{"id":18412,"date":"2013-08-03T09:26:34","date_gmt":"2013-08-03T12:26:34","guid":{"rendered":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/?p=18412"},"modified":"2013-08-02T07:38:50","modified_gmt":"2013-08-02T10:38:50","slug":"enredo-do-meu-samba-caso-passional","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2013\/08\/enredo-do-meu-samba-caso-passional\/","title":{"rendered":"Enredo do Meu Samba &#8211; &#8220;Caso Passional&#8221;"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Neste s\u00e1bado, mais uma edi\u00e7\u00e3o da <strong>coluna de contos sambistas do compositor Aloisio Villar<\/strong>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"text-decoration: underline;\"><em><b>Caso Passional<\/b><\/em><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Comecei a rir e Pangu\u00e1 pediu-me que n\u00e3o fizesse isso, pois o caso era s\u00e9rio. Perguntei como Belezudo podia ter sido t\u00e3o ot\u00e1rio dessa forma, ter desconfiado de nada e Pangu\u00e1 respondeu que Apolin\u00e9rio teve a dele depois.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Curioso perguntei o que tinha ocorrido com o homem e Pangu\u00e1 respondeu que contava em outra hora, precisava terminar o servi\u00e7o. Insisti, mas naquele instante Julinha acordou e achei melhor deixar Pangu\u00e1 trabalhar e cuidar de minha filha. Fui para a cozinha preparar seu caf\u00e9 da manh\u00e3 enquanto ela assistia desenho na tv. Nunca fui bom de cozinha e de forma atabalhoada fiz ovos, torradas e levei \u00e0 Julinha.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sentamos \u00e0 mesa. Mandei que ela aproveitasse que era tudo dela e minha filha comeu um peda\u00e7o de ovo. Fez uma careta, a mesma que eu fiz comendo e falei que era melhor tomarmos caf\u00e9 na rua. Deixei Pangu\u00e1 trabalhando enquanto tom\u00e1vamos caf\u00e9 numa lanchonete pr\u00f3xima. Nos divert\u00edamos, brinc\u00e1vamos e no fim levei Ana J\u00falia ao parque. Passamos um dia especial. Li para minha filha, comprei algod\u00e3o doce para ela. Corremos, ela brincou com gansos e no fim apenas olh\u00e1vamos o c\u00e9u, deitados na grama.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando levantamos para almo\u00e7ar vi uma figura conhecida, o Dirceuzinho. Grande camarada da Unidos de Padre Miguel. Cumprimentei o rapaz e conversamos um tempo. Sobre a vida, samba e o livro que eu estava escrevendo. Em determinado momento perguntei pelo Jece Arruda, seu irm\u00e3o carnavalesco que rodou por v\u00e1rias escolas como Unidos de Bangu, Acad\u00eamicos de Santa Cruz e Uni\u00e3o do Parque Curicica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dirceuzinho desconversou dizendo que estava atrasado, apertou minha m\u00e3o e partiu. Vi que ali tinha coisa errada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Almocei com Julinha em uma churrascaria e voltamos para casa. Pangu\u00e1 j\u00e1 terminara o servi\u00e7o e ido embora. Minha filha ficou vendo tv enquanto liguei o computador. indo direto ao Google e digitando o nome Jece Arruda. Apareceram not\u00edcias com seu nome e ali entendi o porque do irm\u00e3o dizer nada. Li todas as not\u00edcias e liguei para meu pai contando o que tinha descoberto. Ele conhecia a hist\u00f3ria e me contou em mais detalhes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jece Arruda era um carnavalesco talentoso. Mais velho de doze irm\u00e3os, fazia teatro em Recife e decidiu tentar a sorte no Rio de Janeiro. Veio com a cara e a coragem, uma m\u00e3o na frente e outra atr\u00e1s. Chegou e n\u00e3o teve medo de trabalho, nunca teve. Trabalhou carregando caixas em um sacol\u00e3o, como faxineiro em um hospital, foi camel\u00f4, tentou de tudo e corria atr\u00e1s de seu sonho no teatro. Conseguiu entrar para uma companhia teatral, mas n\u00e3o ganhava dinheiro ent\u00e3o ao mesmo tempo trabalhava dirigindo kombis e fazendo lota\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A companhia era modesta ent\u00e3o cada um se virava no que podia. Jece entendia de cen\u00e1rios e figurinos, ent\u00e3o foi encarregado das duas situa\u00e7\u00f5es. Mostrou talento atuando, mas mais ainda como cen\u00f3grafo e figurinista e logo chamou aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um amigo da companhia lhe chamou para trabalhar no barrac\u00e3o de uma escola de samba. Jece nunca pisara em uma na vida, mas o amigo explicou que ali se trabalhava com cenografia, figurinos, como um grande teatro. Jece foi com o amigo e se encantou.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Acabou indo trabalhar no barrac\u00e3o da Alegria da Zona Sul e gostou da experi\u00eancia. Cada vez mais se dedicava ao carnaval deixando de lado o teatro. Trabalhou para v\u00e1rias escolas ganhando a confian\u00e7a de carnavalescos. Aos poucos virou assistente e bra\u00e7o direito deles.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">J\u00e1 ganhava bem melhor do que quando chegou no Rio de Janeiro e com isso trouxe alguns de seus irm\u00e3os para o Rio, como Dirceuzinho. Por indica\u00e7\u00e3o come\u00e7ou a trabalhar tamb\u00e9m numa emissora de televis\u00e3o como figurinista. Jece estava quase no auge.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O auge chegou pouco depois quando foi convidado para ser carnavalesco da Unidos de Bangu. O homem pegou a chance com afinco e montou um belo carnaval, fazendo a escola subir de grupo. Rodou por outras hist\u00f3rias fazendo belos trabalhos e j\u00e1 era considerado um dos melhores de sua gera\u00e7\u00e3o. A chance no grupo especial ainda n\u00e3o chegara, mas tudo era quest\u00e3o de tempo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" align=\"right\">Sua mais recente escola foi a Mocidade de Bonsucesso e preparou um carnaval ambicioso, para &#8220;as cabe\u00e7as&#8221;. E foi ali que a hist\u00f3ria aconteceu. Jece era homossexual assumido. N\u00e3o fazia quest\u00e3o nenhuma de esconder e fazia o tipo espalhafatoso sendo uma pessoa folcl\u00f3rica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Divertido chegava numa escola de samba, apontava os ritmistas e falava \u201cj\u00e1 fiz todos eles\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na Mocidade de Bonsucesso n\u00e3o era diferente. Na escola tinha um compositor jovem, cerca de vinte anos que estava com um bom samba disputando na escola, o Diguinho Mocidade. Sempre que sua parceria subia no palco Jece comentava com os amigos \u201cque del\u00edcia\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No dia da feijoada da escola, na metade da disputa, Jece chegou perto de Diguinho e falou em seu ouvido \u201cpassa l\u00e1 em casa pra comer uma pizza\u201d. Colocou um papel em seu bolso e saiu. Os amigos ficaram mexendo com Diguinho que sem gra\u00e7a pegou o papel e respondeu que tinha nada escrito, era brincadeira do carnavalesco. Mas n\u00e3o era. No papel estava escrito \u201co que voc\u00ea quiser\u201d e o endere\u00e7o do carnavalesco.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Alguns dias depois Jece bebia champanhe sozinho na sala de seu apartamento vendo \u201cA novi\u00e7a rebelde\u201d na tv quando a campainha tocou. Quando atendeu teve uma surpresa. Era Diguinho. O compositor perguntou \u201co que eu quiser?\u201d. Jece respondeu que sim e o rapaz completou \u201cent\u00e3o pe\u00e7a a pizza\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jece puxou Diguinho para dentro e o que ocorreu depois \u00e9 impr\u00f3prio para menores. Fizeram um amor selvagem, rasgado, suado mostrando que existe pecado do lado debaixo do Equador. No fim estavam os dois suados na cama de Jece descansando. O carnavalesco fumava um cigarro e ria comentado \u201cVoc\u00ea h\u00e9in? \u00c9 danado, n\u00e3o sabia que era do babado\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Diguinho nada comentava ent\u00e3o Jece colocou a cabe\u00e7a em seu peito e disse \u201cvai menin\u00e3o, me diz o que quer\u201d. Diguinho ficou um tempo em sil\u00eancio e respondeu.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cQuero o samba\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jece olhou para ele que completou \u201cquero vencer a disputa de samba enredo, que meu samba seja o escolhido pela Mocidade de Bonsucesso\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jece Arruda sempre foi um cara \u00edntegro, honesto e nunca se metera nessas quest\u00f5es. Se Diguinho tivesse pedido uma moto, um carro, uma roupa de marca o carnavalesco teria dado. Mas o samba complicava.. A escola tinha prefer\u00eancia por outro samba e o de Diguinho j\u00e1 estava para ser eliminado. O carnavalesco ficou com aquela hist\u00f3ria na cabe\u00e7a e pensando o que fazer.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na eliminat\u00f3ria seguinte a dire\u00e7\u00e3o da escola se reuniu na sala do presidente e a decis\u00e3o era cortar o samba de Diguinho, mas pela primeira vez Jece se meteu em uma eliminat\u00f3ria e pediu que o samba continuasse pelo menos mais uma semana.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Todos estranharam porque Jece, como eu disse, nunca se metia. O presidente perguntou o motivo e o carnavalesco sem olhar em seus olhos apenas respondeu que o samba era adequado ao enredo e que merecia nova chance. O samba n\u00e3o caiu e o caso entre os dois era cada vez mais ardente. Jece resolveu ajudar e contratou um cantor de ponta para defender o samba e ajudou financeiramente para que a parceria de Diguinho botasse torcida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O samba cresceu como esperado e Jece trabalhava forte nos bastidores pela vit\u00f3ria. Na final de samba discretamente o carnavalesco desejou boa sorte e Diguinho respondeu \u201cn\u00e3o preciso, tenho voc\u00ea\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os sambas se apresentaram e os dirigentes foram pra sala votar no campe\u00e3o. Cada um votou no seu preferido e o de Diguinho perdeu por um voto. O presidente j\u00e1 se encaminhava para fora da sala e assim anunciar quando em desespero Jece gritou \u201cn\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Todos pararam e Jece completou \u201cse o samba que eu quero n\u00e3o ganhar pe\u00e7o demiss\u00e3o agora\u201d. Ficou um clima ruim na sala at\u00e9 que por contragosto o presidente respondeu \u201cest\u00e1 bem, ser\u00e1 como voc\u00ea quer\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O presidente anunciou o samba do Diguinho e uma grande festa foi feita pelos em um bar compositores. Jece participou da festa e discretamente saiu dela com Diguinho. Foram pro apartamento do carnavalesco, transaram e no fim Diguinho se levantou para ir embora. Jece disse que era cedo e nisso o compositor se virou e disse pra ele.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cDesculpe Jece, eu n\u00e3o sou viado. T\u00ednhamos um neg\u00f3cio eu transava com voc\u00ea e voc\u00ea me dava o samba. As duas partes cumpriram suas promessas e o neg\u00f3cio acaba aqui\u201d. Em desespero o carnavalesco se levantou e pediu que o amante n\u00e3o lhe abandonasse. Ajoelhou-se a seus p\u00e9s, agarrou sua perna e prometeu mundos e fundos para que n\u00e3o lhe deixasse.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas tudo em v\u00e3o. Diguinho n\u00e3o lhe deu aten\u00e7\u00e3o e antes de bater a porta disse irritado \u201cPara!! N\u00e3o gosto de viado porra!!.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No ensaio seguinte da escola a dire\u00e7\u00e3o toda da agremia\u00e7\u00e3o tratou Jece de forma fria. O carnavalesco se \u201cqueimara\u201d na escola com a imposi\u00e7\u00e3o que fez na final. Mas Jece nem ligava. O homem desolado enchia a cara em um canto da quadra quando viu Diguinho aos beijos com uma loura e decidiu ir embora.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No fim do ensaio Diguinho saiu da quadra abra\u00e7ado com a loura quando Jece surgiu a sua frente. Diguinho perguntou o que o carnavalesco queria e esse respondeu.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cTe entregar sua pizza\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jece sacou um trinta e oito e deu um tiro no cora\u00e7\u00e3o de Diguinho que caiu fulminado. Logo ap\u00f3s Jece colocou a arma na boca e atirou se matando. A multid\u00e3o logo se juntou em volta dos corpos enquanto a loura gritava desesperada. Acabava ali a hist\u00f3ria que em vez de terminar come\u00e7ou em pizza.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma pizza muito cara.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Neste s\u00e1bado, mais uma edi\u00e7\u00e3o da coluna de contos sambistas do compositor Aloisio Villar. 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