{"id":18822,"date":"2013-09-07T09:28:10","date_gmt":"2013-09-07T12:28:10","guid":{"rendered":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/?p=18822"},"modified":"2013-09-04T09:40:35","modified_gmt":"2013-09-04T12:40:35","slug":"buraco-da-fechadura-marcas-do-passado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2013\/09\/buraco-da-fechadura-marcas-do-passado\/","title":{"rendered":"Buraco da Fechadura &#8211; &#8220;Marcas do Passado&#8221;"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Neste s\u00e1bado, mais uma edi\u00e7\u00e3o da <strong>coluna de contos do compositor Aloisio Villar<\/strong>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><span style=\"text-decoration: underline;\"><em>Marcas do Passado<\/em><\/span><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jurandir j\u00e1 estava na casa dos setenta anos de idade. Boa pra\u00e7a morava h\u00e1 pouco mais de trinta anos em Copacabana e era muito querido pelos vizinhos. Vi\u00favo, com os filhos morando longe, o homem morava sozinho e era s\u00edndico do pr\u00e9dio cuidando com muito zelo e austeridade da resid\u00eancia de todos. Isso fazia com que as pessoas achassem que era Deus no c\u00e9u e Jurandir na Terra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Gostava de acordar cedo e caminhar na praia: mesmo j\u00e1 setent\u00e3o mantinha a boa forma e a sa\u00fade de um garoto. Depois da caminhada gostava de sentar na pra\u00e7a pr\u00f3xima ao pr\u00e9dio e dava alimento aos pombos, depois jogava damas e cartas com outras pessoas de sua idade e ia para casa descansar e praticar seus afazeres.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas a vida de Jurandir n\u00e3o era apenas essa tranq\u00fcilidade. Fazia um churrasco maravilhoso que aprendeu quando morava no Rio Grande do Sul e de vez em quando fazia na churrasqueira do pr\u00e9dio para os vizinhos. Tamb\u00e9m era um excelente dan\u00e7arino e gostava de ir todos os s\u00e1bados em bailes da terceira idade que ocorriam l\u00e1 mesmo em Copacabana. Tinha uma velhice feliz depois de uma vida conturbada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sempre sorridente, o que tirava o sorriso do rosto de Jurandir e lhe fazia ficar s\u00e9rio e desconversar era quando perguntavam sobre seu passado. E realmente ele n\u00e3o tinha nenhum motivo para ficar querendo lembrar o passado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jurandir foi agente do DOPS.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O DOPS era um \u00f3rg\u00e3o subordinado ao governo que existiu entre 1924 e 1983 que foi utilizado principalmente nas ditaduras do estado novo e a militar para reprimir e controlar movimentos pol\u00edticos e sociais contr\u00e1rios ao regime vigente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Era um \u00f3rg\u00e3o temido e cruel que perseguia, torturava e matava. Jurandir n\u00e3o s\u00f3 fazia parte do DOPS como era um dos piores. Conhecido nos anos sessenta e setenta como \u201cSenhor da Morte\u201d Jurandir em nada lembrava aquele velhinho querido e boa pra\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Era cruel, perverso, era mal. Sentia prazer em ferir e humilhar as pessoas. Perseguiu muitas pessoas acusadas de \u201ctrai\u00e7\u00e3o com a p\u00e1tria\u201d, gente que tinha pensamentos contra a ditadura e foi atr\u00e1s delas por todos os cantos do pa\u00eds &#8211; em especial no Araguaia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nunca teve pudor em usar a tortura para conseguir as informa\u00e7\u00f5es que queria, seja contra homem, mulher, velhos, jovens&#8230; O senhor da morte sempre era chamado quando o inimigo era especial, algum chefe de movimento ou gente que sabia demais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Praticava afogamento, colocava em pau de arara, dava choques, estuprava e matava se preciso. Jurandir n\u00e3o se importava com a vida humana e se defendia com os dizeres \u201capenas cumpro ordens\u201d, mesmo com todas as atrocidades que cometia depois colocava a cabe\u00e7a tranq\u00fcilamente no travesseiro e dormia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A ditadura foi perdendo for\u00e7as e Jurandir acabou se beneficiando da lei de anistia. Pediu sua aposentadoria e comprou apartamento em Copacabana para viver sua velhice.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para virar aquele velhinho querido e boa pra\u00e7a, considerado \u00f3tima pessoa pelos vizinhos que nem suspeitavam de seu passado e daquele ditado que os canalhas tamb\u00e9m envelhecem. Assim como os ex nazistas os ex torturadores da \u00e9poca da ditadura militar viviam e vivem no meio das pessoas comuns como se n\u00e3o tivessem um passado manchado de sangue.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E foi dessa forma que Jurandir conheceu Neusa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Neusa, ao contr\u00e1rio de Jurandir, sempre teve uma vida de bem. Mulher de um \u00fanico homem conheceu seu marido ainda mocinha no Instituto de Educa\u00e7\u00e3o na Tijuca, seu marido na \u00e9poca era estudante do Col\u00e9gio Militar e era irm\u00e3o do namorado da irm\u00e3 de Neusa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Neusa e Diana, sua irm\u00e3, engataram namoro com os dois rapazes e casaram-se no fim dos anos cinq\u00fcenta. O marido de Neusa seguiu a carreira militar enquanto o de Diana virou jornalista.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os dois casais constru\u00edram fam\u00edlia. Neusa teve tr\u00eas filhos e Diana dois, mas s\u00f3 at\u00e9 a\u00ed as duas vidas andaram em paralelo. No come\u00e7o dos anos setenta Diana ficou vi\u00fava com a morte do marido e desolada com a perda decidiu ir embora pra Fran\u00e7a. Nunca mais se casou: virou escritora e dedicou sua vida aos filhos e os livros.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Neusa prosseguiu sua vida. Virou professora e dava aulas de matem\u00e1tica em col\u00e9gios p\u00fablicos e particulares do Rio de Janeiro enquanto seu marido prosseguia na carreira militar, mas sem se envolver em pol\u00edtica como Jurandir. O casal era exemplo de amor e rela\u00e7\u00e3o que deu certo, se amavam muito e tiveram uma vida feliz criando os filhos com carinho e festejando a chegada dos netos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A vida ia bem, com o marido j\u00e1 aposentado curtiam viajar e namorar, mas o homem em exames de rotina descobriu c\u00e2ncer na pr\u00f3stata. Tratou-se, operou, fez quimioterapia, mas o c\u00e2ncer rapidamente se espalhou e o homem morreu numa manh\u00e3 de setembro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Neusa ficou desolada com a morte: era o amor da sua vida, o \u00fanico homem que teve, que perdia com aquela doen\u00e7a e decidiu pelo luto. Depressiva, mal sa\u00eda de casa e n\u00e3o queria ver ningu\u00e9m.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas era jovem ainda, bonita e os filhos n\u00e3o aceitavam aquela entrega e falavam \u00e0 m\u00e3e que nem o pai deles aceitaria. De tanto encher convenceram Neusa que a vida continuava e ela tinha que aproveitar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Foi daquela forma que Neusa parou no baile da terceira idade e assim conheceu Jurandir.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jurandir viu a senhora t\u00edmida sentada em um canto do sal\u00e3o e perguntou se gostaria de dan\u00e7ar. Ela envergonhada aceitou e Jurandir cavalheiro conduziu a dama at\u00e9 o meio do sal\u00e3o. Neusa, assim como Jurandir, era uma ex\u00edmia dan\u00e7arina e dan\u00e7aram de tudo. Bolero, tango, gafieira o casal deu um show no baile sendo aplaudido por todos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jurandir e Neusa foram pegar ponche e o homem elogiou a desenvoltura de sua acompanhante dan\u00e7ando e perguntou quem lhe ensinou. Neusa respondeu que seu marido e Jurandir se afastou pedindo desculpas por n\u00e3o saber que ela era casada. Neusa riu e pediu que ele n\u00e3o se preocupasse porque infelizmente era vi\u00fava e Jurandir sorriu pedindo desculpas pela rea\u00e7\u00e3o, pedindo para recome\u00e7ar o assunto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os dois emendaram bate papo com Neusa falando muito mais de sua vida que Jurandir e no fim o homem perguntou se ela poderia dar o n\u00famero do telefone. Neusa j\u00e1 encantada por aquele senhor t\u00e3o cavalheiro repassou. Jurandir perguntou se Neusa gostava de cinema e a senhora respondeu que sim. O homem ent\u00e3o guardou o n\u00famero no bolso do palet\u00f3 e disse que ligaria no dia seguinte.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E ligou. Na noite seguinte l\u00e1 estava Jurandir com o carro esperando Neusa na porta de casa parecendo um casal de adolescentes. No lado de dentro Neusa ansiosa com seu primeiro encontro era vestida pela filha que caprichou no visual da m\u00e3e. Diante do espelho deu um beijo em seu rosto dizendo que estava linda.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jurandir em p\u00e9 ao lado do carro quando viu Neusa sair da casa concordou e falou que estava linda, deixando a mulher ruborizada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Foram ver um filme rom\u00e2ntico comendo pipoca e tomando refrigerante e depois o homem a levou para jantar em um bom restaurante de Copacabana. Papo vai, papo vem Jurandir levou Neusa em casa e de l\u00e1 surgiu o primeiro beijo. Neusa subiu radiante se sentindo com treze anos de idade, Jurandir foi embora cantando pneus e gritando sua felicidade. Estavam apaixonados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O casal se via todos os dias e parecia que um era luz na vida do outro. Viajaram juntos para Argentina em uma esp\u00e9cie de lua de mel dan\u00e7ando tango, passeando pela zona bo\u00eamia; era uma esp\u00e9cie de renascimento para eles.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jurandir j\u00e1 pensava \u00e0 frente e queria juntar os trapinhos com Neusa enquanto a mulher queria que ele conhecesse sua fam\u00edlia antes, contou que sua irm\u00e3 Diana vinha da Europa e faria uma festa para receb\u00ea-la. Aproveitaria para apresentar Jurandir a todos. Jurandir chegou \u00e0 festa e Neusa apresentou o namorado a toda fam\u00edlia sendo bem recebido. Jurandir articulado e cavalheiro cativou a todos e foi aprovado, mas faltava chegar Diana.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Diana chegou e logo Neusa puxou a irm\u00e3 para apresentar Jurandir. Diana apertou a m\u00e3o de Jurandir e olhou bem nos olhos dizendo \u201coi\u201d, Jurandir respondeu e Diana ainda olhou por mais um tempo e chamou Neusa para ir ao quarto porque tinha presentes pra ela.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As duas voltaram e Neusa foi at\u00e9 Jurandir beij\u00e1-lo e oferecer uma bebida enquanto Diana de longe n\u00e3o parava de olhar o homem. Jurandir bebia, conversava e notava que Diana n\u00e3o parava de olhar, se constrangia e tentava desviar seu olhar, mas n\u00e3o conseguia e tamb\u00e9m encarava a mulher.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em determinado momento Jurandir foi ao banheiro e ao sair encontrou Diana na porta. A mulher em seu ouvido falou \u201cme procure\u201d e colocou um bilhete em seu bolso saindo de perto. Jurandir olhou e ali estava seu endere\u00e7o e telefone. Jurandir voltou surpreso para a sala, como podia? A irm\u00e3 de sua namorada, a qual ela tanto amava dando descaradamente em cima dele.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jurandir se incomodou com aquela situa\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m reparou o quanto Diana era bela, a mulher era uma tenta\u00e7\u00e3o e ele n\u00e3o sabia como agir.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Chegou a hora de se despedir e Diana deu um beijo no rosto do cunhado dizendo em seu ouvido \u201cme procure\u201d. Neusa levou o namorado at\u00e9 a porta e vendo que Jurandir estava estranho perguntou se estava bem. O homem deu um beijo em sua testa alegando estar apenas cansado e foi embora.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jurandir n\u00e3o conseguia parar de pensar naquela hist\u00f3ria. Amava Neusa, mas Diana era uma linda. Sabia que podia ser uma roubada, mas arriscaria e ligou para Diana.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Marcou um encontro com a mulher e foi ao seu apartamento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Diana abriu a porta e encontrou Jurandir. Estava linda em um sexy vestido vermelho e convidou o homem a entrar. Jurandir entrou e Diana convidou que sentasse e n\u00e3o ficasse t\u00e3o tenso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jurandir sentou e Diana perguntou se ele bebia, o homem respondeu que sim e ela voltou com um copo de u\u00edsque. Jurandir bebeu um pouco e Diana perguntou se estava bom, ele tenso disse que era uma del\u00edcia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">At\u00e9 que Diana novamente perguntou se estava bom, mas em outro tom:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201c- Est\u00e1 bom mesmo senhor da morte?\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jurandir tomou um susto: h\u00e1 anos que n\u00e3o ouvia aquela express\u00e3o e Diana come\u00e7ou o desabafo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; O senhor n\u00e3o deve lembrar-se de mim, eu era apenas uma menina inocente que foi tirada de casa com o marido pelo DOPS e mais uma que o senhor torturou e estuprou enquanto matava meu marido e colocava uma corda em seu pesco\u00e7o para passar \u00e0 opini\u00e3o p\u00fablica que ele se matou.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jurandir assustado come\u00e7ou a tossir e Diana continuou.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" align=\"right\">&#8211; O senhor est\u00e1 bem? Ah ta, essa tosse \u00e9 normal, vem do remedinho que coloquei em sua bebida, depois vem a falta de ar e o desmaio que te levar\u00e1 a morte&#8230; Senhor da Morte filho da puta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jurandir, sufocado, abria os bra\u00e7os em v\u00e3o pedindo ajuda at\u00e9 que caiu morto no ch\u00e3o. Diana come\u00e7ou a chorar e Neusa apareceu de um quarto, abra\u00e7ando a irm\u00e3 e contando que estava tudo bem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o tem jeito: o passado sempre volta \u00e0 tona.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Neste s\u00e1bado, mais uma edi\u00e7\u00e3o da coluna de contos do compositor Aloisio Villar. 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