{"id":12346,"date":"2009-10-17T17:45:00","date_gmt":"2009-10-17T19:45:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2009\/10\/cronica-teatro-na-escola\/"},"modified":"2009-10-17T17:45:00","modified_gmt":"2009-10-17T19:45:00","slug":"cronica-teatro-na-escola","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2009\/10\/cronica-teatro-na-escola\/","title":{"rendered":"Cr\u00f4nica: teatro na escola"},"content":{"rendered":"<div>Bom, \u00e9 final de semana, e temos aqui mais uma cr\u00f4nica. Hoje um pouco diferente, porque \u00e9 uma hist\u00f3ria real. Alguns detalhes aqui e ali podem conter imprecis\u00f5es &#8211; l\u00e1 se v\u00e3o 21 anos &#8211; mas \u00e9 uma hist\u00f3ria real.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Em 1988, eu fiz a oitava s\u00e9rie, que era a \u00faltima do antigo Primeiro Grau, como bolsista no Col\u00e9gio Anglo Americano, na Barra da Tijuca. Era no tempo em que a Barra era quase deserta, ainda. A Avenida das Am\u00e9ricas, onde ficava &#8211; e fica ainda hoje &#8211; o col\u00e9gio, era quase um ponto isolado, junto com o suprermercado Freeway, naquela imensid\u00e3o.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Segue o texto:<\/div>\n<div><\/div>\n<div><i>&#8220;O ano era 1988. A s\u00e9rie, oitava, \u00faltima do antigo Primeiro Grau. <\/i><\/div>\n<div><i> <\/i><\/div>\n<div><i>A professora de portugu\u00eas na volta das f\u00e9rias de julho prop\u00f4s uma pe\u00e7a teatral sobre o folclore brasileiro. Eu havia feito confus\u00e3o quanto \u00e0 data do retorno e voltei apenas uma semana depois \u00e0s aulas.<\/i><\/div>\n<div><i> <\/i><\/div>\n<div><i>Quando voltei, a pe\u00e7a j\u00e1 estava mais ou menos escrita, com os seus pap\u00e9is. Surgiu um impasse, porque eu era considerado um dos melhores em reda\u00e7\u00e3o e, com a vaidade peculiar somada \u00e0 imaturidade dos 13 anos exigi que fizesse parte da equipe redatora.<\/i><\/div>\n<div><i> <\/i><\/div>\n<div><i>Havia ainda outro problema: como eu era bolsista e demorara a retornar, acreditaram que eu havia desistido e simplesmente eu era o \u00fanico aluno sem quaisquer participa\u00e7\u00e3o na pe\u00e7a teatral. Explico aos mais novos: naqueles tempos telefone era artigo de luxo, como eu n\u00e3o tinha aparelho em casa simplesmente n\u00e3o havia como me contactar.<\/i><\/div>\n<div><i> <\/i><\/div>\n<div><i>Pois bem: ainda tentei for\u00e7ar uma situa\u00e7\u00e3o escrevendo em tempo recorde na velha m\u00e1quina de datilografar uma outra pe\u00e7a &#8211; sobre escolas de samba! \u00d3bvio que sequer foi vista&#8230;<\/i><\/div>\n<div><i> <\/i><\/div>\n<div><i>Negocia daqui, negocia dali, marcou-se uma reuni\u00e3o no s\u00e1bado seguinte para que eu visse o texto e desse algumas sugest\u00f5es. Fez-se a reuni\u00e3o e escrevi algumas (pequenas) altera\u00e7\u00f5es, aceitas.<\/i><\/div>\n<div><i> <\/i><\/div>\n<div><i>Entretanto, preciso ser justo: embora meu nome tenha aparecido como um dos autores, ao lado da Patr\u00edcia Moretzohn (filha de autora de novelas e, hoje, autora da novela Malha\u00e7\u00e3o, da Rede Globo), o texto \u00e9 dela. Na pr\u00e1tica, minha participa\u00e7\u00e3o no texto \u00e9 cosm\u00e9tica.<\/i><\/p>\n<\/div>\n<div><\/div>\n<div><i>A pe\u00e7a contaria a hist\u00f3ria da capoeira como resist\u00eancia cultural dos escravos ao dom\u00ednio imposto a eles. Olhando retrospectivamente, n\u00e3o deixa de ser ir\u00f4nico ver adolescentes bem nascidos, praticamente todos brancos, contando a hist\u00f3ria dos negros&#8230; <br \/><\/i><\/div>\n<div><\/div>\n<div><i>Talvez como um pr\u00eamio de consola\u00e7\u00e3o deram-me um papel pequeno, mas fundamental na estrutura: eu era o escravo que morria a chibatadas no tronco, fato gerador do aparecimento da capoeira na pe\u00e7a. Tinha uma \u00fanica fala, mas&#8230;\u00a0<\/i><\/div>\n<div><i> <\/i><\/div>\n<div><i>A hist\u00f3ria era dividida em dois atos: o primeiro era a revolta dos escravos e sua repress\u00e3o, e o segundo contava o surgimento da capoeira. Era at\u00e9 muito bem escrita. <br \/><\/i><\/div>\n<div><\/div>\n<div><i>Nos ensaios, eu ainda voltava no segundo ato como um dos escravos da roda de capoeira ao final, mas depois fui persuadido a n\u00e3o voltar: afinal de contas, estava morto e n\u00e3o pegava bem mortos voltarem para o mundo dos vivos. Duro era explicar isso para um garoto de 13 anos que j\u00e1 se achava inferior aos colegas e que tivera negados todos os seus pleitos&#8230;<\/i><br \/><i> <\/i><\/div>\n<div><i>Originalmente, meu papel tinha duas falas, mas uma foi cortada durante os ensaios. A menina que fazia o papel de feitora (preconizando os tempos modernos) era a Fernanda, uma j\u00e1 naquela idade alta e bela mo\u00e7a. Ela estava sempre com um chicote, mas, obviamente, apenas fingia que batia. Eu deveria estrebuchar igual a um porco no matadouro, morrendo sem dar um pio &#8211; acho que foi por isso que me tornei um economista&#8230;<\/i><\/div>\n<div><i> <\/i><\/div>\n<div><i>Nossa roupa era uma cal\u00e7a de um tecido r\u00fastico branco e eu ficava sem camisa na pe\u00e7a. Era (extremamente) magro, embora n\u00e3o usasse ainda \u00f3culos, e a cal\u00e7a ficava um verdadeiro bal\u00e3o de g\u00e1s em minhas pernas. Paci\u00eancia&#8230;<\/i><\/div>\n<div><i> <\/i><\/div>\n<div><i>Ap\u00f3s exaustivos e, confesso, divertidos ensaios chegou o dia da apresenta\u00e7\u00e3o. N\u00e3o me lembro se foi aberto ao p\u00fablico externo, mas tinha muita gente naquele dia no audit\u00f3rio do col\u00e9gio. Todo mundo nervoso, eu dando de ombros &#8211; quase n\u00e3o participava mesmo&#8230; s\u00f3 me aborreci porque a cal\u00e7a que me coube ficou parecendo aquelas vestimentas de palha\u00e7o.<\/i><\/div>\n<div><i> <\/i><\/div>\n<div><i>Chegava a ser engra\u00e7ado ver aquele monte de jovens, brancos e praticamente todos de classe alta ou m\u00e9dia alta (adivinhem quem era a exce\u00e7\u00e3o) fazendo papel de escravos.<\/i><\/div>\n<div><i> <\/i><\/div>\n<div><i>Inicia a pe\u00e7a, a hist\u00f3ria vai se desenrolando. Fernanda estava bonita de roupa de feitora\u00a0 &#8211; antecipando os tempos vindouros de domina\u00e7\u00e3o da mulher &#8211; e chapel\u00e3o de caub\u00f3i.<\/i><\/div>\n<div><i> <\/i><\/div>\n<div><i>Enfim acontece o meu minuto de fama ef\u00eamera &#8211; n\u00e3o eram quinze ? Sou levado por outros colegas ao tronco e vem Fernanada para executar a pena. Digo a minha fala e&#8230;<\/i><\/div>\n<div><i> <\/i><\/div>\n<div><i>Ela resolve bater de verdade. Uma, duas, tr\u00eas, v\u00e1rias chicotadas. Eu gritando de verdade e a plat\u00e9ia indo \u00e0 loucura. Penso que foi um dos minutos mais longos da minha vida.<\/i><\/p>\n<\/div>\n<div><\/div>\n<div><i>Dei gra\u00e7as a Deus quando a cortina baixou.<\/i><\/p>\n<p><i>Sinceramente at\u00e9 hoje n\u00e3o sei se ela se empolgou com o p\u00fablico e quis dar realismo \u00e0 cena ou se acabou errando no fingimento e acertou de verdade.<\/i><\/p>\n<p><i>Desci para a coxia, intervalo para o segundo ato, muito aborrecido. Estava com as costas completamente vermelhas e, confesso, muito puto. Minha vontade era trocar de roupa e ir embora, mas fui dissuadido a ficar. Da coxia, acompanhei o segundo ato.<\/i><\/p>\n<p><i>Voltei ao palco, ainda vermelho e com dor, para os aplausos. Tudo correu excelente na apresenta\u00e7\u00e3o e fomos muito elogiados. Acho que eu era o \u00fanico a n\u00e3o sorrir. Nem dava, estava com uma dor&#8230;<\/i><\/p>\n<p><i>Pelo menos ganhei um pedido de desculpas e um beijinho de Fernanda. Para um garoto pobre e feio como eu, era a gl\u00f3ria. No final, tudo acabou bem.<\/i><\/p>\n<p><i>Hoje recordo com saudade, mas custei a ficar contente na ocasi\u00e3o. Ainda mantenho contato ocasional com alguns colegas de turma, principalmente atrav\u00e9s do Orkut &#8211; algo que me deixa muito satisfeito. Principalmente porque, hoje, n\u00e3o fico nada a dever a nenhum deles. Venci.<\/i><\/p>\n<p><i>Quanto \u00e0 chicoteadora, perdi completamente o contato. Nunca mais vi. Entretanto, acredito que continue uma bonita e inteligente mo\u00e7a, como era.&#8221;<\/i><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Bom, \u00e9 final de semana, e temos aqui mais uma cr\u00f4nica. Hoje um pouco diferente, porque \u00e9 uma hist\u00f3ria real. 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