{"id":12905,"date":"2010-08-31T12:34:00","date_gmt":"2010-08-31T14:34:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2010\/08\/morre-o-moto\/"},"modified":"2010-08-31T12:34:00","modified_gmt":"2010-08-31T14:34:00","slug":"morre-o-moto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2010\/08\/morre-o-moto\/","title":{"rendered":"MORRE O MOTO"},"content":{"rendered":"<div><\/div>\n<div><\/div>\n<div><a href=\"http:\/\/3.bp.blogspot.com\/_OmnJuwB8hy0\/THzdaB5MM6I\/AAAAAAAABDU\/OzIP8RzEcfc\/s1600\/Moto+club.JPG\" imageanchor=\"1\"><img decoding=\"async\" border=\"0\" ox=\"true\" src=\"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2010\/08\/Moto+club.jpg\"><\/a><\/div>\n<div>Recebi hoje a confirma\u00e7\u00e3o de uma not\u00edcia lament\u00e1vel. O Moto Club de S\u00e3o Lu\u00eds, um dos principais clubes do Maranh\u00e3o, dono de imensa torcida, encerrou as atividades no futebol profissional neste \u00faltimo dia 27\u00a0 de agosto. A diretoria do Moto declarou n\u00e3o ter mais condi\u00e7\u00f5es\u00a0para manter o time diante das demandas do futebol atual [leia-se: falta grana].<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Lament\u00e1vel, rigorosamente lament\u00e1vel , mais esse cap\u00edtulo da transforma\u00e7\u00e3o do futebol brasileiro em um ramo do <em>big business,<\/em> da consolida\u00e7\u00e3o dos clubes como valhacoutos de escroques travestidos em empres\u00e1rios e da prolifera\u00e7\u00e3o de jogadores-celebridades desvinculados da hist\u00f3ria e das tradi\u00e7\u00f5es dos times.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Morre o Moto no momento em que morrem tamb\u00e9m as camisas dos clubes, mantos sagrados transformados em vitrines de exposi\u00e7\u00e3o de toda a sorte de produtos: telefonia celular, pomada de vaca, plano de sa\u00fade, leite condensado, funer\u00e1ria, montadora de autom\u00f3vel, empresa da constru\u00e7\u00e3o civil e\u00a0quejandos. Dia chegar\u00e1 em que os escudos ser\u00e3o tirados da camisa para sobrar espa\u00e7o pra mais um jabazinho e ningu\u00e9m perceber\u00e1.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Morre o\u00a0Moto em nome da gest\u00e3o empresarial, da moderniza\u00e7\u00e3o dos est\u00e1dios, do estatuto do torcedor, dos fabulosos investimentos para a realiza\u00e7\u00e3o\u00a0da Copa de 2014, dos t\u00e9cnicos\u00a0com sal\u00e1rios de\u00a0quinhentos mil reais, dos bandidos da bola e dos ap\u00f3stolos dos gramados e seus moralismos de ocasi\u00e3o.\u00a0<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Morre o Moto como corre o risco de\u00a0desaparecer a tradi\u00e7\u00e3o do tambor de crioula do Maranh\u00e3o. Nas palavras de um velho tambozeiro que conheci em Alc\u00e2ntara, os lugares onde se podia escutar\u00a0o tambor s\u00e3o agora destinados ao <em>reggae,<\/em> para a alegria de moderninhos e antenados que v\u00eaem\u00a0em qualquer\u00a0mistureba uma prova de vitalidade cultural. Viva o moderno e que se dane o eterno, goza o deus mercado.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Morre o Moto como pode morrer a Casa das Minas, vener\u00e1vel matriz da religiosidade afro-maranhense. As mo\u00e7as mais novas, dizem as velhas do tambor, n\u00e3o se interessam mais pelo legado de voduns e encantados e n\u00e3o h\u00e1 mais tempo dispon\u00edvel para o longo aprendizado do\u00a0mist\u00e9rio\u00a0demandado pelo Tempo maior. <\/div>\n<div><\/div>\n<div>E algu\u00e9m, por acaso, sugere o que deve fazer o torcedor do Moto?\u00a0 Escolhe outro clube, com a naturalidade de quem muda de roupa\u00a0e troca um objeto quebrado pelo novo? E os senhores de setenta e poucos anos que viram e viraram Moto durante a conquista do t\u00edtulo da Copa Norte-Nordeste de 1947 e do Torneio Campe\u00e3o dos Campe\u00f5es do Norte em 1948? <\/div>\n<div><\/div>\n<div>E a nova gera\u00e7\u00e3o &#8211; os netos dos fundadores e torcedores \u00a0do velho \u00a0Moto Club, o Pap\u00e3o do Norte, Rubro-Negro da Fabril &#8211;\u00a0torcer\u00e1 para quem? \u00a0\u00c9 simples. Os moleques torcer\u00e3o, evidentemente, pela Inter de Mil\u00e3o, Barcelona ou Milan. Viva a globaliza\u00e7\u00e3o! Ou, na melhor das hip\u00f3teses e como \u00e9 comum ocorrer, pelos clubes grandes do sul maravilha. Mas, ai deles, n\u00e3o ter\u00e3o o pertencimento que s\u00f3 o clube da\u00a0aldeia \u00e9 capaz de proporcionar.<\/p>\n<p>O velho torcedor,\u00a0e como\u00a0\u00e9 duro constatar isso, est\u00e1 morrendo. Em seu lugar\u00a0surge o cliente dos tempos do futebol-empresa. Somos agora, os que queremos apenas torcer pelo time, tratados como\u00a0clientes nos est\u00e1dios, consumidores em potencial\u00a0de jogos, pacotes televisivos, produtos com a marca da\u00a0 patrocinadora e outros balacobacos.<\/p><\/div>\n<div><\/div>\n<div>Morre o Moto como morre a aldeia, a terra, a comida da terra, a v\u00e1rzea, a esquina e\u00a0o canto de cada canto. Morre o Moto como amanh\u00e3 dan\u00e7ar\u00e1, no corpo da \u00faltima sacerdotisa do Tambor de Mina,\u00a0o derradeiro encantado em pedra, flor, areia e vento\u00a0da praia do Len\u00e7ol. <\/div>\n<div><\/div>\n<div>Morre o Moto como morrer\u00e1, em alguma madrugada grande, o \u00faltimo tocador do tambor de crioula e com ele a arte de evocar no couro a mem\u00f3ria dos mortos. Ningu\u00e9m saber\u00e1\u00a0como bater o tambor que convida os ancestrais\u00a0a bailar entre os vivos. Seremos apenas &#8211; e cada vez mais &#8211;\u00a0homens provis\u00f3rios, desprovidos da perman\u00eancia que s\u00f3 a ancestralidade e a comunidade garantem. <\/div>\n<p>Morre o Moto enquanto se desencanta o mundo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Recebi hoje a confirma\u00e7\u00e3o de uma not\u00edcia lament\u00e1vel. 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