{"id":16990,"date":"2013-03-21T06:27:32","date_gmt":"2013-03-21T09:27:32","guid":{"rendered":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/?p=16990"},"modified":"2013-03-19T07:35:54","modified_gmt":"2013-03-19T10:35:54","slug":"historias-brasileiras-a-revolta-da-vacina","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2013\/03\/historias-brasileiras-a-revolta-da-vacina\/","title":{"rendered":"Hist\u00f3rias Brasileiras: &#8220;A Revolta da Vacina&#8221;"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2013\/03\/ataque-a-bonde-durante-revolta-da-vacina-reproduzida-da-revista-da-semana-de-27111904-1281647447165_564x430.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-16991\" alt=\"ataque-a-bonde-durante-revolta-da-vacina-reproduzida-da-revista-da-semana-de-27111904-1281647447165_564x430\" src=\"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2013\/03\/ataque-a-bonde-durante-revolta-da-vacina-reproduzida-da-revista-da-semana-de-27111904-1281647447165_564x430-445x340.jpg\" width=\"445\" height=\"340\" srcset=\"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2013\/03\/ataque-a-bonde-durante-revolta-da-vacina-reproduzida-da-revista-da-semana-de-27111904-1281647447165_564x430-445x340.jpg 445w, https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2013\/03\/ataque-a-bonde-durante-revolta-da-vacina-reproduzida-da-revista-da-semana-de-27111904-1281647447165_564x430-300x228.jpg 300w, https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2013\/03\/ataque-a-bonde-durante-revolta-da-vacina-reproduzida-da-revista-da-semana-de-27111904-1281647447165_564x430.jpg 564w\" sizes=\"auto, (max-width: 445px) 100vw, 445px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; text-align: justify;\"><span style=\"color: #000080;\">(Imagem: Uol)<\/span><\/p>\n<p style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; text-align: justify;\"><span style=\"color: #000080;\">Na coluna de hoje o <strong>historiador Luiz Antonio Simas e suas &#8220;Hist\u00f3rias Brasileiras&#8221;<\/strong> <span style=\"color: #ff6600;\"><a href=\"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2013\/03\/historias-brasileiras-o-martir-da-ciencia\/\" target=\"_blank\"><span style=\"color: #ff6600;\">retoma o tema do texto anterior<\/span><\/a><\/span> para falar da Revolta da Vacina, epis\u00f3dio ocorrido em 1904, e suas implica\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e especialmente sociais.<\/span><\/p>\n<p style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; text-align: justify;\"><span style=\"text-decoration: underline;\"><em><strong><span style=\"color: #000080; text-decoration: underline;\">A Revolta da Vacina<\/span><\/strong><\/em><\/span><\/p>\n<p style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; text-align: justify;\"><span style=\"color: #000080;\">A Revolta da Vacina, famoso charivari que tomou conta das ruas do Rio de Janeiro no in\u00edcio do s\u00e9culo passado, n\u00e3o se explica somente pelo temor que a popula\u00e7\u00e3o sentia da vacina\u00e7\u00e3o obrigat\u00f3ria contra a var\u00edola, proposta pelo sanitarista Oswaldo Cruz e aprovada pelo Congresso Nacional em 31 de outubro de 1904.<!--more--><\/span><\/p>\n<p style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; text-align: justify;\"><span style=\"color: #000080;\">A popula\u00e7\u00e3o da cidade, sobretudo a de baixa renda, tinha raz\u00f5es para estar enfurecida. Os alugu\u00e9is eram caros, o desemprego crescia, os sal\u00e1rios diminu\u00edam e, no meio de tudo isso, o prefeito Pereira Passos iniciara uma reforma urbana que visava transformar a cidade numa esp\u00e9cie de Paris tropical, com a demoli\u00e7\u00e3o de corti\u00e7os e hospedarias, a abertura de largas avenidas e a expuls\u00e3o das camadas populares do centro. A coisa, enfim, estava feia.<\/span><\/p>\n<p style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; text-align: justify;\"><span style=\"color: #000080;\">Nesse clima, a not\u00edcia de que todos deveriam tomar a vacina explodiu como uma bomba. Sem qualquer esclarecimento sobre a efic\u00e1cia da vacina\u00e7\u00e3o, a popula\u00e7\u00e3o sabia apenas que brigadas de vacinadores, acompanhadas por policiais armados, teriam autoriza\u00e7\u00e3o para violar resid\u00eancias, vacinar as pessoas e prender os que se recusassem a tomar a danada. At\u00e9 mesmo Rui Barbosa, considerado o sujeito mais inteligente (e empolado, diria eu) do pa\u00eds, declarou que ningu\u00e9m teria o direito de contaminar o pr\u00f3prio sangue com um v\u00edrus. Imaginem ent\u00e3o o que achava a popula\u00e7\u00e3o mais pobre e afastada da educa\u00e7\u00e3o formal. \u00c0quela \u00e9poca, o pr\u00f3prio princ\u00edpio da vacina\u00e7\u00e3o era pol\u00eamico.<\/span><\/p>\n<p style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; text-align: justify;\"><span style=\"color: #000080;\">A revolta explodiu no dia 10 de novembro, quando um com\u00edcio contra a vacina terminou com os oradores presos no palanque pelo efetivo policial. A popula\u00e7\u00e3o, a partir da\u00ed, literalmente quebrou a cidade. Teve de tudo: bondes incendiados (foto), lojas depredadas, postes de luz destru\u00eddos, palacetes art-noveau devidamente atacados e o escambau. Membros da elite, diante do fuzu\u00ea, se escafederam para seus palacetes de ver\u00e3o em Petr\u00f3polis e Teres\u00f3polis.<\/span><\/p>\n<p style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; text-align: justify;\"><span style=\"color: #000080;\">No meio do furdun\u00e7o, como se a quizumba ainda pudesse ser maior, explodiu uma rebeli\u00e3o de cadetes da Escola Militar da Praia Vermelha. Os jovens milicos resolveram atacar o Pal\u00e1cio do Catete e derrubar Rodrigues Alves, o presidente da Rep\u00fablica. Ap\u00f3s intenso tiroteio, que varou a madrugada de 15 de novembro, o saldo do levante militar era inacredit\u00e1vel, com mais de 200 &#8216;presuntos&#8217; estendidos no Largo do Machado. <\/span><\/p>\n<p style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; text-align: justify;\"><span style=\"color: #000080;\">Para piorar a situa\u00e7\u00e3o, pais de fam\u00edlia amea\u00e7avam receber os vacinadores \u00e0 bala, como o argumento de que a aplica\u00e7\u00e3o da vacina em bra\u00e7os e virilhas de donzelas era uma imoralidade capaz de despertar dem\u00f4nios adormecidos nas mo\u00e7as.<\/span><\/p>\n<p style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; text-align: justify;\"><span style=\"color: #000080;\">Moradores negros da zona portu\u00e1ria, que cultuavam os orix\u00e1s africanos, evocaram a prote\u00e7\u00e3o de Omolu, o poderoso deus da peste e da sa\u00fade, e rufaram os atabaques durante a pancadaria. Omolu, afinal, \u00e9 o senhor da var\u00edola, e a atua\u00e7\u00e3o do poder p\u00fablico despertou a ira de seus devotos. \u00a0Oper\u00e1rios anarquistas se misturaram ao povo do santo e ajudaram a erguer barricadas para proteger as casas de candombl\u00e9 da repress\u00e3o policial. No porto, onde vivia a popula\u00e7\u00e3o negra, a revolta foi mais efetiva.<\/span><\/p>\n<p style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; text-align: justify;\"><span style=\"color: #000080;\">A rea\u00e7\u00e3o do poder p\u00fablico n\u00e3o tardou. O governo decretou Estado de S\u00edtio e &#8216;sentou o cacete&#8217; na popula\u00e7\u00e3o. Corti\u00e7os, hospedarias e favelas foram invadidos e milhares de moradores pobres foram detidos e enviados ilegalmente para campos de trabalho for\u00e7ado nos seringais da Amaz\u00f4nia. A vacina\u00e7\u00e3o, interrompida no dia 11 de novembro, foi reiniciada e a var\u00edola devidamente erradicada do Rio de Janeiro em pouco tempo.<\/span><\/p>\n<p style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; text-align: justify;\"><span style=\"color: #000080;\">H\u00e1 historiadores, e eu sou um deles, que consideram que a vacina\u00e7\u00e3o obrigat\u00f3ria foi apenas um pretexto para um movimento que revelou o car\u00e1ter tremendamente excludente e elitista da Rep\u00fablica dos cafeicultores. O pr\u00f3prio governo preferiu divulgar a vers\u00e3o de que a rebeli\u00e3o se limitava a contestar a campanha sanit\u00e1ria, para apagar as tens\u00f5es sociais que evidentemente estavam explodindo naquele in\u00edcio de s\u00e9culo. A vacina, quero crer, n\u00e3o foi o que mais importou naqueles dias.<\/span><\/p>\n<p style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; text-align: justify;\"><span style=\"color: #000080;\">O tema \u00e9 pol\u00eamico. \u00c9 evidente que a ideia de Oswaldo Cruz era rigorosamente correta; a vacina\u00e7\u00e3o era necess\u00e1ria. O decreto da obrigatoriedade, entretanto, exp\u00f5e uma faceta tremendamente autorit\u00e1ria do regime republicano e deixa no ar algumas indaga\u00e7\u00f5es: at\u00e9 que ponto o interesse coletivo deve prevalecer em detrimento das liberdades individuais? Ou a quest\u00e3o fundamental \u00e9 outra: eram mesmo os interesses coletivos que estavam em quest\u00e3o?<\/span><\/p>\n<p style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; text-align: justify;\"><span style=\"color: #000080;\">Serei mais claro. A reforma sanit\u00e1ria se limitou a erradicar os focos das doen\u00e7as ou tentou, na verdade, ir mais longe e excluir as camadas populares urbanas da sonhada Paris tropical &#8211; higienizando a cidade, modernizando a zona portu\u00e1ria para atender aos interesses dos exportadores de caf\u00e9 e afastando os pobres das zonas privilegiadas do Distrito Federal? <\/span><\/p>\n<p style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; text-align: justify;\"><span style=\"color: #000080;\">A quest\u00e3o \u00e9 complexa e, por isso mesmo, fascinante, mas acredito que o projeto de higieniza\u00e7\u00e3o dos primeiros senhores da Rep\u00fablica visava, sobretudo, limpar as zonas nobres da Cidade Maravilhosa (a express\u00e3o surgiu por essa \u00e9poca) dos pobres e das refer\u00eancias culturais de base africana. Eles, pobres e negros com seus batuques, eram, e continuam sendo para muita gente, a verdadeira epidemia a ser erradicada.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>(Imagem: Uol) Na coluna de hoje o historiador Luiz Antonio Simas e suas &#8220;Hist\u00f3rias Brasileiras&#8221; retoma o tema do texto anterior para falar da RevoltaTour Details<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[292],"tags":[35,24],"class_list":["post-16990","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-historias-brasileiras","tag-historia","tag-politica"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16990","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=16990"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16990\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=16990"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=16990"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=16990"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}