{"id":11801,"date":"2010-09-25T10:06:00","date_gmt":"2010-09-25T12:06:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2010\/09\/sobretudo\/"},"modified":"2010-09-25T10:06:00","modified_gmt":"2010-09-25T12:06:00","slug":"sobretudo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2010\/09\/sobretudo\/","title":{"rendered":"Sobretudo"},"content":{"rendered":"<div><a href=\"http:\/\/4.bp.blogspot.com\/_KYflagr2MuI\/TJfbCgDkkcI\/AAAAAAAAC7M\/6_lX5IcDzI4\/s1600\/bolsa+fam%C3%ADlia.jpg\" imageanchor=\"1\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" border=\"0\" height=\"263\" src=\"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2010\/09\/bolsa+fam%C3%ADlia.jpg\" width=\"400\"><\/a><\/div>\n<p><\/p>\n<div>Mais um s\u00e1bado, e mais uma edi\u00e7\u00e3o da coluna &#8220;Sobretudo&#8221;, assinada pelo publicit\u00e1rio Affonso Romero. O tema de hoje \u00e9 uma argumenta\u00e7\u00e3o insofism\u00e1vel a favor do <a href=\"http:\/\/www.mds.gov.br\/bolsafamilia\">Programa Bolsa Fam\u00edlia<\/a>, que funciona como um not\u00e1vel indutor de crescimento e de forma\u00e7\u00e3o de uma mercado interno brasileiro, al\u00e9m de copiado por diversos outros pa\u00edses.<\/p>\n<p>Fa\u00e7o um adendo ao indispens\u00e1vel texto: para ser benefici\u00e1rio do programa, \u00e9 necess\u00e1rio que os filhos estejam matriculados na escola. Ou seja, &#8220;d\u00e1 o peixe&#8221;, mas ensina a pescar. Tamb\u00e9m aproveito para fazer uma elegia \u00e0 mem\u00f3ria do professor Antonio Maria da Silveira, criador do programa &#8220;Renda M\u00ednima&#8221;, depois encampado pelo Senador Eduardo Suplicy; que pode ser encarado como a origem do Bolsa Fam\u00edlia.<\/p>\n<p>&#8220;<i><b>Capital de Giro e a import\u00e2ncia do Bolsa Fam\u00edlia<\/b><\/i><\/p>\n<p>H\u00e1 poucos dias, recebi da minha esposa um desses emails interessantes que circulam por a\u00ed. \u00c9 uma redu\u00e7\u00e3o meio simpl\u00f3ria do fen\u00f4meno econ\u00f4mico, mas eu achei engra\u00e7ada e ilustrativa. Fala sobre o que seria &#8220;capital de giro&#8221;.\u00a0Reproduzo abaixo:<\/p>\n<p>&#8216;<i>M\u00eas de agosto, \u00e0s margens do Mar Negro. Chovia muito e o vilarejo estava totalmente abandonado. Eram tempos muito dif\u00edceis e todos tinham d\u00edvidas e viviam de empr\u00e9stimos. <\/p>\n<p>De repente, chega ao vilarejo um turista muito rico. Entra no \u00fanico hotel do vilarejo, coloca sobre o balc\u00e3o uma nota de 100 euros e sobe as escadas para escolher um quarto. O dono do hotel pega os 100 euros e corre para pagar sua d\u00edvida com o a\u00e7ougueiro. O a\u00e7ougueiro pega o dinheiro e corre para pagar o criador de gado. O criador pega o dinheiro e corre para pagar a prostituta do vilarejo, que por conta da crise, trabalhou fiado. A prostituta corre para o hotel e paga o dono pelo quarto que alugou para atender seus clientes. <\/p>\n<p>Nesse instante, o turista desce as escadas ap\u00f3s examinar os quartos, pega o dinheiro de volta, diz que n\u00e3o gostou de nenhum dos quartos e abandona o vilarejo. Ningu\u00e9m lucrou absolutamente nada, mas toda a aldeia vive hoje sem d\u00edvidas, otimista por um futuro melhor.&#8217;<\/i><\/p>\n<p>Minha esposa tem milh\u00f5es de qualidades, al\u00e9m de ser a mulher que eu amo. Mas nada \u00e9 perfeito, e ela tamb\u00e9m \u00e9 uma tucana de plumagem discreta, mas tucana. O email me motivou a envi\u00e1-la uma resposta, que tamb\u00e9m divido com o amigo leitor. \u00c9 a raz\u00e3o da coluna de hoje:<\/p>\n<p>&#8220;Este \u00e9 um belo exemplo do que acontece nas cidadezinhas do interior do Nordeste (por exemplo) quando chega o carro-forte com o dinheiro da bolsa-fam\u00edlia.<\/p>\n<p>Numa comunidade carente, quando se injeta uma quantia m\u00ednima de dinheiro, a economia local recome\u00e7a a rodar. Isso cria um ciclo virtuoso centenas de vezes maior do que o dinheiro aplicado inicialmente, principalmente porque devolve autoestima \u00e0quela comunidade.<\/p>\n<p>Por exemplo, um pequeno comerciante do interior (ou do bairro de periferia, ou\u00a0da favela) prospera em seu neg\u00f3cio a partir da bolsa-fam\u00edlia-dos-outros, porque passa a ter consumidores, ainda que de servi\u00e7os e produtos os mais b\u00e1sicos. Ele cresce\u00a0e passa a dar mais empregos, investe no mobili\u00e1rio da loja. Isso incrementa os neg\u00f3cios do marceneiro, que compra uma serra nova. Isso incrementa os neg\u00f3cios de uma ind\u00fastria em outro Estado, que vende mais serras (serra com letra min\u00fascula, bem entendido) e pode construir um novo galp\u00e3o. A obra dar\u00e1 lucro a uma empreiteira m\u00e9dia, isso gerar\u00e1 empregos e a empreiteira ter\u00e1 que contratar um advogado e um contador.<\/p>\n<p>O mercado para profissionais liberais cresce, demandando novas vagas em universidades, interessadas em aproveitar este ciclo econ\u00f4mico formando mais profissionais. Os professores t\u00eam mais empregos, sal\u00e1rios maiores e passam a pagar mais impostos, porque mudaram de faixa no Imposto de Renda. Estes impostos possibilitam a oferta de mais bolsas-fam\u00edlia. E o ciclo aumenta enquanto o n\u00edvel de forma\u00e7\u00e3o e empregabilidade real crescem tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>Nenhuma dessas pessoas citadas foi benefici\u00e1ria direta do bolsa-fam\u00edlia, mas &#8220;dar dinheiro p\u00fablico a meia d\u00fazia de vagabundos&#8221; foi um dos fatores que mais fortemente contribu\u00edram para o Brasil ter colocado 20 milh\u00f5es de novas pessoas na classe m\u00e9dia enquanto o resto do mundo queimava bilh\u00f5es para salvar seus bancos e financeiras. E foi esta nova classe m\u00e9dia que nos salvou da crise mundial de 2008.<\/p>\n<p>Como assim, os benefici\u00e1rios diretos do bolsa-fam\u00edlia viraram classe m\u00e9dia? N\u00e3o, mas muitos n\u00e3o-benefici\u00e1rios conseguiram empregos, estudo e promo\u00e7\u00f5es por conta do ciclo virtuoso iniciado nos programas sociais.<\/p>\n<p>Sabe o que isso tem de socialista? Nada. Esta foi a forma pela qual\u00a0os Estados Unidos sa\u00edram do buraco da grande recess\u00e3o que se seguiu\u00a0\u00e0 Crise da Bolsa de 1929, as bases da pol\u00edtica do New Deal.<\/p>\n<p>Havia um outro caminho, o da inje\u00e7\u00e3o do dinheiro p\u00fablico\u00a0na economia atrav\u00e9s de grandes empresas e projetos. Era (e ainda \u00e9, em alguns casos) o bolsa-multinacional, o bolsa-projeto-megal\u00f4mano, o bolsa-banco-quebrado, o bolsa-empresa-fantasma, o bolsa-f\u00e9rias-na-Europa.\u00a0Por exemplo, o FAT (Fundo de Apoio ao Trabalhador) \u00e9 um programa iniciado pelo ent\u00e3o Ministro Jos\u00e9 Serra e divulgado no Programa Eleitoral dele. Atr\u00e1s de uma boa inten\u00e7\u00e3o de criar um fundo de investimentos para projetos geradores de emprego, confisca dinheiro da massa de sal\u00e1rios e financia, entre outras coisas, ind\u00fastrias de capital massivo, automatizadas, que implicam em baixa rela\u00e7\u00e3o de utiliza\u00e7\u00e3o de m\u00e3o de obra por capital aplicado. Ou seja, o Fundo do Trabalhador \u00e9 investido em automa\u00e7\u00e3o, sob o bom argumento de que grandes parques industriais automatizados t\u00eam maior rendimento econ\u00f4mico, n\u00e3o \u00e9 o m\u00e1ximo? Enquanto isso, o desemprego estrutural se multiplica.<\/p>\n<p>A forma alternativa \u00e9 quebrar este bola de investimento financiando pequenos projetos locais, iniciativas comunit\u00e1rias, pequenos agricultores, reaparelhamento\u00a0e capital de giro para o pequeno com\u00e9rcio. Isso gera poucos empregos para cada projeto, mas pode gerar milh\u00f5es de projetos e, portanto, gerar milh\u00f5es de novos empregos.<\/p>\n<p>\u00c9 mais f\u00e1cil, vistoso e impactante para os governos mostrar investimentos em mega-projetos, como uma f\u00e1brica de autom\u00f3veis, ou\u00a0uma usina sider\u00fargica. Numa s\u00f3 tacada, 1000 ou 2000 empregos diretos, mais os milhares de indiretos. D\u00e1 mais trabalho analisar e liberar dinheiro para 2000 projetos, cada um gerando um \u00fanico emprego. S\u00f3 que o custo final \u00e9 bem menor.<\/p>\n<p>Mais f\u00e1cil ainda colocar dinheiro na ponta final do consumo porque, sem necessidade de acompanhamento e medi\u00e7\u00e3o, sem ter que pagar sal\u00e1rio a centenas de advocados e tecnocratas, se coloca a economia para rodar da mesm\u00edssima forma.<\/p>\n<p>D\u00e1 a estranha sensa\u00e7\u00e3o na classe m\u00e9dia j\u00e1 estabelecida e nos ricos (se bem que rico n\u00e3o paga imposto no Brasil) de que o seu dinheirinho confiscado na imensa carga tribut\u00e1ria brasileira \u00e9 colocado de gra\u00e7a no colinho de umas pessoas que n\u00e3o tiveram compromisso com o estudo e o trabalho, que mesmo assim fizeram dezenas de filhos e que isso \u00e9 simplesmente injusto. Pode-se discutir se \u00e9 injusto ou n\u00e3o (e eu acho que n\u00e3o \u00e9), mas n\u00e3o se pode discutir a efic\u00e1cia econ\u00f4mica disso. A economia est\u00e1 num ciclo vurtuoso que ocorre &#8220;de baixo para cima&#8221; nos estratos sociais, e isso se inicia com programas de transfer\u00eancia de renda, exatamente como no New Deal americano.<\/p>\n<p>Mas se a sensa\u00e7\u00e3o de injusti\u00e7a e estranhamento permanece, lembra-se de que o confisco que \u00e9 a carga tribut\u00e1ria brasileira n\u00e3o se iniciou para subsidiar programas sociais. Historicamente, o imposto no Brasil financia a pr\u00f3pria m\u00e1quina p\u00fablica, al\u00e9m de projetos megal\u00f4manos e bancos falidos.<\/p>\n<p>Particularmente, eu prefiro ver\u00a0o dinheiro do meu imposto nas m\u00e3os de quem <i>&#8220;vai gastar tudo em cacha\u00e7a&#8221;<\/i>, porque esta cacha\u00e7a \u00e9 nacional, o lucro da cacha\u00e7a vai gerar empregos num alambique nacional, vai ser comprada na vendinha da esquina que no m\u00e1ximo pertence a um portugu\u00eas, mas um portugu\u00eas que mora aqui e vai gastar aqui. Melhor assim do que o mesmo dinheiro ser usado para salvar o banco de um banquiro que j\u00e1 provou que n\u00e3o sabe administrar o seu pr\u00f3prio neg\u00f3cio e que, uma vez que sua empresa esteja recuperada, vai vender tudo para um banco transnacional e\u00a0gastar o lucro da opera\u00e7\u00e3o tomando champgne franc\u00eas num cassino em Monte Carlo.<\/p>\n<p>No fundo, no fundo, elei\u00e7\u00e3o \u00e9 isso: muita baixaria para o dinheiro do nosso imposto ser disputado entre programas sociais e banqueiros falidos.&#8221;<\/p><\/div>\n<div><\/div>\n<div><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mais um s\u00e1bado, e mais uma edi\u00e7\u00e3o da coluna &#8220;Sobretudo&#8221;, assinada pelo publicit\u00e1rio Affonso Romero. 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