{"id":12370,"date":"2009-10-06T16:10:00","date_gmt":"2009-10-06T18:10:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2009\/10\/samba-de-terca-para-nao-dizer-que-nao-falei-de-flores\/"},"modified":"2009-10-06T16:10:00","modified_gmt":"2009-10-06T18:10:00","slug":"samba-de-terca-para-nao-dizer-que-nao-falei-de-flores","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2009\/10\/samba-de-terca-para-nao-dizer-que-nao-falei-de-flores\/","title":{"rendered":"Samba de Ter\u00e7a &#8211; &quot;Para n\u00e3o dizer que n\u00e3o falei de flores&quot;"},"content":{"rendered":"<div>Ter\u00e7a feira, muitos afazeres nesta vida&#8230; mas n\u00e3o poderia faltar a nossa coluna di\u00e1ria sobre grandes sambas de ontem e hoje.<\/p>\n<p>Nosso texto de hoje \u00e9 de uma escola que nos dias atuais \u00e9 uma esp\u00e9cie de &#8220;emergente&#8221; do samba; entretanto, o ano de que falaremos \u00e9 de seus prim\u00f3rdios: 1992.<\/p>\n<p>A comunidade da Rocinha sempre possuiu certa resist\u00eancia ao samba e \u00e0s escolas. Isso se deve ao fato de o extrato populacional da comunidade ser formado em seu n\u00facleo por pessoas oriundas do Nordeste. Ou seja, ritmos como o forr\u00f3 eram dominantes na localidade.<\/p>\n<p>A Acad\u00eamicos da Rocinha foi fundada em 1988 como uma tentativa de plantar a semente do samba na regi\u00e3o. Respaldada em um forte apoio financeiro, a escola vinha invicta at\u00e9 aquele momento, sendo campe\u00e3 de todos os grupos anteriores desde a sua funda\u00e7\u00e3o. Chegando ao Acesso A naquele carnaval, falava-se bastante na escola como uma das que, brevemente, alcan\u00e7ariam o Olimpo do samba: o Grupo Especial.<\/p>\n<p>Para 1992, em em sua estr\u00e9ia no segundo grupo, a escola vinha bastante refor\u00e7ada. Foram contratados o puxador Rixxa, o &#8220;Pavarotti do Samba&#8221;; n\u00e3o podendo contar com Jo\u00e3ozinho Trinta, que assinara os carnavais anteriores a escola foi buscar na S\u00e3o Clemente o carnavalesco Carlinhos Andrade. Este foi auxiliado por Ernesto do nascimento, que fora da Mangueira nos dois anos anteriores.<\/p>\n<p>O enredo foi intitulado &#8220;Para n\u00e3o dizer que n\u00e3o falei de flores&#8221;, fazendo alus\u00e3o a uma famosa can\u00e7\u00e3o da m\u00fasica popular brasileira. Contudo, o enredo buscava mostar atrav\u00e9s das flores que a favela da Rocinha n\u00e3o era somente viol\u00eancia, pobreza e discrimina\u00e7\u00e3o. Tamb\u00e9m trazia a esperan\u00e7a de ver as crian\u00e7as da comunidade em um futuro melhor.<\/p>\n<p>Como dizia a sinopse:<\/p>\n<p><i>&#8220;1\u00b0 Quadro &#8211; Abertura<\/p>\n<p>Objetivo: Mostrar o outro lado da Rocinha &#8211; a favela florida.<\/p>\n<p>Levar \u00e0 passarela uma Rocinha que n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 viol\u00eancia, como a sociedade acredita &#8211; mostrar seu lado po\u00e9tico &#8211; o lado das flores, do sonho, da harmonia e da paz, criado pela pr\u00f3pria comunidade. Comunidade esta que tem como fruto de um trabalho s\u00f3lido uma grande Escola de Samba, que agora faz da flor o s\u00edmbolo de seu protesto contra a discrimina\u00e7\u00e3o que lhe \u00e9 imposta por uma vis\u00e3o equivocada.<\/p>\n<p>2\u00b0 Quadro: &#8220;Flores nas brincadeiras de roda&#8221;<\/p>\n<p>Reproduzindo a cantiga &#8220;Apareceu a Margarida&#8221; temos jovens que v\u00e3o tirando as pedras &#8211; obst\u00e1culos vencidos, at\u00e9 atingirem a meta: a Margarida &#8211; a realiza\u00e7\u00e3o, o sonho.<br \/>\u00c9 o jovem da Rocinha que luta para conquistar seu espa\u00e7o, apesar das dificuldades que enfrenta, vivendo numa sociedade discriminat\u00f3ria que lhe bloqueia todos os acessos a uma condi\u00e7\u00e3o melhor.<br \/>A segunda cantiga, &#8220;O Cravo brigou com a Rosa&#8221;, metaforiza a briga do arlequim e a colombina.<br \/>Cravo e rosa separados, influenciados pela competi\u00e7\u00e3o gerada pela pr\u00f3pria sociedade.<br \/>Cravo e rosa juntos &#8211; s\u00edntese do arlequim &#8211; o sonho ou o ideal.<br \/>Formando a s\u00edntese: Homem e mulher &#8211; for\u00e7a de trabalho, de luta &#8211; comunidade.<\/p>\n<p>3\u00b0Quadro: &#8220;Flores no cancioneiro popular&#8221;<\/p>\n<p>a) &#8220;\u00d3 jardineira por que est\u00e1s t\u00e3o triste?&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>Neste quadro temos a jardineira simbolizando a Rocinha, sua esperan\u00e7a, simplicidade e esp\u00edrito comunit\u00e1rio. Em contrapartida, a cam\u00e9lia representando a elite, que &#8220;cai do galho&#8221; e se desfaz a qualquer momento indo buscar aux\u00edlio na jardineira (Rocinha).<\/p>\n<p>b) &#8220;Rosa morena, aonde vais morena Rosa?<br \/>Com essa rosa no cabelo&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>Aqui, a Rosa se foi, virou &#8220;bacana&#8221;, deixou o morro, muda de vida e abandona os companheiros de pagode, deixando-os na expectativa da volta ou do afastamento definitivo para uma nova realidade.<\/p>\n<p>4\u00b0 Quadro: &#8220;Te conhe\u00e7o pelo nome&#8221;<\/p>\n<p>Bico-de-papagaio: embora a flor tenha forte semelhan\u00e7a como bico do papagaio, ela n\u00e3o \u00e9 o pr\u00f3prio. Assim \u00e9 a imprensa com as not\u00edcias do morro &#8211; espalha um s\u00f3 dos lados e nega a poesia, fica s\u00f3 na apar\u00eancia.<br \/>Crista-de-galo: nasce e vive at\u00e9 nas pedras, carnosa e vermelha, demonstrando a capacidade de viver com garra apesar das dificuldades.<br \/>Flor-de-laranjeira: como s\u00edmbolo de pureza, da ingenuidade, do sonho, da fantasia, muito presentes no cora\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as e daqueles que vivem com amor e arte.<br \/>Saudade: uma homenagem a todos aqueles que, por diferentes motivos, foram impedidos de estarem florescendo na passarela.<br \/>Dama da Noite: vida noturna, as luzes simples da vida do morro ofuscando as do dia que come\u00e7a, mesmo que o sol apare\u00e7a tardiamente na sua jornada di\u00e1ria.<br \/>Copo-de-leite: representa\u00e7\u00e3o das palmas da m\u00e3o, entreabertas, num gesto de doa\u00e7\u00e3o &#8211; simbologia da inoc\u00eancia, espiritualidade e pureza de sentimento.<br \/>Maria-sem-vergonha: vive em qualquer lugar. Como a vida para ela \u00e9 inconstante, para poder sobreviver traz consigo uma caracter\u00edstica cong\u00eanita: a versatilidade.<br \/>Boca-de-le\u00e3o: imagem da for\u00e7a bestial (sociedade selvagem que imp\u00f5e as regras), dominada pela intelig\u00eancia (comunidade da Rocinha) e a capacidade de sair vitorioso das ciladas que lhe s\u00e3o armadas &#8211; jogo de cintura do morador.<br \/>Mal-me-quer: \u00e9 a pr\u00f3pria escola trazendo sua indaga\u00e7\u00e3o \u00e0 passarela: &#8220;bem-me-quer ou mal-me-quer?&#8221;<\/p>\n<p>5\u00b0 Quadro: &#8220;Na flor da idade&#8221;<\/p>\n<p>Base da flora da idade: &#8220;Vit\u00f3ria-R\u00e9gia&#8221;, majestade, s\u00edmbolo da beleza, do amor e da juventude.<br \/>A representa\u00e7\u00e3o dos jovens da Rocinha, sua beleza, seu entusiasmo, seu dinamismo, seus sonhos e sua poesia. Esperan\u00e7a e vis\u00e3o segura das possibilidades de futuro.<\/p>\n<p>6\u00b0 Quadro: &#8220;A Flor do Amanh\u00e3&#8221;<\/p>\n<p>Homenagem \u00e0s crian\u00e7as de rua que comp\u00f5em a escola de samba &#8220;Flor do Amanh\u00e3&#8221; &#8211; confian\u00e7a, inoc\u00eancia, ingenuidade, encanto, sensibilidade e ternura.<br \/>Neste momento temos uma metalinguagem &#8211; escola de samba falando de uma outra que leva o nome de flor.<br \/>Esperan\u00e7a de vida<br \/>Esperan\u00e7a de vencer<br \/>Esperan\u00e7a de novas &#8220;Rocinhas&#8221;<\/p>\n<p>Apoteose: finaliza\u00e7\u00e3o de um enredo trazendo a flor &#8211; uma escola de samba chamada &#8220;Flor do Amanh\u00e3&#8221;<\/i><\/p>\n<p><span><i>(Fonte: <a href=\"http:\/\/www.galeriadosamba.com.br\/\">Galeria do Samba<\/a>)<\/i><\/span><\/p>\n<p>A escola pisou a Passarela do Samba como segunda a desfilar no s\u00e1bado de carnaval, 29 de fevereiro. Naquela \u00e9poca, as escolas que vinham dos grupos de baixo abriam os desfiles, pr\u00e1tica salutar e que no meu entender deveria ter sido mantida. Por\u00e9m, mesmo vindo do Acesso B a escola entrou na avenida como uma das grandes favoritas ao t\u00edtulo.<\/p>\n<p>A Acad\u00eamicos da Rocinha n\u00e3o decepcionou e, apesar do hor\u00e1rio ingrato, fez um desfile que a credenciou \u00e0s primeiras coloca\u00e7\u00f5es. Quem sabe at\u00e9 ao sonhado acesso ao Grupo Especial, embora na vis\u00e3o dos analistas a escola &#8220;corresse por fora&#8221;.<\/p>\n<p>Por\u00e9m o resultado deu \u00e0 escola apenas o quinto lugar, com 297 pontos. A campe\u00e3 Acad\u00eamicos do Grande Rio e a vice Unidos da Ponte obtiveram o direito de desfilar no Olimpo do samba em 1993. Bons tempos em que subiam duas escolas&#8230; Reza a lenda que este resultado j\u00e1 estaria definido antes mesmo das escolas adentrarem o Samb\u00f3dromo.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Se \u00e9 verdade, n\u00e3o sei, mas que a diferen\u00e7a de pontos entre as duas e as demais foi estranhamente alta, isto foi &#8211; 316 e 313 respectivamente para 298 da terceira colocada. Relembro que o samba da Grande Rio deste ano <a href=\"http:\/\/pedromigao.blogspot.com\/2009\/06\/samba-de-terca_09.html\">foi tema de outro post desta s\u00e9rie<\/a>.<\/p>\n<p>Vamos ao belo samba, que eu adoro e que faz parte da melhor safra da hist\u00f3ria do Acesso A:<\/p>\n<p><i>Autores: <br \/>Celso, Marquinho, Moacir Alves e Marcos <\/p>\n<p>Puxador(es) <br \/>Rixxa<\/p>\n<p>&#8220;Floresceu<br \/>No jardim a poesia<br \/>Fez feliz o meu cantar<br \/>E ser um rei nessa folia<br \/>Sou a borboleta eu sou<br \/>No despertar de um novo dia<\/p>\n<p><b>Apesar da discrimina\u00e7\u00e3o<\/b><br \/><b>Em versos vou mostrar<br \/>Minha Rocinha t\u00e3o florida<br \/>Exalando amor<br \/>Nessa passarela em flor<\/p>\n<p>Na brincadeira de roda<br \/>Apareceu a margarida<br \/>Realizando os meus sonhos<br \/>Colorindo a minha vida<\/b><\/p>\n<p>No meu jardim<br \/>Cravos, rosas, beija-flor<br \/>Minha linda jardineira<br \/>Vem regar o nosso amor<br \/>Vem amar a noite<br \/>Linda dama meu amor<br \/>Minha flor de laranjeira<br \/>Que fascina\u00e7\u00e3o<br \/>Te conhe\u00e7o pelo nome<br \/>T\u00e1 na boca do le\u00e3o<br \/>Na flor da idade<br \/>Vou gozando a vida<br \/>Vit\u00f3ria r\u00e9gia mocidade<br \/>Em profus\u00e3o<br \/>Hoje eu quero \u00e9 cantar<br \/>Extravasar curtir<br \/>A princesinha na Sapuca\u00ed<\/p>\n<p><b>Eu vou sambar com a mente s\u00e3<br \/>E ver brilhar a flor do amanh\u00e3<\/b><\/i><b>&#8220;<\/b><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/pedromigao.multiply.com\/music\/item\/109\">Aqui<\/a> voc\u00ea pode ouvir a vers\u00e3o em est\u00fadio do samba. Abaixo, um v\u00eddeo do desfile:<\/div>\n<p>Semana que vem, a \u00faltima das grandes e hist\u00f3ricas escolas que ainda n\u00e3o estiveram aqui: Acad\u00eamicos do Salgueiro, 1989, &#8220;Templo negro em tempo de consci\u00eancia negra&#8221;. At\u00e9 l\u00e1.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ter\u00e7a feira, muitos afazeres nesta vida&#8230; mas n\u00e3o poderia faltar a nossa coluna di\u00e1ria sobre grandes sambas de ontem e hoje. 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