{"id":12184,"date":"2010-01-19T08:45:00","date_gmt":"2010-01-19T10:45:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2010\/01\/samba-de-terca-um-mouro-no-quilombo\/"},"modified":"2010-01-19T08:45:00","modified_gmt":"2010-01-19T10:45:00","slug":"samba-de-terca-um-mouro-no-quilombo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2010\/01\/samba-de-terca-um-mouro-no-quilombo\/","title":{"rendered":"Samba de Ter\u00e7a &#8211; &quot;Um Mouro no Quilombo&quot;"},"content":{"rendered":"<div>A coluna &#8220;Samba de Ter\u00e7a&#8221; estar\u00e1 um pouquinho diferente at\u00e9 o carnaval. Estarei escrevendo sobre desfiles dos quais participei como desfilante, de modo a motivar aqueles que desejem enfrentar fantasiados a Marqu\u00eas de Sapuca\u00ed.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Com isso, at\u00e9 a ter\u00e7a feira antes do carnaval, 09 de fevereiro, teremos sempre sambas e desfiles posteriores a 2001 &#8211; ano em que comecei a participar como desfilante.<\/div>\n<div><\/div>\n<div><a href=\"http:\/\/3.bp.blogspot.com\/_KYflagr2MuI\/S1E2AqWpPbI\/AAAAAAAABgk\/zlKZpJxt_JY\/s1600-h\/tuiuti2001-13.jpg\" imageanchor=\"1\"><img decoding=\"async\" border=\"0\" ps=\"true\" src=\"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2010\/01\/tuiuti2001-13.jpg\"><\/a><\/div>\n<div><\/div>\n<div>Obviamente, o texto que abre esta &#8220;s\u00e9rie dentro da s\u00e9rie&#8221; \u00e9 o samba com o qual passei pela primeira vez na avenida: Para\u00edso do Tuiuti 2001, &#8220;Um Mouro no Quilombo&#8221;.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>O leitor mais atento deve estar se perguntando: &#8220;como ele estreou pela Para\u00edso do Tuiuti se \u00e9 portelense?&#8221;<\/div>\n<div><\/div>\n<div><a href=\"http:\/\/4.bp.blogspot.com\/_KYflagr2MuI\/S1E2Lid2ufI\/AAAAAAAABgs\/dvzJMwHNBRg\/s1600-h\/tuiuti2001%3D-20.jpg\" imageanchor=\"1\"><img decoding=\"async\" border=\"0\" ps=\"true\" src=\"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2010\/01\/tuiuti2001%3D-20.jpg\"><\/a><\/div>\n<div><\/div>\n<div>Explico. Eu iria na mesma noite estrear pela Portela, mas optei por desfilar em outra escola naquele carnaval de 2001, antes, a fim de me deixar menos tenso para o &#8220;dever c\u00edvico&#8221; em minha escola de cora\u00e7\u00e3o. Ali\u00e1s, fiz algo naquela noite que, decididamente, n\u00e3o recomendo aos leitores: desfilei no Tuiuti, voltei em casa, troquei de roupa e voltei para passar pela Portela. N\u00e3o fa\u00e7am isso, \u00e9 loucura. Melhor comprar ingresso e ficar no Samb\u00f3dromo.<\/div>\n<div><\/div>\n<div><a href=\"http:\/\/4.bp.blogspot.com\/_KYflagr2MuI\/S1E2Tg_eFDI\/AAAAAAAABg0\/rNloNvFevjg\/s1600-h\/tuituti2001-10.jpg\" imageanchor=\"1\"><img decoding=\"async\" border=\"0\" ps=\"true\" src=\"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2010\/01\/tuituti2001-10.jpg\"><\/a><\/div>\n<div><\/div>\n<div>A simp\u00e1tica agremia\u00e7\u00e3o de S\u00e3o Crist\u00f3v\u00e3o vinha em um crescimento cont\u00ednuo e estruturado. Comandada por um grupo de pessoas honesto e que gostava de carnaval, a escola havia surpreendentemente obtido o segundo lugar no Grupo de Acesso A no ano anterior, garantindo, assim, o direito de pela primeira vez em sua hist\u00f3ria desfilar na Meca do samba, o Grupo Especial.<\/div>\n<div><\/div>\n<div><a href=\"http:\/\/1.bp.blogspot.com\/_KYflagr2MuI\/S1E2eHh1AYI\/AAAAAAAABg8\/qwQ3qytnWtk\/s1600-h\/tuituti2001-9.jpg\" imageanchor=\"1\"><img decoding=\"async\" border=\"0\" ps=\"true\" src=\"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2010\/01\/tuituti2001-9.jpg\"><\/a><\/div>\n<div><\/div>\n<div>Foram mantidos para este desfile os principais art\u00edfices da ascens\u00e3o da escola: o carnavalesco Paulo Menezes (estreante no grupo principal), o puxador Ciganerey e o mestre de bateria Thor &#8211; que, ali\u00e1s, hoje \u00e9 o presidente de direito da escola.<\/div>\n<div><\/div>\n<div><a href=\"http:\/\/3.bp.blogspot.com\/_KYflagr2MuI\/S1E2paZGxtI\/AAAAAAAABhE\/KMKh7i7x1A8\/s1600-h\/tuiuti2001-5.jpg\" imageanchor=\"1\"><img decoding=\"async\" border=\"0\" ps=\"true\" src=\"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2010\/01\/tuiuti2001-5.jpg\"><\/a><\/div>\n<div><\/div>\n<div>O enredo proposto pelo carnavalesco foi &#8220;Um Mouro no Quilombo&#8221;, que retratava a aventura vivida por um mu\u00e7ulmano que sofre um naufr\u00e1gio, \u00e9 salvo e vem parar no Quilombo dos Palmares. Como diz a sinopse do enredo:<\/div>\n<div><\/div>\n<div><a href=\"http:\/\/4.bp.blogspot.com\/_KYflagr2MuI\/S1E2ynV6eXI\/AAAAAAAABhM\/GNkqqi5Ugsg\/s1600-h\/tuiuti2001-6.jpg\" imageanchor=\"1\"><img decoding=\"async\" border=\"0\" ps=\"true\" src=\"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2010\/01\/tuiuti2001-6.jpg\"><\/a><\/div>\n<div><\/div>\n<div><em>&#8220;O enredo do Para\u00edso do Tuiuti para 2001 \u00e9 inspirado em um livro, A incr\u00edvel e fascinante hist\u00f3ria do Capit\u00e3o Mouro, de Georges Bourdoukan. Um misto de hist\u00f3ria &#8211; fatos que a Hist\u00f3ria registra &#8211; e fic\u00e7\u00e3o &#8211; coisas imaginadas &#8211; sobre a vida de um personagem muito interessante que, por uma s\u00e9rie de acasos, acabou tendo participa\u00e7\u00e3o na Hist\u00f3ria do Brasil.<\/em><\/div>\n<p><em><\/em><\/p>\n<div><\/div>\n<p><\/p>\n<div><em>Vamos contar aqui a hist\u00f3ria de um mouro que vivia em Granada, na Espanha, e saiu de sua terra para, como manda a religi\u00e3o isl\u00e2mica, fazer peregrina\u00e7\u00e3o \u00e0 cidade de Meca. Mas, como veremos, estava escrito (Maktub, em \u00e1rabe) que seu destino seria bem diferente.<\/em><\/div>\n<div><\/div>\n<div><a href=\"http:\/\/1.bp.blogspot.com\/_KYflagr2MuI\/S1E3cSYMIjI\/AAAAAAAABhU\/ExE-jxH_cP4\/s1600-h\/tuiuti2001-3.jpg\" imageanchor=\"1\"><img decoding=\"async\" border=\"0\" ps=\"true\" src=\"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2010\/01\/tuiuti2001-3.jpg\"><\/a><\/div>\n<div><em><br \/><\/em><em>1\u00aa parte: O Islamismo<\/em><\/div>\n<p><em><\/em><\/p>\n<div><\/div>\n<p><\/p>\n<div><em>A Espanha tinha estado mais de oito s\u00e9culos sob o dom\u00ednio dos \u00e1rabes. \u00c9 ineg\u00e1vel que a civiliza\u00e7\u00e3o \u00e1rabe, muito adiantada, deixara suas marcas positivas na Pen\u00ednsula Ib\u00e9rica. Granada, capital da Espanha arabizada, era bastante progressista e o nosso her\u00f3i tinha, portanto, assimilado v\u00e1rios aspectos dessa cultura. Foram importantes marcas da cultura \u00e1rabe a arquitetura (as mesquitas, com suas formas caracter\u00edsticas do estilo mourisco), a ci\u00eancia (medicina adiantada), o instinto guerreiro e sobretudo a religi\u00e3o.<\/em><\/div>\n<p><em><\/em><\/p>\n<div><\/div>\n<p><\/p>\n<div><em>O \u00e1rabe \u00e9 profundamente religioso. Segue os princ\u00edpios do islamismo, segundo o qual o destino do homem est\u00e1 tra\u00e7ado por Alah de maneira inapel\u00e1vel, sendo imposs\u00edvel fugir dele. O \u00e1rabe \u00e9 conformado, nunca se revolta contra a vontade de Alah. Ao menos uma vez na vida deve ir a Meca, em peregrina\u00e7\u00e3o, agradecer a Alah o dom da vida. <\/em><\/div>\n<p><em><\/em><\/p>\n<div><\/div>\n<p><\/p>\n<div><em>Foi justamente para cumprir esse preceito que nosso mouro saiu de Granada, enfrentando toda a sorte de adversidades que as viagens mar\u00edtimas reservavam na \u00e9poca.<\/em><\/div>\n<p><em><\/em><\/p>\n<div><\/div>\n<p><\/p>\n<div><em>Muitos perigos rondavam os viajantes: tempestades, calmarias (que deixavam as embarca\u00e7\u00f5es \u00e0 deriva \u00e0s vezes por meses a fio) e a peste. Havia ainda o risco de ser atacado por piratas, que sabiam que os peregrinos levavam \u00e0 cidade sagrada grande quantidade de dinheiro para ser distribu\u00eddo aos necessitados, como manda o preceito da religi\u00e3o isl\u00e2mica.<\/em><\/div>\n<p><em><\/em><\/p>\n<div><\/div>\n<p><\/p>\n<div><em>E foi o que aconteceu ao nosso her\u00f3i, que teve de usar seu \u00e2nimo guerreiro para derrotar os piratas. Saiu com vida, mas ficou isolado no meio do oceano, porque seu navio foi a pique. Desse naufr\u00e1gio foi salvo por um judeu que estava a caminho do Brasil, onde pretendia estabelecer-se como comerciante, a exemplo de um irm\u00e3o seu.<\/em><\/div>\n<p><em><\/em><\/p>\n<div><\/div>\n<p><\/p>\n<div><em>Isto a Hist\u00f3ria registra.<\/em><\/div>\n<p><em><\/em><\/p>\n<div><\/div>\n<div><a href=\"http:\/\/4.bp.blogspot.com\/_KYflagr2MuI\/S1E3n2RZMyI\/AAAAAAAABhc\/AJzRt-bPhmU\/s1600-h\/tuiuti2001-18.jpg\" imageanchor=\"1\"><img decoding=\"async\" border=\"0\" ps=\"true\" src=\"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2010\/01\/tuiuti2001-18.jpg\"><\/a><\/div>\n<div><\/div>\n<p><em><\/em><\/p>\n<div><\/div>\n<p><\/p>\n<div><em>Judeus e \u00e1rabes eram, naquele momento, aliados na Pen\u00ednsula Ib\u00e9rica, bem como no Norte da \u00c1frica. Uniam-se para resistir aos rigores da Inquisi\u00e7\u00e3o, tribunal permanente institu\u00eddo pela Igreja Cat\u00f3lica para julgar todos aqueles que se afastassem de seus c\u00e2nones. N\u00e3o foi dif\u00edcil, portanto, aos dois unirem suas for\u00e7as para sobreviver. <\/em><\/div>\n<p><em><\/em><\/p>\n<div><\/div>\n<p><\/p>\n<div><em>A Inquisi\u00e7\u00e3o j\u00e1 chegara ao Brasil, mas aqui ainda era mais branda do que na Pen\u00ednsula Ib\u00e9rica. Por isso, o judeu convence o mouro a acompanh\u00e1-lo ao Brasil. Antes mesmo de aqui chegar, as religi\u00f5es e as culturas daqueles dois homens se puseram em contato. Apesar das diverg\u00eancias, mouro e judeu tornaram-se amigos. <\/em><\/div>\n<p><em><\/em><\/p>\n<div><\/div>\n<p><\/p>\n<div><em>Isto a Hist\u00f3ria registra.<\/em><\/div>\n<p><em><\/em><\/p>\n<div><\/div>\n<div><a href=\"http:\/\/4.bp.blogspot.com\/_KYflagr2MuI\/S1E3zai7zfI\/AAAAAAAABhk\/wz9kQgjfWrI\/s1600-h\/tuiuti2001-1.jpg\" imageanchor=\"1\"><img decoding=\"async\" border=\"0\" ps=\"true\" src=\"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2010\/01\/tuiuti2001-1.jpg\"><\/a><\/div>\n<div><\/div>\n<p><\/p>\n<div><em>3\u00aa parte: A \u00c1frica Negra<\/em><\/div>\n<p><em><\/em><\/p>\n<div><\/div>\n<p><\/p>\n<div><em>O continente africano abriga judeus e \u00e1rabes. Mas a maior parte de seu territ\u00f3rio era ocupada pelos negros, que viviam at\u00e9 ent\u00e3o em plena liberdade, usufruindo das belezas naturais e da riqueza do solo. Essa situa\u00e7\u00e3o paradis\u00edaca foi modificada pela ambi\u00e7\u00e3o de alguns: os belos e altivos habitantes da \u00c1frica negra foram escravizados, perdendo sua liberdade em troca do lucro de uns poucos. <\/em><\/div>\n<p><em><\/em><\/p>\n<div><\/div>\n<p><\/p>\n<div><em>Isto a Hist\u00f3ria registra.<\/em><\/div>\n<p><em><\/em><\/p>\n<div><\/div>\n<div><a href=\"http:\/\/4.bp.blogspot.com\/_KYflagr2MuI\/S1E39PS4iPI\/AAAAAAAABhs\/a8kLZA4qGG8\/s1600-h\/tuiti2001-11.jpg\" imageanchor=\"1\"><img decoding=\"async\" border=\"0\" ps=\"true\" src=\"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2010\/01\/tuiti2001-11.jpg\"><\/a><\/div>\n<div><\/div>\n<p><\/p>\n<div><em>4\u00aa parte: O Brasil Col\u00f4nia<\/em><\/div>\n<p><em><\/em><\/p>\n<div><\/div>\n<p><\/p>\n<div><em>Quando o mouro e o judeu chegam \u00e0s costas de Pernambuco, l\u00e1 encontram a ferida da escravid\u00e3o negra e se horrorizam diante dela. A primeira impress\u00e3o, de que estavam chegando ao para\u00edso, se desfaz: o para\u00edso se transforma em inferno quando \u00e9 assolado pela escravid\u00e3o, que dizima o negro, pela Inquisi\u00e7\u00e3o, que aterroriza o judeu e o mouro (infi\u00e9is, segundo a Igreja cat\u00f3lica), e pelo mal-do-bicho, doen\u00e7a terr\u00edvel que ataca o branco, e que chamaremos aqui simplesmente a peste.<\/em><\/div>\n<p><em><\/em><\/p>\n<div><\/div>\n<p><\/p>\n<div><em>De imediato, o mouro e o judeu percebem que n\u00e3o poder\u00e3o viver t\u00e3o tranq\u00fcilamente quanto haviam imaginado. Perseguidos pela Inquisi\u00e7\u00e3o, horrorizados com a ignor\u00e2ncia e a falta de higiene reinantes, fazendo grassar a epidemia, e revoltados com as atrocidades que presenciam contra os irm\u00e3os negros, acabam tomando conhecimento da exist\u00eancia de um reduto de negros empenhados na resist\u00eancia, e se v\u00eaem for\u00e7ados a refugiar-se no Quilombo, em terras alagoanas. <\/em><\/div>\n<p><em><\/em><\/p>\n<div><\/div>\n<p><\/p>\n<div><em>Isto a Hist\u00f3ria registra.<\/em><\/div>\n<p><em><\/em><\/p>\n<div><\/div>\n<div><a href=\"http:\/\/1.bp.blogspot.com\/_KYflagr2MuI\/S1E4IZbc9RI\/AAAAAAAABh0\/JdVdchvVGWU\/s1600-h\/tuiuti2001-2.jpg\" imageanchor=\"1\"><img decoding=\"async\" border=\"0\" ps=\"true\" src=\"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2010\/01\/tuiuti2001-2.jpg\"><\/a><\/div>\n<div><\/div>\n<p><\/p>\n<div><em>5\u00aa parte: O Quilombo<\/em><\/div>\n<p><em><\/em><\/p>\n<div><\/div>\n<p><\/p>\n<div><em>Ao chegar ao Quilombo, nosso her\u00f3i se surpreende com a vulnerabilidade do lugar: os brancos, donos dos pr\u00f3speros engenhos de a\u00e7\u00facar, pintavam o Quilombo como uma for\u00e7a tem\u00edvel, mas ao chegar l\u00e1 ele constatou que era muito fr\u00e1gil a estrutura f\u00edsica do local. A for\u00e7a do Quilombo vinha de sua estrutura social: praticavam o escambo, troca de mercadorias que tornava desnecess\u00e1ria a circula\u00e7\u00e3o do papel-moeda, viviam comunitariamente sob a lideran\u00e7a de Zumbi, cujo carisma impressionava muito mais do que a for\u00e7a f\u00edsica.<\/em><\/div>\n<p><em><\/em><\/p>\n<div><\/div>\n<p><\/p>\n<div><em>Em Palmares se radicaram tamb\u00e9m v\u00e1rios ind\u00edgens, que se identificaram com os ideais de liberdade e igualdade que ali eram cultuados e postos em pr\u00e1tica.<\/em><\/div>\n<p><em><\/em><\/p>\n<div><\/div>\n<p><\/p>\n<div><em>O mouro leva para o Quilombo tudo que assimilara em sua long\u00ednqua civiliza\u00e7\u00e3o: as t\u00e1ticas de guerrilha na luta contra o inimigo mais forte, a constru\u00e7\u00e3o de fortifica\u00e7\u00f5es e de armadilhas, o conhecimento da higiene e da medicina.<\/em><\/div>\n<p><em><\/em><\/p>\n<div><\/div>\n<p><\/p>\n<div><em>O judeu, por seu turno, percebe a necessidade de implantar no Quilombo um sistema educacional, indispens\u00e1vel inclusive ao futuro relato dos acontecimentos. Sem instru\u00e7\u00e3o n\u00e3o seria poss\u00edvel escrever a hist\u00f3ria, deixando a tarefa ao opressor, que tudo faria para difam\u00e1-los. <\/em><\/div>\n<p><em><\/em><\/p>\n<div><\/div>\n<p><\/p>\n<div><em>Isto a Hist\u00f3ria registra. <\/em><\/div>\n<p><em><\/em><\/p>\n<div><\/div>\n<div><a href=\"http:\/\/3.bp.blogspot.com\/_KYflagr2MuI\/S1E4UTp-oMI\/AAAAAAAABh8\/35E9OfyGhH4\/s1600-h\/tuiuti2001-12.jpg\" imageanchor=\"1\"><img decoding=\"async\" border=\"0\" ps=\"true\" src=\"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2010\/01\/tuiuti2001-12.jpg\"><\/a><\/div>\n<div><\/div>\n<p><\/p>\n<div><em>6\u00aa parte: A Guerra<\/em><\/div>\n<p><em><\/em><\/p>\n<div><\/div>\n<p><\/p>\n<div><em>A tarefa de combater e capturar os negros que resistiam no Quilombo foi dada pela classe dominante aos bandeirantes mercen\u00e1rios. Eles formaram mil\u00edcias no encal\u00e7o dos fugitivos e sua crueldade n\u00e3o conheceu limites.<\/em><\/div>\n<p><em><\/em><\/p>\n<div><\/div>\n<p><\/p>\n<div><em>Os negros eram numericamente inferiores e menos equipados do ponto de vista b\u00e9lico. Tinham de suprir essas defici\u00eancias usando sua coragem e sua criatividade. Todas as t\u00e1ticas aprendidas com o mouro lhes foram valiosas.<\/em><\/div>\n<p><em><\/em><\/p>\n<div><\/div>\n<p><\/p>\n<div><em>O h\u00e1bitat natural, a floresta, n\u00e3o era uma aliada, mas tamb\u00e9m n\u00e3o era advers\u00e1ria. Ela era perigosa: animais selvagens, alguns ind\u00edgenas hostis que se aliavam aos portugueses contra os quilombolas, e a pr\u00f3pria densidade da mata dificultava indistintamente a atua\u00e7\u00e3o de uns e de outros.<\/em><\/div>\n<p><em><\/em><\/p>\n<div><\/div>\n<p><\/p>\n<div><em>O enfrentamento entre as partes foi terr\u00edvel, com ocorr\u00eancia de atrocidades, trai\u00e7\u00f5es, tudo enfim que \u00e9 caracter\u00edstico da insanidade das guerras. \u00c9 surpreendente que o Quilombo tenha resistido tanto tempo e com tanta bravura aos ataques dos poderosos, que tinham a seu favor as leis, o poder econ\u00f4mico, a Igreja, todo o sistema, enfim. Para essa brava resist\u00eancia muito contribuiu a participa\u00e7\u00e3o desses dois personagens an\u00f4nimos. <\/em><\/div>\n<p><em><\/em><\/p>\n<div><\/div>\n<p><\/p>\n<div><em>Isto a Hist\u00f3ria registra.<\/em><\/div>\n<p><em><\/em><\/p>\n<div><\/div>\n<div><a href=\"http:\/\/4.bp.blogspot.com\/_KYflagr2MuI\/S1E4riBWA1I\/AAAAAAAABiE\/DtUk51M7uXw\/s1600-h\/tuiuti2001-15.jpg\" imageanchor=\"1\"><img decoding=\"async\" border=\"0\" ps=\"true\" src=\"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2010\/01\/tuiuti2001-15.jpg\"><\/a><\/div>\n<div><\/div>\n<p><\/p>\n<div><em>7\u00aa parte: Meca<\/em><\/div>\n<p><em><\/em><\/p>\n<div><\/div>\n<p><\/p>\n<div><em>O mouro deixou sua p\u00e1tria para cumprir um preceito de f\u00e9: a peregrina\u00e7\u00e3o a Meca. Segundo acreditava, estaria no Brasil de passagem. No entanto, aqui ficou, aqui teve um papel importante na constru\u00e7\u00e3o de um sonho que &#8211; este sim &#8211; nunca terminou, sobreviveu ao Quilombo: o sonho de educa\u00e7\u00e3o, de instru\u00e7\u00e3o, de higiene, de sa\u00fade, de dignidade e de liberdade, que ainda hoje perseguimos<\/em><\/div>\n<p><em><\/em><\/p>\n<div><\/div>\n<p><\/p>\n<div><em>Todo adepto do Isl\u00e3 deve ir a Meca ao menos uma vez na vida. Nosso her\u00f3i n\u00e3o o fez. Estava escrito que sua Meca era aqui, neste distante Brasil de negros, brancos, \u00edndios, \u00e1rabes, judeus e de quem mais chegar.<\/em><\/div>\n<p><em><\/em><\/p>\n<div><\/div>\n<p><\/p>\n<div><em>Da mesma forma, chega o nosso Para\u00edso do Tuiuti, em sua peregrina\u00e7\u00e3o, a esta Meca do sambista que \u00e9 o desfile principal, o do Grupo Especial. Minoria, como o mouro, o judeu e o negro, este valente peregrino n\u00e3o abre m\u00e3o do sonho de justi\u00e7a e igualdade que acalenta e canta com vigor e alegria imbat\u00edveis. <\/em><\/div>\n<p><em><\/em><\/p>\n<div><\/div>\n<p><\/p>\n<div><em>Isto a Hist\u00f3ria registrar\u00e1 &#8230;&#8221;<\/em><\/div>\n<div><\/div>\n<div><\/div>\n<div><a href=\"http:\/\/3.bp.blogspot.com\/_KYflagr2MuI\/S1E42TCKa8I\/AAAAAAAABiM\/2bspGjTGT_E\/s1600-h\/tuiuti2001-19.jpg\" imageanchor=\"1\"><img decoding=\"async\" border=\"0\" ps=\"true\" src=\"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2010\/01\/tuiuti2001-19.jpg\"><\/a><\/div>\n<div><\/div>\n<div><em>(Fonte: <a href=\"http:\/\/www.galeriadosamba.com.br\/\">Galeria do Samba<\/a>)<\/em><\/div>\n<div><\/div>\n<div>A escola sofreu com a falta de estrutura no per\u00edodo pr\u00e9-carnavalesco. Seu barrac\u00e3o era embaixo do viaduto de S\u00e3o Crist\u00f3v\u00e3o e a sua quadra, embora reformada, tamb\u00e9m era bem acanhada. Muitos presidentes de ala eram estreantes no grupo e a escola teve de buscar aumentar seu n\u00famero de componentes.<\/div>\n<div><\/div>\n<div><a href=\"http:\/\/3.bp.blogspot.com\/_KYflagr2MuI\/S1EzWoK90zI\/AAAAAAAABgc\/AQG-KpDTYrg\/s1600-h\/2001_ParaisoDoTuiuti_F1_peq.jpg\" imageanchor=\"1\"><img decoding=\"async\" border=\"0\" ps=\"true\" src=\"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2010\/01\/2001_ParaisoDoTuiuti_F1_peq.jpg\"><\/a><\/div>\n<div>O Para\u00edso do Tuiuti abriu o desfile do Grupo Especial no domingo de carnaval, 25 de fevereiro. A escola sofreu com a inexperi\u00eancia, cometendo alguns erros t\u00edpicos da juventude &#8211; at\u00e9 carro em ordem trocada entrou. Assim mesmo, foi um desfile bem legal, embalado por um belo samba e que n\u00e3o me canso de cantar a plenos pulm\u00f5es a cada vez em que ele \u00e9 &#8220;esquenta&#8221; da escola.<\/div>\n<div><\/div>\n<div><a href=\"http:\/\/1.bp.blogspot.com\/_KYflagr2MuI\/S1E5Na84E0I\/AAAAAAAABiU\/-GfEtuchWfY\/s1600-h\/tuiuti2001-17.jpg\" imageanchor=\"1\"><img decoding=\"async\" border=\"0\" ps=\"true\" src=\"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2010\/01\/tuiuti2001-17.jpg\"><\/a><\/div>\n<div><\/div>\n<div>Minha fantasia era de veludo, quente e o chap\u00e9u quase foi decepado pelo ventilador de teto da sala do apartamento onde eu morava. Minha ent\u00e3o namorada &#8211; hoje esposa &#8211; s\u00f3 sabia o refr\u00e3o do samba. Mas gostei muito da experi\u00eancia, um desfile solto, alegre e que me permitiu uma estr\u00e9ia muito agrad\u00e1vel na avenida. At\u00e9 hoje gosto muito deste samba, \u00e9 um dos que possuem lugar cativo em meu cora\u00e7\u00e3o.<\/div>\n<div><\/div>\n<div><a href=\"http:\/\/1.bp.blogspot.com\/_KYflagr2MuI\/S1E6hXAkS2I\/AAAAAAAABic\/ZW4CMyzD6KI\/s1600-h\/tuiuti2001-16.jpg\" imageanchor=\"1\"><img decoding=\"async\" border=\"0\" ps=\"true\" src=\"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2010\/01\/tuiuti2001-16.jpg\"><\/a><\/div>\n<div><\/div>\n<div>Na apura\u00e7\u00e3o, os problemas de estrutura pesaram, e a escola acabou com o d\u00e9cimo quarto e \u00faltimo lugar, retornando ao Grupo de Acesso A, com 260 pontos em 300 poss\u00edveis.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Vamos \u00e0 letra do belo samba, que pode ser ouvido ao vivo <a href=\"http:\/\/pedromigao.multiply.com\/music\/item\/109\/109\">aqui<\/a>:<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Autores <\/div>\n<div>Cesar Som Livre, Kleber Rodrgigues, David Lima e Claudio Martins <\/div>\n<div><\/div>\n<div>Puxador <\/div>\n<div>Ciganerey<\/div>\n<div><\/div>\n<div><em>&#8220;Pra agradecer<\/em><\/div>\n<div><em>O dom da vida<\/em><\/div>\n<div><em>O mais sublime dom de Alah<\/em><\/div>\n<div><em>No mar &#8230; Um bravo mouro se aventurou<\/em><\/div>\n<div><em>Ao risco de tenebrosas tormentas<\/em><\/div>\n<div><em>Piratas, batalhas sangrentas<\/em><\/div>\n<div><em>Mas naufragou<\/em><\/div>\n<div><em>E o destino lhe sorriu<\/em><\/div>\n<div><em>Nas m\u00e3os de um salvador<\/em><\/div>\n<div><em>O trouxe pro Brasil &#8230; De Zumbi<\/em><\/p>\n<\/div>\n<div><em><strong>\u00ca \u00d4 Zumbi<\/strong><\/em><\/div>\n<div><em><strong>Todo o Quilombo &#8230; Coragem<\/strong><\/em><\/div>\n<div><em><strong>\u00c9 for\u00e7a pra resistir<\/strong><\/em><\/div>\n<div><em><strong>\u00c9 f\u00e9 que vem acudir<\/strong><\/em><\/div>\n<div><em><strong>\u00c9 fibra que brota em ti &#8230; Palmares<\/strong><\/em><\/p>\n<\/div>\n<div><em>Assim surgiu<\/em><\/div>\n<div><em>O desejo de escrever <\/em><\/div>\n<div><em>A pr\u00f3pria hist\u00f3ria<\/em><\/div>\n<div><em>E quem quiser chegar<\/em><\/div>\n<div><em>Pra constriuir essa vit\u00f3ria<\/em><\/div>\n<div><em>Um povo mais feliz<\/em><\/div>\n<div><em>A meca de um pa\u00eds<\/em><\/div>\n<div><em>Justi\u00e7a e igualdade<\/em><\/p>\n<\/div>\n<div><em><strong>Tu \u00e9s meu sonho, Tuiuti<\/strong><\/em><\/div>\n<div><em><strong>Tens um destino a cumprir<\/strong><\/em><\/div>\n<div><em><strong>\u00c9 brilhar no carnaval<\/strong><\/em><\/div>\n<div><em><strong>No desfile principal<\/strong><\/em><\/div>\n<div><em><strong>Todo o povo a te aplaudir<\/strong><\/em><\/div>\n<div><em><strong>Te aplaudir&#8221;<\/strong><\/em><\/div>\n<div><\/div>\n<div>Semana que vem, o terceiro desfile do mesmo ano, uma hist\u00f3ria inacredit\u00e1vel: Uni\u00e3o de Vaz Lobo 2001.<\/div>\n<p><em>(Agradecimentos: Walkir Fernandes)<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A coluna &#8220;Samba de Ter\u00e7a&#8221; estar\u00e1 um pouquinho diferente at\u00e9 o carnaval. Estarei escrevendo sobre desfiles dos quais participei como desfilante, de modo a motivarTour Details<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[289],"tags":[18,12,19,146,145],"class_list":["post-12184","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-pedro-migao","tag-carnaval","tag-cultura","tag-escolas-de-samba","tag-samba-de-terca","tag-tuiuti"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12184","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=12184"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12184\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=12184"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=12184"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=12184"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}