{"id":12803,"date":"2012-12-11T09:11:00","date_gmt":"2012-12-11T11:11:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2012\/12\/natividade\/"},"modified":"2012-12-30T10:24:08","modified_gmt":"2012-12-30T12:24:08","slug":"natividade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2012\/12\/natividade\/","title":{"rendered":"NATIVIDADE"},"content":{"rendered":"<div>Pe\u00e7o licen\u00e7a aos caboclos, encantados e malandros deste meu terreiro carioca, minha macaia. \u00a0Do alto da colina, Nossa Senhora da Penha h\u00e1 de nos guardar. A vida continua\u00a0na minha cidade, entre uma ou outra rajada de tiros,\u00a0suspiros dos namorados e um putaquepariu bem colocado para saudar o calor da mol\u00e9stia. Soltaremos bal\u00f5es proibidos e pipas coloridas, cantaremos uns sambas, caba\u00e7os ser\u00e3o apaixonadamente perdidos, alguns morrer\u00e3o e\u00a0outros pintar\u00e3o na \u00e1rea neste dezembro na aldeia.<\/div>\n<div>Mas eu\u00a0cismo, hoje, em\u00a0delirar fraseados de Pixinguinha. Comemoro gols de todos os atacantes\u00a0que eu n\u00e3o vi jogar, defendo\u00a0p\u00eanaltis perdidos, apoio\u00a0amores desvairados, serestas ao luar, rodas de capoeira, cacha\u00e7as pros santos e beijo a nobreza em\u00a0m\u00e3os calejadas. Navego rios imundos, sou carpideira de\u00a0suic\u00eddios das putas,\u00a0brindo em\u00a0copos quebrados aos\u00a0beijos partidos, aos cantos dos fudidos e aos\u00a0passos gingados. A cidade , emaranhada em mim, comove feito o diabo. Porque \u00e9 hoje.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>A estrebaria\u00a0na Guanabara\u00a0\u00e9\u00a0um \u00a0beco suburbano; em todos os butecos, os sil\u00eancios, os sambas e as cervejas insinuam o nome de um menino, feito a profecia da natividade sussurrada pelos pastores da noite, homens\u00a0benditos que fazem do balc\u00e3o do bar mais vagabundo uma manjedoura. As\u00a0estrelas incendiadas gritar\u00e3o um &#8220;Gl\u00f3ria a Deus&#8221; com a voz quase sumida dos tuberculosos.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Os meninos pobres operar\u00e3o prod\u00edgios,\u00a0driblar\u00e3o feito Man\u00e9\u00a0Garrincha e far\u00e3o com a vida o que Jackson fez quando xaxou com\u00a0Sebastiana\u00a0um coco na Para\u00edba.\u00a0Cair\u00e3o estatelados, driblados pelo imprevisto, todos os escrotos, arrogantes, donos de salamaleques, doutores metidos a limpar bosta de galinha com talher de fina prataria. Porque est\u00e1 escrito, marcado, quizumbado,\u00a0registrado nas\u00a0curimbas e sacralizado na ginga maneira do Homem da Rua, que h\u00e1 de ser assim.Dezembro \u00e9 o m\u00eas, portanto, da Natividade. O menino nasceu para esculhambar a paz dos carolas, enlouquecer os padres, exorcizar os bispos, arranhar os car\u00edssimos \u00f3culos espelhados, rasgar as bolsas de mil d\u00f3lares, engui\u00e7ar os elevadores de servi\u00e7o, transformar em manto da anuncia\u00e7\u00e3o as roupas brancas das bab\u00e1s, esvaziar os discursos dos politic\u00f5es oficiais de todos os matizes, rebentar as ideologias congeladas, sacanear o quepe do guarda, calar o apito do juiz, dar rabo-de-arraia no falso malandro, engui\u00e7ar os carros, gelar as bebidas e fazer uma baixaria na s\u00e9tima corda do viol\u00e3o de todo mundo.<\/p>\n<p>Porque foi anunciado que assim seria, e h\u00e1 de ser, no dia 11 de dezembro de 1910. N\u00e3o nasceu de uma virgem e mostrou, nas andan\u00e7as entre os seus, que divinas s\u00e3o as damas dos cabar\u00e9s e todas as boas fodas. O anjo da Boa Nova tinha mesmo a pinta de um malandro maneiro, daqueles que soprou no ouvido de Ismael o bumbumpaticumbumprugurundum que nos redimiu da dor e criou o mundo.<\/p>\n<p>Estava escrito e se cumpriu. Exu murmurou aos homens de boa vontade, quando a tarde caiu naquele dia, com uma leve sincopada para gingar o nome:\u00a0Noel de Medeiros Rosa!<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<\/div>\n<div><\/div>\n<div><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pe\u00e7o licen\u00e7a aos caboclos, encantados e malandros deste meu terreiro carioca, minha macaia. \u00a0Do alto da colina, Nossa Senhora da Penha h\u00e1 de nos guardar.Tour Details<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[292],"tags":[293],"class_list":["post-12803","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-historias-brasileiras","tag-noel-rosa"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12803","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=12803"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12803\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=12803"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=12803"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=12803"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}