era utilizada na terminologia marxista. Na lista de autores suspeitos dos militares estavam escritores como Gabriel Garc\u00eda M\u00e1rquez, passando por Julio Cort\u00e1zar, Freud e at\u00e9 Proust.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">E no Chile?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Durante a ditadura do general Augusto Pinochet (1973-90), milhares de mulheres estiveram detidas em pris\u00f5es clandestinas. Segundo a Comiss\u00e3o Nacional sobre Pris\u00e3o Pol\u00edtica e Tortura do Chile, 3.399 mulheres foram objeto de viol\u00eancia sexual nos anos Pinochet. Treze destas mulheres chilenas ficaram gr\u00e1vidas. Seis deram \u00e0 luz aos filhos indesejados de seus torturadores. A Comiss\u00e3o chilena tamb\u00e9m revelou que 229 mulheres j\u00e1 estavam gr\u00e1vidas no momento da deten\u00e7\u00e3o. Mesmo assim, onze delas foram violadas. Os militares chilenos tamb\u00e9m colocaram ratos vivos nas vaginas das prisioneiras. Al\u00e9m disso, utilizaram cachorros para violar mulheres. Os militares argentinos tamb\u00e9m violaram homens. E faziam pose de heterossexuais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Ditadura <i>sui generis<\/i>. Freud explica&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><i>(Este texto contou com a imensa contribui\u00e7\u00e3o do jornalista Ariel Pal\u00e1cios &#8211; O Estado de S\u00e3o Paulo &#8211; que em dezembro de 2013 forneceu informa\u00e7\u00f5es e dados estat\u00edsticos sobre a ditadura argentina)<\/i><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Retornando ap\u00f3s um per\u00edodo sab\u00e1tico, a coluna de Fabr\u00edcio Augusto Souza Gomes, &#8211; professor e doutorando em Hist\u00f3ria &#8211; retorna ao blog, nos contando umTour Details<\/p>\n","protected":false},"author":28,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[22],"tags":[57,35,51],"class_list":["post-22817","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-cacique-de-ramos","tag-argentina","tag-historia","tag-politica-internacional"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22817","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/28"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=22817"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22817\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":22821,"href":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22817\/revisions\/22821"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=22817"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=22817"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=22817"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}