{"id":12819,"date":"2012-10-15T12:32:00","date_gmt":"2012-10-15T14:32:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2012\/10\/da-tarefa-de-subverter-os-mundos\/"},"modified":"2012-12-30T10:27:08","modified_gmt":"2012-12-30T12:27:08","slug":"da-tarefa-de-subverter-os-mundos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2012\/10\/da-tarefa-de-subverter-os-mundos\/","title":{"rendered":"DA TAREFA DE SUBVERTER OS MUNDOS"},"content":{"rendered":"<div><span><span>Que Liberdade, Liberdade \u2013 o samba de enredo de 1989 da Imperatriz Leopoldinense \u2013 \u00e9 um cl\u00e1ssico do g\u00eanero, n\u00e3o se questiona. A melodia sinuosa, a cad\u00eancia do ritmo, emoldura uma letra que retrata os \u00faltimos anos do Imp\u00e9rio e a proclama\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica no Brasil. <\/span><\/span><\/div>\n<div><span><span>Certo trecho do samba, o que nos interessa neste momento, diz o seguinte: <\/span><\/span><\/div>\n<div><b><span>A imigra\u00e7\u00e3o floriu de cultura o Brasil<br \/>\nA m\u00fasica encanta e o povo canta assim<br \/>\nPra Isabel, a hero\u00edna<br \/>\nQue assinou a lei divina<br \/>\nNegro, dan\u00e7ou, comemorou o fim da sina&#8230; <\/span><\/b><\/div>\n<div><span>O verso \u201c<i>a imigra\u00e7\u00e3o floriu de cultura o Brasil\u201d <\/i>sintetiza uma vis\u00e3o, particularmente forte nas primeiras d\u00e9cadas da hist\u00f3ria republicana e ainda hoje entranhada no cordial racismo brasileiro, de que a chegada do europeu ao Brasil \u2013 branco e crist\u00e3o \u2013 foi, sobretudo, uma aventura civilizat\u00f3ria. O europeu trouxe, basicamente, cultura para uma terra de b\u00e1rbaros amer\u00edndios e africanos. <\/span><\/div>\n<div><span>O trecho seguinte do samba\u00a0atribui a liberta\u00e7\u00e3o dos escravos ao hero\u00edsmo da Princesa Isabel. A fun\u00e7\u00e3o do negro no processo foi a de dan\u00e7ar para comemorar o fim da sina. Dispensa coment\u00e1rios. <\/span><\/div>\n<div><span>Um outro samba cl\u00e1ssico \u2013 Martim Cerer\u00ea \u2013 da mesma Imperatriz Leopoldinense (1972), diz em certo trecho: <\/span><\/div>\n<div>\n<p><strong>Tudo era dia<\/strong><br \/>\n<strong>O \u00edndio deu a terra grande<\/strong><br \/>\n<strong>O negro trouxe<\/strong><br \/>\n<strong>A noite na cor<\/strong><br \/>\n<strong>O branco, a galhardia<\/strong><br \/>\n<strong>E todos traziam amor<\/strong><\/p>\n<\/div>\n<div><span>Al\u00e9m da vis\u00e3o do Brasil como um para\u00edso racial \u2013 discurso que se adequava aos ditames ufanistas do regime militar \u2013 o samba vincula o \u00edndio (terra) e o negro (noite) aos elementos da natureza. O branco entra com a galhardia \u2013 um atributo de fidalguia vinculado \u00e0 ideia de civilidade, indo al\u00e9m do mundo\u00a0natural.<\/span><\/div>\n<div><span>Exemplos similares n\u00e3o faltam, e \u00e9 proposital que eu use as escolas de samba \u2013 originadas entre as popula\u00e7\u00f5es negras &#8211; para indicar a for\u00e7a entranhada da ideia de miss\u00e3o civilizat\u00f3ria do branco na forma\u00e7\u00e3o do Brasil. \u00c9 evidente que, no mesmo universo das escolas de samba, encontraremos exalta\u00e7\u00f5es vigorosas aos africanos e \u2013 em menor escala \u2013 aos \u00edndios. <\/span><\/div>\n<div><span>Chamar a aten\u00e7\u00e3o para o \u00f3bvio parece tarefa redundante, mas continua sendo necess\u00e1ria. N\u00e3o h\u00e1 ambiente no Brasil \u2013 e penso nas universidades, nas escolas de ensino fundamental e m\u00e9dio, nos meios de comunica\u00e7\u00e3o, na intimidade das fam\u00edlias de todas as classes \u2013 em que a ideia de miss\u00e3o civilizat\u00f3ria do europeu \/ crist\u00e3o \/ ocidental n\u00e3o esteja entranhada como met\u00e1stase daninha, muitas vezes invis\u00edvel, e por isso ardilosa e mais devastadora. <\/span><\/div>\n<div><span>Somos ensinados, nos col\u00e9gio e universidades, a pensar com a cabe\u00e7a e os c\u00e2nones do ocidente. A escola brasileira \u00e9 reprodutora de valores discriminat\u00f3rios e inimiga radical da transgress\u00e3o necess\u00e1ria. N\u00e3o adianta a ado\u00e7\u00e3o de cotas para negros e \u00edndios se o ambiente escolar continuar reproduzindo uma vis\u00e3o de mundo branca, crist\u00e3, europ\u00e9ia, fundamentada em conceitos pr\u00e9-concebidos de civiliza\u00e7\u00e3o que negam os saberes ancestrais e as inven\u00e7\u00f5es de mundo afro-amer\u00edndias. Se at\u00e9 escolas de samba reproduzem, em sambas compostos por negros, estes preconceitos, imaginem o que acontece na maioria das escolas em que o samba n\u00e3o entra. <\/span><\/div>\n<div><span>Reproduzo trechos de um texto em que abordei, em outra perspectiva, este assunto, a partir da minha cria\u00e7\u00e3o dentro de um terreiro de Xamb\u00e1 e Encantaria (sou orgulhoso neto de uma analfabeta dotada de sabedoria &#8211; uma yalorix\u00e1):<\/span><\/div>\n<div><span><strong>N\u00e3o existe reden\u00e7\u00e3o para as grandes trag\u00e9dias, mas a vingan\u00e7a sublime e a \u00fanica forma de transcend\u00eancia dos homens ao desmazelo da vida \u00e9 transformar a m\u00e1 fortuna e a dor em beleza, civiliza\u00e7\u00e3o e arte. Os meus her\u00f3is civilizadores n\u00e3o frequentaram bibliotecas, n\u00e3o discutiram a alta filosofia nas academias e universidades, n\u00e3o escreveram tratados iluministas, n\u00e3o pintaram os quadros do Renascimento, n\u00e3o escreveram romances, n\u00e3o compuseram sinfonias, n\u00e3o conduziram ex\u00e9rcitos em grandes guerras, n\u00e3o redigiram leis, n\u00e3o fundaram empresas, n\u00e3o elaboraram tratados e constitui\u00e7\u00f5es e n\u00e3o planejaram monumentos, edif\u00edcios e pontes. <\/strong><\/span><\/div>\n<div>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><span><strong>Os homens que me civilizaram chegaram \u00e0s praias do meu pa\u00eds nos por\u00f5es infectos dos tumbeiros e foram vendidos e marcados feito gado no mercado. <\/strong><\/span><\/div>\n<div>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><span><strong>Eu fui civilizado pelo rufar dos tambores misteriosos, pelo toque de S\u00e3o Bento Grande no berimbau de caba\u00e7a, pela dan\u00e7a desafiadora do Ob\u00e1 dos Ob\u00e1s, pelo bailado da dona do afef\u00e9 &#8211; sagrado vento &#8211; e pelo xaxar\u00e1 do senhor da var\u00edola, a quem reverencio e pe\u00e7o a calma para n\u00e3o estranhar o mundo &#8211; Atot\u00f4! <\/strong><\/span><\/div>\n<div>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><span><strong>Aprendi a olhar com admira\u00e7\u00e3o os homens ao conhecer os dribles de Man\u00e9, a ginga de Pastinha, a sabedoria de Menininha, a for\u00e7a de Candeia, os versos de Silas, o miudinho de Argemiro, as esculturas de Mestre Didi, as toalhas rendadas de Tia Prisciliana, o cachimbo de Dona Eul\u00e1lia, o canto de Anescar, o tempero da Iy\u00e1 Bass\u00ea, o lamento dos vissungos, o machado do jongo, as folhas de Ossain e os cantos de evoca\u00e7\u00e3o de Oxup\u00e1, dindinha lua. <\/strong><\/span><\/div>\n<div>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><span><strong>Quem me criou n\u00e3o tinha educa\u00e7\u00e3o formal e n\u00e3o me deu o Dom Quixote, o Crime e Castigo, o Dom Casmurro, o Grande Sert\u00e3o e outros tantos grandes livros que, como esses, eu li um dia e passei a amar. Quem me criou, por\u00e9m, me contou das artimanhas de Exu, da flecha certeira de Ox\u00f3ssi, dos amores de Ogum, das mulheres de Xang\u00f4, do tronco forte de Tempo e do pano branco de Lemba &#8211; e eu passei a gostar de ouvir e inventar hist\u00f3rias, no alargamento da vida. <\/strong><\/span><\/div>\n<div>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><span><strong>Quem me criou n\u00e3o me levou aos teatros, n\u00e3o me apresentou a grandes \u00f3peras e n\u00e3o me presenteou com discos de sublimes sinfonias &#8211; que dessas coisas quem me criou n\u00e3o sabia. Mas quem me conduziu cantou, para confortar as minhas noites, sambas, toadas, jongos, afox\u00e9s, cirandas, maracatus, aluj\u00e1s, calangos, xibas e xotes &#8211; e eu fui apaziguando a alma com os sons do meu povo. <\/strong><\/span><\/div>\n<div>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><span><strong>E \u00e9 por isso, por essas \u00e1fricas que me fizeram como sou, que gosto da rua, do mercado, dos amigos, da gente mi\u00fada feito eu, do porre, da bola, do beijo, da tro\u00e7a, da ra\u00e7a, do sol, da cacha\u00e7a, da carne, da alegria, da subvers\u00e3o, da insubmiss\u00e3o, da guerrilha, do vento, da aldeia, do mist\u00e9rio, da mistura, do dend\u00ea, das pernas tortas, do portugu\u00eas torto, da l\u00edngua do Congo e do pranto do banzo. <\/strong><\/span><\/div>\n<div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span>A tarefa \u00e9, portanto, enorme. \u00c0 guisa de reflex\u00e3o no\u00a0dia dos professores, \u00e9 com o olhar de um educador que fa\u00e7o estas coloca\u00e7\u00f5es, at\u00e9 mesmo para que eu n\u00e3o perca a dimens\u00e3o da fun\u00e7\u00e3o transgressora de mundos que o magist\u00e9rio deveria assumir como sua.\u00a0A educa\u00e7\u00e3o, afinal,\u00a0est\u00e1\u00a0cada\u00a0vez mais solapada por uma realidade em que o col\u00e9gio \u00e9 visto como empresa modeladora de condutas e vis\u00f5es de mundo, o aluno \u00e9 encarado como cliente e o professor \u00e9 um adestrador de gente; tocador de gado para os currais do mercado e do consumo destitu\u00eddo de humanidade.<\/span><\/div>\n<div><span>A<\/span><span>\u00a0educa\u00e7\u00e3o precisa, urgentemente, assumir a \u00fanica tarefa hoje digna deste nome: Deseducar. <\/span><span>Aos professores cabe a condu\u00e7\u00e3o da\u00a0tarefa desafiadora de deseducar as gera\u00e7\u00f5es. \u00c9 ela que me estimula.<\/span><\/div>\n<div><span>E j\u00e1 que comecei com samba, nada melhor do que terminar em samba. A dupla Didi e Aurinho mandou, em Rituais Afor-Brasileiros, samba-enredo de 1971 da Uni\u00e3o da Ilha do Governador, um recado: <\/span><\/div>\n<div><span><strong>Quem diria <\/strong><\/span><br \/>\n<span><strong>Que o negro iria<\/strong><\/span><br \/>\n<span><strong>H\u00e1 tempos atr\u00e1s<\/strong><\/span><br \/>\n<span><strong>Ver um dia<\/strong><\/span><br \/>\n<span><strong>O branco escravo<\/strong><\/span><br \/>\n<span><strong>Dos seus rituais.<\/strong><\/span><\/div>\n<div><span>Que se subvertam os mundos&#8230;<\/span><\/div>\n<div><\/div>\n<div><span>Abra\u00e7os<\/span><\/div>\n<div><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Que Liberdade, Liberdade \u2013 o samba de enredo de 1989 da Imperatriz Leopoldinense \u2013 \u00e9 um cl\u00e1ssico do g\u00eanero, n\u00e3o se questiona. 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