{"id":12881,"date":"2010-12-21T09:18:00","date_gmt":"2010-12-21T11:18:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2010\/12\/iemanja-e-o-ano-novo\/"},"modified":"2010-12-21T09:18:00","modified_gmt":"2010-12-21T11:18:00","slug":"iemanja-e-o-ano-novo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2010\/12\/iemanja-e-o-ano-novo\/","title":{"rendered":"IEMANJ\u00c1 E O ANO NOVO"},"content":{"rendered":"<div><\/div>\n<div><a href=\"http:\/\/2.bp.blogspot.com\/_OmnJuwB8hy0\/TRCIJkTDJ4I\/AAAAAAAABIk\/KquEPW03h3s\/s1600\/2-fevereiro-dia-yemanja-l-11.jpg\" imageanchor=\"1\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" border=\"0\" height=\"320\" n4=\"true\" src=\"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2010\/12\/2-fevereiro-dia-yemanja-l-11.jpg\" width=\"232\"><\/a><\/div>\n<div><em><span><strong><span>Texto publicado originalmente no jornal O Globo, no dia 21 de dezembro de 2010<\/span>.<\/strong><\/span><\/em><\/p>\n<p>A comemora\u00e7\u00e3o do Ano Novo no primeiro dia de janeiro \u00e9 mais recente do que, provavelmente, o leitor imagina. Ao longo dos tempos e das diversas civiliza\u00e7\u00f5es, a data de celebra\u00e7\u00e3o de um novo ciclo mudou in\u00fameras vezes. Os babil\u00f4nicos costumavam comemorar o novo ano no equin\u00f3cio da primavera; os ass\u00edrios e eg\u00edpcios realizavam os festejos em setembro; os gregos celebravam o furdun\u00e7o em finais de dezembro. Chineses, japoneses, judeus e mu\u00e7ulmanos ainda t\u00eam datas pr\u00f3prias e motivos diferentes para comemorar o ano bom. Entre os povos ocidentais, a data de primeiro de janeiro tem origem entre os romanos (J\u00falio C\u00e9sar a estabeleceu em 46 A.C.). S\u00f3 em 1582, com a ado\u00e7\u00e3o do calend\u00e1rio gregoriano, a igreja cat\u00f3lica oficializou o primeiro dia de janeiro como o in\u00edcio do novo ano no calend\u00e1rio ocidental. Muito tempo depois do Papa Greg\u00f3rio VIII, mais precisamente em 1951, Chico Alves e David Nasser fizeram <em>Adeus, Ano<\/em> <em>Velho<\/em>, a mais popular can\u00e7\u00e3o brasileira sobre a tradi\u00e7\u00e3o das festas de fim de ano.<\/div>\n<div><\/div>\n<div><\/div>\n<div>Em v\u00e1rias civiliza\u00e7\u00f5es o in\u00edcio de um novo ciclo \u00e9 comemorado com muito barulho, gritaria, bater de bumbos, tambores, fogos, fogueiras, fanfarras, cambalhotas e outros salamaleques. Os antigos diziam que fazer a barulheira era fundamental para despachar os maus esp\u00edritos para os cafund\u00f3s mais distantes e garantir a boa colheita, a sa\u00fade e a prosperidade. O neg\u00f3cio, portanto, \u00e9 mandar ver no furdun\u00e7o para garantir a boa ventura contra todo tipo de urucubaca.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Entre o povo da cidade do Rio de Janeiro, naturalmente festeiro, o h\u00e1bito de se comemorar o r\u00e9veillon na praia virou uma tradi\u00e7\u00e3o mundialmente conhecida, que influenciou v\u00e1rias cidades litor\u00e2neas a fazer a mesma coisa. H\u00e1 que se reconhecer, por\u00e9m, que os cariocas devem grande parcela do costume da festa na praia aos umbandistas, que durante muitos anos ocupavam as areias praticamente sozinhos para louvar Iemanj\u00e1 \u2013 a orix\u00e1 africana que se transformou na mais brasileira das deusas, miscigenada com a Nossa Senhora cat\u00f3lica e a Uiara dos ind\u00edgenas. <\/div>\n<div><\/div>\n<div>\n<div><a href=\"http:\/\/3.bp.blogspot.com\/_OmnJuwB8hy0\/TRCIfMLDbKI\/AAAAAAAABIo\/3inp6LG13NY\/s1600\/HOMENA%257E1.JPG\" imageanchor=\"1\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" border=\"0\" height=\"240\" n4=\"true\" src=\"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2010\/12\/HOMENA%257E1.jpg\" width=\"320\"><\/a><\/div>\n<p><\/div>\n<div>Era bonito ver a orla ocupada pelos terreiros e a noite iluminada pelas velas em louvor a Iemanj\u00e1, tudo isso ao som de atabaques e c\u00e2nticos misteriosos &#8211; verdadeiros press\u00e1gios brasileiros de boa sorte. Quem chegasse perto, fosse umbandista, cat\u00f3lico, esp\u00edrita, evang\u00e9lico, hindu, mu\u00e7ulmano, judeu, flamenguista, vasca\u00edno, tricolor ou botafoguense, era muito bem recebido e ainda come\u00e7ava o ano novo devidamente garantido contra o infort\u00fanio. Conhe\u00e7o muitos ateus que, por via das d\u00favidas, abriam uma exce\u00e7\u00e3o ao misticismo e garantiam o ano bom recebendo passes de caboclos e pretos velhos nas areias, com direito a cocares, charutos e quejandos.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>A confraterniza\u00e7\u00e3o que todo ano ocorre em Copacabana \u00e9 bacana pacas, tem seus m\u00e9ritos, virou atra\u00e7\u00e3o tur\u00edstica da cidade, atra\u00ed gente de tudo quanto \u00e9 canto, gera divisas e garante a ocupa\u00e7\u00e3o da rede hoteleira. \u00c9 necess\u00e1rio, por\u00e9m, colocar um pouco de \u00e1gua nesse chope dos entusiastas da festa atual e lembrar que o Rio de Janeiro tem uma d\u00edvida enorme com o povo da umbanda, que hoje se encontra praticamente exclu\u00eddo do fuzu\u00ea. Os shows de roqueiros, sambistas, astros pop, sertanejos, rappers, DJs de m\u00fasica eletr\u00f4nica, revela\u00e7\u00f5es adolescentes, cantoras baianas, blocos carnavalescos e o escambau, al\u00e9m de transformar a festa em um verdadeiro sarapatel sonoro, calaram os tambores rituais. A elitiza\u00e7\u00e3o da festa, que j\u00e1 se manifesta em espa\u00e7os reservados nas areias, controlados por grupos privados, hot\u00e9is, quiosques e que tais, lembra muito o processo de mercantiliza\u00e7\u00e3o que atingiu as escolas de samba. De entidades culturais representativas da cultura carioca, as agremia\u00e7\u00f5es se transformaram em alguma coisa pr\u00f3xima do que o Imp\u00e9rio Serrano, em um samba premonit\u00f3rio, chamou de super-escolas de samba S.A.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Que a tradi\u00e7\u00e3o do fim de ano, portanto, n\u00e3o encontre no poder p\u00fablico um agente legitimador de interesses privados, sob o falso argumento de uma festa para todos que, cada vez mais, perde a espontaneidade e a vitalidade que sempre a caracterizaram. Em nome de gest\u00f5es modernosas e engenharias financeiras, corre-se o risco de se transformar o ador\u00e1vel e popular furdun\u00e7o em algo mais parecido com um bloco carnavalesco com abad\u00e1s e cordas, para gringo ver e o Comit\u00ea Ol\u00edmpico Internacional aplaudir.<\/p>\n<p>Odoy\u00e1!!<\/p>\n<p><strong><em><span><\/span><\/em><\/strong><\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Texto publicado originalmente no jornal O Globo, no dia 21 de dezembro de 2010. 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