{"id":16794,"date":"2013-03-08T05:28:00","date_gmt":"2013-03-08T07:28:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/?p=16794"},"modified":"2013-03-05T17:37:11","modified_gmt":"2013-03-05T20:37:11","slug":"cinecasulofilia-dois-filmes-belamente-picaretas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2013\/03\/cinecasulofilia-dois-filmes-belamente-picaretas\/","title":{"rendered":"Cinecasulofilia &#8211; &#8220;Dois filmes belamente picaretas&#8221;"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2013\/03\/semanasanta.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-16795\" alt=\"semanasanta\" src=\"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2013\/03\/semanasanta-453x340.jpg\" width=\"453\" height=\"340\" srcset=\"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2013\/03\/semanasanta-453x340.jpg 453w, https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2013\/03\/semanasanta-300x225.jpg 300w, https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2013\/03\/semanasanta.jpg 1417w\" sizes=\"auto, (max-width: 453px) 100vw, 453px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"font-family: Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif; text-align: justify;\"><span style=\"color: #000080;\">Nesta sexta, mais uma edi\u00e7\u00e3o da coluna sobre Cinema, <strong>a &#8220;Cinecasulofilia&#8221;<\/strong>. <strong>Como sempre, assinada pelo cr\u00edtico, cineasta e professor Marcelo Ikeda<\/strong> &#8211; publicada em conjunto com o blog de mesmo nome.<\/span><\/p>\n<p style=\"font-family: Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif; text-align: justify;\"><span style=\"text-decoration: underline;\"><em><strong><span style=\"color: #000080; text-decoration: underline;\">Dois filmes belamente picaretas<\/span><\/strong><\/em><\/span><\/p>\n<p style=\"font-family: Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif; text-align: justify;\"><span style=\"color: #000080;\">Entre todos os longas e m\u00e9dias inscritos na Mostra do Filme Livre, dois deles merecem destaque por serem, talvez, os mais radicais. Semana Santa e Sady Baby s\u00e3o dois trabalhos recentes de um grupo de jovens realizadores de Minas Gerais que se distanciam das tradi\u00e7\u00f5es do cinema po\u00e9tico mineiro e do di\u00e1logo com a videoarte exemplificada nos trabalhos do coletivo Teia. <\/span><\/p>\n<p style=\"font-family: Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif; text-align: justify;\"><span style=\"color: #000080;\">J\u00e1 em Estado de S\u00edtio, longa-metragem realizado coletivamente por oito diretores, esse grupo de realizadores exp\u00f5e sua estil\u00edstica cinematogr\u00e1fica como um ataque frontal ao suposto bom gosto das produ\u00e7\u00f5es f\u00edlmicas brasileiras. Busco, ent\u00e3o, neste texto, aproximar os dois filmes, que me parecem complementares, realizados, cada um deles por uma dupla de realizadores, auxiliados por outros tantos. Mais que diretores, amigos que compartilham a realiza\u00e7\u00e3o de um trabalho de descoberta, mais do que o resultado final. <!--more--><\/span><\/p>\n<p style=\"font-family: Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif; text-align: justify;\"><span style=\"color: #000080;\">S\u00e3o filmes imperfeitos, irregulares, mas que respondem a um apelo fundamental para o esp\u00edrito desta Mostra: a possibilidade de apontar sempre para o inesperado, de criar tens\u00f5es, de serem filmes sobre a descoberta, de ampliar os limites do que estamos vendo e cobrindo em termos de cinema brasileiro. <\/span><\/p>\n<p style=\"font-family: Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif; text-align: justify;\"><span style=\"color: #000080;\">S\u00e3o dois filmes de realizadores que querem dialogar com uma tradi\u00e7\u00e3o de um cinema brasileiro imperfeito, resgatando o esp\u00edrito an\u00e1rquico e descompromissado dessas produ\u00e7\u00f5es, como um gesto de afronta aos filmes que buscam o \u201cbom gosto\u201d das conven\u00e7\u00f5es estil\u00edsticas do cinema contempor\u00e2neo ou sua mera inser\u00e7\u00e3o num circuito de legitima\u00e7\u00e3o, em especial os maiores festivais nacionais e os internacionais.<\/span><span style=\"color: #000080;\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"font-family: Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif; text-align: justify;\"><span style=\"color: #000080;\"><em>Semana Santa<\/em>, de Leo Amaral e Samuel Marotta, apresenta-se a princ\u00edpio como um filme que possui uma rela\u00e7\u00e3o amb\u00edgua entre os limites do document\u00e1rio e da fic\u00e7\u00e3o, pela forma como a dupla de realizadores se infiltra numa prociss\u00e3o de Semana Santa em uma cidade no interior de Minas Gerais, interagindo com os moradores locais. <\/span><\/p>\n<p style=\"font-family: Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif; text-align: justify;\"><span style=\"color: #000080;\">O filme possui sempre um tom de mist\u00e9rio, acompanhando a peregrina\u00e7\u00e3o dos dois realizadores pelas ruas da cidade, entrando aos poucos no tom cerimonioso da prociss\u00e3o. Mas aos poucos, o filme abandona essa postura inicial para assumir um tom nitidamente debochado, como uma cr\u00edtica frontal, nitidamente caricata, aos rituais eclesi\u00e1sticos, como espelho de uma cr\u00edtica mais ampla aos valores das institui\u00e7\u00f5es, incluindo, entre elas, \u00e9 claro, a \u201cinstitui\u00e7\u00e3o-cinema\u201d. <\/span><\/p>\n<p style=\"font-family: Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif; text-align: justify;\"><span style=\"color: #000080;\">Uma ceia \u00e9 formada com um conjunto de amigos, quase como uma par\u00f3dia a Viridiana de Bu\u00f1uel, mas com um tom caricato que nos remete mais \u00e0 amizade entre os integrantes dessa mesa. \u00c9 dessa oscila\u00e7\u00e3o entre a ternura e a cr\u00edtica que Semana Santa procura se equilibrar. Ap\u00f3s a segunda metade, h\u00e1 uma certa descontinuidade, e surge uma das cenas mais pulsantes do recente cinema mineiro: uma cena na piscina que me lembra, de leve, do clima da famosa cena de Rio Babil\u00f4nia, embora (infelizmente) mais leve e ing\u00eanua. <\/span><\/p>\n<p style=\"font-family: Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif; text-align: justify;\"><span style=\"color: #000080;\">Picardias estudantis. Flamingo brinca, bastante \u00e0 vontade, com algumas meninas na piscina. Num longo plano-sequ\u00eancia, aqui n\u00e3o h\u00e1 espa\u00e7o para a dramaturgia narrativa: os personagens brincam de ser, n\u00e3o importa mais se s\u00e3o atores ou personagens, se tudo \u00e9 encenado para a c\u00e2mera ou se acontece de fato ali. Ou seja, h\u00e1 uma dobra dos sinais entre o real e o encenado que se apresentam na primeira parte (a prociss\u00e3o) quase ao avesso. Dobra que fica mais do que caracterizada quando, de forma espelhada (invertida) em rela\u00e7\u00e3o ao in\u00edcio do filme, um personagem anda pelas ruas da cidade. Mas n\u00e3o \u00e9 mais um personagem (um dos realizadores) e sim um dos moradores da regi\u00e3o. Mas que se torna desde j\u00e1 um personagem. E assim em diante.<\/span><span style=\"color: #000080;\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"font-family: Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif; text-align: justify;\"><span style=\"color: #000080;\">J\u00e1 em <em>O Que Teria Acontecido Com Sady Baby?<\/em>, de Leo Pyrata e Flavio C. von Sperling (\u201cFlamingo\u201d), o discurso vai ser ainda mais radical. <\/span><\/p>\n<p style=\"font-family: Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif; text-align: justify;\"><span style=\"color: #000080;\">O filme se apresenta como um document\u00e1rio de percurso, em busca do paradeiro do obscuro cineasta brasileiro Sady Baby, que desenvolveu uma certa marca em filmes porn\u00f4s na virada para o sexo expl\u00edcito em meados dos anos oitenta por abordar um universo punk, com personagens depravados e marginais. <\/span><\/p>\n<p style=\"font-family: Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif; text-align: justify;\"><span style=\"color: #000080;\">Filme de cinema, Sady Baby? \u00e9 um filme-homenagem a um cineasta absolutamente marginal, que fazia cinema para sobreviver, um \u201ccinema belamente picareta\u201d, claramente afastado dos circuitos de legitima\u00e7\u00e3o. Essa \u00e9 justamente a beleza de seu cinema, seu suposto descompromisso, sua paix\u00e3o em filmar da forma como era poss\u00edvel, pela forma frontal com que o diretor abra\u00e7ava o universo dos seus personagens sem retoques e sem fantasias, de forma crua.<\/span><span style=\"color: #000080;\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"font-family: Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif; text-align: justify;\"><span style=\"color: #000080;\">Leo Pyrata escreveu para a Revista Zingu uma curiosa cr\u00edtica sobre um dos filmes de Sady Baby, \u201cO \u00d4nibus da Suruba\u201d. Possivelmente essa seja a \u00fanica cr\u00edtica j\u00e1 escrita sobre esse filme. Essa cr\u00edtica j\u00e1 \u00e9 em si um ato extremamente subversivo, pois Pyrata parece ser o \u00fanico (um dos raros) que consegue ver a possibilidade de que esse filme \u201cmere\u00e7a\u201d uma cr\u00edtica.<\/span><\/p>\n<p style=\"font-family: Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif; text-align: justify;\"><em><span><span style=\"color: #000080; font-family: Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif;\">\u201cO filme \u00e9 feio, sujo e forte, principalmente pela dist\u00e2ncia que se situa das conven\u00e7\u00f5es higi\u00eanico-eug\u00eanicas da fotografia publicit\u00f3ide de produ\u00e7\u00f5es contempor\u00e2neas como Bruna Surfistinha e outras bundas mais lindas da cidade. Negar a for\u00e7a cinematogr\u00e1fica de\u00a0\u00d4nibus\u00a0da suruba \u00e9 como partir em defesa da ditadura do belo, program\u00e1tico, limpo e eficiente e se afinar com as carolas medianas da mercantiliza\u00e7\u00e3o doriana da imagem. Hoje mais que nunca trata-se de um filme bel\u00edssimo.\u201d (<\/span><a style=\"color: #000080; font-family: Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif;\" href=\"http:\/\/revistazingu.net\/2011\/06\/14\/o-onibus-da-suruba\/\" target=\"_blank\">http:\/\/revistazingu.net\/2011\/06\/14\/o-onibus-da-suruba\/<\/a><span style=\"color: #000080; font-family: Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif;\">)<\/span><\/span><span style=\"color: #000080;\">\u00a0<\/span><\/em><\/p>\n<p style=\"font-family: Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif; text-align: justify;\"><span style=\"color: #000080;\">Essa cr\u00edtica deixa bastante clara a admira\u00e7\u00e3o de Pyrata pelo realizador, n\u00e3o pelo \u201cbom gosto\u201d de seus filmes, mas exatamente por como o filme afronta as conven\u00e7\u00f5es do bom gosto. <\/span><\/p>\n<p style=\"font-family: Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif; text-align: justify;\"><span style=\"color: #000080;\">O que gostaria de destacar \u00e9 que Pyrata acaba dizendo que <em>\u201choje mais que nunca se trata de um filme bel\u00edssimo\u201d<\/em> (it\u00e1lico meu). \u00c9 essa no\u00e7\u00e3o de \u201cbeleza\u201d que me interessa destacar, pois os filmes de Sady Baby a princ\u00edpio se afastariam de tudo o que possamos considerar como belo. Mas s\u00e3o belos exatamente pela forma frontal como veem o cinema acima de todo e qualquer circuito de legitima\u00e7\u00e3o. \u00c9 bela a sua forma de fazer um cinema poss\u00edvel em meio a toda a sua aparente impossibilidade de fazer algo. \u00c9 belo o seu desejo de simplesmente fazer um cinema visceral, fiel ao seu pr\u00f3prio universo. Um cinema que sobrevive.<\/span><span style=\"color: #000080;\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"font-family: Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif; text-align: justify;\"><span style=\"color: #000080;\">Assim, como fazer uma homenagem a Sady Baby? Atrav\u00e9s de um filme \u201cfeio, sujo e forte\u201d nas pr\u00f3prias palavras de Pyrata. <\/span><\/p>\n<p style=\"font-family: Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif; text-align: justify;\"><span style=\"color: #000080;\">Um filme que possa agredir o espectador exatamente pela beleza de suas inten\u00e7\u00f5es e pela sua aparente despreocupa\u00e7\u00e3o em agradar. Os dois diretores fazem assim um filme-picareta, um filme-oportunista. No entanto, n\u00e3o h\u00e1 nada mais doce e terno do que a picaretagem e o oportunismo desse filme. Simulam ent\u00e3o um filme que vai em busca do paradeiro de Sady Baby. Montam um projeto e conseguem, toscamente, um financiamento fornecido por Ata\u00eddes Braga. <\/span><\/p>\n<p style=\"font-family: Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif; text-align: justify;\"><span style=\"color: #000080;\">Quase como uma par\u00f3dia de uma coprodu\u00e7\u00e3o internacional, v\u00e3o ao Uruguai (aproveitando a sele\u00e7\u00e3o de Estado de S\u00edtio no prestigioso festival da Cinemateca Uruguaia) e v\u00e3o em busca desse filme em processo de ser feito. Andam de t\u00e1xi, passeiam, visitam a Cinemateca, bebem, vivem, conversam um pouco, visitam um puteiro, andam pelo porto, filmam. At\u00e9 que o dinheiro, o saco e os cart\u00f5es de mem\u00f3ria acabam. \u00c9 hora de voltar para casa. Nada mais picareta. Nada mais belo. Uma banana para tudo o mais. <\/span><\/p>\n<p style=\"font-family: Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif; text-align: justify;\"><span style=\"color: #000080;\">Sady Baby n\u00e3o morreu. Viva o bom cinema picareta brasileiro!<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nesta sexta, mais uma edi\u00e7\u00e3o da coluna sobre Cinema, a &#8220;Cinecasulofilia&#8221;. Como sempre, assinada pelo cr\u00edtico, cineasta e professor Marcelo Ikeda &#8211; publicada em conjuntoTour Details<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[14],"tags":[13,12,11],"class_list":["post-16794","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-cinecasulofilia","tag-cinema","tag-cultura","tag-marcelo-ikeda"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16794","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=16794"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16794\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=16794"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=16794"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=16794"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}