{"id":12804,"date":"2012-12-09T08:41:00","date_gmt":"2012-12-09T10:41:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2012\/12\/a-perversidade-do-bem\/"},"modified":"2012-12-09T08:41:00","modified_gmt":"2012-12-09T10:41:00","slug":"a-perversidade-do-bem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2012\/12\/a-perversidade-do-bem\/","title":{"rendered":"A PERVERSIDADE DO BEM"},"content":{"rendered":"<div>Ontem, com a inaugura\u00e7\u00e3o cheia de salamaleques da nova arena do Gr\u00eamio,\u00a0foi dado mais um passo no processo sinistro\u00a0de gentrifica\u00e7\u00e3o dos est\u00e1dios de futebol no Brasil. Uso gentrifica\u00e7\u00e3o no sentido dado ao termo pelos estudos pioneiros de\u00a0Ruth Glass e Neil Smith; aquele que, grosso modo,\u00a0designa um processo de aburguesamento de espa\u00e7os nas grandes metr\u00f3poles e gera\u00a0o afastamento das camadas populares do local modificado. O espa\u00e7o gentrificado passa a ser gerido prioritariamente\u00a0pelos interesses do mercado financeiro, do grande capital e quejandos. Este processo de submiss\u00e3o ao capital \u00e9, em geral, acompanhado de discursos legitimadores que v\u00e3o desde o &#8220;tratamento ecologicamente correto&#8221; at\u00e9 o da &#8220;gest\u00e3o financeira respons\u00e1vel&#8221;. <\/div>\n<div>\u00a0<\/div>\n<div>N\u00e3o acho que o futebol seja um espet\u00e1culo, uma brincadeira, um jogo ou uma guerra; ele\u00a0pode ser\u00a0tudo isso e muito mais. Futebol\u00a0no Brasil \u00e9 cultura, pois consolidou-se como\u00a0um campo de elabora\u00e7\u00e3o de s\u00edmbolos, proje\u00e7\u00f5es de vida, constru\u00e7\u00e3o de la\u00e7os de coes\u00e3o social, afirma\u00e7\u00e3o identit\u00e1ria e\u00a0tens\u00e3o criadora, com todos os aspectos positivos e negativos implicados neste processo. Nossas maneiras de jogar bola e assistir aos jogos dizem muito sobre as contradi\u00e7\u00f5es, viol\u00eancias, alegrias, trag\u00e9dias, festas e dores\u00a0que nos constituiram como povo.<\/div>\n<div>\u00a0<\/div>\n<div>O processo de morte do futebol como cultura reduz o jogo ao patamar de mero evento. Contamina, inclusive, o vocabul\u00e1rio, que perde as caracter\u00edsticas peculiares do boleiro e se adequa ao padr\u00e3o aparentemente neutro do jarg\u00e3o empresarial. O craque se tranforma em &#8220;jogador diferenciado&#8221;, o reserva \u00e9 a &#8220;pe\u00e7a de reposi\u00e7\u00e3o&#8221;, o passe vira &#8220;assist\u00eancia&#8221;, o campo \u00e9 a &#8220;arena multiuso&#8221; e o torcedor \u00e9 o &#8220;espectador&#8221;. As conquistas n\u00e3o s\u00e3o mais comemoradas em campo; mas em eventos fechados,\u00a0sob a chancela de patrocinadores e com a participa\u00e7\u00e3o do &#8220;torcedor virtual&#8221;, aquele chamado a se manifestar pelas redes sociais\u00a0a partir do que verifica nas telas da televis\u00e3o.\u00a0 <\/div>\n<div>\u00a0<\/div>\n<div>Mais grave \u00e9 constatar que o exemplo do futebol n\u00e3o \u00e9 a exce\u00e7\u00e3o. A regra \u00e9 gentrificar. Como carioca, este \u00e9 um processo que talvez me espante e entriste\u00e7a mais, j\u00e1 que a cidade do Rio vive a mais agressiva gentrifica\u00e7\u00e3o de sua hist\u00f3ria recente. Penso nas arenas futebol\u00edsticas e acho inevit\u00e1vel comparar com o famoso Parque Madureira, com o elevador do Cantagalo, com o projeto de revitaliza\u00e7\u00e3o da zona portu\u00e1ria e similares. O discurso do embelezamento urbano, do ecologicamente correto, da dignidade do morador,\u00a0\u00e9 acompanhado da especula\u00e7\u00e3o vigorosa e proposital do solo urbano e\u00a0da ruptura criminosa\u00a0de la\u00e7os comunit\u00e1rios, com a sa\u00edda de uma popula\u00e7\u00e3o que n\u00e3o consegue mais pagar o aluguel ou n\u00e3o tem como adquirir o im\u00f3vel na \u00e1rea embelezada.\u00a0H\u00e1 ainda um discurso hegem\u00f4nico na m\u00eddia que glorifica o embelezamento e esconde as contradi\u00e7\u00f5es sociais que ele traz. A limpeza social \u00e9 silenciosa, enquanto a limpeza urbana toca seus tambores, se apropria de c\u00f3digos do que ela mesma destr\u00f3i e domina, pela propaganda, os cora\u00e7\u00f5es e mentes. <\/div>\n<div>\u00a0<\/div>\n<div>Tenho me referido a este processo nocivo como &#8220;perversidade do bem&#8221;, e \u00e9 ele hoje uma das mais ardilosas estrat\u00e9gias de submiss\u00e3o do homem aos ditames dos grandes interesses corporativos. \u00c9 bom ver o jogo confortavelmente na Arena do Gr\u00eamio; \u00e9 bom ter um camarote climatizado; \u00e9 bom ter uma \u00e1rea verde no cora\u00e7\u00e3o de Madureira; \u00e9 bom um elevador que facilite\u00a0a <em>acessibilidade<\/em> ao Cantagalo; \u00e9 bom ter bicicletas <em>disponibilizadas<\/em> por bancos (uso, propositalmente, os c\u00ednicos jarg\u00f5es empresariais deste processo); \u00e9 bom ver o porto maravilha ser a porta de entrada do Rio de Janeiro&#8230;\u00a0Mas \u00e9 de uma perversidade assassina, castradora, higienista, desarticuladora de la\u00e7os comunit\u00e1rios, fria como um museu virtual, adequada ao del\u00edrio dos corretores de im\u00f3veis, moldada ao gosto dos velhos conservadores que sonham com as europas\u00a0e os\u00a0playboys reacion\u00e1rios que\u00a0desejam as miamis e calif\u00f3rnias.\u00a0\u00c9 bom e n\u00e3o \u00e9 para todos. \u00c9 perverso quando se apropria dos \u00edcones de um local e louva estes \u00edcones para destru\u00ed-los ou submet\u00ea-los (como acontece hoje na minha cidade) aos interesses do mercado.<\/div>\n<div><em><\/em>\u00a0<\/div>\n<div>A perversidade suprema \u00e9 matar a nossa cultura sorrindo\u00a0e nos fazer sorrir tamb\u00e9m, como clientes satisfeitos de um futebol-produto, de um bairro-playground, de uma cidade-condom\u00ednio, de um jogo-espet\u00e1culo. Assistiremos, aplaudindo, a simulacros festivos do que n\u00e3o \u00e9 mais o\u00a0nosso pertencimento, seduzidos pelas fanfarras alegres do nosso pr\u00f3prio &#8211; e lind\u00edssimo &#8211;\u00a0vel\u00f3rio.<\/div>\n<div>\u00a0<\/div>\n<div>Abra\u00e7os<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ontem, com a inaugura\u00e7\u00e3o cheia de salamaleques da nova arena do Gr\u00eamio,\u00a0foi dado mais um passo no processo sinistro\u00a0de gentrifica\u00e7\u00e3o dos est\u00e1dios de futebol noTour Details<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[292],"tags":[],"class_list":["post-12804","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-historias-brasileiras"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12804","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=12804"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12804\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=12804"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=12804"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=12804"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}