{"id":11874,"date":"2010-08-06T09:41:00","date_gmt":"2010-08-06T11:41:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2010\/08\/cinecasulofia-cine-alumbramento\/"},"modified":"2010-08-06T09:41:00","modified_gmt":"2010-08-06T11:41:00","slug":"cinecasulofia-cine-alumbramento","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2010\/08\/cinecasulofia-cine-alumbramento\/","title":{"rendered":"Cinecasulofia &#8211; &quot;Cine Alumbramento&quot;"},"content":{"rendered":"<div><a href=\"http:\/\/4.bp.blogspot.com\/_KYflagr2MuI\/TFiNE-TSmAI\/AAAAAAAACos\/ADNI5f0r5CQ\/s1600\/icasa.jpg\" imageanchor=\"1\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" border=\"0\" height=\"286\" src=\"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2010\/08\/icasa.jpg\" width=\"400\"><\/a><\/div>\n<p><\/p>\n<div>Ap\u00f3s um breve interregno, est\u00e1 de volta a coluna &#8220;Cinecasulofilia&#8221;, publicada em parceria com o<a href=\"http:\/\/cinecasulofilia.blogspot.com\/\"> blog de mesmo nome<\/a>. Como sempre, texto assinado pelo cineasta, cr\u00edtico e professor Marcelo Ikeda &#8211; em cuja homenagem publico a foto do est\u00e1dio do Icasa, o &#8220;Verd\u00e3o do Cariri&#8221;.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>&#8220;Pessoal,<\/p>\n<p>seguem os textos que escrevi para o folheto cr\u00edtico da \u00faltima sess\u00e3o do Cine Alumbramento&#8230; para quem n\u00e3o conhece, esse \u00e9 um Cineclube que acontece na primeira segunda-feira de cada m\u00eas na Vila das Artes, e que exibe curtas cearenses, tendo um bate-papo com os realizadores ap\u00f3s a exibi\u00e7\u00e3o. E &#8211; uma coisa muito bacana &#8211; a distribui\u00e7\u00e3o de um folheto com cr\u00edticas sobre os filmes exibidos.<\/p>\n<p><i><b>Na Contram\u00e3o, de Eudes Freitas<\/b><\/i><\/p>\n<p>Eudes Freitas come\u00e7ou a se envolver com a realiza\u00e7\u00e3o audiovisual no Alpendre, mas seu trabalho acabou alcan\u00e7ando menor repercuss\u00e3o que os outros dois \u201cmeninos do Po\u00e7o\u201d \u2013 Marco Rudolf e Victor de Melo. Seu jeito t\u00edmido, de poucas palavras, o empurrou para trabalhos menores, e o posto de t\u00e9cnico do N\u00facleo de Produ\u00e7\u00e3o Digital na Vila das Artes contribuiu por aprofundar essa situa\u00e7\u00e3o. No entanto, seu trabalho merece ser melhor observado. Recentemente assisti a um curta que Eudes fotografou, Morpheu, de Andr\u00e9 Moura, e fiquei impressionado com a sutileza que Eudes imprimiu ao filme, especialmente nas cenas interiores, passadas no quarto do protagonista. Nessas breves oportunidades, Eudes mostra sua vis\u00e3o de mundo, para al\u00e9m das meias palavras. Na Contram\u00e3o \u00e9 o seu primeiro trabalho como diretor com uma maior estrutura de produ\u00e7\u00e3o, contemplado no \u00faltimo edital da Secultfor, que comprova seu talento n\u00e3o s\u00f3 como fot\u00f3grafo mas tamb\u00e9m como realizador.<\/p>\n<p>Podemos come\u00e7ar dizendo que Na Contram\u00e3o \u00e9 um trabalho abortado. Com isso, me refiro ao fato de que o projeto inicial do curta era realizar um document\u00e1rio sobre um morador de rua no Centro da Cidade, com quem Eudes travou contato ap\u00f3s uma tentativa de assalto. N\u00e3o s\u00f3 Eudes n\u00e3o foi assaltado como acabou estabelecendo uma certa amizade com esse morador. Mas quando foi realizar seu curta, Eudes descobriu que ele havia sido assassinado. Talvez esse morador de rua fosse algu\u00e9m com quem Eudes pudesse se identificar, pela sua marginalidade. A partir disso, Eudes e sua equipe vagaram pelas ruas do Centro \u00e0 procura de um filme. Toda essa introdu\u00e7\u00e3o se justifica quando percebemos que h\u00e1 uma presen\u00e7a fantasmag\u00f3rica em todo o curta, uma procura incessante por algo que nunca ser\u00e1 encontrado e uma tentativa humana de se posicionar diante disso.<\/p>\n<p>Na Contram\u00e3o \u00e9 um filme duro com o espectador: n\u00e3o h\u00e1 um sentido de narratividade, as rela\u00e7\u00f5es nunca se estabelecem, o Centro torna-se um espa\u00e7o vazio, de portas fechadas. Para isso, s\u00e3o marcantes as escolhas de Eudes: filmar em preto-e-branco, \u00e0 noite, estourando as luzes dos postes. Essas escolhas est\u00e9ticas apontam para um projeto em continuidade com S\u00e1bado \u00e0 Noite, de Ivo Lopes Ara\u00fajo, que tamb\u00e9m abandona seu projeto inicial (seu dispositivo) para se atirar ao encontro das impress\u00f5es sensoriais trazidas pela Cidade. Mas ao contr\u00e1rio de S\u00e1bado, que buscava um esvaziamento do plano tanto na composi\u00e7\u00e3o do quadro quanto no prolongamento da dura\u00e7\u00e3o do plano, em Na Contram\u00e3o, Eudes promove um outro esvaziamento, pela forma singular como estabelece seu distanciamento em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s figuras s\u00f3lidas que preenchem o plano. O quadro \u00e9 preenchido ou por movimentos fugazes (carros, varredores, etc.) ou por grandes blocos maci\u00e7os que preenchem o plano (outdoors, manequins, est\u00e1tuas). Para tanto, ainda contribui o expressivo trabalho de edi\u00e7\u00e3o de som de Marco Rudolf, que n\u00e3o se preocupa em simplesmente ilustrar o espa\u00e7o, mas preench\u00ea-lo de uma forma sempre inventiva, criando novas camadas de sentido.<\/p>\n<p>Mas o que \u00e9 not\u00e1vel em Na Contram\u00e3o \u00e9 que, se por um lado existe uma dor latente que percorre o filme, um sentido de abandono, h\u00e1, por outro, todo um percurso em busca de uma beleza, ainda que fr\u00e1gil. Por tr\u00e1s de seu tom austero, \u00e9 poss\u00edvel ver toda uma forma afetuosa de se relacionar com o espa\u00e7o, o que o torna um olhar singular sobre os paradoxos do Centro da Cidade: um local abandonado mas ainda assim um ponto de encontro. Esse interst\u00edcio entre um desejo de encontro e um ponto de fuga confere ao filme uma certa languidez, uma melancolia dura, uma desesperan\u00e7a rigorosa, como se esperasse um contracampo do olhar dos manequins que, aprisionados na vitrine de uma loja de departamentos, n\u00e3o podem responder, pois est\u00e3o sem cabe\u00e7a. S\u00e3o apenas um corpo, ou melhor, apenas um peda\u00e7o de pl\u00e1stico, abandonado no Centro de Fortaleza.<\/p><\/div>\n<div><i><b>Fui \u00e0 Guerra e N\u00e3o Te Chamei, de Leonardo Moura Mateus, Roseane Morais e Luana Lacerda<\/b><\/i><\/p>\n<p>Fui \u00e0 Guerra e N\u00e3o Te Chamei \u00e9 fruto dos primeiros n\u00facleos de produ\u00e7\u00e3o do Curso de Cinema e Audiovisual da UFC, que teve seu in\u00edcio ainda neste ano de 2010. A cada per\u00edodo letivo, os alunos optam por um dos n\u00facleos existentes \u2013 \u201cDocument\u00e1rio\u201d, \u201cFic\u00e7\u00e3o\u201d e \u201cPo\u00e9ticas Contempor\u00e2neas\u201d \u2013 realizando uma obra audiovisual orientados por professores do curso. Com isto, o curso da UFC j\u00e1 denota sua preocupa\u00e7\u00e3o em alargar o horizonte da realiza\u00e7\u00e3o audiovisual, para al\u00e9m da dicotomia entre document\u00e1rio e fic\u00e7\u00e3o. A terceira via, que geralmente \u00e9 rotulada como o caminho do \u201cexperimental\u201d, passa a ser chamada de \u201cpo\u00e9ticas contempor\u00e2neas\u201d. Leonardo Moura Mateus, Roseane Morais e Luana Lacerda foram os \u00fanicos alunos que se aventuraram pelo misterioso n\u00facleo das \u201cPo\u00e9ticas Contempor\u00e2neas\u201d, tendo sido orientados pelas Professoras Walmeri Ribeiro e Cristiana Parente.<\/p>\n<p>Este v\u00eddeo conta com a imprescind\u00edvel participa\u00e7\u00e3o criativa dos atores-performers Andr\u00e9ia Pires e Daniel Pizamiglio. Rec\u00e9m-formados pelo Curso T\u00e9cnico em Dan\u00e7a, o duo j\u00e1 havia encantado a todos na apresenta\u00e7\u00e3o de seu trabalho de conclus\u00e3o de curso \u2013 \u201cCavalos\u201d, que contou com a participa\u00e7\u00e3o de Leonardo MouraMateus. Ingressando no Curso de Cinema, Leonardo orquestrou uma proposta de v\u00eddeo extremamente integrada com o trabalho dos bailarinos. \u00c9 exatamente essa comunh\u00e3o entre o trabalho de dire\u00e7\u00e3o e o de interpreta\u00e7\u00e3o que confere ao v\u00eddeo sua brilhante organicidade.<\/p>\n<p>Em Fui \u00e0 Guerra e N\u00e3o Te Chamei, Pires e Pizamiglio d\u00e3o continuidade ao seu trabalho de cria\u00e7\u00e3o, que se baseia em modula\u00e7\u00f5es entre o afeto e a viol\u00eancia, entre a poesia l\u00fadica e o sarcasmo masoquista, entre o prazer e a dor. No entanto, essa tens\u00e3o n\u00e3o \u00e9 criada a partir de momentos estanques que meramente se sucedem, mas integrados no interior de cada movimento e na forma espec\u00edfica como um bailarino responde ao movimento do parceiro. Para tanto, baseiam-se num intenso trabalho de express\u00e3o corporal, em que a extenua\u00e7\u00e3o f\u00edsica ocupa o papel dos desafios dos limites da rela\u00e7\u00e3o entre esse casal.<\/p>\n<p>Este trabalho espec\u00edfico coloca todas essas quest\u00f5es em primeiro plano, simplificando seu mote inicial: uma briga de casal. Ap\u00f3s separarem suas roupas (veremos mais tarde que na verdade tratam-se das armas de um duelo), o casal se enfrenta (isto \u00e9, frente a frente) atirando suas pr\u00f3prias roupas no parceiro. Se por um lado existe uma energia raivosa, por outro h\u00e1 uma certa ingenuidade, uma poesia que emana desses corpos como se estivessem fazendo amor. Trata-se de um ritual, um duelo \u00e9tico, n\u00e3o muito distantes daqueles da \u00e9poca da cavalaria, em que um atira no outro partes de si, parte do que carregaram consigo dentro de suas malas, at\u00e9 que elas fiquem vazias, e sua f\u00faria tenha se acalmado. Um ritual metaf\u00f3rico, metaf\u00edsico, proje\u00e7\u00e3o do desejo, mas ao mesmo tempo um ritual realista, mediado pelos movimentos do corpo e pelos objetos f\u00edsicos, que desferem golpes, punhaladas de amor inofensivas (\u00e0s vezes nem t\u00e3o inofensivas assim&#8230;).<\/p>\n<p>Mas se de um lado h\u00e1 todo o trabalho corporal e de express\u00e3o pessoal dos bailarinos, por outro, h\u00e1 um desafio adicional: o de pensar essa \u201cperformance\u201d para uma c\u00e2mera, o de retratar esse universo atrav\u00e9s dos recursos da mise-en-sc\u00eane cinematogr\u00e1fica. E \u00e9 aqui que as op\u00e7\u00f5es do v\u00eddeo se destacam pela sua inventividade. Ap\u00f3s um in\u00edcio em que o processo de arrumar as malas \u00e9 filmado em jump cuts necessariamente fragmentados, com momentos em que os atores falam e olham para a c\u00e2mera, quebrando o ilusionismo cl\u00e1ssico, o filme ent\u00e3o vai para sua derradeira cena, em que o casal finalmente se enfrenta. Esse casal \u00e9 filmado como se estivesse num palco do teatro, num grande plano geral que cobre o corpo inteiro dos dois atores, posicionados lateralmente \u00e0 c\u00e2mera. E mais: num \u00fanico plano-sequ\u00eancia, sem movimento da c\u00e2mera. Dessa forma, a princ\u00edpio poder\u00edamos ter a impress\u00e3o de que se trata de um mero registro de uma performance. Mas existe uma diferen\u00e7a crucial: a cena se passa na \u00e1rea verde do Parque do Coc\u00f3. Essa simples escolha adiciona uma s\u00e9rie de quest\u00f5es que se integram \u00e0 proposta dos bailarinos: uma briga \u00edntima que se passa num espa\u00e7o p\u00fablico, o sol que ilumina e castiga o corpo dos atores, o espa\u00e7o l\u00fadico do verde do parque que insere camadas entre a ingenuidade, a poesia e a ironia (seria uma brincadeira de crian\u00e7as?), e que, em \u00faltima inst\u00e2ncia, provoca esse cruzamento de olhares entre a dan\u00e7a, a performance, o teatro e o cinema. Cruzamento maravilhoso, amb\u00edguo, misterioso. Cruzamento simples. Vivo, porque vem da vida (quem n\u00e3o teve uma briga de casal? quem nunca se atirou na grama de um parque?). Como se n\u00e3o bastasse, nesse simples recurso, o v\u00eddeo dialoga com um certo cinema contempor\u00e2neo: o tom de humor naive e a floresta como espa\u00e7o de liberta\u00e7\u00e3o e de entrega aos sentidos do corpo caros ao cinema de Apichatpong, ou mesmo o di\u00e1logo amb\u00edguo com o teatral na composi\u00e7\u00e3o do cinematogr\u00e1fico, pr\u00f3prio de Manoel de Oliveira. Com isso, Fui \u00e0 Guerra e N\u00e3o Te Chamei consegue um equil\u00edbrio muito raro, muito singular: sem deixar de ser extremamente respeitoso e integrado ao trabalho pr\u00e9vio dos bailarinos, transp\u00f5e esse conceito para o campo do cinematogr\u00e1fico.&#8221;<\/p><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ap\u00f3s um breve interregno, est\u00e1 de volta a coluna &#8220;Cinecasulofilia&#8221;, publicada em parceria com o blog de mesmo nome. 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