{"id":12816,"date":"2012-10-23T04:33:00","date_gmt":"2012-10-23T06:33:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2012\/10\/canjira-carioca\/"},"modified":"2012-12-30T09:06:09","modified_gmt":"2012-12-30T11:06:09","slug":"canjira-carioca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2012\/10\/canjira-carioca\/","title":{"rendered":"CANJIRA CARIOCA"},"content":{"rendered":"<div><span><em>Canjira &#8211; conjunto de dan\u00e7as rituais, realizadas em um grande c\u00edrculo,\u00a0nos terreiros angolo-congoleses e nas casas\u00a0de umbanda e\u00a0encantaria. Segundo Nei Lopes, a express\u00e3o \u00e9 derivada do umbundo tjila &#8211; &#8220;dan\u00e7ar&#8221;.<\/em><\/span>As cidades falam e se revelam\u00a0em suas esquinas ou na falta delas. Em geral, quando estou em uma cidade, gosto de invent\u00e1-la ao sabor do que vejo e n\u00e3o vejo\u00a0nas ruas.\u00a0Existem as\u00a0cidades-shoppings, cidades-enfermarias, cidades-f\u00e1bricas, cidades-cemit\u00e9rios, cidades-bolsa de valores, cidades-pres\u00eddios, cidades-aut\u00f3dromos&#8230; A minha aldeia, S\u00e3o Sebasti\u00e3o do Rio de Janeiro, \u00e9 uma cidade-terreiro. E um terreiro de macumba; umbanda puxada para a encantaria, territ\u00f3rio de gira de lei.<\/p>\n<p>Ando meio cismado com\u00a0essa ideia: a cidade do Rio de Janeiro\u00a0pode ser pensada como\u00a0um grande terreiro de encantaria, encravado entre a montanha e o mar. Baixam por aqui as falanges amer\u00edndias, europ\u00e9ias e africanas &#8211; e se bobear\u00a0dan\u00e7a todo mundo na mesma canjira. De vez em quando, eu diria at\u00e9\u00a0que muito\u00a0frequentemente, os\u00a0encantados de\u00a0falanges diferentes\u00a0saem no cacete e a curimba esquenta. Eventualmente, por\u00e9m, as entidades se abra\u00e7am &#8211; e \u00e9 a\u00ed que a gira (a roda ritual bordada pelos tambores)\u00a0fica mais bonita e os pontos s\u00e3o\u00a0firmados mais altos.<\/p>\n<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Os encantados, segundo a tradi\u00e7\u00e3o, n\u00e3o tiveram morte f\u00edsica.\u00a0Transmutaram-se em pedras de rio, areias e conchas\u00a0de praias, troncos de sucupira, cip\u00f3s de jitiranas, ondas do mar\u00a0e cumes de montanhas. Imagino, portanto, um Est\u00e1cio de S\u00e1\u00a0encantado no P\u00e3o de A\u00e7\u00facar,\u00a0mil\u00a0 tupinamb\u00e1s encantados nas\u00a0praias da\u00a0Guanabara e um Z\u00e9 Pilintra\u00a0ajuremado numa esquina perto da subida do S\u00e3o Carlos.Vou mais longe na canjira: Pereira Passos est\u00e1 encantado numa \u00e1guia daquelas\u00a0do Theatro\u00a0Municipal. Cartola ajuremou\u00a0numa pedrinha mi\u00fada da subida do Pendura Saia. Noel encantou-se em alguma garrafa de cerveja, com maestria. Jamel\u00e3o virou jequitib\u00e1 do samba. \u00a0Est\u00e3o todos por a\u00ed, prontos para baixar, dan\u00e7ar, dar conselhos, passes e o escambau.\u00a0Registre-se que o terreiro tamb\u00e9m \u00e9\u00a0cheio de encosto de capit\u00e3o do mato, de fardas e ternos bem cortados,\u00a0querendo atrapalhar a firmeza do riscado da pemba.<\/p>\n<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Para entender o Rio de Janeiro, portanto, \u00e9 necess\u00e1rio compreender e vivenciar as giras dos encantados\u00a0&#8211; e a maior delas \u00e9 o Carnaval.\u00a0Para esclarecer melhor: n\u00e3o\u00a0penso\u00a0o Carnaval apenas como um fuzu\u00ea determinado pelo calend\u00e1rio. Vejo\u00a0as festas\u00a0como um conjunto de ritos de invers\u00e3o onde as rela\u00e7\u00f5es tensas e intensas entre as diferentes camadas sociais disputam espa\u00e7os e criam formas de vida. A cidade vira\u00a0territ\u00f3rio de\u00a0afei\u00e7\u00f5es e \u00f3dios entre batuques, meneios de corpo, beijos, furtos, comidas e cantos. Morte e vida cariocas.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Entrudos, corsos, batalhas de confetes e flores, festa da Penha, rodas de capoeira, blocos de arenga, rodas de pernada, ranchos, cord\u00f5es, grandes sociedades, bailes de mascarados,\u00a0escolas de samba, on\u00e7as do Catumbi e caciques de Ramos d\u00e3o pistas para se entender como as tens\u00f5es sociais &#8211; disfar\u00e7adas ou exacerbadas em festas &#8211; bordam as hist\u00f3rias da cidade-terreiro; ou das cidades que formam o grande terreiro.A festa\u00a0foi espa\u00e7o de subvers\u00e3o da cidadania roubada. Inventou-se na rua a cidade negada nos gabinetes. Disciplinar a rua,\u00a0ordenar o bloco\u00a0e enquadrar a festa, por sua vez, foi a estrat\u00e9gia do poder institu\u00eddo na maior parte do tempo.\u00a0Do embate entre a\u00a0tens\u00e3o criadora e as inten\u00e7\u00f5es castradoras &#8211; e o jogo est\u00e1 longe de terminar &#8211; a roda dos encantados continua girando enquanto o coro come.<\/p>\n<p>Deixa a gira girar!<\/p>\n<p>Abra\u00e7os!<\/p>\n<p>PS: \u00c9 sobre isso &#8211; a possibilidade de se contar as hist\u00f3rias do Rio de Janeiro e ensaiar as ousadias de entender melhor a cidade &#8211; que falarei nos dias 10, 17 e 24 de novembro (s\u00e1bados) no Al-Farabi &#8211; um\u00a0espa\u00e7o que funciona como livraria, bar, restaurante, galeria de arte e outros babados &#8211; na Rua do Ros\u00e1rio, 30 (tel. 22330879).\u00a0 As\u00a0conversas-curimbas ter\u00e3o p\u00fablico limitado e j\u00e1 temos\u00a0razo\u00e1vel quantidade de inscritos e uma cacetada de gente que manifestou interesse em participar. A turma ser\u00e1 fechada, portanto, com aqueles que primeiro confirmarem a inscri\u00e7\u00e3o no pr\u00f3prio local.<\/p>\n<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Aviso aos navegantes que a ideia \u00e9 falar &#8211; em clima absolutamente informal &#8211;\u00a0para qualquer interessado na hist\u00f3ria do Rio de Janeiro e nas festas cariocas, sem nenhuma necessidade de forma\u00e7\u00e3o acad\u00eamica.\n<\/div>\n<div><\/div>\n<div><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Canjira &#8211; conjunto de dan\u00e7as rituais, realizadas em um grande c\u00edrculo,\u00a0nos terreiros angolo-congoleses e nas casas\u00a0de umbanda e\u00a0encantaria. 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