{"id":12970,"date":"2010-02-07T07:46:00","date_gmt":"2010-02-07T09:46:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2010\/02\/sambas-de-enredo-por-marcelo-moutinho\/"},"modified":"2010-02-07T07:46:00","modified_gmt":"2010-02-07T09:46:00","slug":"sambas-de-enredo-por-marcelo-moutinho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2010\/02\/sambas-de-enredo-por-marcelo-moutinho\/","title":{"rendered":"SAMBAS DE ENREDO POR MARCELO MOUTINHO"},"content":{"rendered":"<div align=\"justify\">A revista Bravo! desse m\u00eas vem com um bonito texto do Marcelo Moutinho falando sobre os sambas de enredo cariocas e faz men\u00e7\u00e3o ao livro que Beto Mussa e eu escrevemos a respeito do assunto. Vale a pena reproduzir:<\/div>\n<div align=\"justify\"><em>A prepara\u00e7\u00e3o come\u00e7ava no finzinho da manh\u00e3. Primeiro, uma das pistas era fechada, atravancando ainda mais o tr\u00e2nsito j\u00e1 complicado do s\u00e1bado. Quando se aproximava de uma da tarde, a pol\u00edcia interditava toda a Carvalho de Souza. Em poucos minutos, a rua estaria tomada de gente. Todo Carnaval era assim. Madureira, principal centro comercial do sub\u00farbio do Rio de Janeiro, cerrava as portas de suas lojas e parava para assistir \u00e0 passagem do Bloco das Piranhas. Na rua, milhares de homens barbados metidos em vestidos de chita dan\u00e7avam e cantavam, oferecendo um colorido espet\u00e1culo para o garoto que, de um dos sobrados, a tudo via com olhos \u00famidos de inoc\u00eancia e fasc\u00ednio. O garoto era eu.<br \/>O Carnaval da minha inf\u00e2ncia \u00e9 a imagem difusa desse desfile. As &#8220;piranhas&#8221; agarrando os incautos que passavam pela rua em trajes &#8220;normais&#8221;. As latas de cerveja erguidas sobre as cabe\u00e7as. Os v\u00f4mitos nos postes de uns poucos que resistiam at\u00e9 tarde da noite. E, sobretudo, a m\u00fasica que movia e dava sentido \u00e0 multid\u00e3o: o samba-enredo. Ber\u00e7o do Imp\u00e9rio Serrano e vizinha de Oswaldo Cruz &#8211; o bairro sede da Portela -, Madureira sempre teve esse estilo de samba como trilha-sonora. Na absoluta maioria das casas, o disco com os sambas-enredo era comprado assim que chegava \u00e0s lojas e girava na vitrola at\u00e9 que cada verso estivesse devidamente decorado. Come\u00e7ando, \u00e9 claro, pelos hinos de Imp\u00e9rio e Portela.<br \/>L\u00e1 em casa n\u00e3o era diferente. Aos 8 anos, ao lado de minha m\u00e3e, saudei o circo repetindo o refr\u00e3o de David Corr\u00eaa, Jorge Macedo e Norival Reis para a Portela: &#8220;\u00d3 raia o sol o dindin \/ Suspende a lua dindin \/ Salve o palha\u00e7o \/ Que est\u00e1 l\u00e1 no meio da rua&#8221;. Dois carnavais depois, foi por conta de um samba-enredo que desviei da linhagem portelense da absoluta maioria da fam\u00edlia e abracei a agremia\u00e7\u00e3o de meu pai. O Imp\u00e9rio, ent\u00e3o, denunciava o progressivo gigantismo das escolas (&#8220;Super Escolas de Samba S\/A \/ Super-alegorias \/ Escondendo gente bamba \/ Que covardia!&#8221;) e, com Bum Bum Paticumbum Prugurundum, ganhou o t\u00edtulo. Autores do hino, Beto Sem Bra\u00e7o e Alu\u00edzio Machado cruzaram o bairro em carro aberto, sob aplausos de uma impressionante aglomera\u00e7\u00e3o. Com o Imp\u00e9rio campe\u00e3o e a Portela em segundo, Madureira chorou &#8211; mas de alegria. Naquele 1982, eu completava a primeira d\u00e9cada da exist\u00eancia, cursava a segunda s\u00e9rie prim\u00e1ria num col\u00e9gio do bairro da Piedade, passava as f\u00e9rias na Barra da Tijuca e certamente me apaixonei por alguma menina da escola. A lembran\u00e7a mais funda, contudo, \u00e9 do samba que varreu a cidade e acabaria se tornando cl\u00e1ssico.<br \/>&#8220;\u00c9 lindo o meu salgueiro&#8221;<br \/>Talvez como em nenhum canto do pa\u00eds, no Rio de Janeiro os sambas-enredo s\u00e3o, efetivamente, parte da alma da cidade: tocam nas r\u00e1dios e nas ruas, tornam-se objeto de exaustiva discuss\u00e3o. At\u00e9 a d\u00e9cada de 1980, a seleta com os hinos das escolas vendia mais de um milh\u00e3o de c\u00f3pias por ano, entre LPs e fitas-cassete. Hoje, com a democratiza\u00e7\u00e3o da internet, essa demanda foi canalizada para os sites especializados e para o YouTube, que meses antes do Carnaval j\u00e1 disponibilizam as faixas dos sambas em MP3, al\u00e9m de v\u00eddeos com letra e melodia. Os aficionados, ent\u00e3o, trocam arquivos e impress\u00f5es.<br \/>A popularidade \u00e9 tamanha que as torcidas dos clubes cariocas costumam levar trechos dos hinos para os est\u00e1dios. Os versos &#8220;Explode cora\u00e7\u00e3o \/ Na maior felicidade \/ \u00c9 lindo o meu Salgueiro \/ Contagiando e sacudindo essa cidade&#8221;, com o nome do clube da vez no lugar do termo &#8220;Salgueiro&#8221;, s\u00e3o os campe\u00f5es de audi\u00eancia. Mas o Maracan\u00e3 j\u00e1 ouviu muitos outros sambas, como \u00c9 Hoje (&#8220;\u00c9 hoje o dia da alegria \/ E a tristeza nem pode pensar em chegar&#8221;), da Uni\u00e3o da Ilha, e Chu\u00ea Chu\u00e1, as \u00c1guas V\u00e3o Rolar (&#8220;\u00c9 no chu\u00ea, chu\u00ea, \u00e9 no chu\u00ea, chu\u00e1 \/ N\u00e3o quero nem saber \/ As \u00e1guas v\u00e3o rolar&#8221;), da Mocidade Independente de Padre Miguel, este nos jogos sob chuva. Os alvinegros gostam especialmente de E Por Falar em Saudade (&#8220;Tem bumbum de fora pra chuchu \/ Qualquer dia \u00e9 todo mundo nu&#8221;), da Caprichosos de Pilares, que faz uma men\u00e7\u00e3o direta ao clube (&#8220;Bota, bota, bota fogo nisso&#8221;).<br \/>Os hinos s\u00e3o lembrados tamb\u00e9m nas rodas de samba que se espalham pelo Rio. H\u00e1, inclusive, o caso de um samba-enredo derrotado na disputa interna da escola e que acabou virando item recorrente no repert\u00f3rio dessas rodas. Estrela de Madureira (&#8220;E um trem de luxo parte \/ Para exaltar a sua arte \/ Que encantou Madureira&#8221;), de Acyr Pimentel e Cardoso, hoje \u00e9 mais conhecido do que o hino que o Imp\u00e9rio levou \u00e0 Av. Ant\u00f4nio Carlos em 1975. Muita gente ignora at\u00e9 mesmo tratar-se de um samba, originalmente, de enredo.<br \/>Estranho pensar que, quando as escolas come\u00e7aram a surgir, suas exibi\u00e7\u00f5es n\u00e3o se davam com uma composi\u00e7\u00e3o alusiva \u00e0 hist\u00f3ria contada na Avenida. No in\u00edcio dos anos 1930, \u00e9poca em que agremia\u00e7\u00f5es como a Esta\u00e7\u00e3o Primeira de Mangueira e a Oswaldo Cruz (futura Portela) passaram a se apresentar na Pra\u00e7a Onze, o desfile se desenrolava ao som dos chamados &#8216;sambas de terreiro&#8217;, cujas letras retratavam o cotidiano da comunidade. N\u00e3o havia conex\u00e3o direta entre o que se cantava e o que se exibia.<br \/>Desfazendo (ou aprofundando) a controv\u00e9rsia sobre qual teria sido o primeiro samba exaltar especificamente o tema definido pela escola, no rec\u00e9m-lan\u00e7ado Samba de Enredo: Hist\u00f3ria e Arte, o escritor Alberto Mussa e o historiador Luiz Antonio Simas apontam 61 anos de Rep\u00fablica, de 1951. Segundo eles, embora tribut\u00e1rio de experi\u00eancias anteriores levadas a cabo pela Unidos da Tijuca, pela Portela e pela Mangueira, foi o hino de Silas de Oliveira para o Imp\u00e9rio que finalmente sintetizou o formato. No livro, os autores investigam as origens do samba-enredo, sua evolu\u00e7\u00e3o formal e tem\u00e1tica. Desmontam a tese de que os enredos nacionalistas que predominavam at\u00e9 os anos 1970 se deviam somente \u00e0 imposi\u00e7\u00e3o do governo, mostrando que as agremia\u00e7\u00f5es tomavam esse caminho tamb\u00e9m para conquistar aceita\u00e7\u00e3o social, legitimando-se frente ao Estado. E lembram sambas que acabaram soterrados pelo tempo, de escolas como Em Cima da Hora e Tupi de Br\u00e1s de Pina.<br \/>&#8220;\u00c9 pav\u00e3o ou \u00e9 veado&#8221;Mas o rigor da pesquisa n\u00e3o \u00e9 capaz de solapar a mem\u00f3ria afetiva. O salgueirense Mussa recorda-se, por exemplo, das manh\u00e3s em que ia \u00e0 praia com a m\u00e3e ouvindo tocar, no r\u00e1dio do carro, Onde o Brasil Aprendeu a Liberdade (&#8220;Cirandeiro, cirandeiro \u00f3 \/ A pedra do teu anel \/ Brilha mais do que o sol&#8221;), da Vila Isabel. O imperiano Simas conta que descobriu o duplo significado da palavra &#8220;veado&#8221; com o samba Sonhar com Rei d\u00e1 Le\u00e3o (&#8220;Sonhar com filharada \u00e9 o coelhinho \/ Com gente teimosa, na cabe\u00e7a d\u00e1 burrinho \/ E com rapaz todo enfeitado \/ O resultado pessoal \u00e9 pav\u00e3o ou \u00e9 veado), da Beija-Flor. E ainda hoje sofre quando escuta Inven\u00e7\u00e3o de Orfeu, da Vila Isabel, que remonta ao ano da separa\u00e7\u00e3o de seus pais.<br \/>Apaixonado pelo assunto como os dois, curiosamente s\u00f3 fui sair na minha escola de cora\u00e7\u00e3o em 1996 &#8211; e exatamente em raz\u00e3o de um samba-enredo. A Serrinha prestaria tributo ao soci\u00f3logo Herbert de Souza, j\u00e1 bastante debilitado, e o samba de Alu\u00edzio Machado, Lula, Beto Pernada, Arlindo Cruz, e \u00cdndio do Imp\u00e9rio era capaz de emocionar o mais frio dos homens. &#8220;Quero ter a minha terra, \u00f4 \u00f4 \u00f4 \/ Meu pedacinho de ch\u00e3o, meu quinh\u00e3o \/ Isso nunca foi segredo \/ Quem \u00e9 pobre t\u00e1 com fome \/ Quem \u00e9 rico t\u00e1 com medo&#8221;, dizia o refr\u00e3o, e a cada audi\u00e7\u00e3o me dominava o pavor de n\u00e3o participar de uma vit\u00f3ria imperiana &#8211; e com um grande samba. Faltando tr\u00eas dias para o desfile, telefonei para a quadra e comprei uma fantasia. Sozinho, sem conhecer ningu\u00e9m da ala ou da escola, cheguei \u00e0 Avenida. Procurei fantasias iguais \u00e0 minha e, ao encontrar, fiquei por perto, esperando o momento de entrar. Ao pisar na Sapuca\u00ed, desabei no choro.Ali, na presen\u00e7a de componentes com quem nunca sequer conversara, na cad\u00eancia singular daquela bateria, naquele belo samba, n\u00e3o havia apenas uma l\u00edrica e contudente cr\u00edtica social. Ali, estava a casa da minha bisav\u00f3, estava o primeiro amor num parquinho de Madureira, estava o meu pai. At\u00e9 hoje, a cada vez que entro na quadra ou desfilo no Imp\u00e9rio, sinto como se estivesse com ele, a barriga inflada de chope, o Hollywood no bolso da camisa. Escutar os sambas do Imp\u00e9rio s\u00e3o meu modo de vencer tardiamente o c\u00e2ncer que o derrotou, de t\u00ea-lo novamente comigo. E restaurar uma nesga de ilus\u00e3o que, como um dia cantou a Vila, ajuda a dar &#8220;raz\u00f5es pra vida t\u00e3o real da quarta-feira&#8221;. <\/em><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A revista Bravo! desse m\u00eas vem com um bonito texto do Marcelo Moutinho falando sobre os sambas de enredo cariocas e faz men\u00e7\u00e3o ao livroTour Details<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[292],"tags":[],"class_list":["post-12970","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-historias-brasileiras"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12970","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=12970"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12970\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=12970"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=12970"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=12970"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}