{"id":12064,"date":"2010-04-02T09:12:00","date_gmt":"2010-04-02T11:12:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2010\/04\/cinecasulofilia-morro-do-ceu\/"},"modified":"2010-04-02T09:12:00","modified_gmt":"2010-04-02T11:12:00","slug":"cinecasulofilia-morro-do-ceu","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2010\/04\/cinecasulofilia-morro-do-ceu\/","title":{"rendered":"Cinecasulofilia &#8211; &quot;Morro do C\u00e9u&quot;"},"content":{"rendered":"<div><a href=\"http:\/\/2.bp.blogspot.com\/_KYflagr2MuI\/S7EJ5SUVtoI\/AAAAAAAAB7U\/z32vPaKmBTY\/s1600\/Morro+do+C%C3%A9u.JPG\" imageanchor=\"1\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" border=\"0\" height=\"298\" src=\"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2010\/04\/Morro+do+C%C3%A9u.jpg\" width=\"400\"><\/a><\/div>\n<p><\/p>\n<div>Sexta feira, feriado&#8230; mas como de h\u00e1bito temos a nossa coluna sobre cinema, a <a href=\"http:\/\/pedromigao.blogspot.com\/search\/label\/Cinecasulofilia\">&#8220;Cinecasulofilia&#8221;<\/a>, parceria com o <a href=\"http:\/\/cinecasulofilia.blogspot.com\/\">blog de mesmo nome<\/a>.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Coluna assinada pelo titular do blog, o cr\u00edtico, cineasta e torcedor fan\u00e1tico da Acad\u00eamicos de Santa Cruz Marcelo Ikeda.<\/div>\n<div><\/div>\n<p><b><br \/><\/b><\/p>\n<div><b><i>A juventude no cinema brasileiro recente (I): Morro do C\u00e9u\u00a0<\/i><\/b><\/div>\n<div><\/div>\n<div><i>Ainda que t\u00edmida, \u00e9 interessante observar que nos anos de 2009 e 2010, tem existido uma tend\u00eancia no cinema brasileiro recente de fazer filmes sobre jovens. Uma outra quest\u00e3o \u2013 que o Felipe Bragan\u00e7a apontou h\u00e1 alguns anos no Festival de Tiradentes, ainda que n\u00e3o exatamente dessa forma \u2013 \u00e9 se os filmes que falam sobre jovens s\u00e3o efetivamente jovens, mas, de qualquer forma, o que quero apontar aqui \u00e9 a exist\u00eancia, num per\u00edodo curto de tempo, de um conjunto de longas-metragens brasileiros que se debru\u00e7am sobre os rumos da juventude, fato raro no cinema brasileiro em geral. S\u00e3o eles: Morro do C\u00e9u, de Gustavo Spolidoro, Os Famosos e os Duendes da Morte, de Esmir Filho, As Melhores Coisas do Mundo, de La\u00eds Bodansky, e Estrada Para Ythaca, dos Irm\u00e3os Pretti, Guto Parente e Pedro Di\u00f3genes. S\u00e3o filmes complementares na forma como observam os caminhos para juventude, e como se utilizam dos elementos da linguagem cinematogr\u00e1fica para refletir sobre suas vis\u00f5es de mundo e de cinema. Mas, cada um \u00e0 sua maneira, e em maior ou menor grau, s\u00e3o filmes not\u00e1veis, estimulantes, que em geral buscam uma certa lufada de ar fresco. Acredito que a juventude, com suas ang\u00fastias, d\u00favidas e inseguran\u00e7as, mas sua paix\u00e3o, autenticidade e verdade, parece ser um bom caminho para se pensar em possibilidades para o mundo.<\/p>\n<p>Morro do C\u00e9u foi realizado pelo ga\u00facho Gustavo Spolidoro num pequeno vilarejo no interior do Rio Grande do Sul, que d\u00e1 t\u00edtulo ao filme, financiado pelo DOCTV. \u00c9 curioso pensar Morro do C\u00e9u como produto do DOCTV, j\u00e1 que a forma\u00e7\u00e3o de Spolidoro \u00e9 quase toda da fic\u00e7\u00e3o, e, talvez por isso, Morro do C\u00e9u, seja um filme praticamente ficcional. \u00c9 incr\u00edvel como Spolidoro trabalha no t\u00eanue limite entre a fic\u00e7\u00e3o e o documental. Ainda que trabalhe registrando o cotidiano de alguns dos moradores do local, em especial um jovem chamado Bruno Storti, Morro do C\u00e9u apresenta elementos ficionais na forma como estrutura sua narrativa, e como utiliza habilmente artif\u00edcios como uso da trilha sonora, conven\u00e7\u00f5es de personagens, paralelismos que s\u00e3o retornados adiante no filme, di\u00e1logos que revelam motiva\u00e7\u00f5es que \u201clevam o filme para frente\u201d, etc. Com isso, Morro do C\u00e9u mostra que Spolidoro, talvez pela influ\u00eancia da mostra de cinema que organiza, o CineEsquemaNovo, \u00e9 um bom leitor do cinema contempor\u00e2neo, n\u00e3o s\u00f3 pela forma sutil com que articula a fic\u00e7\u00e3o e o document\u00e1rio, mas essencialmente porque soube absorver a principal li\u00e7\u00e3o desse cinema: a sabedoria de saber observar, articulando de maneira org\u00e2nica uma geografia f\u00edsica a uma geografia interior. Nesse aspecto \u00e9 extraordin\u00e1rio o amadurecimento de Spolidoro: enquanto sua filmografia anterior preocupava-se, acima de tudo, com os fetiches do processo de filmagem, em especial os planos-sequ\u00eancia, agora Spolidoro utiliza a sutileza e a sugest\u00e3o, com planos de c\u00e2mera parada, um cinema que aponta pouco para si e para o seu processo de constru\u00e7\u00e3o, ainda que na verdade, se revele de um profundo e complexo processo de elabora\u00e7\u00e3o estil\u00edstica. Essa transforma\u00e7\u00e3o de uma est\u00e9tica revela no fundo uma transforma\u00e7\u00e3o de uma possibilidade de ver o mundo. O cinema de Spolidoro quase sempre falou sobre jovens, mas sua \u201clinguagem jovem\u201d era repleta de excessos, atitudes radicais, um humor escrachado, um movimento incessante muitas vezes para lugar nenhum. Mas a diferen\u00e7a \u00e9 que agora Spolidoro apontava sua c\u00e2mera para o interior, um canto rec\u00f4ndito, desconhecido e misterioso: agora seria necess\u00e1rio observar, e n\u00e3o apontar de antem\u00e3o. Morro do C\u00e9u \u00e9 bonito porque \u00e9 um filme que sabe observar. Observar de forma \u00edntima, delicada, profunda, sugerindo mais do que dizendo. Observar sempre de muito perto mas mantendo uma certa dist\u00e2ncia, uma dist\u00e2ncia respeitosa, delicada, eu diria quase oriental. Nunca invadindo uma intimidade, machucando, apontando para o espectador as dificuldades e os dilemas daquele menino, daquela comunidade, mas sempre observando, dialogando, sugerindo. Isso tudo foi poss\u00edvel, porque al\u00e9m de um sentimento pelo mundo, existia uma t\u00e9cnica, que se espelha num modo de realiza\u00e7\u00e3o. Praticamente todo o filme foi feito apenas pelo pr\u00f3prio Gustavo, que, \u201csozinho\u201d, p\u00f4de acompanhar seu t\u00edmido protagonista de maneira delicada, deixando-o \u00e0 vontade. Esse filme foi poss\u00edvel porque Gustavo encontrou uma handycam HD full de enormes possibilidades t\u00e9cnicas e intimistas: uma VIXIA HG-21, que custa cerca de US$1000. Ainda assim, Spolidoro n\u00e3o buscou os maneirismos da c\u00e2mera digital, mas optou por um certo distanciamento, um certo rigor, baseados na n\u00e3o-interven\u00e7\u00e3o e na op\u00e7\u00e3o pela c\u00e2mera parada.<\/p>\n<p>Mas falando de tudo isso, deixamos de ir ao essencial: quem \u00e9 Bruno Storti? quais s\u00e3o os seus sonhos, seus desejos, o que lhe afeta? O filme mostra o seu cotidiano entre o final do per\u00edodo de aulas e as f\u00e9rias escolares, at\u00e9 o Carnaval. Spolidoro observa o cotidiano de Bruno: o estudo para as provas, seu trabalho amador como mec\u00e2nico, seu grupo mais pr\u00f3ximo de amigos, a vontade de ter uma namorada. De alguma maneira, Morro do C\u00e9u me lembrou de um filme muito \u00edntimo para mim: Kes, o primeiro filme de Ken Loach, que mostra um menino que resiste a ter a vida de seus pais e trabalhar na mina de carv\u00e3o e que nas horas vagas tenta adestrar um p\u00e1ssaro. Mas em Morro do C\u00e9u n\u00e3o se trata disso: \u00e9 quase como se esse \u201cromance de forma\u00e7\u00e3o de consci\u00eancia\u201d fosse composto a partir de uma \u201cdecanta\u00e7\u00e3o\u201d e n\u00e3o de uma \u201cagita\u00e7\u00e3o\u201d. O desejo de Bruno est\u00e1 no extracampo, talvez perdido entre as folhagens reveladas nos belos grandes planos gerais do filme, que permitem um respiro adequado a essa reflex\u00e3o, ou mesmo entre os abandonados caminhos dos trilhos do trem (Suzaku?), que possam lev\u00e1-los para o al\u00e9m: desejo pela \u201cborboletinha de Cotipor\u00e3\u201d, que nunca vemos, nem mesmo no Carnaval, desejo pela f\u00e1brica na It\u00e1lia, que nunca vemos, desejo pelo fora e pelo dentro, desejo por ser outro, desejo por ser si mesmo, desejo t\u00edmido, interior, libert\u00e1rio, humano, que revela no fundo que a grande sabedoria de Spolidoro n\u00e3o \u00e9 escancarar, arrancar de dentro da dramaturgia essas dificuldades, mas simplesmente em respirar de uma maneira muito respeitosa e delicada uma possibilidade de ser.&#8221;<\/i><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sexta feira, feriado&#8230; mas como de h\u00e1bito temos a nossa coluna sobre cinema, a &#8220;Cinecasulofilia&#8221;, parceria com o blog de mesmo nome. 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