{"id":12337,"date":"2009-10-23T08:10:00","date_gmt":"2009-10-23T10:10:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2009\/10\/cinecasulofilia-bastardos-inglorios\/"},"modified":"2009-10-23T08:10:00","modified_gmt":"2009-10-23T10:10:00","slug":"cinecasulofilia-bastardos-inglorios","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2009\/10\/cinecasulofilia-bastardos-inglorios\/","title":{"rendered":"Cinecasulofilia: Bastardos Ingl\u00f3rios"},"content":{"rendered":"<div>Sexta feira, como de h\u00e1bito nossa coluna sobre cinema.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Escrita pelo cineasta e amigo Marcelo Ikeda, a coluna \u00e9 publicada em parceria com o blog <a href=\"http:\/\/cinecasulofilia.blogspot.com\/\">Cinecasulofilia<\/a>, de autoria do amigo. Hoje, o texto se refere ao novo filme do cineasta americano Quentin Tarantino.<\/div>\n<div><\/div>\n<div><i><b>Bastardos Ingl\u00f3rios<\/b><br \/><span>de Quentin Tarantino<\/span><br \/><\/i><\/div>\n<div><i>&#8220;Acho que estou ficando irremediavelmente velho, pois confesso que achei o novo filme do Tarantino um espet\u00e1culo lament\u00e1vel. Em seus filmes anteriores, e especialmente em Kill Bill (ver aqui), tudo era do campo do cinematogr\u00e1fico, e as estripulias visuais eram emocionantes porque faziam parte de uma declara\u00e7\u00e3o de amor ao cinema como espa\u00e7o de liberdade e campo da imagina\u00e7\u00e3o. A viol\u00eancia era puramente gr\u00e1fica e, acima de tudo, Kill Bill (como se revela no volume 2) \u00e9 um filme sobre a impossibilidade da vingan\u00e7a, sobre uma humaniza\u00e7\u00e3o de uma saga sanguinolenta.<\/p>\n<p>J\u00e1 em Bastardos Ingl\u00f3rios Tarantino radicaliza a afirma\u00e7\u00e3o de Samuel Fuller que o cinema \u00e9 \u201cum campo de batalhas\u201d. O hist\u00f3rico conflito entre judeus e nazistas culmina num pequeno cinema de Paris, que anteriormente passava Le Corbeau, Max Linder e outros filmes \u201cinofensivos\u201d. A multifacetada narrativa de combate aos nazistas culmina na sala de espet\u00e1culos, na proje\u00e7\u00e3o de um filme tipicamente nazista, exaltando os feitos de um \u201cher\u00f3i de guerra\u201d nazista que, sozinho, matou cerca de 300 inimigos. Aliam-se duas frentes: os \u201cintelectuais engajados\u201d (a dona do cinema) (na verdade nem isso) e os \u201cradicais terroristas\u201d (os bastardos ingl\u00f3rios). As cita\u00e7\u00f5es continuam como base de um cinema de cinefilia: desde o come\u00e7o \u00e0 la S\u00e9rgio Leone, em cinemascope com grandes close ups, at\u00e9 uma improv\u00e1vel Joana D\u00b4Arc queimando (tamb\u00e9m em close) nas telas do cinema, sem contar com os filmes exibidos na fachada desse cinema, e at\u00e9 a presen\u00e7a de um cr\u00edtico de cinema que, obviamente quase ir\u00e1 estragar todos os planos de ataque (h\u00e1 uma piada que sugere que os nazistas foram derrotados quando a ind\u00fastria cinematogr\u00e1fica montada por Goebbels come\u00e7ou a incomodar os judeus \u2013 \u00e9 como se eles tivessem ido desta vez sim longe demais). Com piadas desse tipo, Tarantino faz um impens\u00e1vel tour de force, mexendo com \u201cmaterial inflam\u00e1vel\u201d: mas ao inv\u00e9s de mexer apenas com o nitrato t\u00edpico da cinefilia, Tarantino avan\u00e7a para uma farsa sobre o Holocausto. Acontece que Tarantino n\u00e3o \u00e9 Kubrick, e faz um espet\u00e1culo profundamente lament\u00e1vel. Existe um certo vi\u00e7o nas reviravoltas e na paix\u00e3o com que indiscutivelmente Tarantino mexe e remexe sua narrativa, articula rela\u00e7\u00f5es e rea\u00e7\u00f5es, mantendo-se coerente a recursos j\u00e1 vistos em sua filmografia (a irrever\u00eancia, o apelo cool, as cenas-limite de \u201cum apontando armas para o outro\u201d, os planos-sequ\u00eancia e as gruas no sagu\u00e3o do cinema, o cinema cinef\u00edlico de cita\u00e7\u00f5es), mas acontece que aqui Tarantino vai al\u00e9m do cinema como lugar para a imagina\u00e7\u00e3o e avan\u00e7a para um cinema reacion\u00e1rio, direitista, belicista, em favor da vingan\u00e7a e da intoler\u00e2ncia, um elogio \u00e0 trai\u00e7\u00e3o, ao irracionalismo e \u00e0 viol\u00eancia como grafismo irrespons\u00e1vel. O cinema passa a ser transportado da tela para a vida ao avesso, como vingan\u00e7a n\u00e3o s\u00f3 prov\u00e1vel como necess\u00e1ria: os dois bastardos atirando nos nazistas encurralados, dois sozinhos matando \u201c350 pessoas\u201d, ou a lota\u00e7\u00e3o do cinema, como avesso da saga do her\u00f3i vista na tela (tela dentro da tela, cinema dentro do cinema). N\u00e3o h\u00e1 cr\u00edtica ao desejo insano de \u201ctirar o escalpo\u201d dos inimigos \u2013 como havia por exemplo mesmo nos filmes de John Ford \u2013 apenas a divers\u00e3o an\u00e1rquica, as gargalhadas dos espectadores que ecoam diante do espet\u00e1culo cool. Quando Fuller afirmava que o \u201ccinema \u00e9 um campo de batalhas\u201d, aponta para as tens\u00f5es do poder e a natureza humana, mas nunca transformou isso num espet\u00e1culo de vaidades (\u00e9 s\u00f3 ver Agonia e Gl\u00f3ria, por exemplo). Usando armas nazistas para denunciar os mesmos nazistas passa a impress\u00e3o que Tarantino se aproxima pela oposi\u00e7\u00e3o, um corpo estranho numa Am\u00e9rica que tenta (ainda que timidamente) se desarmar e escapar de sua inclina\u00e7\u00e3o imperialista, num espet\u00e1culo extremamente duvidoso.&#8221;<\/i><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sexta feira, como de h\u00e1bito nossa coluna sobre cinema. 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