{"id":11766,"date":"2010-10-17T09:50:00","date_gmt":"2010-10-17T11:50:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2010\/10\/sobretudo-minha-catedral\/"},"modified":"2010-10-17T09:50:00","modified_gmt":"2010-10-17T11:50:00","slug":"sobretudo-minha-catedral","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2010\/10\/sobretudo-minha-catedral\/","title":{"rendered":"Sobretudo: &quot;Minha Catedral&quot;"},"content":{"rendered":"<div><a href=\"http:\/\/2.bp.blogspot.com\/_KYflagr2MuI\/TLjau58u8-I\/AAAAAAAAC-A\/x37q_hkFOL0\/s1600\/Imagem+300.jpg\" imageanchor=\"1\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" border=\"0\" height=\"300\" src=\"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2010\/10\/Imagem+3001.jpg\" width=\"400\"><\/a><\/div>\n<p><\/p>\n<div>Excepcionalmente no domingo, a coluna &#8220;Sobretudo&#8221;, assinada pelo publicit\u00e1rio Affonso Romero. Em belo texto, serpenteia por uma torrente de sensa\u00e7\u00f5es que nos levam at\u00e9 a pensar que \u00e9 um texto anti-clerical ou anti-religioso, mas que na verdade \u00e9 uma ode \u00e0 paix\u00e3o.<\/p>\n<p>Vamos ao texto.<\/p>\n<p><i><b>Minha Catedral<\/b><\/i><\/p>\n<p>Houve um tempo em que eu n\u00e3o freq\u00fcentava templos. Orei sobre elementos da natureza, grama, pedras, areias, numa festa pag\u00e3 permanente. Nem tanto a festa cotidiana, mas o paganismo como h\u00e1bito.<\/p>\n<p>No tempo seguinte, a suposi\u00e7\u00e3o de que, para demonstrar ao mundo o amadurecimento que eu me cobrava, eu deveria me devotar a uma s\u00f3 divindade. E vivi simulando f\u00e9, convencendo-me de uma cren\u00e7a fria e distante, ainda que por vezes reconfortante.<\/p>\n<p>Tudo parecia transcorrer bem, os dias seguiam calmos e sem paix\u00e3o.<\/p>\n<p>At\u00e9 que, um dia, o pastor de mim mesmo seria eu. Eu subiria ao p\u00falpito, falaria para muitos. Anotei o endere\u00e7o. N\u00e3o mais importa, tanto tempo depois. Importou, e importa, o destino que eu encontrei naquele lugar. <\/p>\n<p>Naquele dia eu vi a minha catedral pela primeira vez. Ela veio a mim, surgiu \u00e0 minha frente. Bela, reluzente, fresca, exalava eternidade, prometia para\u00edsos.<\/p>\n<p>Prostrei-me de joelhos aos p\u00e9s de sua torre. N\u00e3o que tenha feito isso literalmente: n\u00e3o ca\u00ed ao solo, elevei-me aos c\u00e9us. Entretanto, meu espanto era evidente, o ar faltou-me, fui tomado de calafrio. Desta forma, se n\u00e3o havia ca\u00eddo realmente ao solo, estava t\u00e3o fora de mim que j\u00e1 n\u00e3o importava o lado ou a altura, a dire\u00e7\u00e3o ou a perda de senso, eu j\u00e1 n\u00e3o era meu.<\/p>\n<p>Durante dias fui at\u00e9 metade do caminho para rever a bela edifica\u00e7\u00e3o e dali voltei. Cheio de d\u00favidas, de como me portaria, se seria bem recebido ou n\u00e3o, se era correto me deixar arrebatar. Certeza, uma s\u00f3: meu cora\u00e7\u00e3o e minha f\u00e9 haviam mudado para sempre.<\/p>\n<p>Por fim, a catedral me aceitou, assim como eu me fiz convertido. Sem, contudo, dedicar exclusividade na f\u00e9. Ainda havia o compromisso em minha f\u00e9 fria e distante e, por isso mesmo, aparentemente mais segura. Quanto mais os deuses se colocam presentes em sua vida, mais e mais o poder afeta aquilo que deveria parecer est\u00e1vel. Os benef\u00edcios da presen\u00e7a divina n\u00e3o brotam sem conflitos e tuf\u00f5es. O n\u00e3o-acontecer, muitas vezes, pode ser mais confort\u00e1vel. Um carro n\u00e3o engui\u00e7a quando fica parado na garagem.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, com medo que a beleza resplandecente de minha catedral cegasse meus olhos, afastei-me dela. Reneguei a mudan\u00e7a que se fazia em minha alma. Pensei: se a catedral parece t\u00e3o bela aos meus olhos, se h\u00e1 tanto ouro e prata, uma f\u00e9 t\u00e3o vaidosa de si n\u00e3o pode ser eterna. E preferi a eternidade morna e certa. Ou, aparentemente certa.<\/p>\n<p>Com o passar dos meses, a chama que ardeu em meu peito virou uma imensa pedra de gelo, um sentimento que me paralisou e me fez tremer, n\u00e3o mais de sensa\u00e7\u00f5es, mas de frio invernal. Fui desacreditando em tudo. Primeiro, na vida, na felicidade. Depois, na possibilidade de rever qualquer catedral que n\u00e3o habitasse apenas meus sonhos. Por fim, na pr\u00f3pria f\u00e9.<\/p>\n<p>Quando acordei do pior pesadelo e fui \u00e0 procura do sentimento que havia perdido, certo de que jamais haveria de reencontrar a minha catedral, mas que talvez pudesse encontrar a mesma beleza em outro templo, corri a corrida desesperada daqueles que n\u00e3o sabem que rumo tomar. N\u00e3o sabia sequer se haveria algum rumo poss\u00edvel.<\/p>\n<p>N\u00e3o, n\u00e3o foi uma oportunidade \u00fanica aquilo que eu houvera jogado fora. Era bem mais que isso. Era a oportunidade \u00fanica num tempo \u00fanico. Esta constata\u00e7\u00e3o seria a morte, se a morte fosse t\u00e3o \u00e1gil e benevolente.<\/p>\n<p>Mais ocioso \u00e9 o destino, que em suas tramas inventa chances que somente o mais criativo dos autores teria em mente. E o destino tem todo o tempo para tecer suas malhas, quase sempre o tempo que dura uma vida inteira.<\/p>\n<p>Meu destino, ainda que ociosos como seus iguais, me deu a sorte de ser mais expedito que toda a vida que havia pela frente. Passaram-se muitos anos, \u00e9 certo.<\/p>\n<p>Tempo suficiente para que todas as minhas cren\u00e7as definhassem, principalmente a minha cren\u00e7a em mim mesmo e na minha capacidade de pegar o bonde. Mas tempo menor que a morte de tudo.<\/p>\n<p>Foi ent\u00e3o que o acaso se fez agora. Como a montanha na B\u00edblia, minha catedral veio a mim. N\u00e3o de uma forma invasiva, como muro postado \u00e0 minha frente. Mas pelas vias tecnol\u00f3gicas que n\u00e3o aconteceriam mais de uma d\u00e9cada antes. Da mesma forma que h\u00e1 pastores pela tev\u00ea, pregadores pela internet e rabinos de aeroportos, minha catedral usou de novos meios para reavivar minha f\u00e9.<\/p>\n<p>N\u00e3o demorou tanto para que eu reencontrasse suas belezas. Agora, o pr\u00e9dio j\u00e1 era repleto de marcas, que acusavam menos a passagem do tempo e mais a passagem da vida. A catedral sentira falta da minha f\u00e9 tanto quando eu havia me feito cego \u00e0 falta de sua luz.<\/p>\n<p>Todo final assim merece ser feliz, tudo deveria recobrar a cor, n\u00e3o \u00e9 mesmo? Talvez, e eu acreditava que assim seria. Mas n\u00e3o t\u00e3o facilmente. A f\u00e9 que n\u00e3o resistiu a ser posta \u00e0 prova uma vez, teria que passar por mais de duas provas para se firmar. E foram muitas as provas que nos impusemos mutuamente, at\u00e9 que pud\u00e9ssemos nos reconciliar em ato santo. Plenamente, integralmente. Uma f\u00e9 imediata, um dia. Reencontrada, mais de uma decana depois. E reconstru\u00edda ao longo \u2013 agora sim! \u2013 de uma vida inteira.<\/p>\n<p>O tempo todo que o tempo e o destino necessitarem para tecer a trama da vida e dos santos autos.<\/p>\n<p>Eu vivo sob a c\u00fapula de minha catedral. Eu me reconforto dentro de suas paredes. S\u00f3 ali a minha alma pode despir o peso de meu corpo e se reconciliar com o que verdadeiramente \u00e9. S\u00f3 ali, eu sou. Hoje, menos importa a beleza de seus afrescos, o estado de sua via sacra, as imagens de seus santos, a batina de seus pregadores. Minha catedral \u00e9 ref\u00fagio e est\u00edmulo. Mas tamb\u00e9m \u00e9 a agita\u00e7\u00e3o apaixonada das certezas, a instala\u00e7\u00e3o permanente do fogo da f\u00e9, o conturbado questionamento da vida, o estudo, a reflex\u00e3o, o aprendizado. Portanto, n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 o adormecimento relaxante, \u00e9 tamb\u00e9m o refasto e a digest\u00e3o, o sonho e a alucina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Viver sob minha catedral \u00e9 ter a raz\u00e3o superior da exist\u00eancia. Isso faz as outras coisas parecerem t\u00e3o menores que a vida se torna mais simples, frente a coisa t\u00e3o complexa.<\/p>\n<p>Minha raz\u00e3o e minha loucura, fundidas nas entranhas da minha mente, formadoras do que eu sou, e j\u00e1 n\u00e3o mais me assustam. Meus fantasmas, que trabalham por mim e, fantasmas que s\u00e3o, t\u00eam superpoderes, carregam quanto peso for preciso, superam quantas paredes forem erguidas. Eu vivo minha catedral, oro, alimento corpo e alma, sou protegido e cuidado. Recupero cada minuto perdido nos anos de afastamento, renovo os votos e sigo at\u00e9 onde o destino for mais cioso que ocioso.<\/p>\n<p>N\u00e3o sei se h\u00e1 uma catedral em sua vida, amigo leitor. Ela pode ser erguida em devo\u00e7\u00e3o a um amor terreno, a um amor idealizado. Ela pode ser plantada no campo onde joga seu time. Ela pode comportar discursos pol\u00edticos, profiss\u00f5es ou cultos de f\u00e9 estritamente religiosa. N\u00e3o h\u00e1 catedral melhor que outra. Minto, h\u00e1 sim: cada um tem sua melhor catedral, melhor para si mesmo, melhor para sua vida. S\u00f3 h\u00e1 um requisito: tenha sua catedral, uma bela catedral, procure por uma, ache-a e guarde-a da melhor forma poss\u00edvel. Mas tenha uma.<\/p>\n<p>Finalmente, divido com o amigo leitor a vers\u00e3o de Z\u00e9lia Duncan para o sucesso de Tanita Tikaram, e \u201cdedico esta can\u00e7\u00e3o\u201d aos tijolos s\u00f3lidos e permanentemente belos de minha catedral.<\/p>\n<p><i>&#8220;O deserto que atravessei<br \/>Ningu\u00e9m me viu passar<br \/>Estranha e s\u00f3<br \/>Nem pude ver que o c\u00e9u \u00e9 maior<br \/>Tentei dizer<br \/>Mas vi voc\u00ea<br \/>T\u00e3o longe de chegar<br \/>Mais perto de algum lugar<br \/>\u00c9 deserto onde eu te encontrei<br \/>Voc\u00ea me viu passar<br \/>Correndo s\u00f3<br \/>Nem pude ver que o tempo \u00e9 maior<br \/>Olhei pra mim<br \/>Me vi assim<br \/>T\u00e3o perto de chegar<br \/>Onde voc\u00ea n\u00e3o est\u00e1<br \/>No sil\u00eancio uma catedral<br \/>Um templo em mim<br \/>Onde eu possa ser imortal<br \/>Mas vai existir<br \/>Eu sei, vai ter que existir<br \/>Vai resistir nosso lugar<br \/>Solid\u00e3o, quem pode evitar?<br \/>Te encontro enfim<br \/>Meu cora\u00e7\u00e3o \u00e9 secular<br \/>Sonha e desagua dentro de mim<br \/>Amanh\u00e3, devagar<br \/>Me diz como voltar<br \/>\u00c9 deserto onde eu te encontrei<br \/>Voc\u00ea me viu passar<br \/>Correndo s\u00f3<br \/>Nem pude ver que o tempo \u00e9 maior<br \/>Olhei pra mim<br \/>Me vi assim<br \/>T\u00e3o perto de chegar<br \/>Onde voc\u00ea n\u00e3o est\u00e1<br \/>No sil\u00eancio uma Catedral<br \/>Um templo em mim<br \/>Onde eu possa ser imortal<br \/>Mas vai existir<br \/>Eu sei, vai ter que existir<br \/>Vai resistir nosso lugar<br \/>Solid\u00e3o, quem pode evitar ?<br \/>Te encontro enfim<br \/>Meu cora\u00e7\u00e3o \u00e9 secular<br \/>Sonha e des\u00e1gua dentro de mim<br \/>Amanh\u00e3, devagar<br \/>Me diz como voltar<br \/>Se eu disser que foi por amor<br \/>N\u00e3o vou mentir pra mim<br \/>Se eu disser deixa pra depois<br \/>N\u00e3o foi sempre assim<br \/>Tentei dizer<br \/>Mas vi voc\u00ea<br \/>T\u00e3o longe de chegar<br \/>Mais perto de algum lugar<\/i><\/p>\n<p><span><i>(Foto: Taj Mahal, Portela 2009, enredo sobre o amor. Autor: Fabr\u00edcio Gomes)<\/i><\/span><\/div>\n<div><\/div>\n<div><span><i>\u00a0<\/i><\/span><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Excepcionalmente no domingo, a coluna &#8220;Sobretudo&#8221;, assinada pelo publicit\u00e1rio Affonso Romero. 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