{"id":11719,"date":"2010-11-18T08:29:00","date_gmt":"2010-11-18T10:29:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2010\/11\/resenha-literaria-elisete-cardoso-uma-vida\/"},"modified":"2010-11-18T08:29:00","modified_gmt":"2010-11-18T10:29:00","slug":"resenha-literaria-elisete-cardoso-uma-vida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2010\/11\/resenha-literaria-elisete-cardoso-uma-vida\/","title":{"rendered":"Resenha Liter\u00e1ria &#8211; &quot;Elisete Cardoso &#8211; Uma Vida&quot;"},"content":{"rendered":"<div><a href=\"http:\/\/4.bp.blogspot.com\/_KYflagr2MuI\/TOGdMaE8gXI\/AAAAAAAADCc\/mk3MtBKZaBQ\/s1600\/elisete+cardoso+-+uma+vida.jpg\" imageanchor=\"1\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" border=\"0\" height=\"200\" src=\"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2010\/11\/elisete+cardoso+-+uma+vida.jpg\" width=\"200\"><\/a>Ap\u00f3s um interregno razo\u00e1vel, a coluna &#8220;Resenha Liter\u00e1ria&#8221; est\u00e1 de volta. Explico.<\/p>\n<\/div>\n<div>Eu terminei de ler &#8220;Elite da Tropa 2&#8221; &#8211; <a href=\"http:\/\/pedromigao.blogspot.com\/2010\/10\/resenha-literaria-elite-da-tropa-2.html\">alvo da resenha anterior<\/a> &#8211; e peguei para ler o livro refer\u00eancia de Daniel Yergin sobre a ind\u00fastria do petr\u00f3leo. Entretanto, como o livro \u00e9 um &#8220;tijolo&#8221; de mais de mil p\u00e1ginas e uns tr\u00eas a quatro quilos de peso &#8211; embora seja sensacional &#8211; n\u00e3o havia a menor condi\u00e7\u00e3o de lev\u00e1-lo nesta r\u00e1pida viagem que fiz semana passada a Campinas.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Isso abriu espa\u00e7o para a leitura deste &#8220;Elisete Cardoso &#8211; Uma Vida&#8221;, que iniciei em viagem e terminei no retorno ao Rio de Janeiro.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>De autoria do jornalista S\u00e9rgio Cabral, retoma a s\u00e9rie de biografias de nomes da m\u00fasica popular brasileira escritas pelo autor &#8211; das quais l\u00e1 tive a oportunidade de ler as que enfocam Tom Jobim, Nara Le\u00e3o e <a href=\"http:\/\/pedromigao.blogspot.com\/2009\/09\/resenha-literaria-ataulfo-alves-vida-e.html\">Ataulfo Alves, esta resenhada<\/a>. \u00c9 um trabalho sensacional de resgate da mem\u00f3ria da M\u00fasica Popular Brasileira empreendido pelo jornalista, apoiado pela Companhia Editora Nacional.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Elisete Cardoso (1920-1990) \u00e9 considerada por muitos a maior cantora que o Brasil j\u00e1 teve. Para os mais jovens isto pode soar estranho neste pa\u00eds sem mem\u00f3ria &#8211; falarei sobre isso mais abaixo &#8211; mas quem l\u00ea a biografia, a ouve e conhece a sua hist\u00f3ria n\u00e3o tem muito como discordar. N\u00e3o por acaso, recebeu a alcunha de &#8220;Divina&#8221;.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>S\u00e9rgio Cabral conta linearmente a sua hist\u00f3ria, partindo da inf\u00e2ncia pobre &#8211; onde conviveu com ningu\u00e9m menos que Tia Ciata, cuja casa \u00e9 considerada o &#8220;Marco Zero&#8221; do samba carioca &#8211; e dif\u00edcil e demonstrando desde tenra idade o dom para o canto e a dan\u00e7a.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>\n<p>Cabral enfoca o in\u00edcio de carreira da cantora, onde ela chegou a trabalhar como dan\u00e7arina em casas noturnas que seriam precursoras das atuais gafieiras. N\u00e3o era o que o leitor pode estar imaginando; eram casas com o regulamento extremamente r\u00edgido e que haviam dan\u00e7arinas especializadas nos diferentes ritmos.<\/p>\n<p>Havia uma esp\u00e9cie de &#8220;cart\u00e3o&#8221; que era picotado a cada m\u00fasica que os frequentadores dan\u00e7avam com as mo\u00e7as &#8211; e o pagamento era feito ao final. Logo Elisete passou ao conjunto da casa noturna, com sua voz maravilhosa.<\/p>\n<p>Da\u00ed para o r\u00e1dio e, enfim,, o estrelato. Eram tempos em que a cultura popular brasileira era balizada pelo r\u00e1dio e, posteriormente, a televis\u00e3o.<\/p>\n<p>Elisete se consolida como a grande int\u00e9rprete dos grandes compositores. Em sua longa e vitoriosa carreira ela interpretou nomes como Ary Barroso, Cartola, Chico Buarque, Paulinho da Viola, Herm\u00ednio Belo de Carvalho, Nelson Cavaquinho, Tom Jobim, Vin\u00edcius de Moraes, Lamartine Babo, Ataulfo Alves, Z\u00e9 K\u00e9ti, Paulo C\u00e9sar Pinheiro, \u00c9lton Medeiros e muitos outros. Como o leitor pode ver, uma verdadeira sele\u00e7\u00e3o brasileira.<\/p>\n<p>Abaixo, &#8220;Sei L\u00e1, Mangueira&#8221;, de Paulinho da Viola e Herm\u00ednio Belo.<\/p>\n<p>Cabral tamb\u00e9m passa pela atribulada vida amorosa da cantora, que se casou duas vezes e teve um incont\u00e1vel n\u00famero de namorados, em tempo em que isso era um tabu. O tema tamb\u00e9m traz ao livro a quest\u00e3o das hoje chamadas &#8220;revistas de celebridades&#8221;, que j\u00e1 naquela \u00e9poca publicavam notas maldosas e\/ou inver\u00eddicas sobre as vidas dos grandes artistas.<\/p>\n<p>Inclusive havia uma coluna muito famosa &#8211; que deu o nome ao que hoje \u00e9 o arqu\u00e9tipo de &#8220;fofoqueira&#8221; &#8211; denominada &#8220;Mexericos da Candinha&#8221;, na &#8220;Revista do R\u00e1dio&#8221;.<\/p>\n<p>O autor relata tamb\u00e9m a vida cotidiana da cantora, apoiado n\u00e3o somente na conviv\u00eancia pessoal como no depoimento de pessoas pr\u00f3ximas. Elisete era uma pessoa muito simples, que gostava de cozinhar, da boa mesa e dos amigos e da fam\u00edlia &#8211; um filho biol\u00f3gico e outra adotiva, que lhe deram netos.<\/p>\n<p>Cabral mostra a rela\u00e7\u00e3o da cantora com as escolas de samba, em especial com a Unidos de Lucas, agremia\u00e7\u00e3o da qual foi madrinha e posteriormente enredo, em 1974 &#8211; no final deste texto disponibilizo letra e \u00e1udio deste samba. A\u00ed reside o \u00fanico sen\u00e3o do livro: n\u00e3o fica\u00a0expl\u00edcita\u00a0a rela\u00e7\u00e3o da biografada com a Portela, sua escola de cora\u00e7\u00e3o. J\u00e1 no final do livro o autor escreve que Elisete <i>&#8220;n\u00e3o perdia um desfile da escola na d\u00e9cada de 80&#8221;<\/i>, mas sem explicar o porqu\u00ea daquela liga\u00e7\u00e3o ou se a cantora envolvera-se ou desfilara pela \u00e1guia de Madureira anteriormente.<\/p>\n<p>Na parte final da obra observa-se o progressivo afastamento da m\u00fasica da cantora das r\u00e1dios, mas mantendo um p\u00fablico fiel para seus shows. Relatam-se as viagens ao Jap\u00e3o, abrindo mais um mercado para a m\u00fasica brasileira, e seus problemas com a ind\u00fastria fonogr\u00e1fica em sua \u00faltima d\u00e9cada de vida. Nos dois derradeiros cap\u00edtulos descreve-se a doen\u00e7a no est\u00f4mago &#8211; um c\u00e2ncer &#8211; que acabaria por causar o seu falecimento em 07 de maio de 1990.<\/p>\n<p>Ainda assim, a doen\u00e7a n\u00e3o afetaria a sua fant\u00e1stica capacidade de interpreta\u00e7\u00e3o e sua voz, como o v\u00eddeo abaixo, gravado poucos meses antes de sua morte, comprova. Observem a cantora interpretando, &#8220;\u00e0 capella&#8221;, Ary Barroso:<\/p>\n<p>Vendo e ouvindo estas grava\u00e7\u00f5es, fico entristecido em saber que apenas 20 anos ap\u00f3s sua passagem a cantora est\u00e1 praticamente esquecida. At\u00e9 as pessoas da minha gera\u00e7\u00e3o &#8211; tenho 36 anos &#8211; conhecem muito pouco da obra da &#8220;Divina&#8221;, que foi a maior cantora da m\u00fasica popular brasileira durante d\u00e9cadas, reverenciada por nomes como Sarah Vaughan e outros.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m n\u00e3o posso conter a minha tristeza ao observar &#8211; <a href=\"http:\/\/pedromigao.blogspot.com\/2010\/03\/mamonas-assassinas-e-mediocrizacao-da.html\">como escrevi em mar\u00e7o<\/a> &#8211; que a &#8220;cultura de massa&#8221; est\u00e1 cada vez mais med\u00edocre, cada vez mais descart\u00e1vel, com qualidade dia a dia mais question\u00e1vel. S\u00e3o manifesta\u00e7\u00f5es que daqui a dois, tr\u00eas anos estar\u00e3o esquecidas.<\/p>\n<p>Outro ponto preocupante \u00e9 observarmos que os principais compositores brasileiros de hoje s\u00e3o os mesmos da d\u00e9cada de 60: Chico, Caetano, Paulinho da Viola, Gilberto Gil, Edu Lobo e outros do mesmo naipe. N\u00e3o houve renova\u00e7\u00e3o, a meu ver muito pela progressiva &#8220;guetiza\u00e7\u00e3o&#8221; que a MPB sofreu em termos de r\u00e1dios de massa e televis\u00f5es abertas. Quando eles morrerem, quem restar\u00e1 ?<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m vale lembrar que em termos de int\u00e9rpretes o quadro n\u00e3o \u00e9 muito diferente, embora tenham surgido algumas boas cantoras: Adriana Calcanhoto, Ana Carolina, Teresa Cristina e mais uma ou duas. Uma curiosidade do livro \u00e9 que das tr\u00eas cantoras que Elisete indicou como &#8220;sucessoras&#8221;, duas acabaram falecendo antes dela &#8211; Clara Nunes e Elis Regina. Restou apenas Maria Beth\u00e2nia.<\/p>\n<p>Cabral, na introdu\u00e7\u00e3o, tamb\u00e9m explica a op\u00e7\u00e3o pela grafia &#8220;Elisete&#8221;, com a justificativa de que<i> &#8220;a l\u00edngua n\u00e3o pode ser submissa ao arb\u00edtrio dos cart\u00f3rios.&#8221;<\/i> Vale lembrar que a cantora foi registrada como &#8220;Elizette&#8221;.<\/p>\n<p>Curiosamente, eu s\u00f3 tinha visto o livro para compra na outra ocasi\u00e3o em que estive em Campinas &#8211; onde adquiri meu exemplar. Aqui no Rio nunca vi o\u00a0exemplar\u00a0\u00e0 venda, em lugar nenhum &#8211; e olha que sou rato de livrarias&#8230; <a href=\"http:\/\/www.submarino.com.br\/produto\/1\/21837182\/elisete+cardoso:+uma+vida#\">Online a Submarino est\u00e1 com uma boa promo\u00e7\u00e3o, a R$ 29,90<\/a>.<\/p>\n<p>\u00c9 uma biografia indispens\u00e1vel para se conhecer um pouco da hist\u00f3ria da MPB e de uma de suas maiores cantoras &#8211; que precisa ser relembrada.<\/p>\n<p>Abaixo, o \u00e1udio e a letra do samba enredo em que a Unidos de Lucas homenageou-a, em 1974. A escola foi segunda colocada no Grupo 2, obtendo a ascens\u00e3o ao grupo das grandes escolas de samba:<\/p>\n<p><b><i>&#8220;Mulata Maior &#8211; A Divina Elizeth Cardoso<\/i><\/b><\/p>\n<p><i><span>(Jo\u00e3ozinho Empolga\u00e7\u00e3o, Pedro Paulo e Zeca Melodia)<\/span><\/i><br \/><i><span>Puxador: Carl\u00e3o Elegante<\/span><\/i><\/p>\n<div><i>&#8220;Lucas em tempo de carnaval<\/i><\/div>\n<div>\n<div><i>Da imagina\u00e7\u00e3o do nosso escritor<\/i><\/div>\n<div><i>Entre tantas coisas belas<\/i><\/div>\n<div><i>Cantar voc\u00ea, mulata, g\u00eanio musical<\/i><\/div>\n<div><i>Ouvi-la cantar<\/i><\/div>\n<div><i>\u00c9 um prazer em nosso dia a dia<\/i><\/div>\n<div><i>E nesta festa popular, a voc\u00ea<\/i><\/div>\n<div><i>Exaltamos com honras de alegria<\/i><\/div>\n<div><i><br \/><\/i><\/div>\n<div><i><b>Arrasta, mulata<\/b><\/i><\/div>\n<div><i><b>Sua sand\u00e1lia de ouro<\/b><\/i><\/div>\n<div><i><b>Levanta a poeira do asfalto<\/b><\/i><\/div>\n<div><i><b>Mulata maior, meu tesouro<\/b><\/i><\/div>\n<div><i><br \/><\/i><\/div>\n<div><i>No Municipal voc\u00ea foi sensa\u00e7\u00e3o<\/i><\/div>\n<div><i>No exterior, Brasil em forma de can\u00e7\u00e3o<\/i><\/div>\n<div><i>Hoje a nossa escola est\u00e1 feliz<\/i><\/div>\n<div><i>Porque ao inv\u00e9s de ouvi-la est\u00e1 cantando pra voc\u00ea<\/i><\/div>\n<div><i><br \/><\/i><\/div>\n<div><i><b>Vem, mulata, vem sorrir<\/b><\/i><\/div>\n<div><i><b>E cantar com essa gente<\/b><\/i><\/div>\n<div><i><b>Que est\u00e1 sempre a aplaudir&#8221;<\/b><\/i><\/div>\n<div><\/div>\n<div><a href=\"http:\/\/1.bp.blogspot.com\/_KYflagr2MuI\/TOGrcpilJwI\/AAAAAAAADCg\/eDoxOQd0QOk\/s1600\/elisete+cardoso+2.jpg\" imageanchor=\"1\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" border=\"0\" height=\"400\" src=\"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2010\/11\/elisete+cardoso+2.jpg\" width=\"400\"><\/a><\/div>\n<div><\/div>\n<div><\/div>\n<div><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ap\u00f3s um interregno razo\u00e1vel, a coluna &#8220;Resenha Liter\u00e1ria&#8221; est\u00e1 de volta. 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