{"id":12855,"date":"2011-05-29T10:53:00","date_gmt":"2011-05-29T12:53:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2011\/05\/fim-de-tarde-no-bode\/"},"modified":"2011-05-29T10:53:00","modified_gmt":"2011-05-29T12:53:00","slug":"fim-de-tarde-no-bode","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2011\/05\/fim-de-tarde-no-bode\/","title":{"rendered":"FIM DE TARDE NO BODE"},"content":{"rendered":"<div>A circunst\u00e2ncia de ter um filho de dois meses e pouco &#8211; e a op\u00e7\u00e3o irredut\u00edvel de n\u00e3o ter bab\u00e1 &#8211; tem me feito frequentar apenas botequins muito pr\u00f3ximos da minha casa para a \u00e1gua benta do fim de tarde.\u00a0Tenho ido, por isso, com mais frequ\u00eancia ao Bode Cheiroso,\u00a0estabelecimento\u00a0de boa pipa\u00a0\u00a0quase ao lado de onde moro. Ao pensar no Bode me\u00a0permitam citar, para\u00a0que os\u00a0malungos entendam onde quero chegar,\u00a0um velho texto em que defini o que espero de um \u00a0botequim:<\/div>\n<div><\/div>\n<div><em>O\u00a0velho buteco, o p\u00e9-sujo, \u00e9 a \u00c1gora carioca. No botequim n\u00e3o h\u00e1 grifes, n\u00e3o h\u00e1 o corpo-m\u00e1quina, o corpo-em-si-mesmo, a vitrine, o mercado pairando como um deus a exigir que se cumpram seus rituais.<\/em><\/div>\n<div><em><\/em><\/div>\n<p><em><\/em><\/p>\n<div><em>O buteco \u00e9 a casa do mal gosto, do disforme, do arroto, da barriga indecente, da porrada, da grosseria, do afeto, da gentileza, da proximidade, do debate, da exposi\u00e7\u00e3o das fraquezas, da dor de corno, da alegria do novo amor, do exerc\u00edcio, enfim, de uma forma de cidadania muito peculiar.<\/em><\/div>\n<div><\/div>\n<div><em>A luta pelo boteco \u00e9 a possibilidade de manter viva uma \u00c1gora efetivamente popular, espa\u00e7o de gera\u00e7\u00e3o de id\u00e9ias e utopias &#8211; sem viadagens intelectuais, mas fundadas na sabedoria dos que tem pouco e precisam inventar a vida &#8211; que possam nos regenerar da fal\u00eancia de uma (des)humanidade que limita-se a sonhar com a roupa nova e o corpo moldado. O botequim \u00e9 o anti-shopping center, \u00e9 a anti-globaliza\u00e7\u00e3o, \u00e9 a recusa mais veemente ao corpo-m\u00e1quina dos atletas ol\u00edmpicos ou ao corpo doente das anor\u00e9xicas &#8211; doen\u00e7a comum nesse mundo desencantado.<\/em><\/div>\n<div><em><\/em><\/div>\n<div><em><br \/><\/em><\/div>\n<div><em>Ali, entre garrafas vazias, chinelos de dedo, copos americanos, pratos feitos e petiscos gordurosos, daquele mar de barrigas indecentes, onde S\u00e3o Jorge \u00e9 o deus e mercado \u00e9 s\u00f3 a feira da esquina, a vida resiste aos desmandos da uniformiza\u00e7\u00e3o e o ser humano \u00e9 restitu\u00eddo ao que h\u00e1 de mais valente e humano na sua trajet\u00f3ria &#8211; a capacidade de sonhar seus del\u00edrios e afogar suas dores e medos na pr\u00f3xima cacha\u00e7a. \u00c9 onde a alma da cidade grita &#8211; N\u00e3o passar\u00e3o!<\/em><\/div>\n<div><\/div>\n<div>Pois bem, camaradas, o Bode Cheiroso funciona mais ou menos assim. A come\u00e7ar pelo\u00a0Bigode,\u00a0que controla o balc\u00e3o\u00a0feito Domingos da Guia dominava a grande \u00e1rea e\u00a0abre cerveja atr\u00e1s de cerveja\u00a0como Garrincha enfileirava os marcadores.\u00a0\u00c9 craque.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Eu s\u00f3 acredito em gar\u00e7ons que pare\u00e7am egressos do canga\u00e7o. S\u00e3o\u00a0cada vez mais raros diante da profus\u00e3o dos garot\u00f5es\u00a0de aventalzinho, das mo\u00e7as moderninhas e dos efeminados\u00a0que\u00a0pululam feito mato\u00a0nos bares de grife. A\u00a0\u00a0destreza\u00a0com que Bigode abre\u00a0uma ampola\u00a0cu de foca &#8211;\u00a0como se fizesse isso desde que o primeiro\u00a0homin\u00eddeo caminhou ereto na Serra da Capivara &#8211; \u00e9 a mesma com que Lampi\u00e3o manuseava o fuzil parabelo.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>N\u00e3o, no Bode n\u00e3o tem Comida Di Buteco.\u00a0At\u00e9 porque\u00a0os frequentadores do Bode s\u00e3o do tempo em que Di era s\u00f3 o Cavalcanti, fauno tropical que\u00a0retratava as mulatas mais gostosas com as tintas brasileiras. Vez por outra, \u00e9 justo recordar, aparecia algum bandido de um metro e meio com a cl\u00e1ssica alcunha de Di Menor. E a onda do Di\u00a0parava por a\u00ed.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Espero apenas que o Bode n\u00e3o acabe sucumbindo aos apelos modernosos dos p\u00e9s limpos e de seus programadores visuais e assessores de imprensa.\u00a0Sou\u00a0um sujeito tradicional, o que n\u00e3o se confunde com um conservador. Refiro-me , aqui , a ideia de uma tradi\u00e7\u00e3o que n\u00e3o \u00e9 est\u00e1tica. Falo dela como o ato de transmitir ou entregar algo para que o receptor tenha condi\u00e7\u00f5es de colocar mais um elo numa corrente. Essa corrente \u00e9 a cultura de um povo. Posso recorrer a uma velha met\u00e1fora , a da \u00e1rvore que , por ter as ra\u00edzes mais profundas , cresce mais vigorosa . Cultura \u00e9 isso; a capacidade de criar e recriar a partir do legado dos ancestrais. Aprendi assim e \u00e9 assim que enxergo o mundo.<\/div>\n<div><\/div>\n<div><\/div>\n<div>Vivemos, por\u00e9m, tempos desencantados em que acredita-se na t\u00e1bula rasa. Rompa com o passado , ignore o que \u00e9 antigo , olhe sempre pra frente , a vida come\u00e7a agora , o futuro bate a nossa porta, danem-se os cinquenta anos que passaram &#8211; o neg\u00f3cio s\u00e3o os dez anos que vir\u00e3o por a\u00ed. Enchamos as burras.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>P\u00e9 de pato, mangal\u00f4, tr\u00eas vezes. Que isso n\u00e3o ocorra e\u00a0eu continue tendo, ao morar perto do Bode, o mesmo prazer\u00a0do egipt\u00f3logo que mora quase ao lado das pir\u00e2mides de Gizeh. <\/p>\n<p>N\u00e3o sou profeta e n\u00e3o conduzo ningu\u00e9m. Quero apenas ter o direito de buscar, quando a tarde cai numa esquina da Zona Norte carioca, o meu cadinho da Cana\u00e3, a terra prometida aos homens simples de boa vontade.<\/p>\n<p>Abra\u00e7os<\/p><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A circunst\u00e2ncia de ter um filho de dois meses e pouco &#8211; e a op\u00e7\u00e3o irredut\u00edvel de n\u00e3o ter bab\u00e1 &#8211; tem me feito frequentarTour Details<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[],"tags":[315,295],"class_list":["post-12855","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","tag-bode-cheiroso","tag-brasileiras"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12855","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=12855"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12855\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=12855"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=12855"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=12855"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}