{"id":12824,"date":"2012-06-04T14:10:00","date_gmt":"2012-06-04T16:10:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2012\/06\/a-agora-carioca\/"},"modified":"2012-06-04T14:10:00","modified_gmt":"2012-06-04T16:10:00","slug":"a-agora-carioca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2012\/06\/a-agora-carioca\/","title":{"rendered":"A \u00c1GORA CARIOCA"},"content":{"rendered":"<p><\/p>\n<h4>(<i>Publicado originalmente no jornal O Globo, edi\u00e7\u00e3o de 4\/6\/2012)<\/i><\/h4>\n<div>Vivemos tempos de uniformiza\u00e7\u00e3o dos costumes, fruto do tal de mundo globalizado. Em cada canto desse mundar\u00e9u, ligado por redes transnacionais de telecomunica\u00e7\u00f5es, as pessoas assistem aos mesmos filmes, vestem as mesmas roupas, ouvem as mesmas m\u00fasicas, falam o mesmo idioma, cultuam os mesmos \u00eddolos e se comunicam em, no m\u00e1ximo, cento e quarenta toques virtuais. Nessa esp\u00e9cie de culto profano, em que a vida cotidiana \u00e9 regida pelos rituais em louvor ao mercado que n\u00e3o \u00e9 o de Madureira, o bicho pega e as ideias morrem, como outro dia morreu de morte matada o acento em ideia, sem choro nem vela e sem a dignidade de um samba do Noel.<\/div>\n<div>Eu, que trabalho com adolescentes e adultos jovens, percebo que as cren\u00e7as e proje\u00e7\u00f5es de futuro da rapaziada foram substitu\u00eddas pelo p\u00e2nico cotidiano &#8211; do assalto e das doen\u00e7as, no \u00e2mbito pessoal, \u00e0s cat\u00e1strofes ambientais, na esfera coletiva. Cria-se uma l\u00f3gica perversa: Como posso morrer de bala perdida, pegar gripe su\u00edna ou sucumbir ao aquecimento global, preciso viver intensamente o dia de hoje.<\/div>\n<div>Ocorre que essa valoriza\u00e7\u00e3o extremada do tempo presente \u00e9 acompanhada pela morte das utopias coletivas de proje\u00e7\u00e3o do futuro. N\u00e3o h\u00e1 mais futuro a ser planejado. Somos guiados pelos ritos do mercado e abandonamos o mundo do pensamento, onde se projetam perspectivas e s\u00e3o moldadas as diferen\u00e7as. Restam hoje, nesse desalento, duas tristes utopias individuais, em meio ao fracasso dos sonhos coletivos &#8211; a de que seremos capazes de consumir o produto tal, cheio de salamaleques, e a de que poderemos ter o corpo perfeito.<\/div>\n<div>Transformam-se, nesse tempos depressivos, os shoppings e as academias de gin\u00e1stica nos espa\u00e7os de exerc\u00edcio dessas utopias tortas, onde podemos comprar produtos e moldar o corpo aos padr\u00f5es da cultura contempor\u00e2nea &#8211; o corpo-m\u00e1quina dos atletas ou o corpo esqu\u00e1lido das modelos. \u00c9 a procura da felicidade que n\u00e3o tem, como na esquecida e s\u00e1bia can\u00e7\u00e3o natalina. E tome de caixinhas de Prozac no sapatinho na janela.<\/div>\n<div>\u00c9 a\u00ed que localizo, na minha cidade de S\u00e3o Sebasti\u00e3o do Rio de Janeiro, o espa\u00e7o de resist\u00eancia a esses padr\u00f5es uniformes do mundo global: O botequim. Ele, o velho boteco, o p\u00e9-sujo, \u00e9 a \u00e1gora carioca. O botequim \u00e9 o pa\u00eds onde n\u00e3o h\u00e1 grifes, n\u00e3o h\u00e1 o corpo-m\u00e1quina, o corpo em si mesmo, a vitrine, o mercado pairando como um deus a exigir que se cumpram seus rituais.<\/div>\n<div>O boteco \u00e9 a casa do mau gosto, do disforme, do arroto, da barriga indecente, da grosseria, do afeto, da gentileza, da proximidade, do debate, da exposi\u00e7\u00e3o das fraquezas, da dor de corno, da festa do novo amor, da comemora\u00e7\u00e3o do gol, do exerc\u00edcio, enfim, de uma forma de cidadania muito peculiar. \u00c9 a Rep\u00fablica de fato dos homens comuns.<\/div>\n<div>\u00c9 nessa perspectiva que vejo a luta pela preserva\u00e7\u00e3o da cultura do boteco como algo com uma dimens\u00e3o muito mais ampla do que o simples exerc\u00edcio de combate aos bares de grife que, como praga, pululam pela cidade e se espalham como met\u00e1stase urbana.<\/div>\n<div>A luta pelo boteco \u00e9 a possibilidade de manter viva a cren\u00e7a na pra\u00e7a popular, espa\u00e7o de gera\u00e7\u00e3o de ideias e utopias &#8211; fundadas na sabedoria dos que t\u00eam pouco e precisam inventar a vida &#8211; que possam nos regenerar da fal\u00eancia de uma (des) humanidade que se limita a sonhar com o t\u00eanis novo e o corpo moldado, n\u00e3o como conquista da sa\u00fade, mas como simples egolatria incrementada com bombas e anabolizantes cavalares. O botequim \u00e9, portanto, o antishopping center, a recusa mais veemente ao corpo irreal dos atletas ol\u00edmpicos ou ao corpo pau-de-virar tripa das anor\u00e9xicas, sintomas da doen\u00e7a comum desse mundo desencantado: met\u00e1foras da morte.<\/div>\n<div>Ali, no velho boteco, entre garrafas vazias, chinelos de dedo, copos americanos, pratos feitos e petiscos gordurosos, no mar de barrigas indecentes, onde S\u00e3o Jorge \u00e9 o protetor e mercado \u00e9 s\u00f3 a feira da esquina, a vida resiste aos desmandos da uniformiza\u00e7\u00e3o e o Homem \u00e9 restitu\u00eddo ao que h\u00e1 de mais valente e humano na sua trajet\u00f3ria &#8211; a capacidade de sonhar seus del\u00edrios, festejar e afogar suas dores nas ampolas geladas feito cu de foca. \u00c9 onde a alma da cidade grita a resist\u00eancia.<\/div>\n<div>Esse combate, amigos, \u00e9 muito mais significativo do que imaginam os arautos modernosos e seus programadores visuais. Botequim, afinal de contas, tem alma, \u00e9 entidade, terreiro carioca, feito os trapiches e sobrados do cais do porto em noite de lua cheia. <\/div>\n<div><\/div>\n<div><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>(Publicado originalmente no jornal O Globo, edi\u00e7\u00e3o de 4\/6\/2012) Vivemos tempos de uniformiza\u00e7\u00e3o dos costumes, fruto do tal de mundo globalizado. 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