{"id":12173,"date":"2010-01-26T07:58:00","date_gmt":"2010-01-26T09:58:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2010\/01\/samba-de-terca-vaz-lobo-2001-uma-aventura-no-acesso-e\/"},"modified":"2010-01-26T07:58:00","modified_gmt":"2010-01-26T09:58:00","slug":"samba-de-terca-vaz-lobo-2001-uma-aventura-no-acesso-e","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2010\/01\/samba-de-terca-vaz-lobo-2001-uma-aventura-no-acesso-e\/","title":{"rendered":"Samba de Ter\u00e7a: Vaz Lobo 2001, uma aventura no Acesso E"},"content":{"rendered":"<div><a href=\"http:\/\/1.bp.blogspot.com\/_KYflagr2MuI\/S1yohBnmRfI\/AAAAAAAABjs\/EivkuPt7fhE\/s1600-h\/vaz+lobo.jpg\" imageanchor=\"1\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" border=\"0\" height=\"163\" mt=\"true\" src=\"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2010\/01\/vaz+lobo.jpg\" width=\"200\"><\/a>A Uni\u00e3o de Vaz Lobo, embora seja uma escola pequena &#8211; hoje est\u00e1 no Acesso D, quinta divis\u00e3o do samba &#8211; \u00e9 uma escola de muita tradi\u00e7\u00e3o. Em 2010 a escola do sub\u00farbio carioca completar\u00e1 80 anos de resist\u00eancia.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Por seus quadros passaram integrantes como Z\u00e9 Ketti e a inesquec\u00edvel porta-bandeira Wilma Nascimento.<\/div>\n<div>\u00a0 <\/div>\n<div>Nosso &#8220;Samba de Ter\u00e7a&#8221; de hoje \u00e9 uma visita ao Acesso E, a \u00faltima divis\u00e3o do samba. <\/div>\n<div>\u00a0 <\/div>\n<div>O ano era 2001. A &#8220;Academia do Samba&#8221; \u00e0 \u00e9poca era a maior lista de discuss\u00e3o de carnaval por e-mail. E surgiu a possibilidade de uma parceria para trazer o virtual ao real. A escola era a Uni\u00e3o de Vaz Lobo. <\/div>\n<div>\u00a0 <\/div>\n<div>O enredo proposto pela Academia do Samba, na figura dos carnavalescos Luis Fernando Reis e F\u00e1bio Pav\u00e3o, foi &#8220;Meu Querido Vaz Lobo&#8230; \u00e9 Bairro, \u00e9 Ra\u00e7a, \u00e9 Samba, \u00e9 Uni\u00e3o&#8221;, sobre o bairro onde est\u00e1 situada a escola e que lhe d\u00e1 nome. <\/div>\n<div>\u00a0 <\/div>\n<div>Nas palavras da sinopse: <\/div>\n<div><\/div>\n<div><em>&#8220;Introdu\u00e7\u00e3o<\/em><\/p>\n<\/div>\n<div><em>Quando lembramos que somos cariocas, lembramos imediatamente do P\u00e3o-de-a\u00e7\u00facar, do Corcovado, das praias e de outros cart\u00f5es-postais que marcam a imagem de nossa cidade. Claro, tudo isso \u00e9 fant\u00e1stico, sentimos um orgulho impar de viver nessa terra aben\u00e7oada e maravilhosa, mas n\u00e3o podemos esquecer que temos nosso cantinho nessa grande cidade, afinal, somos cariocas sim, mas cariocas de Vaz Lobo.<\/em><\/p>\n<p><em>E o que \u00e9 ser carioca de Vaz Lobo? Morar em Vaz Lobo \u00e9 viver intensamente o samba, \u00e9 lembrar com saudade dos artistas que aqui passaram, \u00e9 cultivar a verdadeira amizade, \u00e9 sorrir o sorriso de nossos vizinhos e compartilhar as dificuldades com quem precisar de nossa ajuda.<\/em><\/div>\n<div><em>Hoje, a Uni\u00e3o de Vaz Lobo, feliz por estar presente h\u00e1 mais de 70 anos nesse bairro e fazer parte desta comunidade, demonstra, em forma de arte popular, a hist\u00f3ria desse nosso peda\u00e7o de ch\u00e3o. Convocamos todos os moradores de Vaz Lobo para uma grande festa. Convocamos todos nossos amigos e vizinhos para juntos, repletos de orgulho e vaidade, cantarmos nosso bairro, nossa origem, e nosso passado. Relembraremos juntos a hist\u00f3ria de nossa terra e de nossa gente. Relembraremos a nossa pr\u00f3pria hist\u00f3ria, a hist\u00f3ria de nossos pais, de nossos av\u00f3s, a hist\u00f3ria de toda uma comunidade. Cantaremos juntos a hist\u00f3ria do NOSSO QUERIDO VAZ LOBO.<\/em><\/p>\n<\/div>\n<div><em>Sinopse<\/em><\/p>\n<p><em>Criada em 1644 pelo padre Ant\u00f4nio Martins Loureiro, a Freguesia de Nossa Senhora da Apresenta\u00e7\u00e3o do Iraj\u00e1 ocupava uma vasta \u00e1rea de terra doada como sesmaria aos jesu\u00edtas.<\/em><\/div>\n<div><\/div>\n<div><em>Confiscadas e vendidas em hasta p\u00fablica em 1759, de acordo com a pol\u00edtica adotada pelo Marqu\u00eas do Pombal, surgiram desta divis\u00e3o v\u00e1rias fazendas, s\u00edtios e ch\u00e1caras, que por quase dois s\u00e9culos abasteceram a cidade com os mais diversos produtos agr\u00edcolas. Em uma dessas ch\u00e1caras viveu o tenente-capit\u00e3o Jos\u00e9 Maria Vaz Lobo, que deixaria seu nome eternizado na mem\u00f3ria da regi\u00e3o e de seus moradores.<\/em><\/div>\n<div><\/div>\n<div><em>Nas terras de Vaz Lobo plantaram-se aipim, caf\u00e9 e batata-doce. A \u00e1rea destinada a agricultura se estendia at\u00e9 a subida dos morros, que possu\u00edam uma vegeta\u00e7\u00e3o cerrada at\u00e9 a chegada da produ\u00e7\u00e3o de carv\u00e3o a &#8220;bal\u00e3o&#8221;, atividade que se tornaria comum em v\u00e1rios sub\u00farbios do Rio do Janeiro.<\/em><\/div>\n<div><\/div>\n<div><em>Com as reformas no centro da cidade vieram novos moradores. As antigas fazendas, s\u00edtios e ch\u00e1caras cederam lugar a novas ruas e pra\u00e7as. Pela estrada Marechal Rangel passavam as linhas de bonde Madureira\/Iraj\u00e1 e Madureira\/Penha. Inicialmente puxados a burro, esses bondes s\u00f3 foram substitu\u00eddos pelos el\u00e9tricos em 1928, tr\u00eas anos ap\u00f3s a chegada da eletricidade na regi\u00e3o, o que faz desses os \u00faltimos bondes puxados por tra\u00e7\u00e3o animal que deixaram de circular pelas ruas do Rio de Janeiro. Mais tarde, a antiga estrada Marechal Rangel, via mais importante do bairro, passaria a homenagear o ministro Edgar Romero, ilustre morador da regi\u00e3o que, vindo de Sergipe para a casa de um tio, tornou-se Ministro do Tribunal de Contas da Uni\u00e3o.<\/em><\/div>\n<div><\/div>\n<div><em>Apesar do progresso, Vaz Lobo preservava seu buc\u00f3lico ar suburbano. Ar suburbano que serviu de cen\u00e1rio para personagens de Nelson Rodrigues. O com\u00e9rcio prosperava a olhos vistos. O Cine Vaz Lobo se torna o principal ponto de encontro da juventude. Os sal\u00f5es de sinuca despontam como centro da boemia local. O futebol tem no time do Cajueiro seu principal representante. At\u00e9 hoje, craques an\u00f4nimos desfilam seus talentos nas peladas realizadas no antigo campo.<\/em><\/div>\n<div><\/div>\n<div><em>Nas v\u00e1rias colinas que cercam o bairro, prosperaram manifesta\u00e7\u00f5es populares como o Jongo, a capoeira e o samba. Os antigos moradores lembram com saudades da Unidos do Congonha, do Bloco Beijo na boca, Limoeiro e do Prazer da Serrinha, embri\u00e3o de onde surgiria o poderoso Imp\u00e9rio Serrano.<\/em><\/div>\n<div><\/div>\n<div><em>Quando chegava o carnaval o bairro se enfeitava. Suas pra\u00e7as eram decoradas e o povo sa\u00eda \u00e0s ruas fantasiados de cl\u00f3vis, colombinas, pierrot, piratas e quaisquer outras fantasias que a criatividade local pudesse conceber. S\u00e3o famosas, tamb\u00e9m, as tribos de \u00edndios que at\u00e9 hoje abrilhantam nosso carnaval. O belo coreto, orgulho dos moradores, por v\u00e1rias vezes o primeiro colocado nos concursos patrocinados pela prefeitura, at\u00e9 hoje se mostra imponente ao lado do velho chafariz.<\/em><\/div>\n<div><\/div>\n<div><em>Nesse bairro alegre e aconchegante, que hoje \u00e9 ponto de encontro de jovens universit\u00e1rios, nasceram grandes sambistas que marcaram \u00e9poca. Poetas que deixaram seus nomes registrados na hist\u00f3ria dos desfiles das escolas de samba e porta-bandeiras que encantaram o p\u00fablico com suas m\u00e1gicas dan\u00e7as.<\/em><\/div>\n<div><\/div>\n<div><em>Hoje, a Uni\u00e3o de Vaz Lobo, como parte atuante dessa hist\u00f3ria, apresenta, toda engalanada, a uni\u00e3o dos v\u00e1rios segmentos da sociedade local. Mostrando neste desfile de arte, com todo amor e carinho&#8230;&#8230;.O meu querido Vaz Lobo.<\/em><\/div>\n<div><\/div>\n<div><em>Academia do Samba \/ Comiss\u00e3o de Carnaval&#8221;<\/em><\/div>\n<div><\/div>\n<div><em>(Fonte: <a href=\"http:\/\/www.galeriadosamba.com.br\/\">Galeria do Samba<\/a>)<\/em><\/div>\n<div><\/div>\n<div>A prepara\u00e7\u00e3o do desfile, a qual acompanhei de perto, foi repleta de hist\u00f3rias impag\u00e1veis e que, ao mesmo tempo, refletem a dificuldade de se colocar um carnaval neste grupo, o mais baixo na hierarquia do carnaval carioca.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>A ajuda prometida por muitos integrantes da lista n\u00e3o se materializou, e de mais de duzentos integrantes um grupo aproximado de uma dezena de pessoas efetivamente prestou algum tipo de aux\u00edlio \u00e0 Uni\u00e3o de Vaz Lobo.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Na disputa de samba, o carnavalesco Luis Fernando inscreveu sua composi\u00e7\u00e3o e incluiu na parceria a mim e um b\u00eabado que sempre frequentava a quadra. Na primeira eliminat\u00f3ria ele mesmo defendeu o samba, que havia sido gravado em um gravador destes de voz &#8211; quem conhece o Luis Fernando sabe que ele n\u00e3o canta nada, muito menos eu e o b\u00eabado. Este tentou acompanhar o carnavalesco e\u00a0cada um cantava em um tom diferente&#8230;<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Duas semanas depois, na semifinal, nenhum dos &#8220;autores&#8221; apareceu para defender o samba. Resultado: elimina\u00e7\u00e3o por WO. Foi a primeira vez em que participei de uma disputa de samba.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Em outro ensaio, o ent\u00e3o presidente Guerreiro pediu para os presentes adiantarem o dinheiro das cervejas a serem consumidas, porque n\u00e3o havia dinheiro para a compra. Uma id\u00e9ia das dificuldades que uma escola destas enfrenta.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Ao final, o samba escolhido acabou sendo o do compositor Rogerinho do Futuro, um bom samba por sinal. A prepara\u00e7\u00e3o do desfile, apesar de alguns aux\u00edlios, corria com muitas dificuldades. Nas palavras do carnavalesco F\u00e1bio Pav\u00e3o, em artigo publicado em 2007 no site <a href=\"http:\/\/www.tudodesamba.com.br\/\">&#8220;Tudo de Samba&#8221;<\/a> e do qual reproduzo trechos aqui:<\/div>\n<div><\/div>\n<div><em>&#8220;Corria o ano 2000 quando chegamos, eu e Luiz Fernando Reis, \u00e0 quadra da Uni\u00e3o de Vaz Lobo. A inten\u00e7\u00e3o era estabelecer uma parceria entre uma escola tradicional, que estivesse passando por um momento dif\u00edcil, e uma lista de discuss\u00e3o de Internet, no caso a antiga Academia do Samba. Viv\u00edamos ainda os primeiros passos da rela\u00e7\u00e3o entre o samba e a Internet, que inegavelmente revolucionou as rela\u00e7\u00f5es concretas no mundo do samba em v\u00e1rios aspectos, extrapolando os limites do universo virtual. Todavia, apesar da farta contribui\u00e7\u00e3o da grande rede para as escolas de samba, confesso que, naqueles primeiros anos, superestim\u00e1vamos a capacidade de mobiliza\u00e7\u00e3o destas listas. Mesmo com todas as promessas de ajudar a &#8220;levantar uma escola pequena&#8221;, bastou o primeiro contato com a quadra da escola, ou seja, o primeiro &#8220;choque de realidade&#8221;, para as id\u00e9ias e projetos da maioria migrarem novamente para o samb\u00f3dromo, de prefer\u00eancia domingo ou segunda. O projeto seguiu adiante, felizmente, gra\u00e7as a ajuda de alguns amigos que honraram a palavra empenhada, contribuindo das mais diversas formas.<\/em><\/div>\n<div><\/div>\n<div><em>N\u00e3o h\u00e1 como negar que o contato com a fria realidade congela qualquer idealismo, ou, usando um termo que o Luiz Fernando Reis adora, a beleza do purismo se desmancha diante da imagem da vida concreta. As pequenas escolas de samba travam lutas di\u00e1rias pela pr\u00f3pria sobreviv\u00eancia. S\u00e3o batalhas afastadas das lentes da m\u00eddia, que, concentradas no palco do Grupo Especial, transmitem a err\u00f4nea vis\u00e3o de que as escolas de samba s\u00e3o institui\u00e7\u00f5es milion\u00e1rias. O excesso de brilho sobre as grandes agremia\u00e7\u00f5es ofuscam as escolas menores, tornando-as invis\u00edveis. O mais triste \u00e9 que esta invisibilidade se alastra pela sociedade abrangente, que sequer sabe da sua exist\u00eancia, e pelo pr\u00f3prio mundo do samba, que geralmente afirmam pontos de vistas pouco fundamentados. Pior que o desconhecimento, seguramente, \u00e9 o conhecimento superficial que classifica previamente, discrimina e motiva discursos preconceituosos.<\/em><\/p>\n<p><em>O presidente das escolas de grupos inferiores, especialmente os que hoje desfilam na Intendente Magalh\u00e3es, vive na corda bamba. Equilibram-se sobre as dificuldades, tentando se manter em p\u00e9 diante de coment\u00e1rios muitas vezes maldosos. A partir da experi\u00eancia em Vaz Lobo, passei a ter profunda admira\u00e7\u00e3o pelo ent\u00e3o presidente Guerreiro. Sua dedica\u00e7\u00e3o e humildade sincera conseguiam contornar, na medida do poss\u00edvel, todas as adversidades, fazendo a agremia\u00e7\u00e3o caminhar. Era ele, pessoalmente, quem virava o cimento para melhorar o banheiro da pequena quadra. Durante os ensaios, se multiplicava para executar as mais diversas tarefas. Numa escola pequena, a divis\u00e3o do trabalho e a especializa\u00e7\u00e3o de fun\u00e7\u00f5es, uma das caracter\u00edsticas do carnaval moderno, praticamente n\u00e3o existe. &#8220;Abandonadas&#8221; por sua comunidade e invis\u00edvel para a sociedade abrangente, a sobreposi\u00e7\u00e3o de fun\u00e7\u00f5es torna-se regra para a maioria destas agremia\u00e7\u00f5es. Na Uni\u00e3o de Vaz Lobo, por exemplo, o mestre de bateria tamb\u00e9m era o mec\u00e2nico; o mestre-sala, tamb\u00e9m era compositor; o diretor de harmonia respondia, no barrac\u00e3o, pelo trabalho de carpintaria. (&#8230;)<\/em><br \/><em><\/em><br \/><em>(&#8230;) N\u00e3o sei hoje, na Intendente Magalh\u00e3es, mas, pelo menos no desfile do Grupo E de 2001, em Bonsucesso, o p\u00fablico que lotava o local era visivelmente formado pelos dois extremos de faixa et\u00e1ria: crian\u00e7as e adultos\/idosos. O jovem, fundamental no processo de transi\u00e7\u00e3o entre gera\u00e7\u00f5es, est\u00e1 em outro local, curtindo um carnaval para ele mais atrativo. A pr\u00f3pria Uni\u00e3o de Vaz Lobo, neste mesmo ano, desfilava basicamente com crian\u00e7as e idosos. \u00c9 importante, sem d\u00favida, incentivar o primeiro contato das crian\u00e7as com o samba, o que sempre \u00e9 lembrado, mas n\u00e3o se pode perder de vista que, para surtir efeito, esta crian\u00e7a, quando for um jovem adulto, precisa continuar tendo interesse nas escolas de samba. Neste ponto, assim como para as pretens\u00f5es de &#8220;preservar&#8221; e perpetuar o samba como &#8220;patrim\u00f4nio cultural&#8221;, estas escolas pequenas deveriam assumir papel fundamental, mas s\u00e3o ignoradas pelas salvaguardas do iphan.<\/em><\/div>\n<div><\/div>\n<div><em>As escolas de samba pequenas s\u00e3o obrigadas a viver num grande dilema. Com espa\u00e7o bastante limitado na m\u00eddia, s\u00e3o obrigadas a buscar apoio e participa\u00e7\u00e3o em suas comunidades adjacentes, onde est\u00e3o seus v\u00ednculos hist\u00f3ricos e tradicionais, mesmo que elas estejam cada vez mais fragmentadas. A participa\u00e7\u00e3o da comunidade, entretanto, na maioria das vezes \u00e9 proporcional ao trabalho que est\u00e1 sendo realizado, ou seja, \u00e9 preciso, al\u00e9m de estreitar la\u00e7os, transmitir a confian\u00e7a de que um bom resultado pode ser alcan\u00e7ando, motivando a participa\u00e7\u00e3o. Todavia, isso demanda dinheiro, e, com reduzida possibilidade de patroc\u00ednio e subven\u00e7\u00e3o comprometida, precisam de fontes de receitas alternativas. Estas fontes de renda alternativas podem vir de um patrono ou, seguindo a velha pr\u00e1tica do livro de ouro, do com\u00e9rcio local. No entanto, \u00e9 preciso saber articular um intricado quebra-cabe\u00e7as envolvendo credibilidade, compet\u00eancia, transpar\u00eancia e, em alguns casos, submiss\u00e3o, para conseguir recursos que, mesmo assim, raramente s\u00e3o suficientes.<\/em><\/p>\n<div><\/div>\n<div><em>\u00c9 nesta corda bamba que os presidentes dos grupos de acesso se equilibram. Com ensaios muitas vezes deficit\u00e1rios, como foram alguns da Uni\u00e3o de Vaz Lobo naquele ano, o \u00fanico recurso certo \u00e9 a subven\u00e7\u00e3o, que, se n\u00e3o bastasse todos os problemas, \u00e9 um &#8220;campo de lutas&#8221; \u00e0 parte. Primeiro, \u00e9 preciso superar a antiga vis\u00e3o assistencialista, por parte do poder p\u00fablico, seja qual for o partido que esteja no poder, de que subven\u00e7\u00e3o \u00e9 uma esp\u00e9cie de favor. De certa forma, os pr\u00f3prios sambistas, ao longo da hist\u00f3ria, incentivaram esta vis\u00e3o populista que est\u00e1 arraigada em nossa cultura. A subven\u00e7\u00e3o deve fazer parte de uma pol\u00edtica cultural ampla, que, entre outras coisas, deve expressar as &#8220;preocupa\u00e7\u00f5es do Iphan&#8221; com a &#8220;preserva\u00e7\u00e3o&#8221; e &#8220;perpetua\u00e7\u00e3o&#8221; do samba.<\/em><\/p>\n<\/div>\n<div><em>L\u00f3gico que seria necess\u00e1rio algum tipo de presta\u00e7\u00e3o de contas, pois, uma outra luta enfrentada pelos presidentes de grupos de acesso \u00e9 travada contra a generaliza\u00e7\u00e3o simplista de que os &#8220;presidentes colocam no pr\u00f3prio bolso a subven\u00e7\u00e3o&#8221;. Na grande maioria dos casos, simplesmente n\u00e3o existe dinheiro para ser roubado, ou, na melhor das possibilidades, se o dinheiro for desviado para outros fins a escola n\u00e3o desfila. Em 2001, uma escola do Grupo E recebia apenas oito mil reais. Desse total, eram descontadas as cartas de cr\u00e9dito, que reduzia significativamente o total j\u00e1 insuficiente. O restante era dividido em tr\u00eas parcelas, sendo que apenas a primeira era paga com anteced\u00eancia, ficando a segunda para a semana do carnaval e, a terceira, apenas para depois do desfile. Na pr\u00e1tica, toda a prepara\u00e7\u00e3o do carnaval teria que ser feita com menos de dois mil reais, incluindo a confec\u00e7\u00e3o de todas as fantasias. Este \u00e9 um exemplo da grande &#8220;farra do dinheiro p\u00fablico&#8221; que alguns, sem conhecimento, insistem em ver nas escolas dos grupos de acesso. (&#8230;)&#8221;<\/em><\/p>\n<\/div>\n<div>Eu, que vinha ajudando modestamente a equipe respons\u00e1vel, fui escalado para desfilar como &#8220;destaque de ch\u00e3o&#8221;, representando o Ministro do Tribunal de Contas Edgard Romero &#8211; que hoje d\u00e1 nome\u00a0\u00e0 principal avenida do bairro. &#8220;Destaque&#8221; significa uma fantasia mais luxuosa que a de alas tradicionais, mas no Grupo E significava terno e gravata.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>E l\u00e1 fui eu na noite quente\u00a0de 27 de Fevereiro de 2001, ter\u00e7a feira de Carnaval\u00a0para a Rua Cardoso de Moraes, em Bonsucesso, onde se realizava o desfile na \u00e9poca. A escola tinha cerca de quatrocentos componentes e ainda aguardei bastante tempo para o in\u00edcio do desfile &#8211; a Uni\u00e3o era a terceira a desfilar. Haviam mais fantasias que desfilantes e a bateria n\u00e3o tinha sequer uma pe\u00e7a &#8220;leve&#8221; &#8211; tamborins ou chocalhos.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>O p\u00fablico destes desfiles fica muito mais pr\u00f3ximo dos desfilantes que na Sapuca\u00ed, e acho que nunca fui t\u00e3o aplaudido em minha vida- e nem fui depois, pelo menos at\u00e9 o momento em que escrevo. A cada vez em que meneava a cabe\u00e7a para agradecer o p\u00fablico a galera vinha abaixo. Foi bem legal para o meu ego, admito&#8230;<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Depois ainda fui para a Ilha do Governador, e de \u00f4nibus&#8230; Soube que mais tarde\u00a0houve uma grande confus\u00e3o durante o desfile da escola &#8220;Gato de Bonsucesso&#8221;, com direito a tiroteio. Por causa disso o desfile foi transferido ano seguinte para a Avenida Intendente Magalh\u00e3es, em Campinho &#8211; onde est\u00e1 at\u00e9 hoje.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>A escola ainda salvou um quinto lugar, com 176,5 pontos, apesar de todas as dificuldades.Vamos \u00e0 letra do samba, que pode ser ouvido <a href=\"http:\/\/pedromigao.multiply.com\/music\/item\/109\">aqui<\/a>:<\/div>\n<div><\/div>\n<div><em>\u201cVou contar<\/em><\/div>\n<div><em>Sua hist\u00f3ria com orgulho, amor !<\/em><\/div>\n<div><em>S\u00f3 de pensar da emo\u00e7\u00e3o.<\/em><\/div>\n<div><em>\u00c9 bairro, \u00e9 ra\u00e7a, \u00e9 samba, \u00e9 uni\u00e3o.<\/em><\/div>\n<div><em>Oh meu querido Vaz Lobo da \u00e9poca da coloniza\u00e7\u00e3o<\/em><\/div>\n<div><em>A freguesia doada em sesmarias<\/em><\/div>\n<div><em>Por conta do Marqu\u00eas foi a leil\u00e3o<\/em><\/div>\n<div><em>Fazendas, ch\u00e1caras, s\u00edtios, riquezas<\/em><\/div>\n<div><em>Assim havia terras pra plantar!<\/em><\/div>\n<div><em>Onde viveu Jos\u00e9 Maria, pioneiro da alegria, bravo, imortal<\/em><\/div>\n<div><em>Anunciando um novo tempo,<\/em><\/div>\n<div><em>O progresso trouxe inventos, produziu carv\u00e3o<\/em><\/div>\n<div><\/div>\n<div><em><strong>Bonde a burro levantou poeira<\/strong><\/em><\/div>\n<div><em><strong>No el\u00e9trico, dancei zoeira<\/strong><\/em><\/div>\n<div><em><strong>Da velha estrada Marechal Rangel<\/strong><\/em><\/div>\n<div><em><strong>\u00c0 Edgar Romero, sou fiel<\/strong><\/em><\/div>\n<div><\/div>\n<div><em>Cen\u00e1rio, personagens suburbanos<\/em><\/div>\n<div><em>E o com\u00e9rcio prosperando<\/em><\/div>\n<div><em>Cine Vaz Lobo e os sal\u00f5es da boemia<\/em><\/div>\n<div><em>No futebol, cajueiro se destacou<\/em><\/div>\n<div><em>Tem capoeira, jongo, samba e nostalgia<\/em><\/div>\n<div><em>\u00d4 abram alas que o povo quer brincar !<\/em><\/div>\n<div><\/div>\n<div><em><strong>Setenta anos pro meu samba eternizar.<\/strong><\/em><\/div>\n<div><em><strong>\u00d4 bate forte, cora\u00e7\u00e3o ! Que a bateria vai tocar<\/strong><\/em><\/div>\n<div><em><strong>Sou Uni\u00e3o e com arte vou cantar<\/strong><\/em><\/div>\n<div><em><strong>Amar, amar, amar &#8230;\u201d<\/strong><\/em><\/div>\n<div><\/div>\n<div>Semana que vem, outro desfile que tamb\u00e9m acompanhei de perto, um bom samba e passagem pela avenida muito divertida: Boi da Ilha 2007, &#8220;Tem Boi na Linha&#8221;.<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A Uni\u00e3o de Vaz Lobo, embora seja uma escola pequena &#8211; hoje est\u00e1 no Acesso D, quinta divis\u00e3o do samba &#8211; \u00e9 uma escola deTour Details<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[289],"tags":[18,12,19,146,208],"class_list":["post-12173","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-pedro-migao","tag-carnaval","tag-cultura","tag-escolas-de-samba","tag-samba-de-terca","tag-vaz-lobo"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12173","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=12173"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12173\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=12173"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=12173"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=12173"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}