{"id":12873,"date":"2011-02-24T08:20:00","date_gmt":"2011-02-24T10:20:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2011\/02\/dom-quixote-e-o-foliao\/"},"modified":"2011-02-24T08:20:00","modified_gmt":"2011-02-24T10:20:00","slug":"dom-quixote-e-o-foliao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2011\/02\/dom-quixote-e-o-foliao\/","title":{"rendered":"DOM QUIXOTE E O FOLI\u00c3O"},"content":{"rendered":"<div><\/div>\n<div><a href=\"http:\/\/3.bp.blogspot.com\/-EOkr3CdpJKk\/TWYvt8Oi8LI\/AAAAAAAABJY\/T_iQURJmcBw\/s1600\/BlocoEuSozinho.jpg\" imageanchor=\"1\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" border=\"0\" height=\"320\" j6=\"true\" src=\"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2011\/02\/BlocoEuSozinho.jpg\" width=\"212\"><\/a><\/div>\n<div>Miguel de Cervantes tentou, com o seu Dom Quixote de La Mancha, satirizar os romances de cavalaria medievais. Acabou produzindo uma poderosa met\u00e1fora dos sonhos humanos, suas grandezas e mis\u00e9rias, al\u00e9m de escrever o livro mais engra\u00e7ado que li. O orix\u00e1 Dorival Caymmi dizia que o Quixote \u00e9 uma esp\u00e9cie de B\u00edblia Sagrada. Como Caymmi nunca errou, eu acredito e rezo seu credo no Carnaval que se aproxima.<\/p>\n<p>Se algum dia algu\u00e9m resolvesse escrever uma vers\u00e3o brasileira do Quixote, n\u00e3o tenho d\u00favidas de que o nosso <em>cavaleiro da triste figura<\/em> deveria ser representado pelo foli\u00e3o do Bloco do Eu Sozinho. \u00c9 isso mesmo: sempre que penso em um Quixote brasileiro, imagino aquele sujeito que vestiu a sua fantasia e saiu \u00e0s ruas no Carnaval rigorosamente solit\u00e1rio, no m\u00e1ximo na companhia de desajeitados escudeiros catados por acaso\u00a0em alguma esquina.<\/div>\n<div><\/div>\n<div><\/div>\n<div>Explico. Sempre fui um vigoroso defensor de uma ideia que n\u00e3o tem l\u00e1 muitos adeptos e que j\u00e1 apresentei alhures: os maiores foli\u00f5es s\u00e3o os tristes. O Carnaval, definitivamente, n\u00e3o foi feito para os alegres, os festeiros escancarados, as globelezas, os baianos de ocasi\u00e3o, as polianas desvairadas do sonho bom, os colecionadores de abad\u00e1s que depois da festa ser\u00e3o usados como uniformes de muscula\u00e7\u00e3o.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>O verdadeiro foli\u00e3o &#8211; o triste &#8211; sabe que a experi\u00eancia carnavalesca \u00e9 uma pequena morte. Durante os dias de Momo, a m\u00e1scara prevalece e todas as invers\u00f5es sociais s\u00e3o urgentes e necess\u00e1rias. \u00c9 quando devemos esquecer o que somos, o que fazemos e, nos casos mais agudos, a quem amamos. <\/p>\n<p>Esquecimento, eis a\u00ed a ess\u00eancia da folia. Que se vista o elmo, a malha e\u00a0a coura\u00e7a do cavaleiro\u00a0&#8211; um pierr\u00f4 apaixonado, um\u00a0desajeitado palha\u00e7o\u00a0ou alguma provis\u00f3ria melindrosa. Que se empunhe a lan\u00e7a\u00a0e se monte em algum Rocinante que n\u00e3o h\u00e1. As fanfarras anunciar\u00e3o, no sassarico da porta da Colombo, o combate de tr\u00eas dias\u00a0entre o\u00a0fidalgo e os moinhos.<\/p><\/div>\n<div><\/div>\n<div>O leg\u00edtimo foli\u00e3o n\u00e3o programa o Carnaval. Sabe apenas que vai para a rua imolar-se nos blocos e cord\u00f5es, receber a\u00a0un\u00e7\u00e3o dos enfermos\u00a0com \u00e1gua benta de alto teor alco\u00f3lico e morrer at\u00e9 a quarta-feira de cinzas, quando ressuscitar\u00e1 como burocrata, marido, professor ou escritur\u00e1rio, para o longo e med\u00edocre intervalo cotidiano entre um carnaval e outro.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Lembro , por exemplo, de uma hist\u00f3ria exemplar que meu av\u00f4 contava sobre um velho foli\u00e3o pernambucano, trist\u00edssimo, casado com uma tremenda jararaca, que saiu na sexta-feira, v\u00e9spera do in\u00edcio do tr\u00edduo, com o argumento de que iria comprar uns caranguejos &#8211; prato predileto da patroa &#8211; para comer enquanto assistia aos desfiles das escolas de samba pela televis\u00e3o, na santa paz do lar.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Eis que o marido zeloso reaparece, pra l\u00e1 de Bagd\u00e1, na quarta-feira de cinzas, protagonizando uma cena definitiva. Fantasiado de Nero, espalha vinte caranguejos vivos na entrada da casa e chama a mulher, preparada para trucid\u00e1-lo. Ao ver a fera, come\u00e7a a falar alto, dando esporro nos crust\u00e1ceos dec\u00e1podes :<\/div>\n<div><\/div>\n<div>&#8211; Mais um pouco, pessoal. Falta pouco. Como s\u00e3o lentos. Quatro dias com a maior paci\u00eancia e nada de voc\u00eas andarem mais r\u00e1pido.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Entrou , evidentemente, no rolo de pastel, mas honrou os bagos e as tradi\u00e7\u00f5es. Cumpriu um dever.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>\u00c9 necess\u00e1rio brincar, senhores, \u00e9 urgente esquecer. O verdadeiro devoto de Momo, o maior dos solit\u00e1rios, \u00e9 um morto se esbaldando na multid\u00e3o. Brincar o Carnaval, para um Quixote ao sul do Equador, n\u00e3o \u00e9 op\u00e7\u00e3o. \u00c9 o juramento de consagra\u00e7\u00e3o, ao som de <em>quem n\u00e3o chora n\u00e3o mama<\/em>, do mais leal dos cavaleiros.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Evo\u00e9!<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Miguel de Cervantes tentou, com o seu Dom Quixote de La Mancha, satirizar os romances de cavalaria medievais. 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