{"id":17680,"date":"2013-05-16T13:13:36","date_gmt":"2013-05-16T16:13:36","guid":{"rendered":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/?p=17680"},"modified":"2013-05-16T07:36:08","modified_gmt":"2013-05-16T10:36:08","slug":"bissexta-temos-nosso-proprio-tempo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2013\/05\/bissexta-temos-nosso-proprio-tempo\/","title":{"rendered":"Bissexta &#8211; &#8220;Temos Nosso Pr\u00f3prio Tempo&#8221;"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Nesta quinta, a <strong>coluna &#8220;Bissexta&#8221;, do advogado Walter Monteiro<\/strong>, compara o cen\u00e1rio do recente filme sobre Renato Russo com o que ele viveu na realidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"text-decoration: underline;\"><em><strong>Temos Nosso Pr\u00f3prio Tempo<\/strong><\/em><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Era minha primeira semana na faculdade, mar\u00e7o de 1985. Doido para me enturmar com gente nova, aceitei o convite de uns veteranos para ir ao Circo Voador no s\u00e1bado em uma noite punk. Eu nunca tinha ido a um show punk, afinal tinha 17 anos e uma adolesc\u00eancia passada na Tijuca ouvindo Beatles e Led Zepellin, mas achei que pudesse ser algo divertido. As primeiras bandas de rock j\u00e1 estavam a pleno vapor; eu tinha um LP do Bar\u00e3o Vermelho, outro do Paralamas do Sucesso, devia ter mais alguns tamb\u00e9m.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A atra\u00e7\u00e3o principal da noite era uma banda paulista chamada C\u00f3lera, que eu nunca tinha ouvido falar, \u00f3bvio, mas era conhecida pelos entendidos. E mais duas bandas iniciantes, que sequer me disseram o nome quando foram me buscar em casa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pois foi justamente a banda que tocou antes do C\u00f3lera que me chamou aten\u00e7\u00e3o. E os caras eram t\u00e3o gente boa que depois do show desceram para a plateia e assistiram o show principal no meio da muvuca, dan\u00e7ando pogo. Um pogo bem violento, como se espera de uma noite punk.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na volta para casa, um colega me disse que aquela banda de Bras\u00edlia j\u00e1 tinha um LP gravado, procurando com calma dava para achar. N\u00e3o sosseguei enquanto n\u00e3o comprei o \u00e1lbum Legi\u00e3o Urbana, que agora sei que tinha sido lan\u00e7ado apenas 2 meses antes desse show, da\u00ed a raz\u00e3o do C\u00f3lera, com \u00e1lbuns gravados bem antes e uma pequena hist\u00f3ria no nicho punk, abrir o show.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Rapidamente \u2013 muito rapidamente \u2013 a Legi\u00e3o Urbana deixou de ser uma banda alternativa e foi absorvida pelo mainstream. Todas as r\u00e1dios e programas s\u00f3 tocavam Legi\u00e3o. Todo mundo que era jovem amava Legi\u00e3o. Os shows n\u00e3o eram mais no Circo Voador. Me lembro que a primeira vez que eles tocaram Faroeste Caboclo (que s\u00f3 foi gravada em 1989) foi no tamb\u00e9m lend\u00e1rio Noites Cariocas, com a fila para pegar o bondinho entupindo a Praia Vermelha. E isso tamb\u00e9m foi em 1985, mais para o final do ano.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por que essa onda retr\u00f4? Porque est\u00e1 em cartaz \u201cSomos T\u00e3o Jovens\u201d, filme que conta a hist\u00f3ria de Renato Russo ANTES da banda vir para o Rio gravar seu primeiro disco. A minha gera\u00e7\u00e3o, os filhos da Revolu\u00e7\u00e3o (para quem tem menos de 30 anos, explico, s\u00e3o as pessoas nascidas durante a ditadura militar, que os generais gostavam de chamar de Revolu\u00e7\u00e3o), passou os anos 80 ouvindo Legi\u00e3o, Paralamas e Tit\u00e3s \u2013 por isso acho engra\u00e7ad\u00edssimo quando vejo festas com m\u00fasicas daquela \u00e9poca e s\u00f3 d\u00e1 Rosana, Ursinho Blau Blau, Menudo e outras coisas que nunca ouvimos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas para quem \u00e9 testemunha presencial daqueles anos de transi\u00e7\u00e3o, nada pode ser mais artificial do que o filme. O Renato Russo do filme tem uma rela\u00e7\u00e3o robotizada com os pais. Mal se percebe que ele era gay \u2013 e olha que Renato sempre foi homossexual declarado. O uso de drogas, um ritual sagrado para os artistas daquela \u00e9poca, \u00e9 sutil. Em resumo, o que se v\u00ea nas telas n\u00e3o \u00e9 o Renato Russo que a gente admirava, mas aquele que provavelmente a av\u00f3 dele gostaria que ele tivesse sido \u2013 um menino traquina, s\u00f3 isso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao plastificar Renato Russo como um personagem que caberia em Malha\u00e7\u00e3o, fica de fora o que ele tinha de melhor, que era a capacidade de produzir coisas belas por conta de sua personalidade em permanente conflito, seu ar angustiado, seu sofrimento pulsante \u2013 Renato nunca parecia estar feliz.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sem contar que os di\u00e1logos e as interpreta\u00e7\u00f5es dos atores chegam a ser constrangedores. Se eu fosse o Herbert Vianna, processaria o diretor, porque quem n\u00e3o sabe de quem se trata fica com a sensa\u00e7\u00e3o de que o Herbert era retardado. De bom, mesmo, s\u00f3 a semelhan\u00e7a impressionante do ator com o protagonista: h\u00e1 momentos em que parece mesmo que era Renato que estava ali. E as m\u00fasicas, claro. Mas at\u00e9 ali tenho c\u00e1 minhas d\u00favidas, n\u00e3o sei se todas elas foram compostas antes de 1984, data em que o filme termina.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu n\u00e3o gostei, em resumo. Mas talvez a culpa n\u00e3o seja do filme. A culpa \u00e9 de quem viveu aquela \u00e9poca intensamente e pode atestar que as coisas n\u00e3o eram bem assim. Esse \u00e9 um dos dilemas da vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Temos nosso pr\u00f3prio tempo, que \u00e9, afinal, irreproduz\u00edvel.<\/p>\n<p>http:\/\/www.youtube.com\/watch?v=xa3izIueaE4<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nesta quinta, a coluna &#8220;Bissexta&#8221;, do advogado Walter Monteiro, compara o cen\u00e1rio do recente filme sobre Renato Russo com o que ele viveu na realidade.Tour Details<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[38],"tags":[13,12,15],"class_list":["post-17680","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-bissexta","tag-cinema","tag-cultura","tag-musica"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17680","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=17680"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17680\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=17680"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=17680"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=17680"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}