{"id":12032,"date":"2010-04-23T16:02:00","date_gmt":"2010-04-23T18:02:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2010\/04\/cinecasulofilia-o-segredo-dos-seus-olhos\/"},"modified":"2010-04-23T16:02:00","modified_gmt":"2010-04-23T18:02:00","slug":"cinecasulofilia-o-segredo-dos-seus-olhos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2010\/04\/cinecasulofilia-o-segredo-dos-seus-olhos\/","title":{"rendered":"Cinecasulofilia &#8211; &quot;O Segredo dos Seus Olhos&quot;"},"content":{"rendered":"<div>Sexta feira, feriado aqui no Rio de Janeiro, mais uma vez temos a nossa coluna sobre cinema. Em parceria com o blog <a href=\"http:\/\/cinecasulofilia.blogspot.com\/\">&#8220;Cinecasulofilia&#8221;<\/a>, \u00e9 assinada pelo cineasta, professor universit\u00e1rio e cr\u00edtico de cinema Marcelo Ikeda.<\/div>\n<div><\/div>\n<div><i><b>El Secreto de Sus Ojos<\/b><\/i><\/div>\n<div><i><br \/><\/i><\/div>\n<div><i>O Segredo dos Seus Olhos<\/i><\/div>\n<div><i>Juan Jos\u00e9 Campanella<\/i><\/div>\n<div><i><br \/><\/i><\/div>\n<div><i>Provavelmente o Brasil, depois da Argentina, tenha sido o pa\u00eds que mais comentou O Segredo dos Seus Olhos, filme de Juan Jos\u00e9 Campanella. Tudo por causa de um pr\u00eamio: o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. O Oscar \u00e9 tido por muitos como a medalha de ouro da olimp\u00edada no futebol masculino: a honraria que o pa\u00eds nunca conseguir\u00e1 ganhar. E da\u00ed v\u00eam todas as toscas compara\u00e7\u00f5es entre o cinema brasileiro e o argentino, toscas porque todas baseadas em uma premia\u00e7\u00e3o com uma s\u00e9rie de vieses que conhecemos bem. Como se um pr\u00eamio dissesse alguma coisa sobre a filmografia de um pa\u00eds, ou ainda, como se tudo girasse em torno da estatueta dourada, como se os cineastas brasileiros fossem personagens de O Falc\u00e3o Malt\u00eas&#8230;\u00a0<\/i><\/div>\n<div><i><br \/><\/i><\/div>\n<div><i>Por causa de todas essas tolas discuss\u00f5es, eu confesso que n\u00e3o tinha o menor interesse em assistir a O Segredo dos Seus Olhos. Ainda mais porque eu havia detestado O Filho da Noiva, o mais conhecido filme do diretor. Mas acabei vendo e me surpreendi. Talvez tudo isso fa\u00e7a com que o filme seja visto com alguns preconceitos, sem que as pessoas se d\u00eaem conta do projeto de cinema de Campanella, como competente artes\u00e3o que fala de personagens que tentam reconstruir o seu presente a partir de um outro olhar sobre o passado.\u00a0<\/i><\/div>\n<div><i><br \/><\/i><\/div>\n<div>\n<div><i>Assim era com O Filho da Noiva, quando um infarto faz com que o personagem de Ricardo Dar\u00edn acorde para a vida, e entenda o fim do restaurante do pai. Mas nesse filme Campanella ainda estava preso a certos padr\u00f5es de um melodrama surrado, com um olhar tipicamente passadista e nost\u00e1lgico. O Segredo dos Seus Olhos \u00e9 mais maduro na forma como articula \u201ca dor e a del\u00edcia\u201d que \u00e9 estar nesse mundo, e como o presente, ao se revelar uma possibilidade em ver o passado, constr\u00f3i uma base mais s\u00f3lida para olhar o futuro.<\/i><\/div>\n<div><i><br \/><\/i><\/div>\n<\/div>\n<div>\n<div><i>Antes de tudo, O Segredo dos Seus Olhos \u00e9 o filme de um artes\u00e3o. A senha de seu sucesso comercial \u00e9 a forma como o diretor combina organicamente duas chaves dentro do filme: o melodrama (a rela\u00e7\u00e3o amorosa entre Darin e Solledad) e o policial (a captura do assassino). Romance ou policial? Na verdade o que une as duas chaves do filme \u00e9 o pr\u00f3prio processo de cria\u00e7\u00e3o, inserindo uma certa metalinguagem. Dar\u00edn escreve um livro sobre o seu passado. Enquanto escreve esse livro sobre seu passado, ele tem a possibilidade de reavaliar o seu presente, e achar um projeto para o seu futuro. Explico melhor: escrevendo esse livro, Dar\u00edn revisita seu passado, mas ao inv\u00e9s de se perder nele, ele v\u00ea essa reavalia\u00e7\u00e3o do passado como uma forma de resolver antigas car\u00eancias, se reencontrar, e encontrar um projeto para o futuro. \u00c9 como a antiga frase de Paulinho da Viola: \u201ceu n\u00e3o vivo no passado, \u00e9 o passado que vive em mim\u201d. Dar\u00edn projeta sua vida de forma diferente de seu amigo vi\u00favo, que durante 25 anos alimentou um projeto de vingan\u00e7a e estacionou sua vida por ali. H\u00e1 um momento chave do filme em que ele diz \u201cpare de pensar! Quem pensa tem mil passados e nenhum futuro\u201d. Todo o projeto do filme de Campanella \u00e9 a tomada de consci\u00eancia desse protagonista de que se deve buscar uma linha para o futuro (um final para o romance) e n\u00e3o uma reavalia\u00e7\u00e3o do passado (a vingan\u00e7a, a investiga\u00e7\u00e3o das raz\u00f5es e dos fatos do passado). S\u00f3 quando percebe isso o protagonista est\u00e1 em condi\u00e7\u00e3o de agir, fechando uma porta, na bela cena que encerra o filme.<\/i><\/div>\n<div><i><br \/><\/i><\/div>\n<div><i>De um certo ponto de vista, Campanella n\u00e3o deixa de falar sobre uma Argentina. Pode parecer curioso pensarmos o filme como um filme pol\u00edtico, uma caracter\u00edstica comum ao cinema argentino contempor\u00e2neo. Mas n\u00e3o deixa de ser isso, especialmente na forma como Campanella mostra os dilemas \u00e9ticos no interior da reparti\u00e7\u00e3o p\u00fablica, no sistema de justi\u00e7a argentino. \u201cVoc\u00eas n\u00e3o podem fazer nada!\u201d, diz o diretor da reparti\u00e7\u00e3o, quando liberta um funcion\u00e1rio por implica\u00e7\u00f5es pol\u00edticas. Em seguida, h\u00e1 uma cena que caracteriza isso frontalmente: o prisioneiro liberto, Dar\u00edn e a diretora est\u00e3o dentro do mesmo elevador, mostrando os paradoxos da constru\u00e7\u00e3o do projeto de uma na\u00e7\u00e3o argentina. Ou ainda, quando o diretor diz \u201cEssa nova Argentina n\u00e3o se aprende em Harvard!\u201d.<\/i><\/div>\n<div><i><br \/><\/i><\/div>\n<\/div>\n<div>\n<div><i>Mas O Segredo dos Seus Olhos \u00e9 um filme sobre um processo de cria\u00e7\u00e3o, a escritura de um romance, como a sequ\u00eancia de abertura deixa claro. Dar\u00edn n\u00e3o sabe como come\u00e7ar o seu livro: com uma cena de amor (o romance entre o casal protagonista), ou com uma cena de estupro (o caso policial do assassinato). No entanto, a trama do personagem de Dar\u00edn conjuga o romance e o policial. Da mesma forma \u00e9 o pr\u00f3prio filme de Campanella. Do mundo podem surgir beleza ou terror extremos. Ou, colocando de outro modo, \u00e9 como se em todo o filme Campanella nos perguntasse, por que esse mundo que pode nos ser t\u00e3o belo pode tamb\u00e9m ser t\u00e3o terr\u00edvel? \u00c9 dessa forma que surge uma bela solu\u00e7\u00e3o visual para esse conflito que cerca todo o filme, essa oscila\u00e7\u00e3o entre o amor e o terror, ou ainda, como isso se funde no pr\u00f3prio ato de cria\u00e7\u00e3o, na escritura: o protagonista escreve num papel TEMO, para depois descobrir que se trata de TEAMO, varia\u00e7\u00e3o bastante sutil, j\u00e1 que sua m\u00e1quina de escrever tem a tecla do \u201ca\u201d quebrada, o que o faz completar \u201ca m\u00e3o\u201d as falhas da escritura. Todo o filme \u00e9 sobre o percurso desse protagonista em completar \u201ca m\u00e3o\u201d as falhas dessa escritura mec\u00e2nica do mundo, preenchendo as lacunas e os vazios com a sua pr\u00f3pria caligrafia pessoal.<\/i><\/div>\n<div><i><br \/><\/i><\/div>\n<\/div>\n<div>\n<div><i>Por outro lado, essa oscila\u00e7\u00e3o \u00e9 tamb\u00e9m (diria essencialmente) uma quest\u00e3o de escritura, de como se passa para o papel as inscri\u00e7\u00f5es do mundo, ou ainda, como se conta, como se registra o que houve. Isso me lembra de um filme de Richard Linklater, Antes do p\u00f4r-do-sol, em que os protagonistas voltam a se encontrar depois de d\u00e9cadas sem se verem, por causa da publica\u00e7\u00e3o de um romance, e \u00e9 o pr\u00f3prio fato de ter escrito esse romance, e como a escritura desse romance foi feita, que aproxima os dois personagens. O real se remodela a partir da escritura de um romance que, por outro lado, foi produzido com a \u00fanica finalidade de prolongar o sentimento do real. O que quero dizer \u00e9 que no filme de Campanella, assim como no de Linklater, os personagens escrevem o romance apenas porque s\u00f3 assim conseguem dizer o que sentem para suas sonhadas amadas, e dizendo assim, eles talvez possam suplantar a confiss\u00e3o das p\u00e1ginas mortas, e conquistar o amor do outro. A escrita do romance \u00e9 uma forma de despertar esses personagens para o mundo, mas ao mesmo tempo \u00e9 o mundo que os leva para a escrita.<\/i><\/div>\n<div><i><br \/><\/i><\/div>\n<\/div>\n<div><i>H\u00e1 outras coisas que gostaria de falar sobre esse filme: como o vi\u00favo \u00e9 condenado por amar demais, por n\u00e3o conseguir esquecer uma paix\u00e3o; como o filme articula uma rela\u00e7\u00e3o \u00edntima entre as esferas profissional e pessoal (o caso de amor acontece dentro do ambiente de trabalho, como os dois se misturam, coisa que tentarei falar sobre o filme Chico Xavier&#8230;); ou ainda sobre um plano bastante estranho no filme, um grande tour de force que \u00e9 a sequ\u00eancia no est\u00e1dio, um plano sequ\u00eancia absolutamente delirante de cinco minutos. Mas o tempo urge, e confesso que j\u00e1 estou cansado de falar desse filme do Campanella, que nem \u00e9 t\u00e3o not\u00e1vel assim. Mostra que \u201cnem ao c\u00e9u nem a terra\u201d: Campanella mostra que \u00e9 um h\u00e1bil artes\u00e3o. Nada mais, nada menos do que isso.&#8221;<\/i><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sexta feira, feriado aqui no Rio de Janeiro, mais uma vez temos a nossa coluna sobre cinema. 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