{"id":12888,"date":"2010-11-24T08:43:00","date_gmt":"2010-11-24T10:43:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2010\/11\/eu-sou-do-rio-de-janeiro\/"},"modified":"2012-12-30T09:07:31","modified_gmt":"2012-12-30T11:07:31","slug":"eu-sou-do-rio-de-janeiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2010\/11\/eu-sou-do-rio-de-janeiro\/","title":{"rendered":"EU SOU DO RIO DE JANEIRO"},"content":{"rendered":"<div align=\"justify\"><\/div>\n<div>O Jornal <em>O Globo<\/em> resolveu, definitivamente, apostar na ideia de que a solu\u00e7\u00e3o para os problemas urbanos do Rio de Janeiro \u00e9 mais simples do que se imagina: basta\u00a0transformar a cidade em uma imensa casa do Big Brother Brasil, em que todo mundo fuxica a vida de todo mundo, o\u00a0cotidiano se transforma em um espet\u00e1culo midi\u00e1tico, o dedo-duro \u00e9 elevado \u00e0 categoria de cidad\u00e3o exemplar e\u00a0a sensa\u00e7\u00e3o do medo \u00e9 usada como poderoso instrumento de controle social.\u00a0O discurso do jornal &#8211; em nome do interesse coletivo &#8211; t\u00e3o somente refor\u00e7a o individualismo mais tacanho que\u00a0inviabiliza a urbanidade.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>A \u00faltima investida do jornal\u00e3o\u00a0\u00e9 sintom\u00e1tica. O Globo criou\u00a0uma conta no<em> twitter<\/em> para que o carioca denuncie\u00a0\u00a0ilegalidades que v\u00e3o desde carros estacionados de forma irregular at\u00e9 barraquinhas de cachorro quente,\u00a0botequins e\u00a0 bancas de flores\u00a0que amea\u00e7am o incontrol\u00e1vel desejo conservador da cidade-enfermaria. O polemista, advogado e centroavante carioca \u00a0Eduardo Goldenberg\u00a0j\u00e1 desancou\u00a0<a href=\"http:\/\/butecodoedu.blogspot.com\/2010\/11\/do-dosador.html\" target=\"_blank\"><strong>aqui<\/strong><\/a>\u00a0 , com propriedade, os aspectos jur\u00eddicos da coisa e a histeria coletiva \u00a0dos volantes de conten\u00e7\u00e3o.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Vou insistir mais uma vez, por v\u00edcio de forma\u00e7\u00e3o e clamando feito um Jo\u00e3o Batista no deserto, que as reflex\u00f5es sobre os problemas urbanos do Rio de Janeiro ( e de qualquer cidade ) devem ser feitas em uma perspectiva que encare a\u00a0urbe como um organismo vivo feito de hist\u00f3ria, lugares de mem\u00f3ria, espa\u00e7os de conflito, inst\u00e2ncias de urbanidade, rela\u00e7\u00f5es tensas e intensas entre os diferentes grupos que habitam a aldeia, etc.\u00a0Darei meu pitaco, nessa dimens\u00e3o,\u00a0sobre o twitter alcag\u00fcete (mantenho o trema) que o jornal criou e outras coisas mais.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Os primeiros governos republicanos criminalizaram\u00a0as diversas manifesta\u00e7\u00f5es da cultura popular no Rio de Janeiro &#8211; quase todas marcadamente vinculadas \u00e0s \u00e1fricas que existem nas nossas ruas.\u00a0Jogar capoeira passou\u00a0 a ser crime\u00a0no C\u00f3digo Penal de 1890, os terreiros de macumba foram grosseiramente reprimidos e a posse de um pandeiro era mais que suficiente para a pol\u00edcia enquadrar o sambista na lei de repress\u00e3o \u00e0 vadiagem\u00a0. Os intelectuais do per\u00edodo &#8211; com raras exce\u00e7\u00f5es &#8211; pregavam a necessidade de se promover um branqueamento da popula\u00e7\u00e3o brasileira; \u00fanica garantia de civilizar as nossas gentes. Chamarei aten\u00e7\u00e3o para esse fato quantas vezes for necess\u00e1rio.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Quando a escravid\u00e3o foi pra cucuia, houve uma deliberada pol\u00edtica de atrair imigrantes europeus para c\u00e1. N\u00e3o h\u00e1 qualquer registro de iniciativa p\u00fablica que tenha pensado na integra\u00e7\u00e3o do ex-escravo ao exerc\u00edcio pleno da cidadania e ao mercado formal de trabalho. A ideia era estimular a imigra\u00e7\u00e3o de brancos do velho mundo. O modelo de aboli\u00e7\u00e3o da escravatura no Brasil foi descrito e analisado em 1.500 teses acad\u00eamicas. Todas elas podem ser resumidas em uma \u00fanica frase do samba da Mangueira de 1988: &#8220;&#8230;livre do a\u00e7oite da senzala \/ preso na mis\u00e9ria da favela&#8221; (<em>H\u00e9lio Turco e Jurandir &#8211; 100 anos de liberdade, realidade ou ilus\u00e3o<\/em>).<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Uma das primeiras leis de estimulo \u00e0 imigra\u00e7\u00e3o no per\u00edodo falava que o Brasil abria as portas, sem restri\u00e7\u00f5es, para a chegada dos imigrantes europeus. Africanos e asi\u00e1ticos, por\u00e9m, s\u00f3 poderiam entrar com autoriza\u00e7\u00e3o do Congresso Nacional, em cotas pr\u00e9-estabelecidas. Traduzindo o babado: que venha o imigrante, contanto que seja branco e crist\u00e3o. Mais do que encontrar m\u00e3o de obra, a imigra\u00e7\u00e3o no Brasil foi estimulada como meio de branquear a popula\u00e7\u00e3o e instituir h\u00e1bitos europeus entre os nossos. O negro foi\u00a0tolerado no Brasil apenas enquanto o meio de transporte para chegar\u00a0\u00e0s nossas praias\u00a0foi o navio negreiro, assim como certos segmentos das elites (n\u00e3o todos, que fique claro) toleram as camadas populares porque precisam de empregadas dom\u00e9sticas, bab\u00e1s,\u00a0porteiros, lavadores de carros e\u00a0catadores de lixo.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>\u00c9 exatamente dentro desse contexto racista e discriminat\u00f3rio do p\u00f3s-aboli\u00e7\u00e3o que come\u00e7a a ser gerada a rea\u00e7\u00e3o a essa pol\u00edtica p\u00fablica elitista: a\u00a0cultura da fresta\u00a0como meio de reinven\u00e7\u00e3o da vida e constru\u00e7\u00e3o de uma no\u00e7\u00e3o de pertencimento ao grupo e ao espa\u00e7o urbano.\u00a0 A ilegalidade no Rio de Janeiro, do ponto de vista hist\u00f3rico, foi portanto\u00a0a op\u00e7\u00e3o que um\u00a0estado racista e excludente deu \u00e0 maioria da popula\u00e7\u00e3o da nossa cidade. Foi o poder p\u00fablico que n\u00e3o quis incluir.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Desnecess\u00e1rio dizer que quando falo em ra\u00e7a n\u00e3o uso o termo no sentido biol\u00f3gico ( pois que se sabe que ra\u00e7a como conceito biol\u00f3gico n\u00e3o existe). Uso ra\u00e7a no sentido social, hist\u00f3rico, pol\u00edtico e econ\u00f4mico. Ra\u00e7a n\u00e3o existe nos laborat\u00f3rios de biologia\u00a0 mas continua existindo nas cadeias, nas salas de tortura, nas grandes empresas e nas ca\u00e7ambas dos cambur\u00f5es.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Quando ou\u00e7o falar, portanto,\u00a0em choque de ordem, proibi\u00e7\u00e3o de cerveja no Maracan\u00e3, ordena\u00e7\u00e3o das torcidas nos est\u00e1dios, \u00a0remo\u00e7\u00e3o de favelas e quejandos, me ocorre o seguinte: As pessoas que atuam na m\u00eddia mais poderosa e\u00a0os respons\u00e1veis pelas pol\u00edticas p\u00fablicas\u00a0t\u00eam alguma dimens\u00e3o sobre o que significa, do ponto de vista cultural, a rela\u00e7\u00e3o entre legalidade e ilegalidade por aqui?\u00a0A coisa est\u00e1 sendo pensada apenas em termos criminais, quando at\u00e9 as pinturas rupestres da Serra da Capivara sabem que o\u00a0buraco \u00e9 mais embaixo.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Incluir \u00e9 simplesmente enfiar a pol\u00edcia no morro, reprimir a viol\u00eancia, colocar o moleque pra tocar violino em orquestra de m\u00fasica cl\u00e1ssica e\u00a0estimular o garoto a \u00a0praticar esportes? Isso pode\u00a0ser um passo necess\u00e1rio (acho, com uma outra pondera\u00e7\u00e3o, que \u00e9) mas\u00a0tento ir\u00a0\u00a0al\u00e9m e escapar da reflex\u00e3o imediatista\u00a0que a histeria da sociedade do espet\u00e1culo e do consumo acr\u00edtico\u00a0da not\u00edcia\u00a0imp\u00f5e.\u00a0E o al\u00e9m\u00a0\u00e9 dar a esse garoto o direito de conhecer de onde vem sua cultura, seus modos de sentir, amar, comer, se expressar, conviver na rua, respeitar o mercado [o de Exu, e n\u00e3o o financeiro] e, sobretudo, reconhecer que n\u00f3s tentamos embraquecer o negro mas foi ele que nos empreteceu e nos civilizou poderosamente. Isso se faz com Educa\u00e7\u00e3o mai\u00fascula, e n\u00e3o com a reprodu\u00e7\u00e3o pura e simples nos bancos de escolas de conte\u00fados desprovidos do contato com a realidade de quem aprende.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>O povo bateu tambor em fundo de quintal, jogou capoeira, fez a sua f\u00e9 no bicho, botou o bloco na rua, a cadeira na cal\u00e7ada, o despacho na esquina, a oferenda na mata, a bola na rede e o mel de Oxum na cachoeira &#8211; j\u00e1 que sem um chamego acolhedor ningu\u00e9m vive direito. Exclu\u00eddo dos sal\u00f5es do poder, o carioca inventou o ano novo na praia, zuelando atabaques em louvor a Iemanj\u00e1, Jana\u00edna, Yara e Kianda. Colocamos na Virgem da Concei\u00e7\u00e3o e na Senhora dos Navegantes os seios fartos de deusa africana.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>O povo do Rio teve que inventar a cidade [e a cidadania] que lhe foi covardemente negada e criou esse modo de ser que atropela conven\u00e7\u00f5es, confunde, seduz, agride e comove. Qualquer tentativa de ordem p\u00fablica deve partir desse pressuposto e tramar, a\u00ed, inst\u00e2ncias de interlocu\u00e7\u00e3o e o fomento de\u00a0di\u00e1logos entre a popula\u00e7\u00e3o e o poder institu\u00eddo. H\u00e1 que se perceber, nos meandros do legal e do ilegal, a maneira que o carioca encontrou, ao longo de sua hist\u00f3ria, para subverter a escurid\u00e3o dos tumbeiros, a ca\u00e7a aos \u00edndios tamoios e a ferida aberta pelos trezentos anos de chibata. N\u00f3s somos o povo que bateu tambor na fresta e criou a subvers\u00e3o pela festa.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Qualquer debate que ignore isso \u00e9 provis\u00f3rio, equivocado e, como sempre, excludente. A leitura meramente\u00a0institucional ou criminal\u00a0de um processo que, como qualquer outro, \u00e9 hist\u00f3rico e cultural, empobrece a discuss\u00e3o, estimula o erro e aponta solu\u00e7\u00f5es imediatistas que n\u00e3o se sustentam em um prazo mais longo.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Eu quero\u00a0o conv\u00edvio \u00a0urbano e as ruas pacificadas. E rua pacificada \u00e9 rua cheia, n\u00e3o \u00e9 rua vazia de gente onde vez por outra se escutam tiros ou onde prevale\u00e7a a bandidagem mais deslavada ou\u00a0a\u00a0Ordem do Choque.\u00a0\u00a0Os mocinhos de O Globo, que\u00a0encaram a cidade fomentando o individualismo mais tacanho, o olhar enviezado e o clima de desconfian\u00e7a entre seus habitantes,\u00a0prestam um desservi\u00e7o. A pol\u00edtica p\u00fablica, estimulada pela m\u00eddia mais reacion\u00e1ria e imediatista, que negue nossa peculiaridade e atue pelo vi\u00e9s exclusivo da repress\u00e3o \u00e9 fadada ao mais retumbante fracasso. Pe\u00e7o apenas isso: que se reflita sobre a atua\u00e7\u00e3o e o papel do Estado sem se\u00a0perder a dimens\u00e3o profunda do que n\u00f3s, os cariocas, somos e constru\u00edmos no tempo e no espa\u00e7o. Administrar uma cidade, falar sobre uma cidade, escrever sobre ela, propor pol\u00edticas p\u00fablicas, implica conhecimento, reflex\u00e3o, amor e intera\u00e7\u00e3o com os seus modos de recria\u00e7\u00e3o da vida e produ\u00e7\u00e3o de cultura, fun\u00e7\u00e3o que nos faz humanos e nos redime do absurdo da morte.<\/div>\n<div>Eu continuarei daqui, dessa parte que me cabe no latifundio da grande rede, a\u00a0\u00a0bradar louvores pela\u00a0civiliza\u00e7\u00e3o peculiar que Jo\u00e3o Candido, Z\u00e9 Pelintra, Pixinguinha, Paulo da Portela, Cunhambebe, Cartola, Noel Rosa, Bide, o Caboclo das Sete Encruzilhadas, Tia Ciata, Meia Noite, Madame Sat\u00e3, Lima Barreto, Paula Brito, Marques Rebelo, Manduca da Praia, Silas, Anescar, Dona Fia, Fio Maravilha, Le\u00f4nidas da Silva, Di Cavalcanti, os judeus da Pra\u00e7a Onze, a pomba gira cigana, a escrava Anast\u00e1cia, o Cristo de Porto das Caixas, o Z\u00e9 das Couves, o vendedor de mate, o apontador do bicho, o professor, o aluno, o gari, os l\u00edderes anarquistas da greve de 1919, a Banda do Corpo de Bombeiros, a torcida do Flamengo, o p\u00f3-de-arroz, a cachorrada, a nau do Almirante, o Bafo da On\u00e7a, o Cacique de Ramos, o Domingo de Ramos, a festa da Penha, a festa na lage e a cerveja criaram nesse extremo ocidente. Com baixaria na s\u00e9tima corda.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>A nossa maresia, conforme mestre Darcy Ribeiro ensinou, traz na asa do vento o cec\u00ea das pretas de Angola.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Abra\u00e7o<\/div>\n<div><\/div>\n<div><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Jornal O Globo resolveu, definitivamente, apostar na ideia de que a solu\u00e7\u00e3o para os problemas urbanos do Rio de Janeiro \u00e9 mais simples doTour Details<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[292],"tags":[295,70],"class_list":["post-12888","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-historias-brasileiras","tag-brasileiras","tag-rio-de-janeiro"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12888","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=12888"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12888\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=12888"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=12888"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=12888"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}