{"id":19604,"date":"2013-10-25T04:56:47","date_gmt":"2013-10-25T06:56:47","guid":{"rendered":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/?p=19604"},"modified":"2016-07-05T14:03:33","modified_gmt":"2016-07-05T17:03:33","slug":"pitaco-seculo-monstruoso-parte-ii","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2013\/10\/pitaco-seculo-monstruoso-parte-ii\/","title":{"rendered":"Pitaco: &#8220;S\u00e9culo Monstruoso &#8211; Parte II&#8221;"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify\">Nesta sexta feira a segunda parte do artigo <strong>do advogado Gustavo Cardoso<\/strong> sobre o julgamento do criminoso de guerra Klaus Barbie e algumas reflex\u00f5es pol\u00edticas a partir do caso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"text-decoration: underline\"><em><strong>S\u00e9culo Monstruoso &#8211; Parte II<\/strong><\/em><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Quando Klaus Barbie chegou \u00e0 Fran\u00e7a para ser julgado, a sociedade estava agitada por reencontrar uma parte abjeta de seu passado. A ocupa\u00e7\u00e3o alem\u00e3 foi um dos epis\u00f3dios mais dolorosos da hist\u00f3ria francesa, n\u00e3o apenas pelo terror e a humilha\u00e7\u00e3o, mas porque a maioria dos\u00a0franceses se resignou a ela, e alguns colaboraram com os nazistas. Toda na\u00e7\u00e3o depende do mito de uni\u00e3o e coragem do povo para manter-se intacta, e este mito fora arranhado durante a guerra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Outro ponto sens\u00edvel era que, a fim de evitar uma terceira (e provavelmente \u00faltima) guerra mundial, a Europa iniciou no p\u00f3s-guerra o arranjo para uma nova era, que pressupunha colabora\u00e7\u00e3o entre os Estados, e possivelmente at\u00e9 uma futura unifica\u00e7\u00e3o. Os pa\u00edses que formavam o eixo deste arranjo eram justamente Fran\u00e7a e Alemanha. Ou seja, a fim de seguir em frente, os franceses tentaram colocar uma pedra no passado recente. A Resist\u00eancia foi glorificada, mas fazendo-se um esfor\u00e7o para n\u00e3o demonizar seus ant\u00edpodas: os colaboracionistas e os alem\u00e3es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O julgamento de Barbie colocava em risco este fr\u00e1gil consenso. Para completar, era ineg\u00e1vel que os que libertaram a Fran\u00e7a da ocupa\u00e7\u00e3o foram os mesmos que deram a m\u00e3o a um de seus carrascos mais cru\u00e9is. Mas o A\u00e7ougueiro de Lyon era um homem t\u00e3o odioso, e t\u00e3o claramente culpado dos crimes dos quais era acusado, que pareceu \u00e0 maioria que o evento seria uma oportunidade de lavar a alma francesa e unir o povo como h\u00e1 muito n\u00e3o acontecia. \u201cSomos os bons, derrotando os maus\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Havia um homem a quem n\u00e3o agradou este plano de autoindulg\u00eancia. Este era o grande advogado Jacques Verg\u00e8s, uma das figuras mais controvertidas do s\u00e9culo XX. Comunista, ardentemente anti-imperialista, filho de pai franc\u00eas e m\u00e3e vietnamita, sentiu na pele o racismo de seus pr\u00f3prios compatriotas (seu pai, um diplomata, perdeu o posto por casar-se com uma asi\u00e1tica). Sabia por experi\u00eancia pr\u00f3pria que os povos do mundo n\u00e3o se dividem simploriamente em \u201cbons\u201d e \u201cmaus\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Na Segunda Guerra, atuou na Resist\u00eancia Francesa. Depois, assistiu, horrorizado, a seus colegas de resist\u00eancia esmagarem a insurg\u00eancia na Arg\u00e9lia com t\u00e1ticas, torturas e uma ideologia racista que em tudo lembravam o que sofreram sob o nazismo. Entendeu que o nacionalismo e o imperialismo franc\u00eas eram duas faces da mesma moeda. Tornou-se advogado de grupos argelinos que lutavam pela independ\u00eancia, e chamou os franceses de \u201cnazistas na Arg\u00e9lia\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Uma de suas clientes foi Djamila Bouhired, condenada \u00e0 morte por atentados terroristas. A senten\u00e7a foi revertida, e Djamila se tornou sua esposa. Sem medo de pol\u00eamicas, era amigo de Mao Ts\u00e9-Tung e Pol Pot, e defendeu sequestradores de avi\u00f5es e v\u00e1rios terroristas famosos, entre eles Carlos, o Chacal. Seu maior advers\u00e1rio na vida foi o ocidente, e isso inclu\u00eda o Estado de Israel, que via como mais um empreendimento colonialista. Sua pol\u00eamica lista de assistidos lhe valeu a alcunha de \u201cAdvogado do Diabo\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Verg\u00e8s viu no julgamento de Klaus Barbie uma chance \u00fanica de esfregar na cara da Fran\u00e7a seu pr\u00f3prio passado e sua pr\u00f3pria hipocrisia. Ofereceu-se como seu defensor, o que espantou o pr\u00f3prio r\u00e9u. A equipe que assessorava Verg\u00e8s continha africanos, \u00e1rabes e asi\u00e1ticos, e era surreal ver aquele time em defesa de um nazista.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Logo no in\u00edcio do julgamento ficou claro que o verdadeiro objetivo de Verg\u00e8s n\u00e3o era o de defender Barbie, mas atacar a sociedade francesa. Em sua primeira manifesta\u00e7\u00e3o, o r\u00e9u\u00a0negou as acusa\u00e7\u00f5es que lhe eram imputadas e alegou estar apenas cumprindo ordens. Verg\u00e8s, que n\u00e3o tinha interesse nesse tipo de defesa, fez seu cliente ler, no dia seguinte, um pedido de que n\u00e3o acompanhasse pessoalmente o julgamento, o que era permitido pela lei processual.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Sem a presen\u00e7a de Barbie, Verg\u00e8s assumiu definitivamente o protagonismo. Ele n\u00e3o se preocupou em negar os crimes atribu\u00eddos a seu cliente, nem em minimizar sua participa\u00e7\u00e3o no holocausto, nem mesmo em utilizar argumentos t\u00e9cnicos para questionar as circunst\u00e2ncias do julgamento. A cada atrocidade narrada pela acusa\u00e7\u00e3o, o que Verg\u00e8s fazia era compar\u00e1-la com outra, semelhante, cometida pelo imperialismo ocidental, e pelo franc\u00eas em particular.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A narrativa, por v\u00edtimas e testemunhas, dos horrores praticados pelo \u201ca\u00e7ougueiro\u201d chocou a Corte, mas a catarse era frustrada pelas r\u00e9plicas do \u201cadvogado do diabo\u201d, sempre lembrando aos franceses que, por pior que fosse Barbie, eles n\u00e3o tinham o direito de se proclamar o \u201clado bom da humanidade\u201d. At\u00e9 a deporta\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as \u00f3rf\u00e3s para a morte era, segundo Verg\u00e8s,\u00a0culpa dos franceses que colaboraram com o regime de Vichy, inclusive judeus franceses.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O ponto culminante do julgamento foi o testemunho de Elie Wiesel, um sobrevivente de Auschwitz que se tornara um porta-voz das v\u00edtimas do Holocausto e recebera o Pr\u00eamio Nobel da Paz no ano anterior. Ele n\u00e3o presenciara os crimes de Barbie, mas sua autoridade moral era uma importante arma da acusa\u00e7\u00e3o. Falou sobre a natureza do genoc\u00eddio nazista, e foi especialmente pungente quanto ao destino das crian\u00e7as.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Quando chegou sua vez de interrog\u00e1-lo, Verg\u00e8s perguntou a Wiesel como se posicionou diante da morte de milhares de crian\u00e7as argelinas em campos de concentra\u00e7\u00e3o durante a guerra de independ\u00eancia, e sobre as centenas mortas em My Lai, exterminadas pelo ex\u00e9rcito americano na Guerra do Vietn\u00e3. Wiesel alegou que n\u00e3o se pronunciou na \u00e9poca por n\u00e3o ter conhecimento do que acontecia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Verg\u00e8s ent\u00e3o perguntou sua opini\u00e3o sobre o Massacre de Deir Yassim, cometido por guerrilhas israelenses numa aldeia palestina em 1948. Para isso n\u00e3o havia resposta. Na \u00e9poca, Wiesel era colaborador\u00a0do Irgun, o pr\u00f3prio grupo que cometeu a atrocidade. Ap\u00f3s um breve tumulto, Wiesel se limitou a dizer que se posicionava a favor de Israel, e fez cr\u00edticas gen\u00e9ricas aos \u00e1rabes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A indiferen\u00e7a de Verg\u00e8s com o destino de seu cliente e seu prop\u00f3sito diversionista eram t\u00e3o flagrantes que, em suas alega\u00e7\u00f5es finais, quando deveria fazer o apelo por Barbie, levou ao centro da sala dois advogados, um argelino e um congol\u00eas, que fizeram um \u201capelo pelos povos \u00e1rabes\u201d e um \u201capelo pelos povos africanos\u201d. Ambos denunciaram crimes do colonialismo que envergonharam o ocidente, mas n\u00e3o tinham nada a ver com o acusado nazista.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Em 1987 a Fran\u00e7a abolira a pena de morte, de modo que Barbie foi condenado \u00e0 pris\u00e3o perp\u00e9tua. Faleceu em setembro de 1991, aos 77 anos. Jacques Verg\u00e8s viveu at\u00e9 agosto de 2013, deixando vi\u00fava Djamila Bouhired. Seu \u00faltimo trabalho internacional foi a defesa, em 2008, de Khieu Samphan, Presidente do Camboja e um dos l\u00edderes do Khmer Vermelho. Tamb\u00e9m ofereceu seus servi\u00e7os a Slobodan Milosevic, mas este preferiu defender a si pr\u00f3prio. Em sua \u00faltima entrevista, foi-lhe perguntado se defenderia Hitler. Verg\u00e8s respondeu: \u201cEu defenderia at\u00e9 Bush! Mas s\u00f3 se ele se declarasse culpado.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Atualmente, no discurso pol\u00edtico do mundo inteiro, principalmente nos EUA, fala-se o tempo todo de nazismo e Segunda Guerra Mundial. Qualquer tiranete \u00e9 um \u201cnovo Hitler\u201d, qualquer apaziguador \u00e9 um \u201cnovo Chamberlain\u201d, qualquer um que se pretenda um grande l\u00edder \u00e9 um \u201cnovo Churchill\u201d. Colonialismo, imperialismo e as rela\u00e7\u00f5es incestuosas entre pot\u00eancias ocidentais, ditaduras latino-americanas e nazistas, ao contr\u00e1rio, s\u00e3o temas tabus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\u00c9 improv\u00e1vel que a maior parte da imprensa mundial tenha se lembrado, hoje, dos cem anos de Klaus Barbie.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nesta sexta feira a segunda parte do artigo do advogado Gustavo Cardoso sobre o julgamento do criminoso de guerra Klaus Barbie e algumas reflex\u00f5es pol\u00edticasTour Details<\/p>\n","protected":false},"author":20,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[349],"tags":[35,24,51],"class_list":["post-19604","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-pitaco","tag-historia","tag-politica","tag-politica-internacional"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19604","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/20"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=19604"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19604\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=19604"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=19604"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=19604"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}