{"id":20389,"date":"2013-11-22T13:43:35","date_gmt":"2013-11-22T15:43:35","guid":{"rendered":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/?p=20389"},"modified":"2013-11-23T22:33:54","modified_gmt":"2013-11-24T00:33:54","slug":"escola-do-meu-coracao-a-academia-do-samba-apenas-diferente","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2013\/11\/escola-do-meu-coracao-a-academia-do-samba-apenas-diferente\/","title":{"rendered":"Escola do Meu Cora\u00e7\u00e3o: &#8220;A Academia do Samba, Apenas Diferente&#8221;"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Dando sequ\u00eancia \u00e0 <strong>s\u00e9rie &#8220;Escola do Meu Cora\u00e7\u00e3o&#8221;, o colunista da &#8220;Bissexta&#8221; Walter Monteiro<\/strong> traz sua vis\u00e3o sobre a Academia do Samba, o Salgueiro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 um \u00e2ngulo um pouco diferente dos textos anteriores, escritos por apaixonados que respiram carnaval o ano inteiro; o colunista \u00e9 um torcedor apaixonado apenas, sem envolvimento institucional. Outro olhar, sem d\u00favida &#8211; mas n\u00e3o menos tocante.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"text-decoration: underline;\"><em><strong>A Academia do Samba, Apenas Diferente<\/strong><\/em><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>&#8211; Voc\u00ea acha que o Salgueiro vai ser campe\u00e3o esse ano?<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>&#8211; Que isso, garoto, t\u00e1 maluco? Desfile horroroso, o pior em que j\u00e1 estive. Esquece isso, menor chance<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A vida inteira eu quis desfilar no Salgueiro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Da janela do meu quarto eu avistava o morro que d\u00e1 nome \u00e0 escola. Todas as pessoas que faziam servi\u00e7os l\u00e1 em casa (pequenos reparos, faxinas, entregadores da feira e cong\u00eaneres) moravam no morro. Quando comecei a ir \u00e0 praia sozinho, dividia a cozinha do \u00f4nibus com os garotos da favela mais famosa da Tijuca, o trocador sempre de olho para ver se a gente ia dar calote escapando pela porta de tr\u00e1s, mas a gente vinha de Ipanema at\u00e9 a Saens Pe\u00f1a cantando um samba que t\u00e3o longe do Carnaval s\u00f3 os mais fan\u00e1ticos j\u00e1 conheciam.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A escola ensaiava nas ruas do bairro e a gente ia assistir. A partir de novembro, nos bailes do Tijuca T\u00eanis Clube a bateria que depois seria conhecida como A Furiosa \u00e0s vezes dava uma canja no final, os mais enturmados eram convidados para tocarem os instrumentos, honra que sempre me foi negada. Mestre Louro (irm\u00e3o de Almir Guineto, uma esp\u00e9cie de Zeca Pagodinho menos famoso) comandava aqueles sacros tambores, era paciente e amigo do meu pai, sempre fazia quest\u00e3o de presentear nossa fam\u00edlia inteira com camisas e souvenirs salgueirenses.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o sei se a proibi\u00e7\u00e3o era de ordem legal ou familiar, mas o fato \u00e9 que eu tive de esperar completar 18 anos para me alistar nas hostes salgueirenses, fazendo minha estreia em 1986 (v\u00eddeo abaixo). Naqueles tempos s\u00f3 dava Mangueira e Portela, as escolas ent\u00e3o mais populares, a Beija-Flor sempre vinha forte com seu caminh\u00e3o de dinheiro da fam\u00edlia David, o Salgueiro era uma p\u00e1lida lembran\u00e7a dos seus tempos de gl\u00f3ria.<\/p>\n<p>http:\/\/www.youtube.com\/watch?v=dv3ai49y3iI<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E para dar a reviravolta, a escola teve uma ideia nem t\u00e3o brilhante, nem t\u00e3o original, mas que costuma funcionar: reviver seus antigos carnavais, homenageando Fernando Pamplona, carnavalesco que fez hist\u00f3ria nos anos 60, mas que a minha gera\u00e7\u00e3o s\u00f3 conheceu pelos seus \u00e1cidos e muito mal humorados coment\u00e1rios na TV Manchete, especialmente contra o Salgueiro, que eu nunca soube se ele amava ou tinha m\u00e1goa (<em>\u201ce a\u00ed Pamplona, o que achou do desfile do Salgueiro? Detestei, uma cangalhada danada, escola lotada, harmonia horrorosa, alegorias mal acabadas, um desastre\u201d<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pois l\u00e1 fui eu fazer minha estreia na avenida na homenagem a Fernando Pamplona, s\u00f3 que o Salgueiro esqueceu de combinar com o homenageado&#8230;. Sim, ele n\u00e3o apenas n\u00e3o desfilou como recusou a homenagem, isso j\u00e1 com o samba gravado. Isso deixou a escola em uma saia justa, porque n\u00e3o tinha como mudar tudo em cima da hora, ent\u00e3o a homenagem ficou sendo aos \u201ccarnavais\u201d que ele tinha feito para a escola. Para piorar, o enredo tinha um qu\u00ea de literalidade: cada enredo do passado foi reproduzido ao p\u00e9 da letra, ocasionando v\u00e1rias comiss\u00f5es de frente, v\u00e1rios casais de Mestre-Sala\/Porta-Bandeira, enfim, uma montagem surrealista, complexa e que deu muito errado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas para mim nada disso importava, eu estava em \u00eaxtase com aqueles 30 minutinhos de fama no Samb\u00f3dromo, seguidos de uma longa festa do dono da ala, um sujeito corpulento e cheio de joias que meu primo mais velho, sempre metido nas coisas do samba, conhecia sei l\u00e1 de onde. O cara armou uma recep\u00e7\u00e3o gigantesca no que hoje \u00e9 o Terreir\u00e3o do Samba, mas logo comecei a me sentir deslocado, porque tirando eu e meu primo, todos os demais moravam no morro ou pelo menos tinham morado l\u00e1 um dia. Tomei 3 cervejas e parti.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Foi a\u00ed que tudo mudou. Umas 5 horas, dia raiando, metr\u00f4 vazio, me sentei naquelas cadeiras do fim do vag\u00e3o, onde os passageiros ficam de frente uns para os outros. E bem na minha frente senta uma negra alta, esguia, com a mesma fantasia que eu, tamb\u00e9m fugindo da festa dos componentes fantasiados de guerreiros africanos. Ela me reconhece pela fantasia, fala um \u201coi\u201d protocolar e com a naturalidade de quem estivesse no sof\u00e1 da sala, tira a imensa cangalha que tanto incomodava Fernando Pamplona e senta com os seios nus, s\u00f3 de saia, como se estivesse mesmo no meio de uma tribo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que faz um garoto t\u00edmido de 18 anos ao ver uma mulher de seus 30 anos, seminua, em pleno metr\u00f4 deserto? Eu n\u00e3o tirava os olhos daqueles seios, por sinal muito diferentes das tetas da contemporaneidade. Eram seios de m\u00e9dio para pequenos, a aur\u00e9ola grande e muito escura, o bico meio espalhado, n\u00e3o eram espetaculares, mas n\u00e3o eram de se jogar fora, menos ainda diante daquele completo inusitado da cena. Fiquei alguns minutos paralisado com aquele erotismo inesperado, at\u00e9 que criei coragem para dizer a \u00fanica frase que me pareceu poss\u00edvel para um approach de um cara meio sem jeito para lidar com estranhas:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>&#8211; Voc\u00ea acha que o Salgueiro vai ser campe\u00e3o esse ano?<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>&#8211; Que isso, garoto, t\u00e1 maluco? Desfile horroroso, o pior em que j\u00e1 estive. Esquece isso, menor chance<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A vida \u00e9 assim mesmo, a gente se vale de subterf\u00fagios para dizer o que pensa. Eu queria mesmo era dizer o quanto eu estava profundamente excitado, mas na falta de algo melhor, me sa\u00ed com esse lugar comum. Ela, mais vivida, sutilmente me fez entender que, seja l\u00e1 o que fosse que se passasse na minha cabe\u00e7a, n\u00e3o havia a menor chance, porque o fato de uma mulher andar de seios nus n\u00e3o significa que ela vai dar para o primeiro tarado que aparecer; \u00e9 s\u00f3 uma licenciosidade dos m\u00e1gicos dias de Carnaval, onde os costumes e os pudores se afrouxam.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Claro que eu tive dezenas de outras experi\u00eancias dignas de registro com o Salgueiro, desfilei outras tantas vezes, fui campe\u00e3o com a escola, tem sambas memor\u00e1veis que a gente sempre canta por a\u00ed, tem a m\u00edtica vincula\u00e7\u00e3o com os moradores da Tijuca, o que n\u00e3o falta \u00e9 assunto e samba.<a href=\"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2013\/11\/escola-do-meu-coracao-a-academia-do-samba-apenas-diferente\/especial-2011-segunda-042\/\" rel=\"attachment wp-att-20391\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-20391\" alt=\"Especial 2011 - Segunda 042\" src=\"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2013\/11\/Especial-2011-Segunda-042-453x340.jpg\" width=\"453\" height=\"340\" srcset=\"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2013\/11\/Especial-2011-Segunda-042-453x340.jpg 453w, https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2013\/11\/Especial-2011-Segunda-042-300x224.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 453px) 100vw, 453px\" \/><\/a>Mas quando o Mig\u00e3o resolveu bolar essa s\u00e9rie onde cada colunista escreveria sobre sua escola de cora\u00e7\u00e3o, eu entendi que era uma esp\u00e9cie de competi\u00e7\u00e3o, que seria importante valorizar o conjunto da obra para que o leitor menos afeto ao dia-a-dia desse mundo t\u00e3o impenetr\u00e1vel do samba pudesse perceber o que cada uma tem de melhor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pois na honrosa qualidade de representante da Acad\u00eamicos do Salgueiro, que at\u00e9 os mais desavisados sabem que n\u00e3o \u00e9 melhor e nem pior do que qualquer outra, \u00e9 apenas diferente, vim aqui para mostrar justamente o qu\u00e3o diferente n\u00f3s somos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dezenas de especialistas v\u00e3o passar por aqui contando suas hist\u00f3rias, mas sou capaz de apostar que ningu\u00e9m barra o Salgueiro: 7 comiss\u00f5es de frente no mesmo desfile, o homenageado que recusa a homenagem, uma festa monumental na sa\u00edda com cerveja liberada e a passista que fica nua no metr\u00f4 com a tranquilidade de quem escova os dentes. \u00a0E tudo isso foi s\u00f3 o primeiro desfile.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como n\u00e3o amar essa escola?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dando sequ\u00eancia \u00e0 s\u00e9rie &#8220;Escola do Meu Cora\u00e7\u00e3o&#8221;, o colunista da &#8220;Bissexta&#8221; Walter Monteiro traz sua vis\u00e3o sobre a Academia do Samba, o Salgueiro. \u00c9Tour Details<\/p>\n","protected":false},"author":10,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[377],"tags":[360,18,19,104],"class_list":["post-20389","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-escola-do-meu-coracao","tag-360","tag-carnaval","tag-escolas-de-samba","tag-salgueiro"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20389","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/10"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=20389"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20389\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=20389"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=20389"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=20389"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}