{"id":12829,"date":"2012-02-18T08:40:00","date_gmt":"2012-02-18T10:40:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2012\/02\/salvem-o-foliao\/"},"modified":"2012-02-18T08:40:00","modified_gmt":"2012-02-18T10:40:00","slug":"salvem-o-foliao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2012\/02\/salvem-o-foliao\/","title":{"rendered":"SALVEM O FOLI\u00c3O"},"content":{"rendered":"<div><a href=\"http:\/\/3.bp.blogspot.com\/-QohL276K9bg\/Tz-ADNtJdzI\/AAAAAAAABLY\/eiSm-fCEvYU\/s1600\/BlocoEuSozinho.jpg\" imageanchor=\"1\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" border=\"0\" height=\"320\" src=\"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2012\/02\/BlocoEuSozinho.jpg\" width=\"212\" yda=\"true\"><\/a><\/div>\n<div><\/div>\n<div><em>Eis a\u00ed, na \u00edntegra, o meu texto publicado originalmente em O Globo, edi\u00e7\u00e3o do dia 18 de fevereiro de 2012<\/em>.<\/div>\n<div><\/div>\n<div><strong>Se algum dia algu\u00e9m resolvesse escrever uma vers\u00e3o brasileira do Dom Quixote, n\u00e3o tenho d\u00favidas de que o cavaleiro da triste figura deveria ser representado pelo foli\u00e3o do Bloco do Eu Sozinho. \u00c9 isso mesmo: o Quixote brasileiro \u00e9 aquele sujeito que vestiu a fantasia e saiu \u00e0s ruas no carnaval rigorosamente solit\u00e1rio ou, no m\u00e1ximo, na companhia de desajeitados escudeiros catados \u00e0 sorrelfa em alguma esquina. <\/strong><\/div>\n<p><strong><\/strong><\/p>\n<div><strong>Esse foli\u00e3o est\u00e1 em vias de se extinguir, engolido pelas multid\u00f5es coreografadas, submerso em materiais de propaganda de empresas que patrocinam a folia e atropelado por caminh\u00f5es de som com amplificadores potentes. N\u00e3o bastasse isso, se o solit\u00e1rio foli\u00e3o consegue um espa\u00e7o para erguer o seu estandarte e sair cantando a Jardineira, \u00e9 capaz de ser abordado por um fiscal da prefeitura em busca do alvar\u00e1 que lhe conceda a licen\u00e7a para cair na gandaia. <\/strong><\/div>\n<p><strong><\/strong><\/p>\n<div><strong>Sempre fui defensor de uma ideia que n\u00e3o tem l\u00e1 muitos adeptos: os maiores foli\u00f5es s\u00e3o os tristes. O tr\u00edduo n\u00e3o foi feito para os festeiros escancarados, os baianos de ocasi\u00e3o, as polianas desvairadas do sonho bom, os colecionadores de abad\u00e1s. O leg\u00edtimo foli\u00e3o n\u00e3o programa o carnaval; sabe apenas que vai para a rua imolar-se nos blocos e cord\u00f5es e morrer at\u00e9 a quarta-feira de cinzas, quando ressuscitar\u00e1 como burocrata, marido, esposa, professor ou escritur\u00e1rio, para o longo e med\u00edocre intervalo cotidiano entre um carnaval e outro. <\/strong><\/div>\n<p><strong><\/strong><\/p>\n<div><strong>A ideia de se transformar o carnaval de rua em uma eterna micareta no balne\u00e1rio dos grandes eventos \u2013 e os conseq\u00fcentes dilemas que envolvem as rela\u00e7\u00f5es entre o poder p\u00fablico e as agremia\u00e7\u00f5es carnavalescas \u2013 envolve o risco de matar o foli\u00e3o espont\u00e2neo, comandante de uma armada de piratas, colombinas, \u00edndios, fara\u00f3s e \u00e1rabes que v\u00e3o se juntando sem trajeto definido, hor\u00e1rio de partida ou de chegada. <\/strong><\/div>\n<p><strong><\/strong><\/p>\n<div><strong>Durante a Primeira Rep\u00fablica, o governo resolveu alterar a data do Carnaval de 1912, em virtude do falecimento do bar\u00e3o do Rio Branco. Quando correu a not\u00edcia de que o velho tinha batido a ca\u00e7oleta, foi determinado que a festa de Momo se realizasse apenas no s\u00e1bado de Aleluia. Resultado: os an\u00f4nimos foli\u00f5es foram saindo \u00e0s ruas de mansinho e, quando se percebeu, o fuzu\u00ea estava formado antes mesmo que o cad\u00e1ver do bar\u00e3o esfriasse na sepultura. O pov\u00e3o batia bumbos e cantava uma quadrinha que se espalhou pela cidade: \u201cCom a morte do Bar\u00e3o\/ Teremos dois carnav\u00e1\/Ai que bom, ai que gostoso\/ Se morresse o marech\u00e1\u201d. O marechal em quest\u00e3o era simplesmente o presidente Hermes da Fonseca. N\u00e3o conhe\u00e7o momento mais emblem\u00e1tico na hist\u00f3ria do carnaval carioca. <\/strong><\/div>\n<p><strong><\/strong><\/p>\n<div><strong>O verdadeiro foli\u00e3o \u2013 espremido entre a cruz (a multid\u00e3o organizada) e a espada (o alvar\u00e1 que n\u00e3o possui) &#8211; sabe que a experi\u00eancia carnavalesca \u00e9 uma pequena morte. Durante os dias de Momo, a m\u00e1scara prevalece e todas as invers\u00f5es sociais s\u00e3o urgentes e necess\u00e1rias. O esquecimento \u00e9 a ess\u00eancia da folia. A espontaneidade \u00e9 o seu mote. \u00c9 direito de todo carnavalesco zombar pacificamente dos bar\u00f5es e marechais da vez \u2013 e isso deve lhe ser garantido pelos pr\u00f3prios bar\u00f5es e marechais. <\/strong><\/div>\n<p><strong><\/strong><\/p>\n<div><strong>Que cada um dos consagrados na Ordem de Momo tenha, pacificamente, a liberdade de se esbaldar. \u00c9 poss\u00edvel?<\/strong><\/div>\n<p><strong>Evo\u00e9!\u00a0<\/strong><br \/><strong><br \/><\/strong><\/p>\n<div><\/div>\n<p><\/p>\n<div><\/div>\n<p><\/p>\n<div><\/div>\n<p><\/p>\n<div><\/div>\n<p><\/p>\n<div><\/div>\n<p><\/p>\n<div><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Eis a\u00ed, na \u00edntegra, o meu texto publicado originalmente em O Globo, edi\u00e7\u00e3o do dia 18 de fevereiro de 2012. 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