{"id":11748,"date":"2010-10-29T06:30:00","date_gmt":"2010-10-29T08:30:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2010\/10\/cinecasulofilia-tropa-de-elite-2\/"},"modified":"2010-10-29T06:30:00","modified_gmt":"2010-10-29T08:30:00","slug":"cinecasulofilia-tropa-de-elite-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2010\/10\/cinecasulofilia-tropa-de-elite-2\/","title":{"rendered":"Cinecasulofilia &#8211; &quot;Tropa de Elite 2&quot;"},"content":{"rendered":"<div><a href=\"http:\/\/2.bp.blogspot.com\/_KYflagr2MuI\/TMc6lU-cowI\/AAAAAAAAC_A\/kPU6sDXTuRM\/s1600\/tropadeelite2_3_01.jpg\" imageanchor=\"1\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" border=\"0\" height=\"320\" src=\"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2010\/10\/tropadeelite2_3_01.jpg\" width=\"216\"><\/a><\/div>\n<div>De volta nesta sexta feira pr\u00e9-eleitoral a nossa coluna sobre cinema, a &#8220;Cinecasulofilia&#8221;, publicada em parceria com o <a href=\"http:\/\/cinecasulofilia.blogspot.com\/\">blog de mesmo nome<\/a>.<\/p>\n<p>O texto de hoje \u00e9 sobre o &#8220;arrasa quarteir\u00e3o&#8221; &#8220;Tropa de Elite 2&#8221;, que foi alvo de texto escrito pelo titular deste Ouro de Tolo na sexta feira passada &#8211; <a href=\"http:\/\/pedromigao.blogspot.com\/2010\/10\/resenha-tropa-de-elite-2.html\">texto que pode ser lido aqui<\/a>. \u00c9 muito interessante se comparar as vis\u00f5es do cr\u00edtico e do espectador, ainda que este com um vi\u00e9s pol\u00edtico-social de an\u00e1lise.<\/p>\n<p>Vamos ao texto, como sempre escrito pelo professor de cinema, cr\u00edtico e cineasta Marcelo Ikeda.<\/p>\n<p><i><b>Tropa de Elite 2<\/b><\/i><\/p>\n<p>&#8220;Havia algo de positivo em Tropa de Elite 1: por tr\u00e1s de toda a canalhice do filme, abertamente favor\u00e1vel \u00e0 viol\u00eancia e \u00e0 tortura, havia um discurso franco, direto, cristalino. Havia, \u00e9 claro, uma certa irresponsabilidade: os produtores certamente nunca esperavam sua enorme repercuss\u00e3o, muito menos os ataques recebidos por v\u00e1rios flancos, principalmente os que o acusaram de uma certa milit\u00e2ncia fascista. Ainda que n\u00e3o se concorde com seu discurso, era admir\u00e1vel a forma sem rodeios como Tropa de Elite 1 se apresentava, especialmente tendo em vista um cinema brasileiro que sempre busca os meios-termos, o discurso da concilia\u00e7\u00e3o. Tudo isso fica muito claro vendo Tropa de Elite 2: neste filme h\u00e1 um recuo, como se aceitassem as cr\u00edticas sofridas pelo anterior mas sem deixar de avan\u00e7ar no discurso provocativo que tanto marcou o primeiro filme. <\/p>\n<p>\u00c9 nisso que reside a complexidade deste filme: de um lado, pode ser vista como not\u00e1vel a tentativa de Padilha de recuar, de ouvir as cr\u00edticas e fazer um filme um tanto mais humano que o anterior; de outro, esse recuo pode ser entendido como um mero discurso de conveni\u00eancia, um recuo estrat\u00e9gico dentro da verdadeira estrat\u00e9gia do filme, muito mais a ocupa\u00e7\u00e3o de um mercado do que a conscientiza\u00e7\u00e3o sobre uma realidade. Em Tropa de Elite 2, o tempo todo se tem a consci\u00eancia de que se pisa em \u201ccampo minado\u201d, e assim como o Capit\u00e3o Nascimento formula sua estrat\u00e9gia pessoal para sobreviver dentro do subdesenvolvimento, \u00e9 como se o pr\u00f3prio Padilha tentasse \u201cpisar em ovos\u201d para sobreviver dentro da briga de egos e vaidades que se tornou o cinema brasileiro. Extremamente defensivo, Tropa de Elite 2 busca o improv\u00e1vel: por tr\u00e1s de suas irrever\u00eancias, de seu discurso provocativo, de seus ataques \u00e0 imprensa, \u00e0s mil\u00edcias, \u00e0 pol\u00edcia e aos pol\u00edticos, o filme busca na verdade a esfera da concilia\u00e7\u00e3o. E acaba conseguindo, tornando-o um dos mais not\u00e1veis exemplares n\u00e3o s\u00f3 do cinema brasileiro de hoje mas do pr\u00f3prio cen\u00e1rio do pa\u00eds que se vive.<\/p>\n<p>No primeiro Tropa de Elite, as coisas eram muito claras: a viol\u00eancia precisava ser combatida por uma pol\u00edcia treinada, que responderia com mais viol\u00eancia. Os inimigos eram claros. Agora no novo Tropa de Elite, parte-se de uma dualidade inicial, de duas formas de combater a viol\u00eancia: de um lado, o discurso duro do Capit\u00e3o Nascimento; de outro, o discurso de Fraga, militante social. A princ\u00edpio, os dois discursos s\u00e3o antag\u00f4nicos: para o Capit\u00e3o Nascimento, o Fraga defende os bandidos, que precisam ser exterminados. Em seguida, todo o discurso de Tropa 2 \u00e9 que o espectador perceba que esses discursos n\u00e3o s\u00e3o antag\u00f4nicos mas que na verdade s\u00e3o complementares, e que precisam ser reunidos para combater os verdadeiros inimigos: os pol\u00edticos, que se alimentam dessa verdadeira \u201cind\u00fastria da precariedade\u201d. Em torno dessas quest\u00f5es, h\u00e1 um elo comum, que s\u00f3 um roteirista maquiav\u00e9lico como Br\u00e1ulio Mantovani poderia reunir: a fam\u00edlia. Eis que um elemento inesperado surge diante do cen\u00e1rio violento de Tropa de Elite: a fam\u00edlia, o dever do pai diante de um filho. O filho do Capit\u00e3o Nascimento \u00e9 criado por Fraga, e o menino vive uma crise de consci\u00eancia entre a viol\u00eancia do pai e o discurso social do padrasto. A concilia\u00e7\u00e3o e o discurso anti-viol\u00eancia de Tropa de Elite 2 eclodem numa quest\u00e3o familiar: o futuro das novas gera\u00e7\u00f5es, inocentemente atingidas nessa guerra de fogo. <\/p>\n<p>Ou seja, \u00e9 como se Tropa de Elite 2 fosse o Avatar do cinema brasileiro: denuncia as atrocidades de um sistema, utilizando o mais pesado arsenal da ind\u00fastria de entretenimento, amortecendo seu potencial subversivo junto ao espectador. Resta um Wagner Moura numa atua\u00e7\u00e3o surpreendentemente contida, como se fossem os policiais de Takeshi Kitano, quase que percebendo a trag\u00e9dia de sua pr\u00f3pria exist\u00eancia, dando ao filme um tom s\u00f3brio que anuncia a jornada de fracasso de seu protagonista, mas ao mesmo tempo colocando uma consci\u00eancia \u00e9tica completamente ausente do primeiro filme. Em rela\u00e7\u00e3o ao filme anterior, \u00e9 ineg\u00e1vel que Tropa de Elite 2 seja menos um filme de a\u00e7\u00e3o do que um thriller psicol\u00f3gico, um filme sobre o fracasso dos ideais de um policial, amorda\u00e7ado por um sistema tautologicamente corrompido por dentro. Por outro lado, o filme denuncia a sordidez desse sistema, com a mesma ferocidade proposta pelos meios de comunica\u00e7\u00e3o, quando cobriram o esc\u00e2ndalo das mil\u00edcias e suas rela\u00e7\u00f5es com o crime organizado e o poder estabelecido. Transforma e embala esse jornalismo j\u00e1 visto em grande espet\u00e1culo. Filme urgente sobre as contradi\u00e7\u00f5es atuais de um pa\u00eds ou mero oportunismo de ocasi\u00e3o? Dif\u00edcil dizer. De qualquer modo, n\u00e3o deixa de ser curiosa a transforma\u00e7\u00e3o do irasc\u00edvel Padilha num articulador da concilia\u00e7\u00e3o. Concilia\u00e7\u00e3o contra \u201cos verdadeiros inimigos\u201d. Quais s\u00e3o mesmo? Acaba ficando ao gosto do fregu\u00eas pensar se Tropa de Elite 2 est\u00e1 mais para Lula, o Filho do Brasil ou para Invictus. No fundo, acaba dando no mesmo, porque a verdadeira batalha trilhada pelo filme \u00e9 o da ocupa\u00e7\u00e3o de um mercado. Batalha que foi vencida com indiscut\u00edvel brilhantismo.&#8221;<\/p><\/div>\n<div><\/div>\n<div><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>De volta nesta sexta feira pr\u00e9-eleitoral a nossa coluna sobre cinema, a &#8220;Cinecasulofilia&#8221;, publicada em parceria com o blog de mesmo nome. 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