{"id":12190,"date":"2010-01-15T07:46:00","date_gmt":"2010-01-15T09:46:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2010\/01\/cinecasulofilia-clint-eastwood\/"},"modified":"2010-01-15T07:46:00","modified_gmt":"2010-01-15T09:46:00","slug":"cinecasulofilia-clint-eastwood","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2010\/01\/cinecasulofilia-clint-eastwood\/","title":{"rendered":"Cinecasulofilia &#8211; Clint Eastwood"},"content":{"rendered":"<div><a href=\"http:\/\/2.bp.blogspot.com\/_KYflagr2MuI\/S06GAKUpgHI\/AAAAAAAABfs\/OKn2nzpJ9cc\/s1600-h\/Clint.bmp\" imageanchor=\"1\"><img decoding=\"async\" border=\"0\" ps=\"true\" src=\"http:\/\/2.bp.blogspot.com\/_KYflagr2MuI\/S06GAKUpgHI\/AAAAAAAABfs\/OKn2nzpJ9cc\/s200\/Clint.bmp\"><\/a>Sexta feira, compromisso da fam\u00edlia da esposa me aguardando em Maca\u00e9 e como sempre iniciando com a nossa coluna sobre cinema.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Assinada pelo amigo, cineasta e cr\u00edtico &#8211; al\u00e9m de torcedor da Acad\u00eamicos de Santa Cruz &#8211;\u00a0Marcelo Ikeda, dono do blog especializado Cinecasulofilia.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>O texto que reproduzimos hoje \u00e9 sobre o novo filme do ator e diretor Clint Eastwood (foto).<\/div>\n<div><\/div>\n<div><em>&#8220;<strong>Invictus<\/strong><\/em><br \/><em><\/em><em><br \/><\/em><em>Confesso que, ao ver um filme como Invictus, me sinto um pouco constrangido em dizer que tento ser um cineasta. Com isso n\u00e3o quero desmerecer o cinema experimental \u2013 cinema pelo qual tenho um profundo apre\u00e7o, ali\u00e1s cada vez mais intenso \u2013 mas simplesmente que \u00e9 fascinante como o eterno cinema cl\u00e1ssico americano alia t\u00e9cnica, raz\u00e3o, emo\u00e7\u00e3o e tes\u00e3o em alto estilo. Invictus \u00e9 um filme de maturidade: um produto do espect\u00e1culo cinematogr\u00e1fico americano mas ao mesmo tempo um filme absolutamente pessoal e curiosamente audacioso. E \u00e9 essa \u201caud\u00e1cia com responsabilidade\u201d o que mais me fascina no filme.<\/em><\/div>\n<div><em>Clint Eastwood se baseia num fato real: a elei\u00e7\u00e3o de Nelson Mandela como Presidente da \u00c1frica do Sul e o campeonato da sele\u00e7\u00e3o nacional de rugby. Cria um filme de fic\u00e7\u00e3o sobre o fato tomando diversas liberdades. Mas essas liberdades s\u00e3o expl\u00edcitas: o filme n\u00e3o procura simular um document\u00e1rio na sua est\u00e9tica ou movimentos de c\u00e2mera (com isso quero apontar para usos considerados \u201crealistas\u201d dos elementos de linguagem por filmes que se prop\u00f5em examinar processos hist\u00f3ricos, como por exemplo a c\u00e2mera fren\u00e9tica do desembarque da Normandia em O Resgate do Soldado Ryan, ou mesmo em Domingo Sangrento, de Paul Greengrass) (a n\u00e3o ser logo no in\u00edcio do filme quando um material de arquivo em VHS \u00e9 combinado com cenas ficcionais feitas exclusivamente para esse efeito \u2013 quase como em Zelig \u2013 mas nesse caso tem como efeito apontar para o espectador a atualidade da quest\u00e3o que o filme toca, devo falar disso no final, e n\u00e3o \u201cborrar\u201d a fronteira entre ambos). Por outro lado, n\u00e3o quer esgar\u00e7ar o processo hist\u00f3rico a ponto de torn\u00e1-lo uma caricatura grosseira, apontando para um virtuosismo da escrita cinematogr\u00e1fica, como efeitos gr\u00e1ficos ou jogos narrativos internos, como \u00e9 o caso de filmes como Bastardos Ingl\u00f3rios, ou mesmo dos brasileiros Cidade de Deus ou Tropa de Elite.<\/em><\/p>\n<\/div>\n<div><em>Eastwood n\u00e3o procura fazer nem um nem outro: nem procura emular um document\u00e1rio nem ser niilista, apontando para o vazio da hist\u00f3ria. Sua dist\u00e2ncia dessas duas abordagens se d\u00e1 por um simples fato: o da busca por um cinema essencialmente \u00e9tico que reflita sobre o mundo de hoje. A diferen\u00e7a de Eastwood para esses cineastas (Tarantino, Greengrass, Padilha, Meirelles, etc.) ocorre, claro, por uma vis\u00e3o de mundo, mas tamb\u00e9m na forma como s\u00e3o expostas imagens para o espectador; diferem em rela\u00e7\u00e3o ao valor que conferem a uma imagem.<\/em><\/p>\n<\/div>\n<div><em>Como diz\u00edamos, Invictus fala sobre Mandela e a \u00c1frica do Sul. Fala sobre os desafios de num mesmo pa\u00eds (ou num mesmo \u201cmundo\u201d) dialogarem tend\u00eancias divergentes, questiona sobre a possibilidade de paz num mundo de diferen\u00e7as. Curiosamente, sua resposta \u00e9 positiva: a paz \u00e9 poss\u00edvel se forem esquecidos os conflitos do passado para se investir num projeto de futuro. (Nisso, se assemelha bastante a Gran Torino). Ou ainda, se o projeto for se fato a aceita\u00e7\u00e3o da diferen\u00e7a, e n\u00e3o a supremacia de um grupo de poder sobre outro.<\/em><\/p>\n<\/div>\n<div><em>Mas o inusitado (da\u00ed a \u201caud\u00e1cia\u201d) da proposta de Eastwood \u00e9 investigar isso sobre o ponto de vista de uma sele\u00e7\u00e3o de rugby. Para o presidente, a chave de solu\u00e7\u00e3o dos conflitos da \u00c1frica do Sul surge a partir da vit\u00f3ria da equipe nacional de rugby. Dessa forma, um jogo da sele\u00e7\u00e3o passa a ser mais importante que um programa ministerial: o rugby passa a ser uma quest\u00e3o de Estado. Aqui surge um incr\u00edvel paradoxo que Eastwood resolve como mestre, e da\u00ed a singeleza desse filme. O que poderia cair numa com\u00e9dia escrachada, ridicularizando essa tentativa de unifica\u00e7\u00e3o, como um processo superficial e popularesco, acaba se revelando um enorme componente indutor de um olhar absolutamente complexo sobre a realidade de um pa\u00eds, sobre a natureza do espet\u00e1culo, sobre a pol\u00edtica, sobre a natureza humana.<\/em><\/p>\n<\/div>\n<div><em>H\u00e1 uma frase que resume essas inten\u00e7\u00f5es. A assessora do presidente o questiona sobre a import\u00e2ncia dada ao rugby. Ela afirma que existem quest\u00f5es mais importantes para o pa\u00eds, e num determinado momento ela pergunta se \u00e9 simplesmente um \u201cc\u00e1lculo\u201d, uma forma pol\u00edtica \u2013 eu diria populista \u2013 de aumentar sua base de poder. A resposta \u00e9 genial: ele diz que existe sim um c\u00e1lculo, mas \u201cum c\u00e1lculo humano\u201d.<\/em><\/p>\n<\/div>\n<div><em>Invictus \u00e9 sobre a possibilidade de humaniza\u00e7\u00e3o desse \u201cc\u00e1lculo\u201d, chave de toda a busca do cinema \u00e9tico de Eastwood, e chave de elucida\u00e7\u00e3o de como as imagens s\u00e3o usadas nesse filme para coroar isso.<\/em><\/p>\n<\/div>\n<div><em>Invictus \u00e9 sobre uma concilia\u00e7\u00e3o poss\u00edvel. Mandela se torna presidente de um pa\u00eds, presidente dos brancos e dos negros. Ser \u201cpresidente dos brancos\u201d n\u00e3o significa no entanto trair suas origens, nem tamb\u00e9m representa meramente um \u201cacordo com as elites para a governabilidade do pa\u00eds\u201d. O apoio \u00e0 equipe de rugby n\u00e3o deixa de ser oportunista, mas um \u201coportunismo\u201d de outra natureza: da\u00ed a humaniza\u00e7\u00e3o de seu c\u00e1lculo. Para ser presidente dos brancos e dos negros, \u00e9 preciso que os brancos e os negros tenham orgulho de um pa\u00eds. E o modo mais r\u00e1pido e efetivo de conseguir isso \u00e9 atrav\u00e9s do espet\u00e1culo.<\/em><\/p>\n<\/div>\n<div><em>O espet\u00e1culo em torno de um campeonato mundial de rugby \u00e9 uma das facetas de uma sociedade do espet\u00e1culo, em que o cinema americano certamente faz parte disso. A paix\u00e3o, a habilidade com que Eastwood filma as cenas de jogo \u00e9 fascinante, porque mostra que esse \u201cvelhinho\u201d \u00e9 absolutamente jovial quando \u00e9 necess\u00e1ria uma mobilidade da c\u00e2mera, uma utiliza\u00e7\u00e3o mais presente dos recursos de montagem, dos efeitos sonoros, visuais (c\u00e2meras lentas), etc., jogos com a pr\u00f3pria confec\u00e7\u00e3o, com a tessitura do dia-a-dia do material f\u00edlmico, em especial quando se trata de um filme de grande or\u00e7amento quanto Invictus.<\/em><\/p>\n<\/div>\n<div><em>Mandela sabe jogar conforme as regras do jogo, e essa \u00e9 a sua enorme sabedoria, este \u00e9 o seu \u201cc\u00e1lculo\u201d, dado que esse \u201cjogar\u201d n\u00e3o compromete a verdadeira ess\u00eancia do seu discurso. Ou seja, \u00e9 bem diferente do \u201cos fins justificam os meios\u201d. Devemos abrir m\u00e3o do que importa a n\u00edvel superficial para conquistar o que nos importa a n\u00edvel das ess\u00eancias.<\/em><\/p>\n<\/div>\n<div><em>Num ano em que ambos concorrem ao Oscar, \u00e9 curioso ver frente a frente Invictus e Bastardos Ingl\u00f3rios, dois filmes totalmente opostos: enquanto Bastardos Ingl\u00f3rios esgar\u00e7a a imagem, concentra-se em jogos narrativos e distorce a realidade hist\u00f3rica para promover a vingan\u00e7a, a intoler\u00e2ncia e o ressentimento, Invictus resgata o cinema cl\u00e1ssico para subvert\u00ea-lo n\u00e3o nas superf\u00edcies dessa imagem, n\u00e3o nos cacoetes estil\u00edsticos, mas a partir da busca por um cinema \u00e9tico que promova os valores da concilia\u00e7\u00e3o, do perd\u00e3o e da toler\u00e2ncia. Uma mensagem pacifista mas sem ser ing\u00eanua, sem deixar de apontar que precisa-se abrir m\u00e3o de algo para conquistar esse di\u00e1logo.<\/em><\/p>\n<\/div>\n<div><em>\u00c9 s\u00f3 pensar na diferen\u00e7a entre as sequ\u00eancias de di\u00e1logo entre os dois filmes. Enquanto em Bastardos Ingl\u00f3rios, a sequ\u00eancia do oficial nazista com o campon\u00eas aponta para a ironia, o sarcasmo, os jogos verbais, os sotaques estilizados, a \u201cverve do falar\u201d, etc., em Invictus a do presidente com o capit\u00e3o da equipe de rugby aponta para o n\u00e3o-dito, para a profundidade da humaniza\u00e7\u00e3o desse contato. Na primeira, n\u00e3o h\u00e1 di\u00e1logo verdadeiro; na segunda, um di\u00e1logo profundo, al\u00e9m das palavras.<\/em><\/p>\n<p><em>O pacifismo de Invictus n\u00e3o \u00e9 ing\u00eanuo, n\u00e3o \u00e9 o pacifismo do \u201cjuntos chegaremos l\u00e1\u201d. Um dos pontos destacados por Invictus \u00e9 o da necessidade de n\u00e3o necessariamente satisfazer as expectativas dos seus aliados (amigos) para atingir um objetivo verdadeiro (veja a seguran\u00e7a pessoal do presidente, tamb\u00e9m composta por brancos, ou ainda lutar para manter as cores do uniforme da equipe de rugby). Ou ainda, Invictus aponta claramente para a solid\u00e3o do poder, para o fato de que o verdadeiro l\u00edder inevitavelmente acaba solit\u00e1rio (\u00e9 s\u00f3 ver os finais de A Troca e Gran Torino). Eastwood, no meio do espet\u00e1culo, faz quest\u00e3o de apontar sequ\u00eancias de transi\u00e7\u00e3o que mostram caminhadas solit\u00e1rias do presidentes pelas ruas vazias, ou ainda, o l\u00edder dormindo sozinho em sua grande mans\u00e3o, longe da esposa e da filha. A forma como Eastwood mostra a casa em que o presidente mora \u00e9 exemplar: quase sempre noturna, vazia, silenciosa, em penumbra, num clima de reflex\u00e3o e ang\u00fastia, onde esse grande l\u00edder se retira, como se fosse um filme japon\u00eas.<\/em><\/p>\n<\/div>\n<div><em>H\u00e1 tantos outros pontos a se destacar no filme, mas o tempo urge e quero concluir com o essencial. Invictus \u00e9 um filme sobre a pol\u00edtica do mundo de hoje. \u00c9 um filme sobre os Estados Unidos de hoje, e \u2013 por que n\u00e3o pensar \u2013 um filme sobre o Brasil de hoje: poder\u00edamos pensar Lula e a sele\u00e7\u00e3o de futebol, e os \u201cacordos com os brancos para a consolida\u00e7\u00e3o do poder\u201d. Invictus \u00e9 um filme t\u00e3o complexo que \u201ca situa\u00e7\u00e3o e a oposi\u00e7\u00e3o\u201d poderiam chegar a id\u00e9ias opostas sobre se o filme elogia ou critica a posi\u00e7\u00e3o do presidente, e estariam em certa medida ao mesmo tempo corretos e equivocados em sua avalia\u00e7\u00e3o.<\/em><\/p>\n<\/div>\n<div><em>Ser\u00e1 que o filme Lula, o Filho do Brasil ser\u00e1 t\u00e3o pol\u00edtico quanto o filme de Eastwood?&#8221;<\/em><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sexta feira, compromisso da fam\u00edlia da esposa me aguardando em Maca\u00e9 e como sempre iniciando com a nossa coluna sobre cinema. 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