{"id":12395,"date":"2009-09-23T15:39:00","date_gmt":"2009-09-23T17:39:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2009\/09\/entrevista-interessante\/"},"modified":"2009-09-23T15:39:00","modified_gmt":"2009-09-23T17:39:00","slug":"entrevista-interessante","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2009\/09\/entrevista-interessante\/","title":{"rendered":"Entrevista interessante"},"content":{"rendered":"<div>Vasculhando nos meus e-mails antigos atr\u00e1s de um documento, encontrei uma entrevista muito interessante do historiador Francisco Carlos Teixeira, publicada originalmente na R<a href=\"http:\/\/www.revistadehistoria.com.br\/v2\/home\/?go=detalhe&#038;id=1632\">evista de Hist\u00f3ria da Biblioteca Nacional<\/a>.<\/div>\n<p><\/p>\n<div>Algumas declara\u00e7\u00f5es muito interessantes, que divido com voc\u00eas. Notem a parte em que ele fala do Col\u00e9gio Pedro II.<\/div>\n<p><\/p>\n<div><i>&#8220;Brinco na orelha, tatuagens pelo corpo, presen\u00e7a constante na TV. Nem parece, mas Francisco Carlos Teixeira da Silva \u00e9 um historiador. S\u00f3 que n\u00e3o um daqueles \u00e0 moda antiga. Seu principal tema de interesse s\u00e3o os assuntos contempor\u00e2neos, ou, como anuncia a placa na porta de seu laborat\u00f3rio, na Universidade Federal do Rio de Janeiro, o Tempo Presente.<br \/>\u00a0<\/i><\/div>\n<div><i>Especialista na Hist\u00f3ria Social do Brasil, com doutorado e p\u00f3s-doutorado na Alemanha, dedica-se, com gosto especial, a desconstruir mitos do nosso passado recente. Inclusive aqueles que envolvem sua pr\u00f3pria atua\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica.<br \/>\u00a0<\/i><\/div>\n<div><i>Ex-militante comunista, hoje trabalha junto ao Ex\u00e9rcito, levando o debate hist\u00f3rico para escolas militares. E retira das For\u00e7as Armadas a responsabilidade exclusiva pelo golpe de 64. Por outro lado, n\u00e3o entende a resist\u00eancia de alguns oficiais ao julgamento de torturadores. \u201cN\u00e3o se deve culpar as institui\u00e7\u00f5es, mas os indiv\u00edduos. A tortura foi feita por pessoas de carne e osso\u201d. Representante da gera\u00e7\u00e3o 68, minimiza a interpreta\u00e7\u00e3o \u201cnarc\u00edsica\u201d de que aquele per\u00edodo foi decisivo para as transforma\u00e7\u00f5es do pa\u00eds. \u201cDevemos olhar um pouco mais para tr\u00e1s. O Brasil moderno come\u00e7ou em 1958, 1959\u201d. Como historiador, assume que escolas de samba e programas televisivos s\u00e3o mais influentes para o conhecimento popular que qualquer tese de doutorado. E, com uma vida dedicada \u00e0 academia, declara, sem rodeios, que a universidade n\u00e3o contribuiu para sua forma\u00e7\u00e3o.<br \/>\u00a0<\/i><\/div>\n<div><i>Este \u00e9 Francisco Carlos Teixeira da Silva. Mas pode chamar de Chico.<br \/>\u00a0<\/i><\/div>\n<div><i>Revista de Hist\u00f3ria\u00a0\u2013 Como foi sua passagem pela universidade p\u00fablica durante o regime militar? <\/p>\n<p>Francisco Carlos\u00a0\u2013 A universidade n\u00e3o foi importante na minha vida. \u00c9 verdade que tive alguns professores bons, mas poucos. A institui\u00e7\u00e3o que fez diferen\u00e7a na minha forma\u00e7\u00e3o foi o Col\u00e9gio Pedro II.<br \/>\u00a0<\/i><\/div>\n<div><i>RH\u00a0\u2013 Por qu\u00ea? <\/p>\n<p>FC\u00a0\u2013 Era um col\u00e9gio muito criativo. Eu fiz o chamado Curso Cl\u00e1ssico de Humanidades, que preparava para a Faculdade de Filosofia e Letras. T\u00ednhamos aulas de latim, grego, literatura, hist\u00f3ria, geografia e duas l\u00ednguas vivas que, no meu caso, eram o franc\u00eas e o alem\u00e3o. L\u00edamos de Homero at\u00e9 Brecht. O diretor, Vandick Londres da N\u00f3brega, embora fosse um interventor e homem de confian\u00e7a dos militares, valorizava quem era s\u00e9rio e competente. Inclusive testemunhou a favor do fil\u00f3sofo Vieira Pinto, no processo que pretendia cass\u00e1-lo. No Pedro II a gente tinha at\u00e9 um grupo de teatro bastante avan\u00e7ado para a \u00e9poca.<br \/>\u00a0<\/i><\/div>\n<div><i>RH\u00a0\u2013 Voc\u00ea atuava?<\/p>\n<p>FC\u00a0\u2013 Atuava. Acho que \u00e9 por isso que eu gosto de dar aula e fa\u00e7o isso razoavelmente bem. Teatro, naquele momento, tinha muito de grupo de estudo. Voc\u00ea tinha que fazer laborat\u00f3rio, estudar literatura, conhecer os autores. O ambiente do Pedro II foi muito mais rico do que o que encontrei na universidade.<br \/>\u00a0<\/i><\/div>\n<div><i>RH\u00a0\u2013 Na UFRJ a repress\u00e3o era pesada?<\/p>\n<p>FC\u00a0\u2013 O diretor do IFCS [Instituto de Filosofia e Ci\u00eancias Humanas], Eremildo Viana, fazia listas para cassar professores. Mais de tr\u00eas alunos n\u00e3o podiam se reunir no corredor. Isso era considerado reuni\u00e3o pol\u00edtica e tinha puni\u00e7\u00e3o. Havia professores com forma\u00e7\u00e3o policial, ligados ao MAC [Movimento Anti-Comunista] e ao CCC [Comando de Ca\u00e7a aos Comunistas].<br \/>\u00a0<\/i><\/div>\n<div><i>RH\u00a0\u2013 Voc\u00ea estava envolvido com pol\u00edtica?<\/p>\n<p>FC\u00a0\u2013 Eu pertencia \u00e0 TB, Tend\u00eancia Bolchevique da IV Internacional Comunista. Este era, na verdade, o nome da Internacional Trotskista. Uma caracter\u00edstica do trotskismo \u00e9 estudar, agir pouco e brigar muito. Brigar entre si, quero dizer. Se houvesse tr\u00eas trotskistas juntos haveria com certeza uma cis\u00e3o e a forma\u00e7\u00e3o de uma nova tend\u00eancia de oposi\u00e7\u00e3o. De todo modo o trotskismo tinha esse car\u00e1ter de estudo, de trabalho. Fiquei na TB at\u00e9 o momento em ela tentou construir um partido de massas no Brasil, j\u00e1 no come\u00e7o da abertura pol\u00edtica, que foi a Converg\u00eancia Socialista. Como bom trotskista, eu me retirei, pois n\u00e3o concordava com a plataforma da Converg\u00eancia.<br \/>\u00a0<\/i><\/div>\n<div><i>RH\u00a0\u2013 A op\u00e7\u00e3o pela Hist\u00f3ria teve a ver com seu engajamento pol\u00edtico? <\/p>\n<p>FC\u00a0\u2013 Ah, com certeza. N\u00f3s pens\u00e1vamos que estudando Hist\u00f3ria, Hist\u00f3ria Contempor\u00e2nea especialmente, e tamb\u00e9m um pouco Ci\u00eancia Pol\u00edtica, ir\u00edamos entender mais o pa\u00eds e poder atuar politicamente. A vis\u00e3o do curso naquela \u00e9poca era muito instrumental, politizada. Voc\u00ea queria fazer Hist\u00f3ria porque tinha responsabilidade, envolvimento pol\u00edtico, esse era o elemento central. Mas quando se chegava na universidade era uma grande decep\u00e7\u00e3o. O curso de Hist\u00f3ria acabava em 1930. Nunca tive nenhuma aula que tratasse do que aconteceu depois! N\u00e3o estudei a Revolu\u00e7\u00e3o Russa, o fascismo ou qualquer coisa relacionada com Hist\u00f3ria Contempor\u00e2nea na universidade&#8230;<br \/>\u00a0<\/i><\/div>\n<div><i>RH\u00a0\u2013 Isso mudou?<br \/>\u00a0<\/i><\/div>\n<div><i>FC\u00a0\u2013 Aconteceu uma coisa interessante: hoje os alunos t\u00eam um imenso interesse por Hist\u00f3ria Antiga e Medieval. \u00c9 muito gozado, porque no meu tempo, se voc\u00ea se interessasse por essas mat\u00e9rias ganhava a fama de \u201creacion\u00e1rio\u201d. E aqui na UFRJ essa \u00e1rea era dirigida pelo Eremildo Viana. Ent\u00e3o voc\u00ea teria que trabalhar com uma pessoa detest\u00e1vel do ponto de vista \u00e9tico, pol\u00edtico e tamb\u00e9m como ser humano.<br \/>\u00a0<\/i><\/div>\n<div><i>RH\u00a0\u2013 Como foi a briga que o jornalista Elio Gaspari teve com ele?<\/p>\n<p>FC\u00a0\u2013 N\u00e3o houve agress\u00e3o f\u00edsica. O fato \u00e9 que Gaspari o enfrentou duramente e ele n\u00e3o bobeou. Aplicou o decreto 477, que permitia que qualquer aluno fosse expulso por atividade pol\u00edtica. Gaspari foi trabalhar em jornal, no que fez muito bem, sen\u00e3o seria hoje um professor universit\u00e1rio. Mas manteve a tradi\u00e7\u00e3o acad\u00eamica de pesquisa, de escrita, e nunca esqueceu do Eremildo&#8230;<br \/>\u00a0<\/i><\/div>\n<div><i>RH\u00a0\u2013 Criou at\u00e9 um personagem inspirado nele&#8230;<\/p>\n<p>FC\u00a0\u2013 Eremildo, o Idiota. O Gaspari \u00e9 um cara mau nesse sentido. Naquele tempo ele fazia coisa pior. As revistas publicavam in\u00fameros encartes anunciando enciclop\u00e9dias, cursos pelo r\u00e1dio, essas coisas. Voc\u00ea destacava e mandava. O Gaspari ficava colecionando esses an\u00fancios em consult\u00f3rios m\u00e9dicos, ou ent\u00e3o pedia aos amigos. Preenchia com o nome e o endere\u00e7o do Eremildo e colocava no correio. O n\u00famero de enciclop\u00e9dias que o Eremildo comprou por esse sistema deve ter sido imenso por causa dessa maldade do Gaspari&#8230;<br \/>\u00a0<\/i><\/div>\n<div><i>RH\u00a0\u2013 Que fim levou o Eremildo, depois da ditadura?<\/p>\n<p>FC\u00a0\u2013 Foi uma hist\u00f3ria triste. Ele morreu doente, sozinho, num hospital, com problemas financeiros grav\u00edssimos. N\u00e3o tinha nem roupa para ser enterrado. Telefonaram para c\u00e1 e demos ordem de comprar um terno para vesti-lo. Parece teatro grego, foi um fim dos mais tr\u00e1gicos e solit\u00e1rios para uma figura que havia sido t\u00e3o poderosa.<br \/>\u00a0<\/i><\/div>\n<div><i>RH\u00a0\u2013 Qual o legado mais importante da sua gera\u00e7\u00e3o, que enfrentou os chamados \u201canos de chumbo\u201d?<\/p>\n<p>FC\u00a0\u2013 Se h\u00e1 um legado, n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 nosso. Na verdade, a gera\u00e7\u00e3o anterior, dos nossos professores, teve uma atua\u00e7\u00e3o pol\u00edtica muito importante. Um dos que lecionou no IFCS foi Victor Nunes Leal, autor de Enxada e voto, livro fundador da teoria pol\u00edtica no Brasil. N\u00e3o se pode discutir voto, qualidade de voto, sem passar pelas teses dele.<br \/>\u00a0<\/i><\/div>\n<div><i>RH\u00a0\u2013 A import\u00e2ncia da sua gera\u00e7\u00e3o \u00e9, ent\u00e3o, superestimada?\u00a0 <\/p>\n<p>FC\u00a0\u2013 O fato de termos vivido 1968 com tanta intensidade pode nos levar a uma rea\u00e7\u00e3o \u2013 para usar um termo lacaniano \u2013 narc\u00edsica da Hist\u00f3ria. Fazemos o nosso pr\u00f3prio elogio quando, na verdade, a gera\u00e7\u00e3o que nos antecedeu era extremamente produtiva. Em vez de dar tanta import\u00e2ncia a 1964 ou a 1968, dever\u00edamos olhar um pouquinho mais para tr\u00e1s, pensar no per\u00edodo que vai do suic\u00eddio de Vargas \u00e0 constru\u00e7\u00e3o de Bras\u00edlia. \u00c9 quando as coisas realmente aconteceram. O que implica em uma discuss\u00e3o para mim muito importante: onde come\u00e7a o tempo presente brasileiro?<br \/>\u00a0<\/i><\/div>\n<div><i>RH\u00a0\u2013 Pode explicar esse conceito de Tempo Presente? <\/p>\n<p>FC\u00a0\u2013 Ele surgiu na Fran\u00e7a, principalmente por interm\u00e9dio de uma historiadora chamada Lucy Valansi, especializada em judeus na Idade M\u00e9dia. Ela acusou a revista dos Annales de, at\u00e9 1992, ter publicado milhares de artigos sobre bruxas, feiti\u00e7aria, sobre todos os her\u00e9ticos poss\u00edveis, e de n\u00e3o ter publicado um artigo sequer sobre o Holocausto, a persegui\u00e7\u00e3o aos judeus na Fran\u00e7a e a colabora\u00e7\u00e3o de Vichy com os nazistas. E o tempo presente para a Fran\u00e7a passou a ser esse embate com o passado da ocupa\u00e7\u00e3o. Em Berlom, foi criado recentemente um Instituto de Hist\u00f3ria Comparada dedicado ao tempo Presente. E temb\u00e9m o Centro de Pesquisas do Anti-Semintismo, do qual sou membro. Para eles \u00e9 o que chama \u201ca cat\u00e1strofe\u201d. \u00c9 aquela velha hist\u00f3ria: \u201cNunca pergunte ao seu pai o que ele fazia durante a guerra; voc\u00ea pode n\u00e3o gostar da resposta\u201d. Quando eu cheguei \u00e0 Alemanha, em 1982, na universidade tinha um grafite no banheiro que apresentava uma quest\u00e3o de m\u00faltipla escolha assim: \u201cEscolha seu nazista predileto: a)Adolf Hitler, b) Goebbels, c) G\u00f6ring d) Meu av\u00f4\u201d.<br \/>\u00a0<\/i><\/div>\n<div><i>RH\u00a0\u2013 Ent\u00e3o, quando come\u00e7a o tempo presente brasileiro?<\/p>\n<p>FC\u00a0\u2013 Acredito que 1958 e 1959 foram os anos da virada. A cis\u00e3o real do Brasil moderno. Antes disso, enquanto sociedade civil organizada, n\u00e3o t\u00ednhamos nada. A coisa mais pr\u00f3xima do que se poderia chamar de institui\u00e7\u00e3o da sociedade civil eram os sindicatos. No entanto, o sistema de depend\u00eancia que mantinham com o Estado anulava sua capacidade de agir autonomamente em defesa de uma ordem social. Era uma sociedade de Ancien Regime, e n\u00e3o uma sociedade industrial moderna. Temos que pensar em um continuum, que tem em 58 e 59 seu ponto de culmin\u00e2ncia. \u00c9 o momento em que sa\u00edmos de um pa\u00eds provinciano para ingressarmos em outro pa\u00eds.<br \/>\u00a0<\/i><\/div>\n<div><i>RH\u00a0\u2013 O que aconteceu de mais importante nesse per\u00edodo?<\/p>\n<p>FC\u00a0\u2013 Primeiramente aquilo que se chamava de \u201ccr\u00edtica da realidade brasileira\u201d. Foi um esfor\u00e7o muito ing\u00eanuo, mas ao mesmo tempo muito presun\u00e7oso, que permitiu a eclos\u00e3o da modernidade brasileira. Pela primeira vez, a popula\u00e7\u00e3o urbana supera a rural. Na \u00e1rea cultural as mudan\u00e7as s\u00e3o flagrantes. Temos Bras\u00edlia, a Bossa Nova deixa para tr\u00e1s aquela m\u00fasica abolerada que era t\u00edpica do momento, surgem os parangol\u00e9s do H\u00e9lio Oiticica, temos Ligia Clark, Ligia Pape, Ferreira Gullar, Glauber Rocha.<br \/>\u00a0<\/i><\/div>\n<div><i>RH\u00a0\u2013 Como explicar, nesse contexto, o golpe de 64?<br \/>\u00a0<\/i><\/div>\n<div><i>FC\u00a0\u2013 O que faltou foi uma sociedade organizada que pudesse n\u00e3o exatamente resistir, mas pelo menos oferecer a possibilidade de resist\u00eancia. Os golpistas, ent\u00e3o, iriam ter de pensar duas vezes se iriam ou n\u00e3o participar de uma aventura desse tipo. Hoje eu acho que sociedade civil desejou o golpe, no mesmo sentido que a sociedade alem\u00e3 desejou o nazismo. Ela, intrinsecamente, queria o golpe. \u00c9 s\u00f3 a gente apanhar as p\u00e1ginas de O Globo dos dias 2, 3 e 4 de abril, e ver as manifesta\u00e7\u00f5es de massa e as comemora\u00e7\u00f5es pelo golpe. Um golpe organizado por tr\u00eas governadores, de Minas Gerais, S\u00e3o Paulo e Rio de Janeiro, e v\u00e1rias entidades \u2013 a Igreja, a m\u00eddia, todo mundo junto.<br \/>\u00a0<\/i><\/div>\n<div><i>RH\u00a0\u2013 Como anda a sociedade organizada hoje? <\/p>\n<p>FC\u00a0\u2013 De um tempo para c\u00e1, comecei a ter s\u00e9rias d\u00favidas sobre a autonomia da chamada sociedade civil. As ONGs, por exemplo, s\u00e3o clientes do Estado. Sem repasse de verbas ou coisa parecida n\u00e3o t\u00eam poder algum. A constru\u00e7\u00e3o aut\u00f4noma dessas entidades \u00e9 ainda muito fr\u00e1gil no Brasil. Elas n\u00e3o conseguem viver sem um Estado ao lado, fomentando e apoiando.<br \/>\u00a0<\/i><\/div>\n<div><i>RH\u00a0\u2013 O MST vive a mesma situa\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>FC\u00a0\u2013 N\u00e3o, o MST \u00e9 uma experi\u00eancia verdadeiramente aut\u00f4noma, inclusive com uma postura instrumental sobre os partidos pol\u00edticos. Mas \u00e9 um exemplo raro no Brasil de hoje.<br \/>\u00a0<\/i><\/div>\n<div><i>RH\u00a0\u2013 Fale um pouco sobre o projeto Pr\u00f3-Defesa.<\/p>\n<p>FC\u00a0\u2013 A id\u00e9ia do Pr\u00f3-Defesa \u00e9 simples. Temos uma turma de mestrado e outra de doutorado em que o tema tem de se relacionar com assuntos militares. E fazemos inser\u00e7\u00f5es nas diversas escolas militares. Para mim, tem sido fant\u00e1stico falar sobre Hist\u00f3ria do Brasil para 500 jovens alunos e aspirantes de 16 a 18 anos. Daqui a duas semanas viajo para as Agulhas Negras. Vou passar s\u00e1bado e domingo com a garotada de l\u00e1, dando aula de estrat\u00e9gia. Acho fundamental que voc\u00ea trabalhar grandes temas com esses jovens, como o Holocausto e as ditaduras do s\u00e9culo XX.<br \/>\u00a0<\/i><\/div>\n<div><i>RH\u00a0\u2013 \u00c9 uma esp\u00e9cie de interc\u00e2mbio entre institui\u00e7\u00f5es civis e militares?<\/p>\n<p>FC\u00a0\u2013 Acho que \u00e9 mais do que isso. Durante muito tempo, as For\u00e7as Armadas foram nossos oponentes, n\u00e3o \u00e9? O que era at\u00e9 injusto, no sentido de que o golpe de 64 n\u00e3o foi exclusivamente de autoria dos militares. H\u00e1 algumas acusa\u00e7\u00f5es at\u00e9 revoltantes contra eles. O grupo de repress\u00e3o de S\u00e3o Paulo, a chamada opera\u00e7\u00e3o OBAN, nunca pertenceu \u00e0s For\u00e7as Armadas, como muita gente diz. Sabe-se que esses sistemas mais duros de repress\u00e3o foram financiados por empres\u00e1rios. Mas como os militares tinham mais visibilidade, acabaram injustamente com um \u00f4nus maior. Agora, passado esse per\u00edodo, precisamos ver as For\u00e7as Armadas como institui\u00e7\u00f5es que pertencem \u00e0 sociedade brasileira. \u00c9 isso que inspira o projeto Pr\u00f3-Defesa.<br \/>RH\u00a0\u2013 \u00c9 o que pensam os seus colegas?<\/p>\n<p>FC\u00a0\u2013 N\u00e3o, alguns continuam em luta contra as For\u00e7as Armadas. Eu, ao contr\u00e1rio, acho que n\u00e3o se deve culpar as institui\u00e7\u00f5es. A tortura foi feita por pessoas de carne e osso. Ao culpar uma institui\u00e7\u00e3o, voc\u00ea acaba absolvendo essas pessoas. Em todas as institui\u00e7\u00f5es, inclusive as For\u00e7as Armadas, havia a op\u00e7\u00e3o de n\u00e3o torturar. O cara sempre poderia dizer: \u201cMe transfere para outro lugar\u201d. Se n\u00e3o disse, assumiu a responsabilidade, e a\u00ed n\u00e3o h\u00e1 como perdoar. N\u00e3o sei por que raz\u00e3o alguns oficiais ainda se sentem ofendidos quando se fala em punir torturadores. N\u00e3o se quer punir as For\u00e7as Armadas, mas aquele indiv\u00edduo que, inclusive, traiu as For\u00e7as Armadas, torturando, seq\u00fcestrando e matando.<br \/>RH\u00a0\u2013 O Ex\u00e9rcito de hoje \u00e9 diferente do Ex\u00e9rcito de 64? <\/p>\n<p>FC\u00a0\u2013 Sem d\u00favida. Houve renova\u00e7\u00e3o. N\u00e3o existe mais ningu\u00e9m, na institui\u00e7\u00e3o, que tenha tido qualquer cargo importante durante a ditadura. Os oficiais de hoje eram cadetes naquela \u00e9poca. Para voc\u00ea ter uma id\u00e9ia, apesar do meu perfil, recebi as medalhas Tamandar\u00e9 e do Pacificador, as duas comendas mais importantes da Marinha e do Ex\u00e9rcito, respectivamente. Me orgulho muito disso. Nem precisei tirar o brinco durante a cerim\u00f4nia. Quer dizer, n\u00e3o fui eu quem mudou, mas o crit\u00e9rio de escolha deles.<br \/>\u00a0<\/i><\/div>\n<div><i>RH\u00a0\u2013 Voc\u00ea participa tamb\u00e9m de um grupo que estuda a quest\u00e3o do terrorismo. Qual \u00e9 a finalidade desse trabalho?\u00a0\u00a0\u00a0 <\/p>\n<p>FC\u00a0\u2013 A finalidade \u00e9 definir o que \u00e9 terrorismo no Brasil, com vistas a uma legisla\u00e7\u00e3o espec\u00edfica. Fui conselheiro de um projeto nesse sentido, feito pela ABIN [Ag\u00eancia Brasileira de Intelig\u00eancia]. Na verdade, \u00e9 a ONU que est\u00e1 discutindo isso. O Brasil, como signat\u00e1rio da Assembl\u00e9ia da ONU, deve incorporar a mat\u00e9ria, como \u00e9 de praxe, \u00e0 nossa legisla\u00e7\u00e3o ordin\u00e1ria.<br \/>\u00a0<\/i><\/div>\n<div><i>RH\u00a0\u2013 Qual \u00e9 a sua posi\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>FC\u00a0\u2013 Sou contra, pois a puni\u00e7\u00e3o por atos terroristas j\u00e1 est\u00e1 prevista no C\u00f3digo Penal. Transportar uma bomba para explodir um avi\u00e3o, por exemplo, \u00e9 crime, n\u00e3o precisa de nenhuma lei espec\u00edfica. O problema \u00e9 que o Brasil vive fazendo leis especiais e n\u00e3o cumpre nenhuma delas. Meu medo \u00e9 que venhamos a criminalizar o movimento social aut\u00f4nomo como terrorismo. Outra dificuldade \u00e9 definir se atos praticados pelo crime organizado \u2013 como a matan\u00e7a de policiais em S\u00e3o Paulo ou inc\u00eandio de \u00f4nibus no Rio de Janeiro \u2013 podem ser classificados como terrorismo. <br \/>\u00a0<\/i><\/div>\n<div><i>RH\u00a0\u2013 Como ficou o projeto?<\/p>\n<p>FC\u00a0\u2013 Infelizmente, fui voto vencido e o projeto foi enviado \u00e0 ministra Dilma Rousseff. Mas ela teve o bom senso de devolv\u00ea-lo e, por enquanto, n\u00e3o se estabeleceu o crime de terrorismo no Brasil. O Brasil \u00e9 um pa\u00eds interessante. O primeiro seq\u00fcestro de diplomata foi aqui. O primeiro seq\u00fcestro de avi\u00e3o tamb\u00e9m. Mas isso \u00e9 coisa do passado. Pessoalmente, n\u00e3o acredito que exista no Brasil um terrorismo pr\u00f3prio, aut\u00f3ctone.<br \/>\u00a0<\/i><\/div>\n<div><i>RH\u00a0\u2013 Aumentou o interesse pela Hist\u00f3ria Contempor\u00e2nea?<\/p>\n<p>FC\u00a0\u2013 N\u00e3o s\u00f3 pela Hist\u00f3ria Contempor\u00e2nea, mas pela Hist\u00f3ria em geral. A sociedade, hoje, est\u00e1 com fome de Hist\u00f3ria. Essa coisa que acontece comigo e com outros historiadores, de ser chamado a toda hora \u00e0 TV para comentar alguma coisa, \u00e9 sinal de que a sociedade nos legitima como pessoas que podem falar em nome da mem\u00f3ria coletiva.<br \/>\u00a0<\/i><\/div>\n<div><i>RH\u00a0\u2013 Isso \u00e9 bom para o historiador?<\/p>\n<p>FC\u00a0\u2013 \u00c9 muito bem-vindo. Isso n\u00e3o era imagin\u00e1vel h\u00e1 pouco tempo atr\u00e1s, quando as profiss\u00f5es de prest\u00edgio eram m\u00e9dico e advogado. Hoje o historiador, e tamb\u00e9m o cientista pol\u00edtico e o antrop\u00f3logo, t\u00eam uma respeitabilidade muito grande. Mas n\u00e3o podemos querer ser, evidentemente, os donos exclusivos dessa mem\u00f3ria.<br \/>\u00a0<\/i><\/div>\n<div><i>RH\u00a0\u2013 Quem seriam os outros?<\/p>\n<p>FC\u00a0\u2013 H\u00e1 muitos donos. Uma miniss\u00e9rie da TV, \u201cAmaz\u00f4nia\u201d, por exemplo, constr\u00f3i Hist\u00f3ria. Nos barrac\u00f5es das escolas de samba se faz isso o tempo todo. Tudo que os brasileiros sabem sobre Chica da Silva, Dom Pedro e outros personagens, vem muito mais da\u00ed que de alguma tese produzida na universidade. N\u00f3s, historiadores, talvez sejamos os menos populares, os que t\u00eam menos acesso \u00e0 opini\u00e3o p\u00fablica nesse sentido. N\u00e3o me acho no direito, por exemplo, de assistir a um filme e depois dizer: \u201cEst\u00e1 errado, n\u00e3o foi assim que aconteceu\u201d. A liberdade de cria\u00e7\u00e3o tem de ser completa. Acho muito interessantes todas as vis\u00f5es da Hist\u00f3ria do Brasil, seja a de uma Carlota Joaquina carnavalizada, seja a de um torturador com d\u00favidas, como aparece no filme \u201cO que \u00e9 isso, companheiro?\u201d Eu n\u00e3o sei se torturadores t\u00eam d\u00favidas, mas o diretor quis colocar, e considero isso leg\u00edtimo.<br \/>\u00a0<\/i><\/div>\n<div><i>RH\u00a0\u2013 O que acha das cr\u00edticas que se fazem aos historiadores que se debru\u00e7am sobre temas considerados recentes demais?<\/p>\n<p>FC\u00a0\u2013 J\u00e1 me falaram, como se fosse uma grande ofensa, que o que fa\u00e7o \u00e9 jornalismo, e n\u00e3o hist\u00f3ria. Essas cr\u00edticas surgem justamente porque n\u00e3o existe um debate sobre o que seja o Tempo Presente no Brasil. Muitas das cr\u00edticas eu aceito tranq\u00fcilamente. Acho at\u00e9 que n\u00e3o \u00e9 bom algu\u00e9m come\u00e7ar a estudar, de imediato, temas contempor\u00e2neos. Todo mundo devia come\u00e7ar fazendo pesquisa sobre hist\u00f3ria em grande profundidade. Seria legal que o cara fizesse seu mestrado sobre o s\u00e9culo XVI, XVII ou XVIII, aprendesse as t\u00e9cnicas do campo, para depois tratar de Hist\u00f3ria Contempor\u00e2nea.<br \/>\u00a0<\/i><\/div>\n<div><i>RH\u00a0\u2013 Aqui entre n\u00f3s: um historiador do Tempo Presente n\u00e3o sofre com a tenta\u00e7\u00e3o de prever o futuro?<\/p>\n<p>FC\u00a0\u2013 Sofre. Sofre o tempo todo e \u00e9 demandado a isso o tempo todo. Acontece que n\u00f3s somos p\u00e9ssimos para prever o futuro, \u00e9 dific\u00edlimo acertar alguma coisa. Mas ningu\u00e9m \u00e9 pior para prever futuro que cientista pol\u00edtico e economista. S\u00f3 que eles n\u00e3o assumem que erram.<\/i><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Vasculhando nos meus e-mails antigos atr\u00e1s de um documento, encontrei uma entrevista muito interessante do historiador Francisco Carlos Teixeira, publicada originalmente na Revista de Hist\u00f3riaTour Details<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[289],"tags":[214,35,24],"class_list":["post-12395","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-pedro-migao","tag-colegio-pedro-ii","tag-historia","tag-politica"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12395","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=12395"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12395\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=12395"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=12395"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=12395"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}