{"id":11915,"date":"2010-07-09T11:51:00","date_gmt":"2010-07-09T13:51:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2010\/07\/cinecasulofilia-mostra-olhar-do-ceara-parte-ii\/"},"modified":"2010-07-09T11:51:00","modified_gmt":"2010-07-09T13:51:00","slug":"cinecasulofilia-mostra-olhar-do-ceara-parte-ii","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2010\/07\/cinecasulofilia-mostra-olhar-do-ceara-parte-ii\/","title":{"rendered":"Cinecasulofilia &#8211; &quot;Mostra Olhar do Cear\u00e1 &#8211; Parte II&quot;"},"content":{"rendered":"<div><a href=\"http:\/\/3.bp.blogspot.com\/_KYflagr2MuI\/TDTs_r7K4nI\/AAAAAAAACgs\/_Y8-sAtWvOw\/s1600\/cartaz-A3.png\" imageanchor=\"1\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" border=\"0\" height=\"320\" src=\"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2010\/07\/cartaz-A3.png\" width=\"226\"><\/a><\/div>\n<div><\/div>\n<div>Mais uma sexta feira, e com esta mais uma edi\u00e7\u00e3o de nossa coluna (quase) semanal sobre cinema, a Cinecasulofilia.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Como sempre publicada em parceria com o <a href=\"http:\/\/cinecasulofilia.blogspot.com\/\">blog de mesmo nome<\/a>, de autoria do professor de cinema, cineasta e cr\u00edtico Marcelo Ikeda.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>&#8220;Rochedo de Mim, de B\u00e1rbara Villaverde, tamb\u00e9m trabalha com bandas independentes de imagem e de som. O som, praticamente todo composto musicalmente, se estrutura a partir de pontua\u00e7\u00f5es amb\u00edguas em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 imagem, causando um desconforto ao espectador que espera por um som naturalista, fidedigno \u00e0s fontes sonoras. No entanto, seu maior estranhamento ainda est\u00e1 por vir. Ele se d\u00e1 no derradeiro plano do filme, um grande plano geral com c\u00e2mera est\u00e1tica, que dura pouco mais de quatro minutos. Nele, B\u00e1rbara prop\u00f5e um conjunto de significados. Em princ\u00edpio, vemos uma velha fazenda, em que crian\u00e7as brincam numa roda e servos e senhores percorrem a extens\u00e3o do plano, subindo ou descendo escadas, andando pela grama que se estende frente \u00e0 casa. De um lado, existe uma nostalgia, um recurso \u00e0 mem\u00f3ria, na poesia l\u00fadica desse dia-a-dia da antiga fazenda. Mas, apesar de ser uma t\u00edpica fazenda, s\u00e3o n\u00edtidas as marcas do tempo que nos distancia desse remoto tempo ao qual as coisas pertencem. Ou seja, vemos o ontem a partir de hoje, sempre. \u00c0 dist\u00e2ncia, vemos escorrer pelo tempo do plano as marcas do abandono, as marcas da saudade de um tempo que n\u00e3o se viveu. Ou ainda, n\u00e3o se trata de um document\u00e1rio: B\u00e1rbara reencena a poesia simples da fazenda com uma mise-en-sc\u00e8ne nada trivial: \u00e9 n\u00edtida a marca\u00e7\u00e3o de uma coreografia dos deslocamentos no interior do quadro, marca\u00e7\u00e3o que no fundo \u00e9 uma doce, bela tentativa de fazer viver algo que j\u00e1 n\u00e3o mais existe, que se perdeu no tempo. Mem\u00f3ria que por um lado \u00e9 marcada por uma mem\u00f3ria do pr\u00f3prio cinema brasileiro, especialmente o clima buc\u00f3lico do cinema de Humberto Mauro. Rochedo de Mim \u00e9 como o primeiro cinema, como se fosse um filme dos irm\u00e3os Lumi\u00e8re, como se chamasse \u201cum dia na fazenda da fam\u00edlia Villaverde\u201d. Acontece que n\u00e3o se trata de mero registro, mas reencena\u00e7\u00e3o, tentativa de reviver, filme afetivo, filme de mem\u00f3ria, filme-di\u00e1rio. Por isso, \u00e9 como se, a partir de tudo isso, B\u00e1rbara dialogasse com o cinema contempor\u00e2neo, como se fizesse Tomb\u00e9e de nuit sur Shanghai, de Chantal Akerman. A diferen\u00e7a \u00e9 que enquanto Chantal se surpreende com o fasc\u00ednio e o excesso do mundo chin\u00eas, que ela n\u00e3o conhece, B\u00e1rbara suspirasse de saudade por um tempo que ela n\u00e3o viveu. Essa doce melancolia, essa ternura inesperada \u00e9 que resumem a beleza desse enorme tour de force que \u00e9 o plano final desse misterioso curta.<\/p>\n<p>J\u00e1 Morpheu, de Andr\u00e9 Moura, n\u00e3o est\u00e1 preocupado com o passado, mas, ao contr\u00e1rio, em viver o presente. Esse curta, ainda que irregular, surpreende por sua urg\u00eancia, por sua necessidade de falar sem meios tons, sem sutilezas, sobre os desafios da vida e do mundo. O filme fala sobre um jovem que quer viver de forma intensa, livre e independente (em outros termos, que quer fazer a revolu\u00e7\u00e3o) mas que ao mesmo tempo n\u00e3o consegue sair da casa de sua m\u00e3e (ou ainda, que nem tem a chave de casa). A forma como o diretor exp\u00f5e os problemas desse jovem \u00e9 muito frontal e direta. Ou ainda, desconcertantemente honesta. Todo esse impacto se multiplica pela intensa atua\u00e7\u00e3o de Jonnata Doll, m\u00fasico, performer, ator, artista, que d\u00e1 uma enorme vida a esse personagem. Uma verborragia que, por meio do seu excesso, sinaliza a vontade desse curta de se expressar, de dizer, mas sua incapacidade de de fato agir. Uma cr\u00edtica ao mundo capitalista guiado pela mediocridade do trabalho como fim \u00faltimo da exist\u00eancia, mas uma dificuldade de encontrar sa\u00eddas, de viver desse projeto de vida. \u00c9 nesse limite entre a aventura do pensamento e o abismo da a\u00e7\u00e3o que Morpheu insere uma formid\u00e1vel autocr\u00edtica, num formato narrativo raro \u00e0s produ\u00e7\u00f5es locais. De outro lado, existem momentos de beleza, de espera, como os planos iniciais do filme, em que o protagonista se levanta, j\u00e1 depois do meio-dia, e vai se servir do almo\u00e7o, sob os coment\u00e1rios ir\u00f4nicos de sua m\u00e3e. Morpheu foge de algumas armadilhas, e entre as cenas mais bonitas do curta, s\u00e3o as que o protagonista se relaciona com sua m\u00e3e. Em poucas palavras, em meios olhares, toda a dificuldade do contato, a reprova\u00e7\u00e3o e o afeto, se manifestam de forma simples mas intensa, numa estrat\u00e9gia de delicadeza um tanto at\u00edpica \u00e0 energia radiante do curta. Mas que revelam que a busca do curta de Andr\u00e9 Moura vai al\u00e9m do mero tratamento de choque e das frases de efeito.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>As sess\u00f5es dos filmes locais, como a Mostra Olhar do Cear\u00e1, possui momentos como a exibi\u00e7\u00e3o do curta As Coisas S\u00e3o Bonitas Nos Olhos De Quem Acha, de Juliana Chagas. Trata-se de um document\u00e1rio sobre Dona Dica, que faz bonecas de pano, costuradas \u00e0 m\u00e3o, em Guaramiranga. O curta registra de maneira singela essa humilde e simp\u00e1tica senhora, que faz bonecas aparentemente feias mas que seduzem as pessoas pela simplicidade de sua beleza. O curta \u00e9 singelo, embora muito prec\u00e1rio, seja tecnicamente seja em sua proposta est\u00e9tica, baseada quase que exclusivamente em entrevistas que meramente valorizam a simpatia da entrevistada mas que n\u00e3o avan\u00e7a em nada al\u00e9m disso. Mas a quest\u00e3o aqui n\u00e3o \u00e9 essa: a exibi\u00e7\u00e3o de As Coisas S\u00e3o Bonitas foi sem d\u00favida o maior momento do Olhar do Cear\u00e1, por algo que vai al\u00e9m do curta, al\u00e9m de suas poss\u00edveis qualidades est\u00e9ticas: a presen\u00e7a f\u00edsica de Dona Dica, que ao final da sess\u00e3o recebeu aplausos e abra\u00e7os carinhosos, e, visivelmente emocionada, retribuiu as gentilezas com um sorriso. Momento l\u00fadico, de rara beleza, em que aqui a an\u00e1lise se curva \u00e0 possibilidade de que um filme promova um abra\u00e7o carinhoso, uma pequena homenagem a uma mulher simples que cultiva a vida e a fabrica\u00e7\u00e3o de suas bonecas. Nenhum outro momento de cinema nessa mostra teve tamanha for\u00e7a e vitalidade. Ainda que esse momento escape diretamente \u00e0 for\u00e7a do filme em si, mas \u00e9 claro que surge em decorr\u00eancia dele, a partir dele. Esse simples curta possibilitou um encontro, que despontou ali, naquele cinema, naquela sess\u00e3o, num contato com o p\u00fablico. \u00c9 belo por isso. Acredito que \u00e9 pela possibilidade desses encontros que essa mostra precisa ser defendida.&#8221;<\/p><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mais uma sexta feira, e com esta mais uma edi\u00e7\u00e3o de nossa coluna (quase) semanal sobre cinema, a Cinecasulofilia. 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