{"id":12857,"date":"2011-05-24T03:41:00","date_gmt":"2011-05-24T05:41:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2011\/05\/voce-luiz-antonio-simas-vai-ser-enterrado-vivo\/"},"modified":"2011-05-24T03:41:00","modified_gmt":"2011-05-24T05:41:00","slug":"voce-luiz-antonio-simas-vai-ser-enterrado-vivo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2011\/05\/voce-luiz-antonio-simas-vai-ser-enterrado-vivo\/","title":{"rendered":"VOC\u00ca, LUIZ ANTONIO SIMAS, VAI SER ENTERRADO VIVO"},"content":{"rendered":"<div><\/div>\n<div><a href=\"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2011\/05\/crianca-medo.jpg\" imageanchor=\"1\"><img decoding=\"async\" border=\"0\" j8=\"true\" src=\"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2011\/05\/crianca-medo.jpg\"><\/a><\/div>\n<div>Amigos, n\u00e3o sei exatamente quando resolvi, no meu velho e falecido blog Hist\u00f3rias do Brasil, relatar coisas que, inicialmente, pensava fazer apenas atrav\u00e9s de algum m\u00e9dium de mesa branca depois de morto. Para garantir, por\u00e9m, a veracidade absoluta dos fatos, decidi na ocasi\u00e3o\u00a0que eu mesmo me psicografaria ainda em vida. \u00c9 mais seguro, estou certo disso, ser o m\u00e9dium de si mesmo e antecipar as broncas e mem\u00f3rias do al\u00e9m t\u00famulo. Luiz Antonio Simas psicografado por Luiz Antonio Simas.<\/div>\n<div><\/div>\n<div><\/div>\n<div>A primeira confiss\u00e3o que fiz alhures\u00a0j\u00e1 versava sobre as assombra\u00e7\u00f5es\u00a0que acompanharam a minha forma\u00e7\u00e3o e\u00a0s\u00e3o hoje, que sou pai de um moleque, objetos de minhas constantes\u00a0reflex\u00f5es noturnas &#8211; o rel\u00f3gio do computador marca, nesse momento, 02:24 da madruga. Benjamin mama feito bezerro do sert\u00e3o e eu escrevo esse arrazoado imaginando hist\u00f3rias aterrorizantes para contar ao petiz.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Em recente texto (sobre a loura morta de algod\u00f5es nas narinas que atacava crian\u00e7as nos banheiros escolares, ralos que sugavam meninos, peda\u00e7os de defunto em garrafas de refrigerante e quejandos) defendi a ideia de que toda pedagogia infantil, para ser eficiente, precisa incluir um repert\u00f3rio vasto de temores e assombra\u00e7\u00f5es capazes de fazer a crian\u00e7a sossegar o facho. \u00c9 tradi\u00e7\u00e3o familiar.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Cito o exemplo do meu\u00a0av\u00f4. O velho \u00a0Luiz Grosso, que\u00a0nasceu\u00a0em 1922 em Pernambuco e, estranhamente, jurava ter participado com uma espingarda\u00a0da\u00a0marcha dos 18 do forte de Copacabana no mesmo ano, \u00a0foi educado com muito carinho e rigor\u00a0pelos pais, o seu Salvador e a dona Carmem.\u00a0Sofria, quando aprontava alguma merda, a amea\u00e7a de ser entregue pela pr\u00f3pria fam\u00edlia aos cuidados do psicopata, tarado e homossexual Febr\u00f4nio \u00cdndio do Brasil. Esse cabra, para quem n\u00e3o sabe, foi acusado de estuprar e matar dois garotos em 1927, com requintes de tremenda crueldade. <\/div>\n<div><\/div>\n<div>Doido de pedra, Febr\u00f4nio virou inimigo p\u00fablico n\u00famero um do pa\u00eds e\u00a0foi o primeiro paciente do Manic\u00f4mio Judici\u00e1rio do Rio de Janeiro. Meu velho, que fora tamb\u00e9m in\u00fameras vezes amea\u00e7ado pelo pai de ser vendido por uns merr\u00e9is ao bando de Lampi\u00e3o, n\u00e3o tinha um pingo de medo do cangaceiro caolho e cabeludo, mas se pelava todo ao ouvir a senten\u00e7a :<\/div>\n<div><\/div>\n<div>\u00a0&#8211; Ent\u00e3o vou te entregar hoje mesmo, e de gra\u00e7a, ao Febr\u00f4nio \u00cdndio do Brasil. Vou chamar o Febr\u00f4nio. <\/div>\n<div><\/div>\n<div>S\u00f3 a\u00ed o menino se aquietava, imaginando uma bicha tarada e doida lhe arrancando as tripas.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Minha cria\u00e7\u00e3o \u00a0honrou a tradi\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia. Boa parte dos pavores que tive foram incutidos pela minha querida tia av\u00f3, dona Lita, de saudosa mem\u00f3ria, mas com um humor de c\u00e3o raivoso. Cuidou muito de mim. Exemplifico. Para evitar que eu sa\u00edsse sozinho, falasse com estranhos, aceitasse jujubas no meio da rua e coisas do g\u00eanero, tia Lita fazia uma amea\u00e7a terr\u00edvel : <\/div>\n<div><\/div>\n<div>&#8211; V\u00e3o te sequestrar. V\u00e3o fazer com voc\u00ea a mesma coisa que fizeram com o menino Carlinhos.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>O Carlinhos, para quem n\u00e3o \u00e9 da \u00e9poca, foi um garoto lourinho e sardento raptado na Rua Alice, em Laranjeiras, no in\u00edcio dos anos 70. O sumi\u00e7o do petiz gerou como\u00e7\u00e3o nacional. Apelou-se at\u00e9 para Seu Sete Rei da Lira, um exu que dava consultas e passes em programas de audit\u00f3rio e usava uma capa com um tridente de lantejoulas bordadas, para dizer onde menino estava. Seu Sete, que sabia das coisas, disse que Carlinhos n\u00e3o estava morto, mas nunca mais seria encontrado. E at\u00e9 hoje n\u00e3o foi. Vivi, confesso aos amigos, um bom tempo atormentado por uma certeza inapel\u00e1vel &#8211; eu era o pr\u00f3ximo nome da lista dos sequestradores do Carlinhos.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Um dia pedi que minha tia contasse uma hist\u00f3ria na hora de dormir. Imaginei algo no estilo gato de botas, tr\u00eas porquinhos ou a roupa nova do rei. Ela, por\u00e9m, achou mais conveniente e adequado a uma crian\u00e7a de seis anos contar a macabra trama da morte de Sergio Cardoso, um ator famoso \u00e0 \u00e9poca. <\/div>\n<div><\/div>\n<div>O neg\u00f3cio \u00e9 o seguinte &#8211; S\u00e9rgio Cardoso sofria de catalepsia e havia suspeitas de que fora enterrado vivinho da silva. Minha tia afirmava que era a mais cristalina verdade. Dizia ela que ap\u00f3s o enterro, que comoveu multid\u00f5es, os funcion\u00e1rios do cemit\u00e9rio come\u00e7aram a escutar gritos horrendos que vinham da sepultura do ator. Acharam que era coisa de alma penada, mas os gritos duraram meses, quebrando\u00a0a tranquilidade\u00a0da cidade do p\u00e9 junto e revelando que havia algo de podre no Nosso Lar.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Depois de muita\u00a0gritaria\u00a0algu\u00e9m levantou a lebre de que S\u00e9rgio Cardoso talvez estivesse querendo sair do caix\u00e3o. Os coveiros, assombrados com a hip\u00f3tese, resolveram abrir a urna para dar uma olhadinha. A cena foi horripilante &#8211; o corpo estava revirado e a tampa do caix\u00e3o, arranhada,\u00a0apresentava sinais de que o defunto\u00a0 tentara escapar de todas as maneiras. A not\u00edcia, apesar dos desmentidos oficiais,\u00a0se espalhou feito mato.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Tia Lita concluiu o relato sobre o drama de Sergio Cardoso com uma frase lapidar, ideal para embalar os sonhos infantis, e que tem at\u00e9 hoje para mim um impacto maior do que qualquer m\u00e1xima sheakesperiana : <\/div>\n<div><\/div>\n<div>&#8211; Muitas pessoas, meu sobrinho, muitas mesmo, praticamente todas, acabam sendo enterradas vivas e ningu\u00e9m sabe. <\/p>\n<p>E arrematava \u00a0feito o goleador implac\u00e1vel que, com a bola pererecando na grande \u00e1rea,\u00a0est\u00e1 se lixando\u00a0para a agonia do goleiro:<\/p>\n<p>&#8211; Voc\u00ea, Luiz Antono Simas [tia Lita me chamava pelo nome completo em ocasi\u00f5es solenes],\u00a0\u00a0vai ser enterrado vivo.<\/p><\/div>\n<div>Abra\u00e7os<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Amigos, n\u00e3o sei exatamente quando resolvi, no meu velho e falecido blog Hist\u00f3rias do Brasil, relatar coisas que, inicialmente, pensava fazer apenas atrav\u00e9s de algumTour Details<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[],"tags":[314,316],"class_list":["post-12857","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","tag-confissoes","tag-infancia"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12857","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=12857"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12857\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=12857"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=12857"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=12857"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}