{"id":12882,"date":"2010-12-20T14:00:00","date_gmt":"2010-12-20T16:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2010\/12\/a-musica-sacra-dos-terreiros-o-ijexa\/"},"modified":"2010-12-20T14:00:00","modified_gmt":"2010-12-20T16:00:00","slug":"a-musica-sacra-dos-terreiros-o-ijexa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2010\/12\/a-musica-sacra-dos-terreiros-o-ijexa\/","title":{"rendered":"A M\u00daSICA SACRA DOS TERREIROS &#8211; O IJEX\u00c1"},"content":{"rendered":"<div>Escrevi certa feita um texto sobre os atabaques dos candombl\u00e9s e seus tocadores (pode ser lido <b><a href=\"http:\/\/hisbrasileiras.blogspot.com\/2010\/09\/alabes-runtos-e-xicaramgomos-os-pais.html\" target=\"_blank\">aqui<\/a><\/b> ) . Come\u00e7o hoje a\u00a0apresentar, em textos\u00a0introdut\u00f3rios &#8211; voltados sobretudo\u00a0para os n\u00e3o iniciados interessados em conhecer um pouco mais sobre a beleza da nossa cultura &#8211;\u00a0os ritmos sagrados dos terreiros do Brasil.<\/div>\n<div>Dizem os mais velhos das casas de candombl\u00e9 que os atabaques conversam com os homens. Cada toque guarda um determinado discurso,\u00a0passa determinada mensagem, conta alguma hist\u00f3ria. O tocador dos tambores rituais precisa conhecer o toque adequado para cada orix\u00e1, vodum ou inquice. Se o drama representado pela dan\u00e7a de um orix\u00e1 se refere a uma guerra, o toque \u00e9 um &#8211; em geral com caracter\u00edsticas marciais. Se a ideia \u00e9 contar atrav\u00e9s da dan\u00e7a sacra uma passagem de paz, o toque \u00e9 outro. H\u00e1 toques para expressar conquistas, alegrias, tristezas, cansa\u00e7o, realeza, harmonia, suavidade, conflitos&#8230; N\u00e3o se deve, sob nenhuma hip\u00f3tese,\u00a0bater para um determinado orix\u00e1 um toque que n\u00e3o se relacione \u00e0s suas caracter\u00edsticas. <\/p>\n<p>\u00c9 importante lembrar que um <em>xir\u00ea<\/em>, a festa de candombl\u00e9, \u00e9 o momento em que os orix\u00e1s baixam nos corpos das ia\u00f4s para representar &#8211; atrav\u00e9s da dan\u00e7a, dos trajes e emblemas\u00a0&#8211; passagens de suas trajet\u00f3rias. Atrav\u00e9s da representa\u00e7\u00e3o dram\u00e1tica, a comunidade se recorda do mito e\u00a0 dele tira\u00a0um determinado modelo de conduta.\u00a0 As dan\u00e7as, ao\u00a0contar hist\u00f3rias\u00a0protagonizadas pelos\u00a0orix\u00e1s, servem de exemplo para os membros do grupo. Ritualiza-se o mito em m\u00fasica e dan\u00e7a, cren\u00e7a e arte,\u00a0para que ele continue vivo para a comunidade, cumprindo assim sua fun\u00e7\u00e3o modelar.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>De todos os\u00a0toques sacros do candombl\u00e9 de Ketu, o Ijex\u00e1 \u00e9 provavelmente o mais suave. Vale esclarecer, para inicio de conversa, que a palavra Ijex\u00e1 origina-se do voc\u00e1bulo <em>Ij\u00e8s\u00e1<\/em>, uma subdivis\u00e3o da etnia iorub\u00e1 e o nome da cidade nigeriana que \u00e9 considerada o ber\u00e7o do grupo. Nessa cidade se cultuam sobretudo Oxum e Logun-Ed\u00e9 &#8211; e o Ijex\u00e1 designa o ritmo das dan\u00e7as principais\u00a0desses orix\u00e1s. Tocam-se, tamb\u00e9m, ijex\u00e1s (ainda que n\u00e3o seja o ritmo predominante) para Exu, Osain, Ogum, Oy\u00e1, Ob\u00e1, Oxal\u00e1, Orunmil\u00e1 &#8230; <\/div>\n<div><\/div>\n<div>O Ijex\u00e1 \u00e9\u00a0apresentado nos terreiros somente com as m\u00e3os, dispensando-se o uso dos aguidavis (as baquetas de percuss\u00e3o). O ritmo \u00e9 suave e cadenciado, emoldurando a dan\u00e7a dengosa e sensual de Oxum e Logum. O g\u00e3 (agog\u00f4) acompanha sempre os atabaques, marcando o compasso. <\/div>\n<div><\/div>\n<div>De ritmo dos terreiros, o ijex\u00e1 acabou tamb\u00e9m chegando ao carnaval, a partir da cria\u00e7\u00e3o dos afox\u00e9s baianos\u00a0(cortejos carnavalescos de adeptos do candombl\u00e9)\u00a0no final do s\u00e9culo XIX.\u00a0Algumas pessoas e at\u00e9 mesmo alguns livros\u00a0fazem certa confus\u00e3o ao citar o afox\u00e9 como um ritmo. O afox\u00e9 \u00e9 o cortejo &#8211; o ritmo que emoldura o cortejo \u00e9 o ijex\u00e1. A express\u00e3o afox\u00e9, inclusive, vem do iorub\u00e1 <em>\u00e0fose<\/em> (encanta\u00e7\u00e3o pelo som, pela palavra) . Os cubanos\u00a0usam a express\u00e3o <em>afoch\u00e9<\/em> para designar o ato de enfeiti\u00e7ar algu\u00e9m com o p\u00f3 da magia. \u00a0Ao\u00a0toque do Ijex\u00e1, os antigos afox\u00e9s buscavam encantar os concorrentes, desfilando pelas ruas em formato processional. O afox\u00e9\u00a0Filhos de Gandhi, fundado por og\u00e3ns de candombl\u00e9 na d\u00e9cada de 1940, at\u00e9 hoje\u00a0se apresenta\u00a0no carnaval ao som do ijex\u00e1 &#8211; e come\u00e7a sempre o cortejo tocando para Logun-Ed\u00e9.<\/p>\n<p>Os que j\u00e1 viram um xir\u00ea certamente se recordam das dan\u00e7as de Oxum e seu filho\u00a0Logun-Ed\u00e9,\u00a0simulando\u00a0o banho\u00a0vaidoso nas \u00e1guas dos rios,\u00a0enquanto se miram no\u00a0espelho e seduzem a todos de forma faceira e, vez por outra, enganadora. O toque do Ijex\u00e1 busca descrever, por isso, a cad\u00eancia sedutora e feiticeira\u00a0das \u00e1guas.<\/p>\n<p>O mestre Nei Lopes, refer\u00eancia fundamental para quem se interessar pelas culturas africanas e o Brasil, comp\u00f4s no in\u00edcio dos anos 80 um ijex\u00e1 em homenagem a Logun-Ed\u00e9, magistralmente gravado\u00a0por Clara Nunes. \u00c9 um exemplo contundente da import\u00e2ncia dos ritmos sacros para a m\u00fasica brasileira. A grava\u00e7\u00e3o abaixo, garimpada no youtube, \u00e9 interessante porque come\u00e7a com o ijex\u00e1 tocado nos terreiros e abre para a grava\u00e7\u00e3o da guerreira, a grande Clara: <\/p>\n<p>Retorno ao tema em outros textos.<\/p>\n<p>Abra\u00e7os<\/p><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Escrevi certa feita um texto sobre os atabaques dos candombl\u00e9s e seus tocadores (pode ser lido aqui ) . Come\u00e7o hoje a\u00a0apresentar, em textos\u00a0introdut\u00f3rios &#8211;Tour Details<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[],"tags":[297,326,325,327],"class_list":["post-12882","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","tag-encantarias","tag-ijexa","tag-logun-ede","tag-oxum"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12882","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=12882"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12882\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=12882"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=12882"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=12882"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}