{"id":12071,"date":"2010-03-28T09:30:00","date_gmt":"2010-03-28T11:30:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2010\/03\/infeliz-iemen-por-tariq-ali\/"},"modified":"2010-03-28T09:30:00","modified_gmt":"2010-03-28T11:30:00","slug":"infeliz-iemen-por-tariq-ali","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2010\/03\/infeliz-iemen-por-tariq-ali\/","title":{"rendered":"Infeliz I\u00eamen &#8211; por Tariq Ali"},"content":{"rendered":"<div><\/div>\n<div><a href=\"http:\/\/2.bp.blogspot.com\/_KYflagr2MuI\/S60oGsFsGwI\/AAAAAAAAB60\/n0c5x03rGa8\/s1600\/Tariq_Ali.jpg\" imageanchor=\"1\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" border=\"0\" height=\"200\" src=\"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2010\/03\/Tariq_Ali.jpg\" width=\"166\"><\/a><\/div>\n<div>Domingo, dia de repercutir bons textos no Ouro de Tolo.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Hoje trago texto do cientista pol\u00edtico e pensador paquistan\u00eas Tariq Ali (foto), publicado originalmente na revista &#8220;London Rewiew Books&#8221; e republicada em portugu\u00eas no excelente <a href=\"http:\/\/www.viomundo.com.br\/voce-escreve\/tariq-ali-infeliz-iemen.html\">Viomundo<\/a>.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Trata-se de um bom painel do pa\u00eds pertencente ao Golfo P\u00e9rsico e que come\u00e7a a se tornar um novo &#8220;alvo&#8221; da insana guerra ao terrorismo norte-americana. O leitor ainda ouvir\u00e1 falar muito dos personagens descritos no texto.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Boa leitura.<\/div>\n<div><\/div>\n<div><\/div>\n<div><span><i><strong>por Tariq Ali, em <a href=\"http:\/\/www.lrb.co.uk\/v32\/n06\/tariq-ali\/unhappy-I%C3%AAmen\">London Review Books<\/a><\/strong><\/i><\/span><\/div>\n<div> <\/div>\n<div><\/div>\n<div><i>Parti para o I\u00eamen, j\u00e1 que Obama anda insistindo que \u201cgrandes fatias\u201d do pa\u00eds ainda n\u00e3o estariam \u201csob completo controle do governo\u201d, depois de o senador Joseph Lieberman ter alegremente anunciado que o I\u00eamen seria alvo adequado para mais guerra e mais ocupa\u00e7\u00e3o.<\/i><\/div>\n<div> <\/div>\n<div><\/div>\n<div><i>O infeliz portador daquela cueca-bomba que tentou explodir o avi\u00e3o de Amsterdam no dia de Natal deflagrou nova onda de interesse pelo pa\u00eds e pela \u201cal-Qaida in the Arabian Peninsula (AQAP)\u201d \u2013 porque se disse que, embora o homem tenha sido convertido ao Isl\u00e3 linha-dura na Inglaterra, seu abra\u00e7o felizmente fracassado com o terrorismo teria sido viabilizado pela AQAP em algum ponto do I\u00eamen.<\/i><\/div>\n<div> <\/div>\n<div><\/div>\n<div><i>O I\u00eamen \u00e9 pa\u00eds s\u00f3brio, diferente dos postos imperiais de gasolina espalhados por outras partes da pen\u00ednsula ar\u00e1bica, onde as elites dominantes vivem em arranha-c\u00e9us constru\u00eddos em prazos sempre recordes, projetados por arquitetos-celebridades, cercados por shopping-centers em que se vendem produtos com todas as griffes ocidentais, atendidos por escravos que chegam em ondas do Sul da \u00c1sia e das Filipinas. Sana\u2019a, capital do I\u00eamen, foi fundada em tempos em que o Velho Testamento ainda estava em produ\u00e7\u00e3o, sendo escrito, editado e costurado. \u00c9 verdade que o novo hotel M\u00f6venpick, no cora\u00e7\u00e3o do enclave diplom\u00e1tico que h\u00e1 na cidade, faz lembrar o pior de Dubai (estive l\u00e1 quando todos eram obrigados a engolir um menu \u201cValentine\u2019s Day Dinner Menu\u201d), mas a elite iemenita \u00e9 cuidadosa e n\u00e3o ostenta riqueza.<\/i><\/div>\n<div> <\/div>\n<div><\/div>\n<div><i>A velha cidade murada foi resgatada da extin\u00e7\u00e3o-por-moderniza\u00e7\u00e3o, pela Unesco (depois, tamb\u00e9m pelo Aga Khan Trust) nos anos 80s, e a antiga muralha foi reconstru\u00edda. A Grande Mesquita do s\u00e9culo 9\u00ba est\u00e1 atualmente sendo restaurada por equipe de especialistas italianos associados a arque\u00f3logos locais e t\u00eam encontrado objetos e imagens do passado pr\u00e9-isl\u00e2mico daquela regi\u00e3o. Se v\u00e3o ou n\u00e3o localizar uma pequena estrutura que se diz que teria sido constru\u00edda ainda em vida do profeta Maom\u00e9, n\u00e3o se sabe.<\/i><\/div>\n<div> <\/div>\n<div><\/div>\n<div><i>A estrutura de Sana\u2019a \u00e9 deslumbrante, diferente de tudo o que se v\u00ea no mundo. As constru\u00e7\u00f5es \u2013 arranha-c\u00e9us de oito ou nove andares \u2013 foram erguidas no s\u00e9culo 9\u00ba e restauradas 600 anos depois, conservando-se o estilo original: tijolos de argila decorados com padr\u00f5es geom\u00e9tricos em gesso e pedra esculpida (n\u00e3o havia madeira em quantidade suficiente para construir). Faltam s\u00f3 os jardins suspensos em cada piso, que cativaram a imagina\u00e7\u00e3o dos viajantes medievais.[1]<\/i><\/div>\n<div> <\/div>\n<div><\/div>\n<div><i>Resultado l\u00edquido das preocupa\u00e7\u00f5es ocidentais com a Al-Qaeda AQAP \u00e9 que, esse ano, os EUA dar\u00e3o 63 milh\u00f5es de d\u00f3lares em ajuda ao I\u00eamen. Um quinto disso j\u00e1 est\u00e1 reservado para comprar armas, e o restante, praticamente todo, ir\u00e1 para o presidente e sua trupe, sem esquecer o que ir\u00e1 para os bolsos dos altos comandantes militares. O que sobrar ser\u00e1 disputados pelos chefetes das v\u00e1rias regi\u00f5es do pa\u00eds. (No total, n\u00e3o est\u00e1 inclu\u00eddo o que o Pent\u00e1gono enviar\u00e1 para combater o terrorismo, e que ano passado chegou a 67 milh\u00f5es.) Um empres\u00e1rio iemenita contou-me que ficara boquiaberto, h\u00e1 alguns anos, quando o primeiro-ministro, aparentemente homem moderado e respeit\u00e1vel, exigiu comiss\u00e3o de 30% em neg\u00f3cio que estavam planejando. Percebendo que o empres\u00e1rio ficara chocado, o primeiro-ministro tratou de tranquiliz\u00e1-lo: 20% iriam diretamente para o presidente.<\/i><\/div>\n<div> <\/div>\n<div><\/div>\n<div><i>N\u00e3o sei se a AQAP \u00e9 amea\u00e7a s\u00e9ria, ou o quanto \u00e9 s\u00e9ria, de fato. Quantos membros da organiza\u00e7\u00e3o estariam no pa\u00eds, quantos seriam meros visitantes vindos do outro lado da fronteira com a Ar\u00e1bia Saudita?<\/i><\/div>\n<div> <\/div>\n<div><\/div>\n<div><i>Abdul Karim al-Eryani, 75 anos, ex-primeiro-ministro e ainda conselheiro do presidente recebeu-me na grande biblioteca no subsolo de sua casa. \u00c9 homem de fala interessante e falou longamente sobre a hist\u00f3ria do I\u00eamen, destacando as continuidades desde o per\u00edodo pr\u00e9-isl\u00e2mico at\u00e9 as culturas isl\u00e2micas na regi\u00e3o. Lastimou que o dialeto \u00e1rabe falado pelos bedu\u00ednos de Nejd (que hoje \u00e9 parte da Ar\u00e1bia Saudita) tenha sido a principal fonte para o moderno dicion\u00e1rio \u00e1rabe, esquecendo-se assim a real fonte da l\u00edngua, o dialeto dos Sabeans [talvez \u201csabinos\u201d? S\u00f3 o Arnaldo Carrilho saber\u00e1 dizer!] que viveram onde hoje \u00e9 o I\u00eamen, de cujo idioma os autores do dicion\u00e1rio exclu\u00edram 5.000 palavras.<\/i><\/div>\n<div> <\/div>\n<div><\/div>\n<div><i>Mais adiante, contou-me que, gra\u00e7as ao nigeriano da cueca-bomba, tinha sido visitado por Thomas Friedman, colunista do New York Times. Friedman fez as perguntas que quis, voltou aos EUA e contou aos leitores que \u201ca cidade n\u00e3o \u00e9 Cabul\u2026 ainda\u201d; que a AQAP \u00e9 um \u2018v\u00edrus\u2019 que merece urgente aten\u00e7\u00e3o antes que a doen\u00e7a se espalhe e torne-se incontrol\u00e1vel. N\u00e3o cogitou, sequer, da causa da infec\u00e7\u00e3o.<\/i><\/div>\n<div> <\/div>\n<div><\/div>\n<div><i>Mas quando pedi que Eryani estimasse o tamanho da AQAP, ele riu. \u201cTrezentos? Quatrocentos\u201d \u2013 insisti. \u201cNo m\u00e1ximo\u201d, disse ele. \u201cNo m\u00e1ximo, mesmo. Os americanos exageram enormemente. Temos nossos problemas reais e muito mais importantes.\u201d<\/i><\/div>\n<div> <\/div>\n<div><\/div>\n<div><i>O mesmo ponto de vista foi reiterado por Saleh Ali Ba-Surah, ministro da Educa\u00e7\u00e3o Superior, formado na Alemanha Oriental, como muitos nascidos na rep\u00fablica que, at\u00e9 1990, foi a Rep\u00fablica Popular Democr\u00e1tica do I\u00eamen, a por\u00e7\u00e3o sul do atual Estado.<\/i><\/div>\n<div> <\/div>\n<div><\/div>\n<div><i>As duas partes do que hoje constitui a Rep\u00fablica do I\u00eamen \u2013 controlada h\u00e1 20 anos por Ali Abdullah Saleh, o qual, como Mubarak e Gaddafi, est\u00e1 criando o filho para suced\u00ea-lo \u2013 representaram duas muito diferentes sociologias ao longo de grande parte do s\u00e9culo passado. O norte, das terras altas \u2013 onde est\u00e1 a capital Sana\u2019a \u2013, foi dominado por tribos armadas; e no interior da regi\u00e3o de Aden, dominavam os oper\u00e1rios, intelectuais, sindicalistas, nacionalistas e, depois, os comunistas.<\/i><\/div>\n<div> <\/div>\n<div><\/div>\n<div><i>O pa\u00eds foi unificado s\u00e9culos antes, sob a lideran\u00e7a dos im\u00e3s xiitas Zaidi, cujos poderes temporais dependiam da lealdade tribal e da aquiesc\u00eancia dos camponeses. O sul do I\u00eamen separou-se em 1728; o imp\u00e9rio brit\u00e2nico em expans\u00e3o ocupou Aden e a \u00e1rea litor\u00e2nea em 1839 (no mesmo ano em que come\u00e7ou a ocupar Hong Kong).<\/i><\/div>\n<div> <\/div>\n<div><\/div>\n<div><i>O j\u00e1 enfraquecido imp\u00e9rio otomano ainda abocanhou, pouco depois, uma fatia do norte do I\u00eamen, mas teve de ced\u00ea-la depois da I Guerra Mundial. Sob o imp\u00e9rio-do-bem dos brit\u00e2nicos, os im\u00e3s da fam\u00edlia Hamid-ed-Din reassumiram o controle do norte. Em 1948, o governante, Yahya Muhammad, foi assassinado por um de seus guarda-costas, e o filho de Yahya, Ahmad, isolacionista obcecado, assumiu o poder.<\/i><\/div>\n<div> <\/div>\n<div><\/div>\n<div><i>Para Ahmad, a escolha foi f\u00e1cil: seu pa\u00eds poderia ser dependente e rico, ou pobre e livre. Aos poucos, o descontentamento popular cresceu, \u00e0 medida que Ahmad ia-se tornando cada vez mais exc\u00eantrico, mergulhado em morfina a maior parte do dia, ele e os amigos, num quarto iluminado com l\u00e2mpadas de neon, brincando com os brinquedos que colecionava desde crian\u00e7a. N\u00e3o havia no pa\u00eds sequer uma escola moderna, uma estrada de ferro ou f\u00e1brica moderna, praticamente nenhum professor e nenhum m\u00e9dico.<\/i><\/div>\n<div> <\/div>\n<div><\/div>\n<div><i>Todos apostavam na volta de um irm\u00e3o exilado do im\u00e3, que viria para expulsar Ahmad; ou, antes disso, em que os apoiadores de Nasser no ex\u00e9rcito do I\u00eamen perdessem a paci\u00eancia. Ahmad combatera o nacionalismo \u00e1rabe de Nasser em 1960, instigado pelos sauditas, fez divulgar pela r\u00e1dio estatal uma den\u00fancia contra Nassar, e havia quem esperasse por resposta do Cairo. A R\u00e1dio Cairo, sim, declarou guerra ao I\u00eamen. Mas antes que chegassem \u00e0s vias de fato, Ahmad morreu.<\/i><\/div>\n<div> <\/div>\n<div><\/div>\n<div><i>Em menos de uma semana, o chefe da guarda pessoal de Ahmad, al-Sallal, reuniu oficiais nacionalistas e tomou o poder. O imanato chegara ao fim. Em Aden, milhares de pessoas manifestaram-se nas ruas a favor do novo regime. Nas mesmas manifesta\u00e7\u00f5es deixaram bem claro tamb\u00e9m que resistiriam contra a ocupa\u00e7\u00e3o colonial do sul do pa\u00eds pelos brit\u00e2nicos.<\/i><\/div>\n<div> <\/div>\n<div><\/div>\n<div><i>Com medo tanto dos radicais nacionalistas quanto de seus muito prov\u00e1veis apoiadores comunistas, Washington e Londres decidiram que o melhor a fazer seria devolver o poder aos im\u00e3s. Os brit\u00e2nicos, doidos para dar uma li\u00e7\u00e3o a Nasser e vingar a humilha\u00e7\u00e3o de Suez, foram com muito mais sede que os EUA ao pote das armas. A principal preocupa\u00e7\u00e3o dos norte-americanos era que a infec\u00e7\u00e3o iemenita se espalhasse pela pen\u00ednsula e que, se a interven\u00e7\u00e3o saudita fracassasse, as correntes nacionalistas engolfassem tamb\u00e9m a Ar\u00e1bia Saudita \u2013 o que poria em risco a monarquia. Os sauditas passaram a alimentar os apoiadores dos im\u00e3s e as tribos mais conservadoras do norte \u2013 com uma mistura barata de islamismo primitivo e muito dinheiro.<\/i><\/div>\n<div> <\/div>\n<div><\/div>\n<div><i>Os l\u00edderes pol\u00edticos e militares do novo Estado do norte eram fracos e atrapalhados. Os intelectuais nasseristas no governo aproveitaram-se da indecis\u00e3o deles e, finalmente, conseguiram convencer o ex\u00e9rcito a recorrer diretamente a Nasser. Os eg\u00edpcios, ent\u00e3o, com apoio de sovi\u00e9ticos e chineses, mandaram para o I\u00eamen uma for\u00e7a expedicion\u00e1ria de 20 mil soldados.<\/i><\/div>\n<div> <\/div>\n<div><\/div>\n<div><i>Gerou-se assim uma prolongada guerra civil, disputada por simulacros dos personagens oficiais da Guerra Fria \u2013 sauditas versus eg\u00edpcios, para ser bem claro \u2013, que custou a vida de 200 mil iemenitas e deixou em ru\u00ednas todo o norte do pa\u00eds.<\/i><\/div>\n<div> <\/div>\n<div><\/div>\n<div><i>Os eg\u00edpcios eram homens do vale do Nilo e o terreno montanhoso lhes era completamente desconhecido. Mas, certos de que seriam invenc\u00edveis, n\u00e3o ouviram advert\u00eancias nem conselhos e trataram os aliados locais, simultaneamente, como inferiores e irrelevantes. A guerra civil enfrentava impasse completo, e crescia a oposi\u00e7\u00e3o aos m\u00e9todos dos eg\u00edpcios, que inclu\u00edam o uso de armas qu\u00edmicas. Foi quando aconteceu o brutal massacre dos oper\u00e1rios e sindicalistas que faziam oposi\u00e7\u00e3o aos eg\u00edpcios em Sana\u2019a e Taiz.<\/i><\/div>\n<div> <\/div>\n<div><\/div>\n<div><i>Em 1970, a guerra acabou sem vencedores e um acordo insatisfat\u00f3rio para todos. Os eg\u00edpcios trabalharam na dire\u00e7\u00e3o de subornar as tribos para comprar o poder; como resultado, compraram o poder \u2013 que foi entregue associado a entidades divinas e muitos pregadores e cl\u00e9rigos. A guerra custara ao Egito um milh\u00e3o de d\u00f3lares por dia e a vida de 15 mil soldados, al\u00e9m de quase 50 mil feridos. A subsequente desmoraliza\u00e7\u00e3o do ex\u00e9rcito pode ter contribu\u00eddo para a derrota que sofreu na Guerra dos Seis Dias. Seja como for, a \u2018guerra rel\u00e2mpago\u2019 de Israel, em junho de 1967, foi o t\u00famulo do nacionalismo \u00e1rabe.<\/i><\/div>\n<div> <\/div>\n<div><\/div>\n<div><i>A guerra civil for\u00e7ou muitos comunistas e nacionalistas de esquerda do I\u00eamen do Norte a fugir para Aden. Ali, soldados brit\u00e2nicos, veteranos franceses da Arg\u00e9lia e mercen\u00e1rios belgas foram recrutados para a empresa do coronel David Stirling, Watchguard International Ltd., para operar por tr\u00e1s das linhas inimigas. Tamb\u00e9m no sul os nacionalistas estavam divididos: o Egito apoiava a Frente para a Liberta\u00e7\u00e3o do I\u00eamen do Sul [ing. Front for the Liberation of South Yemen (FLOSY)] e grupos mais radicais reunidos sob a bandeira da Frente Nacional de Liberta\u00e7\u00e3o [ing. National Liberation Front (NF)]. Os dois lados lutavam para expulsar os brit\u00e2nicos, e os brit\u00e2nicos, determinados a continuar onde estavam, agarrados a uma base estrategicamente importante e recorrendo cada vez mais a pris\u00f5es sem julgamento e \u00e0 tortur a.<\/i><\/div>\n<div> <\/div>\n<div><\/div>\n<div><i>Em 1964 Harold Wilson declarou que os brit\u00e2nicos permaneceriam na regi\u00e3o, mas que passariam o poder, em 1968, \u00e0 chamada Federa\u00e7\u00e3o Sul-ar\u00e1bica [ing. Federation of South Arabia], sob a qual Wilson esperava que a popula\u00e7\u00e3o de Aden fosse mantida sob o controle de sult\u00f5es do interior.<\/i><\/div>\n<div> <\/div>\n<div><\/div>\n<div><i>O plano deu gravemente errado, depois de todas as vilas terem sido bombardeadas, at\u00e9 serem varridas do mapa, pela For\u00e7a A\u00e9rea brit\u00e2nica [ing. Royal Air Force (RAF)]. Em palavras de Bernard Reilly, oficial brit\u00e2nico que viveu praticamente toda a vida em Aden: \u201cS\u00f3 se pode pacificar pa\u00eds n\u00e3o habituado a governo ordeiro, mediante atos de puni\u00e7\u00e3o coletiva, assalto e pilhagem.\u201d Os l\u00edderes daquelas tribos n\u00e3o desejavam ser pacificados. Come\u00e7ou luta feroz nas ruas do Crater, uma das \u00e1reas mais antigas de Aden.<\/i><\/div>\n<div> <\/div>\n<div><\/div>\n<div><i>Em 1967, a Frente Nacional de Liberta\u00e7\u00e3o usava bazucas e morteiros em Aden e atacava diretamente as bases militares brit\u00e2nicas. O governo trabalhista decidiu p\u00f4r fim \u00e0s perdas e ordenou a retirada. \u201cLamentavelmente\u201d \u2013 l\u00ea-se em carta do Colonial Office aos seus colaboradores nativos \u2013 \u201cn\u00e3o podemos continuar a proteg\u00ea-los\u201d.<\/i><\/div>\n<div> <\/div>\n<div><\/div>\n<div><i>A vit\u00f3ria dos israelenses em junho de 1967 n\u00e3o ajudou os brit\u00e2nicos, porque a Frente Nacional de Liberta\u00e7\u00e3o n\u00e3o era pe\u00e3o que os Eg\u00edpcios jogassem como bem entendessem e bem diferente, nisso, da Frente para a Liberta\u00e7\u00e3o do I\u00eamen do Sul [ing. FLOSY] a qual, ent\u00e3o, estava gravemente enfraquecida. Uma greve geral comandada pela Frente Nacional de Liberta\u00e7\u00e3o paralisou Aden e ataques de guerrilheiros for\u00e7aram a administra\u00e7\u00e3o colonial a cancelar as celebra\u00e7\u00f5es do anivers\u00e1rio da rainha. Seis meses mais tarde, dia 29\/11\/1967, quando o fechamento do canal de Suez acabou com qualquer import\u00e2ncia que Aden tivesse para os brit\u00e2nicos, os brit\u00e2nicos afinal partiram, depois de 128 anos.<\/i><\/div>\n<div> <\/div>\n<div><\/div>\n<div><i>Ao mesmo tempo em que Humphrey Trevelyan, \u00faltimo comiss\u00e1rio, acenava uma r\u00e1pida despedida dos degraus do avi\u00e3o que o devolveria a Londres, a Banda da Real Marinha Brit\u00e2nica do HMS Eagle tocava \u2018Fings Ain\u2019t Wot They Used To Be\u2019 [as coisas n\u00e3o ser\u00e3o mais como foram, escrito \u2018com sotaque\u2019].<\/i><\/div>\n<div> <\/div>\n<div><\/div>\n<div><i>A Frente Nacional de Liberta\u00e7\u00e3o venceu, mas ainda faltava planejar a reconstru\u00e7\u00e3o do pa\u00eds. A Frente reunia membros de v\u00e1rias correntes da esquerda: pr\u00f3-Moscou, mao\u00edstas, guerrilheiros \u00e0 Che Guevara, alguns poucos trotskyistas e nacionalistas ortodoxos. Todos concordaram imediatamente com restabelecer rela\u00e7\u00f5es diplom\u00e1ticas com a URSS, o que foi feito dia 3\/12\/1967. Mas as disputas come\u00e7aram imediatamente.<\/i><\/div>\n<div> <\/div>\n<div><\/div>\n<div><i>O Congresso da Frente Nacional de Liberta\u00e7\u00e3o aprovou delibera\u00e7\u00e3o apresentada pelos radicais, em que se exigiam reformas no campo, o fim do analfabetismo, a forma\u00e7\u00e3o de uma mil\u00edcia popular, expurgo nos aparelhos civil e militar, apoio \u00e0 resist\u00eancia palestina e coopera\u00e7\u00e3o intensa e pr\u00f3xima com a China.<\/i><\/div>\n<div> <\/div>\n<div><\/div>\n<div><i>A esquerda dominava no corpo dirigente ent\u00e3o eleito. Uma tentativa de putsch liderada pelo ex\u00e9rcito por pouco n\u00e3o levou \u00e0 guerra civil; mas comandos guerrilheiros armados cercaram as bases militares e desarmaram os oficiais. Em maio de 1968 j\u00e1 se via que a ala direita da Frente Nacional de Liberta\u00e7\u00e3o n\u00e3o tinha qualquer inten\u00e7\u00e3o de implementar as resolu\u00e7\u00f5es do Congresso.<\/i><\/div>\n<div> <\/div>\n<div><\/div>\n<div><i>Foi criado um Movimento 14 de Maio, para mobilizar os que apoiavam as reformas. Houve confrontos com os militares, seguidos por um estranho per\u00edodo de calmaria que fazia recordar os Dias de Julho de 1917 em Petrogrado. A direita sup\u00f4s que havia vencido e declarou que \u201cos organizadores do Movimento 14 de Maio, de tanto ler os escritos de R\u00e9gis Debray, supuseram que estivessem fazendo \u201cuma revolu\u00e7\u00e3o dentro da revolu\u00e7\u00e3o\u201d. Um ano depois, todos entenderam que a esquerda vencera.<\/i><\/div>\n<div> <\/div>\n<div><\/div>\n<div><i>A constitui\u00e7\u00e3o de 1970 declarou o pa\u00eds uma rep\u00fablica socialista \u2013 a Rep\u00fablica Popular Democr\u00e1tica do I\u00eamen \u2013 contra os conselhos de China e da URSS. (Em outubro de 1968, o ministro das Rela\u00e7\u00f5es Exteriores da China, Chen Yi, o qual, ele mesmo, estava ent\u00e3o sitiado pelos Guardas Vermelhos, declarou a uma delega\u00e7\u00e3o do I\u00eamen do Sul que visitava a China que \u201ca ideia de voc\u00eas, de construir o socialismo, alimentada com slogans irrealiz\u00e1veis e promessas que n\u00e3o poder\u00e3o cumprir, pela pr\u00f3pria natureza da ideia, afia as espadas de seus advers\u00e1rios.\u201d) O que aconteceu foi tragicamente previs\u00edvel.<\/i><\/div>\n<div> <\/div>\n<div><\/div>\n<div><i>Um Estado economicamente muito atrasado partiu para criar estruturas que institucionalizaram a austeridade e universalizaram a mis\u00e9ria. Promover a industrializa\u00e7\u00e3o mediante empresas estatais poderia ter ajudado, n\u00e3o fosse pela proibi\u00e7\u00e3o total de qualquer tipo de produ\u00e7\u00e3o dom\u00e9stica, sequer para o consumo das pr\u00f3prias fam\u00edlias. A isso somou-se o monop\u00f3lio estatal de todas as modalidades de comunica\u00e7\u00e3o, controle estrito sobre tudo que se podia dizer ou publicar, e extin\u00e7\u00e3o de todos os partidos do pa\u00eds, exceto o Partido Socialista Iemenita [ing. Yemeni Socialist Party]. Zombaram, ao mesmo tempo, do socialismo e das promessas feitas durante a luta anticolonial. O que \u00e9 ineg\u00e1vel \u00e9 que o novo sistema de educa\u00e7\u00e3o e atendimento m\u00e9dico universal, e a apari\u00e7\u00e3o da mulher na cena p\u00fablica marcaram extraordin\u00e1rio passo adiante para toda a regi\u00e3o. O que n\u00e3o agradou \u00e0 Ar\u00e1bia Saudita.<\/i><\/div>\n<div> <\/div>\n<div><\/div>\n<div><i>Como desenvolvimento esper\u00e1vel, as pot\u00eancias vizinhas \u2013 o I\u00eamen do Norte, os Estados do Golfo, a Ar\u00e1bia Saudita \u2013 puseram-se a trabalhar, estimulados pelo governo Reagan, numa contrarrevolu\u00e7\u00e3o de dentro para fora, do tipo que estava ent\u00e3o sendo tentada na Noruega com os Contras. Em Ali Nasser, apparatchik cru, semianalfabeto, obcecado pelo poder absoluto, que se tornou presidente da Rep\u00fablica Popular Democr\u00e1tica do I\u00eamen em 1980, aquele grupo encontrou o instrumento de que precisava.<\/i><\/div>\n<div> <\/div>\n<div><\/div>\n<div><i>Por mais de um ano o presidente trabalhou contra o carism\u00e1tico Abdul Fateh Ismail, que o precedera na presid\u00eancia e liderara a luta contra os brit\u00e2nicos, at\u00e9 conseguir que renunciasse por \u201cmotivos de sa\u00fade\u201d e partisse para longa estadia na Europa Oriental. Havia v\u00e1rios apoiadores de Ismail na lideran\u00e7a local, quando ele retornou de Moscou em 1985; foi rapidamente reeleito para o Politburo da Rep\u00fablica Popular Democr\u00e1tica do I\u00eamen, como l\u00edder da maioria.<\/i><\/div>\n<div> <\/div>\n<div><\/div>\n<div><i>Dia 13\/1\/1986, o carro de Ali Nasser foi visto na cal\u00e7ada do pr\u00e9dio do Comit\u00ea Central (r\u00e9plica de outras horrendas estruturas que se viam na Europa Oriental), onde deveria acontecer uma reuni\u00e3o do Politburo. Mas Ali Nasser n\u00e3o compareceu \u00e0 reuni\u00e3o. Em vez dele, apareceu seu guarda-costas, drogado e armado com uma metralhadora Scorpion; entrou na sala e assassinou \u00e0 bala o vice-presidente Ali Ahmed Antar, para come\u00e7ar; em seguida matou todos quantos estavam na sala. Foram mortos quatro membros-chave do Politburo, inclusive Ismail, al\u00e9m de outro membros do Comit\u00ea Central. Em outros pontos da cidade, homens de Ali Nasser destru\u00edram, a tiros de morteiros, a casa de Ismail; e houve pesado tiroteio em v\u00e1rios pontos. \u00c0s 12h30, r\u00e1dios e televis\u00f5es de Aden noticiaram que o presidente derrotara uma tentativa de golpe dos direitistas e que Ismail e seus colaboradores haviam sido executados. Tr\u00eas horas de pois, o servi\u00e7o \u00e1rabe da BBC anunciava que o \u201cmoderado e pragm\u00e1tico\u201d presidente do I\u00eamen conseguira abortar uma tentativa de golpe pelos comunistas extremistas. E a mesma linha foi acompanhada por quase toda a m\u00eddia ocidental, que repetiu a vers\u00e3o da derrota de uma tentativa de golpe apoiada por Moscou para radicalizar ainda mais o I\u00eamen\u2026 e, isso, apesar de Gorbachev j\u00e1 estar no poder na URSS.<\/i><\/div>\n<div> <\/div>\n<div><\/div>\n<div><i>\u00c0 medida que se espalhavam em Aden as not\u00edcias dos assassinatos, multid\u00f5es come\u00e7aram a reunir-se nas ruas, e soldados conseguiram desalojar os novos donos do pr\u00e9dio do minist\u00e9rio da Defesa e da sala de opera\u00e7\u00f5es, de onde os homens de Ali Nasser foram expulsos. Os confrontos atravessaram a noite. Morreram muitos membros desarmados do Partido, sindicalistas, l\u00edderes camponeses, assassinados pelos soldados de Nasser \u2013 que tinham listas de nomes antecipadamente preparadas. Seja como for, depois de cinco dias de luta sangrenta, os \u201cmoderados e pragm\u00e1ticos\u201d foram derrotados. Ali Nasser fugiu para o I\u00eamen do Norte e de l\u00e1, depois, para Dubai. Atualmente, \u00e9 diretor de um \u201ccentro cultural\u201d em Damasco, onde dirige tamb\u00e9m suas v\u00e1rias empresas.<\/i><\/div>\n<div> <\/div>\n<div><\/div>\n<div><i>A matan\u00e7a na reuni\u00e3o do Comit\u00ea Central foi o come\u00e7o do fim da Rep\u00fablica Popular Democr\u00e1tica do I\u00eamen. Os prepostos do Ocidente na regi\u00e3o, que haviam organizado toda a a\u00e7\u00e3o, puseram-se a falar contra \u201cos g\u00e2ngsteres socialistas que ocuparam o governo do pa\u00eds\u201d. Enquanto a URSS come\u00e7ava a desmoronar, come\u00e7aram negocia\u00e7\u00f5es entre o I\u00eamen do Sul e do Norte, e o pa\u00eds foi rapidamente unificado em maio de 1990, comandado por um conselho presidencial de cinco membros que representava as duas \u2018metades\u2019. Em 1991, uma nova Constitui\u00e7\u00e3o levantou todas as limita\u00e7\u00f5es \u00e0 liberdade de express\u00e3o e da imprensa e \u00e0 liberdade de reuni\u00e3o e associa\u00e7\u00e3o.<\/i><\/div>\n<div><\/div>\n<div><i><a href=\"http:\/\/3.bp.blogspot.com\/_KYflagr2MuI\/S60nnZuewZI\/AAAAAAAAB6s\/nzk_uGIPIIk\/s1600\/myemen.gif\" imageanchor=\"1\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" border=\"0\" height=\"285\" src=\"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2010\/03\/myemen.png\" width=\"400\"><\/a><\/i><\/div>\n<div><\/div>\n<div><i>Mas a unifica\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m n\u00e3o deu certo. Os iemenitas do sul sentiam que seus interesses haviam sido tra\u00eddos, e os repetidos confrontos e discuss\u00f5es n\u00e3o auguravam bom futuro para o governo de coaliz\u00e3o criado depois das elei\u00e7\u00f5es. Os socialistas do sul acusavam as gangues apoiadas por Ali Saleh, ex-presidente do I\u00eamen do Norte, e ent\u00e3o presidente do pa\u00eds unificado, de atacar sulistas em Sana\u2019a e em outras cidades. As rela\u00e7\u00f5es deterioram-se rapidamente e houve escaramu\u00e7as no Sul entre remanescentes do ex\u00e9rcito da Rep\u00fablica Popular e soldados que haviam lutado pelo Norte. Chegou a irromper guerra generalizada em 1994, da qual participaram grupos jihadistas e Osama bin Laden \u2013 que apoiavam Ali Saleh. Os sulistas foram esmagados, n\u00e3o apenas militarmente, mas tamb\u00e9m cultural e economicamente. Houve expropria\u00e7\u00e3o, roubo de terra, de propriedades urban as, as mulheres voltaram a ter de cobrir-se dos p\u00e9s \u00e0 cabe\u00e7a (\u201cSe n\u00e3o nos cobr\u00edssemos, chamavam-nos de prostitutas. Houve muitos estupros. A brutalidade foi imensa. Nos obrigaram a fazer o que queriam\u201d \u2013 contou-me uma mulher sem v\u00e9u, em Aden).<\/i><\/div>\n<div> <\/div>\n<div><\/div>\n<div><i>Quando cheguei a Aden, percebi que a Al-Qaeda da Pen\u00ednsula \u00c1rabe (AQAP, em ingl\u00eas) \u00e9 o menor dos problemas do pa\u00eds.<\/i><\/div>\n<div> <\/div>\n<div><\/div>\n<div><i>A maioria dos sul-iemenitas anseiam desesperadamente por separar-se do I\u00eamen do Norte. \u201cAqui n\u00e3o se trata de unifica\u00e7\u00e3o. Trata-se de ocupa\u00e7\u00e3o\u201d \u2013 ouvi in\u00fameras vezes.<\/i><\/div>\n<div> <\/div>\n<div><\/div>\n<div><i>A popula\u00e7\u00e3o est\u00e1 sem lideran\u00e7a pol\u00edtica e h\u00e1 fortes rumores em Sana\u2019a de que o assassino Ali Nasser estaria sendo preparado pelo atual presidente Ali Saleh para fazer uma reestreia pol\u00edtica; Ali Saleh o v\u00ea como \u201co homem da unifica\u00e7\u00e3o\u201d. Enquanto isso, h\u00e1 manifesta\u00e7\u00f5es nas vilas e cidades menores, nas quais se queimam a bandeira do I\u00eamen e fotos do presidente Ali Saleh, e v\u00ea-se subir o velho estandarte da Rep\u00fablica Popular Democr\u00e1tica. A repress\u00e3o \u00e9 sempre violenta e a amargura s\u00f3 faz crescer, essa sim, de todos.<\/i><\/div>\n<div> <\/div>\n<div><\/div>\n<div><i>Dia 1\/3\/2010, as for\u00e7as de seguran\u00e7a cercaram e destru\u00edram a casa de Ali Yafie o qual, na v\u00e9spera, queimara em p\u00fablico uma fotografia do presidente Ali Saleh. Yafie e oito membros de sua fam\u00edlia, inclusive a neta de sete anos, foram mortos. A propaganda governamental acusou-o de ser membro da Al-Qaeda da Pen\u00ednsula \u00c1rabe.<\/i><\/div>\n<div> <\/div>\n<div><\/div>\n<div><i>Na noite de 4\/1\/2010, as for\u00e7as de seguran\u00e7a em Aden cercaram a casa de Hasham Bashraheel, editor-chefe do jornal Al-Ayyam \u2013 fundado em 1958 e jornal que sempre noticiou, com abund\u00e2ncia de fotos, as atrocidades do Estado. Por exemplo, publicou fotos dos mortos depois que as for\u00e7as de seguran\u00e7a abriram fogo contra ex-soldados que reclamavam pagamentos atrasados; o jornal foi fechado em maio de 2009, embora a sala da reda\u00e7\u00e3o tenha continuado a servir como local de reuni\u00e3o de jornalistas, intelectuais e ativistas de direitos civis. Quando as for\u00e7as de seguran\u00e7a cercaram o pr\u00e9dio, logo surgiram tamb\u00e9m defensores do jornal que se reuniram na \u00e1rea. Os policiais dispararam para o ar, para dispers\u00e1-los. Depois, atiraram granadas na dire\u00e7\u00e3o do pr\u00e9dio, onde o jornalista e sua fam\u00edlia, inclusive duas netas pequenas, ainda estavam. Todos sobreviveram, miracu losamente, porque conseguiram esconder-se no por\u00e3o do pr\u00e9dio.<\/i><\/div>\n<div> <\/div>\n<div><\/div>\n<div><i>Na manh\u00e3 seguinte, Bashraheel e seus dois filhos renderam-se publicamente, para, pelo menos, tentar dificultar algum tipo de atentado contra eles e a fam\u00edlia. Um ativista local disse-me que \u201camigos que tenho na pol\u00edcia\u201d disseram-lhe que havia dois cad\u00e1veres n\u00e3o identificados no porta-malas de um autom\u00f3vel sem placa, em frente ao jornal.<\/i><\/div>\n<div> <\/div>\n<div><\/div>\n<div><i>Se Bashraheel e sua fam\u00edlia tivessem sido assassinados, os dois cad\u00e1veres teriam sido plantados no pr\u00e9dio e identificados como membros da Al-Qaeda da Pen\u00ednsula Ar\u00e1bica, que estariam recebendo abrigo no pr\u00e9dio do jornal e teriam sido mortos por resistir \u00e0 pris\u00e3o. Um guarda pago pela fam\u00edlia para cuidar da seguran\u00e7a foi morto, ao tentar render-se. O seu pai foi preso no enterro, dia seguinte. O jornalista foi pessoalmente acusado de \u201cforma\u00e7\u00e3o de quadrilha armada\u201d. H\u00e1 boatos de que o embaixador brit\u00e2nico, Tim Torlot, teria escrito ao governo, sugerindo que a m\u00eddia independente seria o principal problema no I\u00eamen. Meu informante em Sana\u2019a garante que viu a carta. Torlot \u00e9 famoso no I\u00eamen por ter trocado a esposa por uma ofuscante norte-americana que trabalha para o jornal Yemen Observer, jornal cujo propriet\u00e1rio \u00e9 o secret\u00e1rio de imprensa do p residente Ali Saleh.<\/i><\/div>\n<div> <\/div>\n<div><\/div>\n<div><i>Viajei pelo sul, de Aden a Mukallah. Mas quando vi Shibam, esqueci completamente a pol\u00edtica, pelo menos por uns instantes. Essa cidade murada, feita de edifica\u00e7\u00f5es com paredes de argila, muito altos, alguns com 30 metros de altura, \u00e9 um museu vivo[2]. N\u00e3o surpreende que tenha sido escolhida por Pasolini para cen\u00e1rio de boa parte de suas \u201cMil e Uma Noites\u201d. Pasolini fez mais. De volta a Roma, tanto falou sobre a cidade que conseguiu que a Unesco a declarasse patrim\u00f4nio universal da humanidade (\u201cWorld Heritage\u201d). Em 2009, ao fotografarem a cidade de cima de uma colina, quatro turistas sul-coreanos foram mortos por um suicida-bomba do Norte.<\/i><\/div>\n<div> <\/div>\n<div><\/div>\n<div><i>Perguntei por todos os lados sobre a Al-Qaeda da Pen\u00ednsula \u00c1rabe. Um habitante de Shiban aproximou-se e perguntou-me num sussurro: \u201cQuer mesmo saber onde Al-Qaeda se esconde?\u201d Fiz que sim, com a cabe\u00e7a e ele respondeu: \u201cNa sala ao lado do gabinete do presidente\u201d.<\/i><\/div>\n<div> <\/div>\n<div><\/div>\n<div><i>O mesmo aconteceu, em vers\u00e3o quase id\u00eantica, tamb\u00e9m em Sana\u2019a e Aden. Na v\u00e9spera do Natal, o governo bombardeou (com jatos e avi\u00f5es-rob\u00f4s coordenados pelos EUA) duas vilas do sul onde, diziam eles, estaria escondido Anwar al-Awlaki, o cl\u00e9rigo iemenita-norte-americano acusado de ser o mentor do nigeriano da cueca-bomba. N\u00e3o o encontraram, mas mataram mais de uma d\u00fazia de civis.<\/i><\/div>\n<div> <\/div>\n<div><\/div>\n<div><i>O governo de Ali Saleh tamb\u00e9m enfrentou rebeli\u00e3o na prov\u00edncia de Sa\u2019ada, no norte, que faz fronteira com a Ar\u00e1bia Saudita. A popula\u00e7\u00e3o das terras altas anda irritada com os grupamentos de Wahhabitas e, sem ajuda do governo de Sana\u2019a, decidiu se autodefender. Mil\u00edcias tribais capturaram alguns soldados sauditas.<\/i><\/div>\n<div> <\/div>\n<div><\/div>\n<div><i>Resultado disso foi que, dia 5\/11\/2009, o mundo viu pela primeira vez em a\u00e7\u00e3o a For\u00e7a A\u00e9rea Saudita (dita a mais poderosa for\u00e7a a\u00e9rea na Regi\u00e3o, depois de EUA e Israel; mas os avi\u00f5es enferrujam at\u00e9 desmanchar, em hangares no deserto). Ali Saleh, o presidente, descreve a revolta como uma rebeli\u00e3o de xiitas apoiados por Teer\u00e3, e que tem de ser contida \u00e0 for\u00e7a. J\u00e1 praticamente ningu\u00e9m acredita nisso.<\/i><\/div>\n<div> <\/div>\n<div><\/div>\n<div><i>O ex\u00e9rcito iemenita promoveu em agosto passado a Opera\u00e7\u00e3o \u201cTerra Arrasada\u201d [ing. Scorched Land], que destruiu vilas e desalojou de suas casas 150 mil pessoas. Dada a total aus\u00eancia de not\u00edcias e de organiza\u00e7\u00f5es humanit\u00e1rias, n\u00e3o se conhece exatamente a extens\u00e3o das atrocidades cometidas pelo governo de Ali Saleh.<\/i><\/div>\n<div> <\/div>\n<div><\/div>\n<div><i>Muhammad al-Maqaleh, l\u00edder do Partido Socialista Iemenita e editor do jornal do partido, o Socialist, obteve depoimentos de algumas testemunhas oculares e publicou-os na Internet em setembro passado. Descreveu um ataque a\u00e9reo que matou 87 refugiados em Sa\u2019ada, e incluiu fotografias. Foi preso por quatro meses, torturado e amea\u00e7ado de execu\u00e7\u00e3o, por quatro meses. Finalmente foi apresentado a uma corte de justi\u00e7a, \u00e0 qual revelou o que sofrera.<\/i><\/div>\n<div> <\/div>\n<div><\/div>\n<div><i>Sana\u2019a ainda n\u00e3o \u00e9 Cabul, sim. Mas se o regime de Ali Saleh continuar a usar a for\u00e7a contra a popula\u00e7\u00e3o na escala em que est\u00e1 acontecendo hoje, novas guerras civis s\u00e3o hoje muito prov\u00e1veis.<\/i><\/div>\n<div> <\/div>\n<div><\/div>\n<div><i>[1] Ver Salma Samar Damluji (2007), The Architecture of I\u00eamen: From Yafi to Hadramut.<\/i><\/div>\n<div> <\/div>\n<div><\/div>\n<div><i>[2] H\u00e1 boas imagens em <a href=\"http:\/\/whc.unesco.org\/en\/list\/192\/\">http:\/\/whc.unesco.org\/en\/list\/192\/<\/a><\/i>.<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Domingo, dia de repercutir bons textos no Ouro de Tolo. 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