{"id":12409,"date":"2009-09-17T12:35:00","date_gmt":"2009-09-17T14:35:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2009\/09\/o-fetichismo-do-pib\/"},"modified":"2009-09-17T12:35:00","modified_gmt":"2009-09-17T14:35:00","slug":"o-fetichismo-do-pib","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2009\/09\/o-fetichismo-do-pib\/","title":{"rendered":"O fetichismo do PIB"},"content":{"rendered":"<div>Gosto muito das an\u00e1lises do economista americano Joseph Stiglitz, Pr\u00eamio Nobel de Economia de 2001. Aprendi a admirar o seu trabalho com a leitura do livro <a href=\"http:\/\/www.livrariasaraiva.com.br\/produto\/produto.dll\/detalhe?pro_id=1989546&#038;ID=C89D96017D9090E0813171140\">&#8220;Globaliza\u00e7\u00e3o: como dar certo?&#8221;<\/a>, que \u00e9 a busca de um novo paradigma nas rela\u00e7\u00f5es entre pa\u00edses pobres e ricos.<\/div>\n<p><\/p>\n<div>Feita esta introdu\u00e7\u00e3o, o excelente site <a href=\"http:\/\/www.viomundo.com.br\/\">Viomundo<\/a> reproduz texto do ilustre economista, que divido aqui com meus leitores. Faz pensar.<\/div>\n<p><i><b>Stiglitz: O fetichismo do PIB<\/b><\/p>\n<p><span>Por Joseph E. Stiglitz* <\/span><br \/><\/i><\/p>\n<div><i>&#8220;Os esfor\u00e7os voltados para dar nova vida \u00e0 economia mundial e, ao mesmo tempo, responder adequadamente \u00e0 crise global do clima fizeram surgir uma dif\u00edcil pergunta: as estat\u00edsticas est\u00e3o nos dando \u201csinais\u201d corretos e confi\u00e1veis com rela\u00e7\u00e3o ao que estamos fazendo? No nosso mundo concentrado na performance, as interroga\u00e7\u00f5es relativas \u00e0 confiabilidade das medidas ganharam uma import\u00e2ncia sempre maior: o que medimos influencia no que fazemos.<\/p>\n<p>Se dispusermos de pesquisas inadequadas, o que nos esfor\u00e7amos de todos os modos para conseguir (por exemplo, aumentar o PIB) pode, na realidade, contribuir para piorar os padr\u00f5es de vida.<\/p>\n<p>Poderemos tamb\u00e9m nos encontrar diante de escolhas falsas, vendo compromissos entre produtividade e prote\u00e7\u00e3o ambiental que, de fato, n\u00e3o existem. Pelo contr\u00e1rio, melhores medidas das performances econ\u00f4micas poderiam colocar luz no fato de que as iniciativas tomadas para melhorar o ambiente se tornam vantajosas tamb\u00e9m para a economia.<\/p>\n<p>H\u00e1 18 meses, o presidente franc\u00eas Nicolas Sarkozy instituiu a Comiss\u00e3o Internacional sobre a Medida da Performance Econ\u00f4mica e do Progresso Social, estando insatisfeito &#8211; junto com muitos outros &#8211; com o atual estado das informa\u00e7\u00f5es estat\u00edsticas que se referem \u00e0 economia e \u00e0 sociedade. No dia 14 de setembro, essa comiss\u00e3o ir\u00e1 publicar o seu t\u00e3o esperado relat\u00f3rio.<\/p>\n<p>A pergunta mais importante \u00e0 qual \u00e9 preciso dar uma resposta \u00e9 se o PIB constitui ou n\u00e3o um indicador v\u00e1lido dos padr\u00f5es de vida. Em muitos casos, as estat\u00edsticas sobre o PIB parecem sugerir que a economia est\u00e1 em condi\u00e7\u00f5es claramente melhores das percebidas pela maioria dos cidad\u00e3os. Al\u00e9m do mais, centrar a aten\u00e7\u00e3o sobre o PIB desencadeia conflitos: os l\u00edderes pol\u00edticos dizem para amplificar sua import\u00e2ncia, mas a sociedade exige que uma aten\u00e7\u00e3o an\u00e1loga seja garantida tamb\u00e9m para melhorar a seguran\u00e7a, reduzir a polui\u00e7\u00e3o ac\u00fastica, do ar e da \u00e1gua, e assim por diante &#8211; todos aspectos que poderiam contribuir para reduzir o crescimento do PIB.<\/p>\n<p>H\u00e1 muito tempo, naturalmente, bem se sabe que o PIB pode ser um \u00edndice de medida inadequado do bem-estar e at\u00e9 das atividades de mercado, mas as mudan\u00e7as sociais e econ\u00f4micas podem ter acentuado os problemas justamente quando os progressos no \u00e2mbito da economia e das t\u00e9cnicas estat\u00edsticas forneceram a ocasi\u00e3o de melhorar as nossas pesquisas.<\/p>\n<p>Por exemplo, enquanto se sup\u00f5e que o PIB mede o valor da produtividade das mercadorias e dos servi\u00e7os, em um setor crucial &#8211; o governo &#8211; normalmente n\u00e3o temos como faz\u00ea-lo, por isso, muitas vezes, medimos seu output simplesmente com base no input. Se o governo gasta mais &#8211; mesmo que de modo ineficiente &#8211; o output aumenta. Nos \u00faltimos 60 anos, o percentual do output de governo no PIB cresceu de 21,4% a 38,6% nos EUA, de 27,6% a 52,7% na Fran\u00e7a, de 34,2% a 47,6% no Reino Unido e de 30,4% a 44% na Alemanha. Portanto, aquele que era um problema relativamente secund\u00e1rio se tornou agora um problema de primeira import\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Do mesmo modo, o atual aumento do PIB se deve em boa parte \u00e0s melhorias da qualidade &#8211; por exemplo, autom\u00f3veis melhores em vez de um n\u00famero maior de autom\u00f3veis. Mas avaliar as melhorias da qualidade \u00e9 dif\u00edcil. A assist\u00eancia de sa\u00fade exemplifica muito bem esse problema: ela \u00e9 fornecida publicamente, e muitas das melhorias ocorreram com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 qualidade.<\/p>\n<p>O mesmo problema que surge fazendo-se compara\u00e7\u00f5es ao longo do tempo vale para as compara\u00e7\u00f5es feitas entre diversos pa\u00edses. Os EUA gastam mais do que qualquer outro pa\u00eds em assist\u00eancia de sa\u00fade (seja per capita, seja em porcentagem com rela\u00e7\u00e3o aos usu\u00e1rios), mas com resultados decisivamente inferiores. Parte da diferen\u00e7a entre o PIB per capita nos EUA e nos pa\u00edses europeus poderia se dever, portanto, \u00e0s modalidades de medida adotadas.<\/p>\n<p>Outra mudan\u00e7a relevante que ocorreu na maior parte das sociedade \u00e9 o agravamento das disparidades: isso significa que h\u00e1 desigualdades em crescimento entre os ganhos m\u00e9dios (intermedi\u00e1rios) e o ganho m\u00e9dio (ou seja, o da pessoa \u201cm\u00e9dia\u201d, cuja renda se coloca na metade da escala de distribui\u00e7\u00e3o dos ganhos). Se um pequeno grupo de banqueiros enriquece, o ganho m\u00e9dio pode subir, mesmo que a maior parte dos ganhos individuais desce. Portanto, as estat\u00edsticas do PIB per capita podem n\u00e3o refletir corretamente o que a maior parte dos cidad\u00e3os experimenta.<\/p>\n<p>Para avaliar bens e servi\u00e7os, usamos o pre\u00e7o de mercado, mas agora at\u00e9 aqueles que sempre colocaram a m\u00e1xima confian\u00e7a nos mercados p\u00f5em em discuss\u00e3o a confiabilidade dos pre\u00e7os de mercado, declarando-se contr\u00e1rios a avalia\u00e7\u00f5es mark-to-market. Os lucros dos bancos de antes da crise &#8211; um ter\u00e7o de todos os ganhos das corpora\u00e7\u00f5es &#8211; parecem ter sido uma miragem.<\/p>\n<p>Compreender isso permite que se ponha uma nova luz n\u00e3o apenas nas nossas medidas da performance, mas tamb\u00e9m sobre as dedu\u00e7\u00f5es que tiramos delas. Antes da crise, quando o crescimento dos EUA (segundo as medidas padr\u00f5es do PIB) parecia muito mais consistente do que o da Europa, muitos europeus defendiam que a Europa deveria adotar o capitalismo de marca norte-americana. Naturalmente, qualquer pessoa que assumisse a briga poderia constatar facilmente o crescente endividamento das fam\u00edlias norte-americanas, e esse dado contribuiria muito para retificar a falsa impress\u00e3o de sucesso transmitida pelas estat\u00edsticas sobre o PIB.<\/p>\n<p>Os recentes progressos metodol\u00f3gicos permitiram-nos avaliar melhor o que contribui para o bem-estar da sociedade e de recolher as informa\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias para fazer tais avalia\u00e7\u00f5es em intervalos regulares. Esses estudos, por exemplo, verificam e quantificam o que deveria ser totalmente \u00f3bvio: a perda de um posto de trabalho tem um impacto enormemente maior do que o que se poderia quantificar calculando apenas a perda de uma renda. Nesse sentido, esses estudos demonstram, al\u00e9m disso, a import\u00e2ncia do fato de serem relacionados ao n\u00edvel social.<\/p>\n<p>Um bom \u00edndice de medida para compreender como estamos procedendo tamb\u00e9m deve levar em considera\u00e7\u00e3o a sustentabilidade. Exatamente como uma empresa precisa calcular a deprecia\u00e7\u00e3o de seu capital, assim tamb\u00e9m as contas da nossa na\u00e7\u00e3o devem refletir o exaurimento dos recursos naturais e a degrada\u00e7\u00e3o do nosso meio ambiente.<\/p>\n<p>As tabelas estat\u00edsticas s\u00e3o concebidas para sintetizar o que ocorre na nossa complexa sociedade com n\u00fameros de f\u00e1cil interpreta\u00e7\u00e3o. Deveria ter sido \u00f3bvio que era imposs\u00edvel reduzir todas as coisas a um \u00fanico n\u00fameros, o PIB. O relat\u00f3rio da Commission on the Measurement of Economic Performance and Social Progress levar\u00e1 &#8211; assim esperamos &#8211; a uma melhor compreens\u00e3o dos usos e dos abusos desse indicador estat\u00edstico.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, o relat\u00f3rio oferecer\u00e1 algumas linhas-guia para criar uma gama mais ampla de indicadores que possam representar mais acuradamente o bem-estar e a sustentabilidade, dando impulso para melhorar a capacidade do PIB e das estat\u00edsticas correlatas para avaliar a performance da economia e da sociedade. Reformas semelhantes nos ajudar\u00e3o a dirigir os nossos esfor\u00e7os (e os nossos recursos) para metodologias que conduzam a uma melhoria em ambos os \u00e2mbitos.&#8221;<\/p>\n<p><span>* Joseph E. Stiglitz \u00e9 professor da Columbia University, pr\u00eamio Nobel de Economia em 2001 e ex-presidente da Comiss\u00e3o Internacional sobre a Medida da Performance Econ\u00f4mica e do Progresso Social.<\/span><\/i><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Gosto muito das an\u00e1lises do economista americano Joseph Stiglitz, Pr\u00eamio Nobel de Economia de 2001. 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