{"id":11718,"date":"2010-11-19T06:52:00","date_gmt":"2010-11-19T08:52:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2010\/11\/cinecasulofilia-kiyoshi-kurosawa\/"},"modified":"2010-11-19T06:52:00","modified_gmt":"2010-11-19T08:52:00","slug":"cinecasulofilia-kiyoshi-kurosawa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2010\/11\/cinecasulofilia-kiyoshi-kurosawa\/","title":{"rendered":"Cinecasulofilia &#8211; &quot;Kiyoshi Kurosawa&quot;"},"content":{"rendered":"<div><a href=\"http:\/\/3.bp.blogspot.com\/_KYflagr2MuI\/TOGR-CcwRsI\/AAAAAAAADCU\/mFEEQE87mNQ\/s1600\/kiyoshi-kurosawa.jpg\" imageanchor=\"1\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" border=\"0\" height=\"263\" src=\"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2010\/11\/kiyoshi-kurosawa.jpg\" width=\"400\"><\/a><\/div>\n<p><\/p>\n<div>Mais uma sexta feira e mais uma coluna &#8220;Cinecasulofilia&#8221;, publicada em parceria <a href=\"http:\/\/cinecasulofilia.blogspot.com\/\">com o blog de mesmo nome<\/a> &#8211; que, ali\u00e1s, merece um visita detalhada.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Hoje temos um texto sobre o cineasta japon\u00eas Kiyoshi Kurosawa (foto), um pouco longo mas que vale muito a pena ser lido. Como sempre, autoria do cineasta, professor de cinema e cr\u00edtico Marcelo Ikeda.<\/div>\n<div><\/div>\n<div><\/div>\n<div><b><i>Kiyoshi Kurosawa<\/i><\/b><\/div>\n<div>\n<div><\/div>\n<div>Bom, como acontece uma mostra no CCBB\/RJ sobre o ainda pouco conhecido cineasta japon\u00eas Kiyoshi Kurosawa, achei que essa era uma oportunidade de postar aqui um texto escrito h\u00e1 pouco mais de um ano sobre v\u00e1rios filmes do cineasta. Este texto foi publicado na Revista Etcetera, mas como ela est\u00e1 fora do ar, tomei a liberdade de republic\u00e1-lo aqui&#8230;<\/div>\n<\/div>\n<div><\/p>\n<div>\n<div><i>Kiyoshi Kurosawa<\/i><\/div>\n<div><\/div>\n<div><i><b>1 &#8211; Introdu\u00e7\u00e3o<\/b><\/i><\/div>\n<div><\/div>\n<div>Um dos aspectos mais conhecidos do cinema contempor\u00e2neo japon\u00eas \u00e9 o seu di\u00e1logo com o cinema de g\u00eanero, especialmente no g\u00eanero terror ou suspense. Alguns filmes chegaram at\u00e9 mesmo a serem refilmados por Hollywood, como \u00e9 o caso de Ringu, de Hideo Nakata. Um desses diretores \u00e9 Kiyoshi Kurosawa, considerado atualmente um dos principais diretores do cinema japon\u00eas contempor\u00e2neo. Mas a associa\u00e7\u00e3o de Kurosawa com o cinema de g\u00eanero acaba por confundir ao inv\u00e9s de esclarecer sobre a natureza do cinema de Kurosawa. Apesar de ele ser mais conhecido por seus filmes at\u00edpicos de terror, por sua inspira\u00e7\u00e3o metaf\u00edsica, Kurosawa n\u00e3o dirigiu apenas filmes do g\u00eanero, como License to Live (um \u201cfilme de fam\u00edlia\u201d) e Barren Illusions revelam. Mesmo seus filmes mais t\u00edpicos n\u00e3o trabalham propriamente os elementos do cinema de terror. Em Pulse, por exemplo, os \u201cfantasmas\u201d n\u00e3o provocam nenhuma rea\u00e7\u00e3o f\u00edsica nos vivos, a n\u00e3o ser despertar sua percep\u00e7\u00e3o para algo t\u00e3o terr\u00edvel que eles n\u00e3o conseguem mais suportar a pr\u00f3pria exist\u00eancia.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Mas a carreira de Kiyoshi Kurosawa (nenhum parentesco com o Akira, mestre japon\u00eas) vem de bem antes. Come\u00e7ou a fazer filmes nos anos oitenta, filmes de baixo or\u00e7amento lan\u00e7ados diretamente no mercado de homevideo, em geral ligados ao g\u00eanero Yakuza. No entanto, mesmo dentro dos ex\u00edguos limites desse tipo de encomenda, Kurosawa come\u00e7ou a despertar a aten\u00e7\u00e3o dos cin\u00e9filos e cr\u00edticos japoneses em 1985 com The Excitement of the Do-Re-Mi-Fa Girl (t\u00edtulo em ingl\u00eas). No entanto, seu primeiro grande sucesso foi o thriller de suspense Cure (1997). Logo a seguir, conseguiu uma proeza: foi selecionado, no mesmo ano, para os festivais de Berlim (License to Live), Cannes (Charisma) e Veneza (Barren Illusions), transformando-o num dos principais nomes do cinema japon\u00eas.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Pulse, tamb\u00e9m exibido em Cannes, e com um di\u00e1logo direto com Cure, chegou a ser comprado pela Miramax para um remake, que seria dirigido por Wes Craven, mas depois o projeto foi abandonado. Com um ritmo menos intenso do que no final da d\u00e9cada de noventa, Kurosawa continua dirigindo seus trabalhos no Jap\u00e3o. O Festival de Cannes deste ano apresenta, na Quinzena dos Realizadores, seu novo trabalho: Tokyo Sonta.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Mesmo com toda a repercuss\u00e3o nos principais festivais de cinema do mundo e inclusive com a possibilidade de retorno comercial que v\u00e1rios dos filmes apresentam, at\u00e9 o momento nenhum dos filmes de Kiyoshi Kurosawa foi lan\u00e7ado comercialmente no Brasil. Alguns deles puderam ser vistos apenas em esparsas mostras de cinema, especialmente no Rio e em S\u00e3o Paulo. Recentemente um de seus filmes (Sakebi) foi lan\u00e7ado em homevideo sem alarde, com o estranho t\u00edtulo de V\u00edtima de uma Alucina\u00e7\u00e3o.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Essa \u00e9 portanto uma oportunidade de apontar para um mestre do cinema contempor\u00e2neo praticamente desconhecido do p\u00fablico cin\u00e9filo brasileiro.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>* * *<\/div>\n<div><i><b>2 \u2013 Aspectos Gerais<\/b><\/i><\/div>\n<div><\/div>\n<div>Como dissemos, a associa\u00e7\u00e3o do cinema de Kiyoshi Kurosawa com o g\u00eanero do terror, feita a partir da repercuss\u00e3o de seus maiores sucessos \u2013 Cure e Pulse \u2013 traz mais equ\u00edvocos do que esclarece sobre o esp\u00edrito dos filmes do diretor. Isto porque, no fundo, seus filmes t\u00eam uma inspira\u00e7\u00e3o realista: refletir sobre as ang\u00fastias existenciais de pessoas que vagueiam num Jap\u00e3o contempor\u00e2neo, sua inadapta\u00e7\u00e3o a um cen\u00e1rio de cont\u00ednua solid\u00e3o.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Mais que o cinema de terror, uma outra refer\u00eancia \u00e9 a de um \u201crealismo m\u00e1gico\u201d: a intera\u00e7\u00e3o de elementos externos que fazem com que os \u201cvivos\u201d reavaliem sua pr\u00f3pria exist\u00eancia. S\u00e3o os \u201cfantasmas\u201d de Pulse e Sakebi e mesmo a \u201c\u00e1gua viva\u201d de Bright Future. Os elementos da natureza tamb\u00e9m s\u00e3o utilizados de forma a provocar uma reflex\u00e3o sobre o distanciamento dos seres humanos de sua ess\u00eancia. Nesse ponto, a \u00e1gua viva de Bright Future possui uma rela\u00e7\u00e3o com a \u00e1rvore de Carisma. No entanto, esses elementos t\u00edpicos de um \u201ccinema fant\u00e1stico\u201d n\u00e3o provocam um ritmo \u00e1gil, um \u201ccinema de aventuras\u201d, mas quase o seu oposto: um cinema baseado nas ina\u00e7\u00f5es, com tempos contemplativos, planos gerais, planos longos com movimentos de c\u00e2mera sutilmente arquitetados. N\u00e3o h\u00e1 improviso no cinema de Kurosawa: tudo transmite uma sensa\u00e7\u00e3o de longo pesar, um desespero mudo. \u00c9 como se o mundo estivesse caindo a nossos p\u00e9s e acompanh\u00e1ssemos seu desmoronamento com imensa sobriedade.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Esse \u201crealismo\u201d do cinema de Kurosawa vem acompanhado de uma atmosfera sombria, asfixiante, de uma transforma\u00e7\u00e3o abrupta, geralmente pelo acaso ou por motivos n\u00e3o propriamente identificados. Em License to Live, um rapaz desperta ap\u00f3s dez anos de coma. Em Pulse, subitamente percebe-se que as pessoas come\u00e7am a ser invadidas por um sentimento obscuro, quando v\u00eaem a \u201csala escura\u201d. N\u00e3o h\u00e1 a tentativa de fuga do elemento m\u00e1gico, e sua ess\u00eancia n\u00e3o \u00e9 necessariamente ligada \u00e0 natureza do mal: ao contr\u00e1rio, muitas vezes vem associado com um estranho sentimento de liberta\u00e7\u00e3o dessa constante e terr\u00edvel necessidade de viver. Por isso, a morte e a juventude acabam sendo os dois principais motes do cinema de Kurosawa, e n\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que ambos caminhem lado a lado. O que parece estar em jogo \u00e9 a perspectiva do universo dos jovens poder refletir as transforma\u00e7\u00f5es progressivas da sociedade japonesa trazendo possibilidades mais humanas para si mesmos.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Em decorr\u00eancia disso, em algumas situa\u00e7\u00f5es os personagens se perguntam se o drama que est\u00e3o vivendo \u00e9 real ou n\u00e3o. \u00c9 o amb\u00edguo final de License to Live, ou mesmo a conversa \u00edntima dos dois personagens de Pulse. Ou ainda em Sakebi, quando os personagens v\u00eaem e at\u00e9 chagam a tocar nos fantasmas. Enclausurados num castelo de cartas leve e intrincado como a pr\u00f3pria vida, os personagens de Kurosawa enfrentam sua pr\u00f3pria possibilidade de se perceberem como vivos, ou como meros \u201cfantasmas de si mesmos\u201d. A conclus\u00e3o em geral \u00e9 pessimista, melanc\u00f3lica, mas com uma certa esperan\u00e7a. Esperan\u00e7a esguia, tipicamente japonesa, pois o que parece estar em jogo \u00e9 a possibilidade de vivermos em liberdade.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>De uma forma did\u00e1tica, vou dividir a filmografia recente de Kurosawa em dois grupos: o primeiro \u00e9 o dos t\u00edpicos \u201cthrillers de suspense\u201d, pelos quais o cinema de Kurosawa \u00e9 mais conhecido; o segundo \u00e9 que irei chamar de \u201cfilmes jovens\u201d, em que o aspecto criminal e o elemento fant\u00e1stico est\u00e1 reduzido, para propor uma esp\u00e9cie de retrato \u00edntimo da falta de perspectivas de uma juventude. Mas como iremos ver, evidentemente existem di\u00e1logos e pontos de interse\u00e7\u00e3o entre essas duas vertentes.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>* * *<\/div>\n<div><\/div>\n<div><i><b>3 \u2013 Os \u201cfilmes jovens\u201d<\/b><\/i><\/div>\n<div><\/div>\n<div><i>3.1 \u2013 License to Live e o desafio de \u201crecome\u00e7ar\u201d<\/i><\/div>\n<div><\/div>\n<div>License to Live, exibido no Festival de Berlim em 1998, pode surpreender quem espera por um filme de terror t\u00edpico da filmografia de Kurosawa. Est\u00e1 mais pr\u00f3ximo de um drama familiar: rapaz volta \u00e0 consci\u00eancia ap\u00f3s ter ficado dez anos em coma. Quando acorda, encontra um mundo um tanto diferente. Mas sua tentativa de adapta\u00e7\u00e3o a este \u201cnovo mundo\u201d cruza especialmente com quest\u00f5es familiares: seus pais se separaram, sua irm\u00e3 mora fora do pa\u00eds, seu pai basicamente n\u00e3o quer mais v\u00ea-lo. Passa a viver com um amigo de seu pai, administrando uma esp\u00e9cie de pequena fazenda. Dito assim, podemos imaginar License to Live como uma esp\u00e9cie de \u201csess\u00e3o da tarde\u201d mas o filme \u00e9 exatamente o oposto disso. Com planos extremamente longos e brilhantes movimentos de c\u00e2mera, License to Live apresenta a dif\u00edcil tarefa de Yutaka em (con)viver em um mundo que lhe \u00e9 estranho. Ele \u00e9 uma esp\u00e9cie de \u201cjovem prematuro\u201d: com 24 anos, j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 mais uma crian\u00e7a, e precisa viver sem o pai e sem a m\u00e3e. Mas por outro lado, \u00e9 como se ainda tivesse 14 anos. Dessa forma, License to Live \u00e9 uma varia\u00e7\u00e3o do tema do rito de passagem da juventude para a fase adulta.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>No entanto, sua maior particularidade \u00e9 que ao despertar do coma, Yutaka n\u00e3o quer olhar para tr\u00e1s, n\u00e3o deseja descobrir os rastros de seus dez anos perdidos, mas apenas reconstruir a sua vida de forma a que se possa caminhar para a frente. Dessa forma, n\u00e3o h\u00e1 um clima de melancolia ou de desespero na readapta\u00e7\u00e3o de Yutaka, e sim de um senso de novidade e desafios crescentes. Dramaturgicamente, a chave para esse processo \u00e9 a reforma do rancho, como espelho da constru\u00e7\u00e3o de um novo modo de vida. Ou seja, Yutaka n\u00e3o est\u00e1 preocupado em reconstruir o antigo lar ou recuperar o antigo estado de coisas, mas sim construir uma nova vida, um novo lar, ainda que com uma fam\u00edlia que n\u00e3o seja necessariamente a dele.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Para tanto, Kurosawa opta por uma dramaturgia baseada em pequenas a\u00e7\u00f5es (os encontros isolados com membros da fam\u00edlia, o processo de constru\u00e7\u00e3o do rancho, etc) e acontecimentos pontuais que n\u00e3o est\u00e3o ligados entre si necessariamente por uma rela\u00e7\u00e3o de causa e efeito. Da mesma forma, n\u00e3o h\u00e1 um perfil psicol\u00f3gico claro de Yutaka, n\u00e3o h\u00e1 uma defini\u00e7\u00e3o com clareza do que o personagem procura, e nem mesmo h\u00e1 um conflito claramente estabelecido. Ao mesmo tempo n\u00e3o h\u00e1 os cacoetes do cinema autoral, com tempos vazios que exploram a ang\u00fastia e a solid\u00e3o de Yutaka. Isso existe mas n\u00e3o da forma como o estere\u00f3tipo do cinema autoral contempor\u00e2neo nos oferece. N\u00e3o h\u00e1 tempo ou espa\u00e7o para a poss\u00edvel melancolia de Yutaka: ele sempre est\u00e1 cheio de coisas para fazer!<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Ainda assim, h\u00e1 uma indiscut\u00edvel afetividade na forma como Kurosawa acompanha a trajet\u00f3ria de seu protagonista. A rela\u00e7\u00e3o de Kurosawa com Yutaka (isto \u00e9, do diretor com seu protagonista) \u00e9 quase como a de Yutaka com seu cavalo. Ainda que Yutaka n\u00e3o acaricie e proteja seu cavalo como um mero bibel\u00f4, eles guardam uma rela\u00e7\u00e3o de clara cumplicidade.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Mas quando tudo parece pronto para o equil\u00edbrio final \u2013 fruto do trabalho persistente de Yutaka \u2013 Kurosawa est\u00e1 pronto para fazer uma conclus\u00e3o severa: \u00e9 quanto tudo est\u00e1 prestes a desmronar. Pois viver \u00e9 sempre estar na corda-bamba, \u00e0 merc\u00ea de um sopro para que tudo desmorone, como um longo castelo de cartas. Yutaka fala ao seu algoz com um leve sorriso de canto de boca: \u201cEu vim de algum lugar e vou para algum lugar.\u201d. Esse \u00e9 o cinema de Kurosawa, em que os personagens est\u00e3o sempre \u00e0 procura, mesmo que eles n\u00e3o saibam ao certo de qu\u00ea. \u00c9 como se Kurosawa nos dissesse que algumas pessoas podem passar anos de suas vidas desacordados, at\u00e9 que subitamente possam despertar e reencontrar o sentido de viver. E quando acham, tudo est\u00e1 pr\u00f3ximo do fim. Perto do fim, chega a duvidar se tudo aquilo realmente existiu, ou se seu despertar do coma n\u00e3o foi meramente um sonho (ou seria um filme?). Mas Fujimori san (o amigo de seu pai que lhe hospeda) lhe responde com convic\u00e7\u00e3o que n\u00e3o h\u00e1 d\u00favidas que ele existe, que tudo \u00e9 real. N\u00e3o satisfeito, Kurosawa faz um final ainda mais sinistro, e um \u00faltimo plano extremamente misterioso, de um cart\u00e3o-postal em branco. Esta \u00e9 a recorda\u00e7\u00e3o poss\u00edvel da exist\u00eancia mete\u00f3rica de Yutaka, e do filme-cometa de Kurosawa, este objeto deliciosamente estranho.<\/div>\n<div><\/div>\n<div><i>3.2 \u2013 Barren Illusions<\/i><\/div>\n<div><\/div>\n<div>Ainda n\u00e3o satisfeito, pouco tempo depois Kurosawa realizou Barren Illusions, exibido no Festival de Veneza em 1998. A particularidade deste projeto \u00e9 que ele foi produzido pela Escola de Cinema de T\u00f3quio, em que Kurosawa era professor. Era um projeto para envolver os alunos na realiza\u00e7\u00e3o de um longa-metragem, em que os alunos participavam da produ\u00e7\u00e3o, com a exce\u00e7\u00e3o do diretor de fotografia, c\u00e2mera e som. Todas as demais fun\u00e7\u00f5es foram feitas por alunos. Mesmo com as naturais limita\u00e7\u00f5es deste tipo de projeto, Barren Illusions \u00e9 um dos projetos mais admir\u00e1veis de Kurosawa, e n\u00e3o \u00e9 por acaso sua sele\u00e7\u00e3o por um festival da envergadura de Veneza. Por outro lado, \u00e9 tamb\u00e9m um objeto estranho na filmografia de Kurosawa: distante do r\u00f3tulo do \u201ccinema de g\u00eanero terror\u201d, \u00e9 mais uma investiga\u00e7\u00e3o das ang\u00fastias dos jovens japoneses.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>O filme acompanha a vida de um m\u00fasico (Shinji Takeda) e uma funcion\u00e1ria dos correios (Miako Tadano). Eles moram juntos, mas o filme n\u00e3o deixa muito claro se s\u00e3o amantes ou apenas amigos. Provavelmente apenas amigos, pois suas vidas se cruzam de forma muito esparsa. Eles vivem solit\u00e1rios, e a \u00fanica forma de viver em um grupo \u00e9 quando ele se aproxima de um bando de delinquentes ou quando ela se junta a uma torcida de futebol. A solid\u00e3o desses dois jovens \u00e9 mostrada a partir de um cinema de planos longos e sem di\u00e1logos, com pequenos acontecimentos sem necess\u00e1ria liga\u00e7\u00e3o entre si, que os mostram dentro de seu apartamento ou perambulando por uma cidade de T\u00f3quio em geral com tons acinzentados, nublados, sem grande brilho, como o pr\u00f3prio t\u00edtulo \u2013 Barren Illusions \u2013 nos informa.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Em alguns momentos esses dois personagens tentam fugir da solid\u00e3o. Tentam acompanhar uma vida que n\u00e3o lhes pertence (o sequestro das cartas do correio, as brigas dos vizinhos), compram um cachorro para lhes fazer companhia, pintam as paredes do apartamento, brincam de bola num parque (uma sequ\u00eancia linda). Mas parece que nada faz muita diferen\u00e7a. A solid\u00e3o e o vazio de suas vidas preenchem todo o filme.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Barren Illusions tamb\u00e9m \u00e9 composto de alguns elementos n\u00e3o-realistas, t\u00edpicos da filmografia de Kurosawa: um suic\u00eddio radical (que depois ser\u00e1 retomado em Pulse), uma epidemia, as s\u00fabitas \u201cdesintegra\u00e7\u00f5es\u201d de Haru.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>O final de Barren Illusions ainda nos revela mais surpresas. H\u00e1 um fant\u00e1stico movimento de c\u00e2mera em 180 graus, que nos revela o mar. Em seguida, um di\u00e1logo arrepiante. Michi entra em desespero quando v\u00ea no mar um esqueleto.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>&#8211; Tudo acaba assim!!!&#8230; Acabar\u00e1 tudo assim?<\/div>\n<div>&#8211; Mas eu estou contigo!<\/div>\n<div>&#8211; Mas onde est\u00e1s?<\/div>\n<div>&#8211; Estou bem aqui, n\u00e3o me v\u00eas?<\/div>\n<div>&#8211; Onde?<\/div>\n<div>&#8211; Aqui!<\/div>\n<div>&#8211; Aqui aonde?<\/div>\n<div>&#8211; Eu\u2026 onde eu estou?<\/div>\n<div><\/div>\n<div><i>3.3 \u2013 \u00c1gua-Viva<\/i><\/div>\n<div><\/div>\n<div>Bright Future, exibido em algumas mostras no Brasil como \u00c1gua Viva, \u00e9 um trabalho que combina elementos dos \u201cdramas realistas jovens\u201d com outros dos \u201cfilmes de inspira\u00e7\u00e3o fant\u00e1stica\u201d. Novamente Kurosawa utiliza algumas conven\u00e7\u00f5es de um g\u00eanero espec\u00edfico do cinema japon\u00eas, o \u201cfilme de monstro\u201d, apenas para completamente subverter suas rela\u00e7\u00f5es com esse g\u00eanero. Dois jovens trabalham numa pequena f\u00e1brica e t\u00eam a chance de serem efetivados. Um deles Yuji Niimura (Jo Odagiri) \u00e9 t\u00edmido e se v\u00ea profundamente influenciado pelo outro amigo Mamoru Arita (Tadanobu Asano), que possui em seu apartamento uma \u00e1gua-viva que solta uma subst\u00e2ncia venenosa. Ao perceber que tinha tentando lhe matar deixando que colocasse a m\u00e3o no interior do aqu\u00e1rio, o chefe demite Mamoru. Ele ent\u00e3o mata n\u00e3o s\u00f3 o chefe como sua fam\u00edlia, sendo preso e esperando a senten\u00e7a, provavelmente a pena de morte. Seu amigo o visita na pris\u00e3o, e recebe instru\u00e7\u00f5es de como alimentar a \u00e1gua-viva.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Yuji tem uma vida que praticamente n\u00e3o lhe pertence, \u00e0 sombra de Mamoru. Com a morte desse amigo, ele \u00e9 obrigado a \u201cdespertar para a vida\u201d (usando a terminologia de License to Live). Ele passa a viver com o pai desse amigo, formando uma esp\u00e9cie de fam\u00edlia com esse velho solit\u00e1rio (outra semelhan\u00e7a com License to Live).<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Mas a chave de entendimento do filme \u00e9 a presen\u00e7a misteriosa, silenciosa e soturna da \u00e1gua-viva. Ela \u00e9 como uma esp\u00e9cie de \u201cespelho do mundo\u201d: vive em seu sil\u00eancio, mas quando tocada, \u00e9 mortal. Por outro lado, ao ser cuidada, ela acaba crescendo e se multiplicando, avan\u00e7ando pelo mundo ao ser despejada num rio, causando a morte de pessoas do bairro.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>\u00c1gua Viva \u00e9 dessa forma um filme sombrio, talvez t\u00e3o sombrio quanto Pulse. A falta de perspectivas dos jovens japoneses (o plano final \u00e9 bastante caracter\u00edstico, mostrando jovens caminhando ao l\u00e9u com camisas de Che Guevara, chutando caixas vazias) \u00e9 mostrada a partir dessa enigm\u00e1tica \u00e1gua-viva, quase um s\u00edmbolo dos \u201cfilmes-cometa\u201d de Kurosawa. Sua beleza fascina mas pode ser apenas observada, a partir de uma certa dist\u00e2ncia: um toque gera a morte (a dificuldade do toque \u00e9 um tema essencialmente japon\u00eas\u2026). Quase como o mundo, cuja beleza parece ser impenatr\u00e1vel, inacess\u00edvel. A morte de Mamoru passa a ser uma esp\u00e9cie de liberta\u00e7\u00e3o para Yuji, que agora precisa tormar suas pr\u00f3prias decis\u00f5es. Mas que decis\u00f5es tomar nesse nosso mundo?<\/div>\n<div><\/div>\n<div>As \u00e1guas-vivas avan\u00e7am atrav\u00e9s do rio, e chegam perto das pessoas, para sua alegria ou trag\u00e9dia. \u00c9 quase como o cinema de Kurosawa, que cultiva esse sentimento de dor para prolifer\u00e1-lo atrav\u00e9s dos canais do mundo.<\/div>\n<div><\/div>\n<div><b><i>4 \u2013 Os falsos \u201cthrillers de suspense\u201d<\/i><\/b><\/div>\n<div><\/div>\n<div><i>4.1 \u2013 Aspectos Gerais<\/i><\/div>\n<div><\/div>\n<div>Kurosawa tornou-se mais conhecido pelos \u201cthrillers de suspense\u201d que descreveremos a seguir. S\u00e3o projetos realizados com um or\u00e7amento maior, a partir de Cure (1997), o primeiro grande sucesso da filmografia de Kurosawa. Nesses filmes, h\u00e1 uma abordagem amb\u00edgua do cinema de g\u00eanero. Em Cure e Sakebi, parecemos estar no campo do \u201cfilme criminal\u201d, em que um policial tenta descobrir o sujeito e os motivos para uma s\u00e9rie de crimes. Em Pulse, estamos no campo propriamente dito do terror, pois as mortes, a princ\u00edpios, parecem ser causadas por \u201cfantasmas\u201d. No entanto, esses campos se cruzam: em Sakebi, tamb\u00e9m surgem fantasmas que impulsionam os assassinatos; Pulse apresenta uma estrutura t\u00edpica de um filme criminal, com \u201cpistas\u201d e \u201csinais\u201d para que tentemos descobrir os motivos dos crimes.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Mas a particularidade do cinema de Kurosawa nesse conjunto de filmes \u00e9 que, indo al\u00e9m das conven\u00e7\u00f5es espec\u00edficas do cinema de g\u00eanero, e trabalhando nas bifurca\u00e7\u00f5es entre esses mesmos g\u00eaneros, \u00e9 como se Kurosawa utilizasse elementos do cinema de g\u00eanero para no fundo fazer uma investiga\u00e7\u00e3o da natureza humana. Mais que descobrir os crimes e suas raz\u00f5es, os personagens de Kurosawa empenhados na busca (o policial ou os jovens) acabam no fundo descobrindo a si mesmos. Em Cure e Sakebi, isso \u00e9 muito caracter\u00edstico: esse \u201cpolicial dur\u00e3o\u201d acaba ao longo dos filmes revelando suas fragilidades emocionais e sua car\u00eancia afetiva. Os fantasmas e os assassinos s\u00e3o t\u00e3o importantes porque eles revelam sinais imposs\u00edveis de serem apagados para os que continuam vivos. Por isso quanto mais os personagens se aproximam dos assassinos, mais eles est\u00e3o perto de revelar a si mesmos a sua verdadeira natureza. Ou seja, uma tortuosa e dolorosa odiss\u00e9ia existencial.<\/div>\n<div><\/div>\n<div><i>4.2 \u2013 Cure<\/i><\/div>\n<div><\/div>\n<div>Cure foi o primeiro grande sucesso internacional de Kurosawa, em que o diretor encontra de forma madura seu estilo e forma de abordagem caracter\u00edsiticos. Grande hit comercial no Jap\u00e3o, o filme conseguiu projetar-se para o Ocidente ap\u00f3s grande repercuss\u00e3o no Festival de Cinema de T\u00f3quio. Em seguida, garantiu proje\u00e7\u00e3o no Festival de Rotterdam, e da\u00ed em diante a filmografia de Kurosawa deslanchou.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>A princ\u00edpio, Cure parece ser um t\u00edpico thriller de suspense, na linha de alguns filmes de americanos de g\u00eanero, em que um policial tenta solucionar um conjunto de assassinatos. Pessoas aparentemente comuns, em lugares diferentes, cometem um mesmo tipo de assassinato m\u00f3rbido, provocando em suas v\u00edtimas um corte profundo em forma de \u201cX\u201d que vai do pesco\u00e7o at\u00e9 o t\u00f3rax. O detetive Kenichi Takabe (representado de forma magistral por K\u00f4ji Yakusho, presente em diversos outros filmes de Kurosawa) investiga o caso com a ajuda de um psiquiatra.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>No entanto, o que surpreende em Cure \u00e9 a densidade do aspecto psicol\u00f3gico, especialmente na caracteriza\u00e7\u00e3o do detetive. \u00c0 medida em que vai se aprofundando no caso como quase uma obsess\u00e3o e que se aproxima do mentor desses crimes, esse detetive vai se descrobindo, e, com isso, o espectador presencia os seus limites e as dificuldades de sua vida pessoal, especialmente em sua rela\u00e7\u00e3o com sua esposa doente. As regras do t\u00edpico cinema de g\u00eanero v\u00e3o se tornando cada vez mais difusas, e em seu ter\u00e7o final, Cure se revela um asfixiante drama sobre as contradi\u00e7\u00f5es da natureza humana, seus limites e um sinistro desejo de morte.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Diversas das caracter\u00edsticas desenvolvidas posteriormente por Kurosawa podem ser vistas em Cure. Primeiro, o aspecto sombrio, e a falta do horizonte e espa\u00e7os abertos em externas quase sempre nubladas. Segundo, uma m\u00f3rbida atra\u00e7\u00e3o e ao mesmo tempo uma repulsa diante da proximidade da morte. Terceiro, um cinema de ambiguidades em rela\u00e7\u00e3o ao cinema de g\u00eanero. Quarto, uma mise en scene elaborada, em geral com planos longos, ainda que com relativamente poucos tempos vazios. Quinto, a op\u00e7\u00e3o por finais abertos, inconclusivos.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Representa\u00e7\u00e3o amb\u00edgua da natureza do mal, o criminoso de Cure \u00e9 um estudioso, um mestre da manipula\u00e7\u00e3o da mente humana. Sua caracter\u00edstica encantadora \u00e9 sua imensa serenidade, seu senso de observa\u00e7\u00e3o e curiosidade diante de conhecer o outro. Seu m\u00e9todo de abordagem se baseia em retornar as perguntas, questionando os mais simples pontos de contato, causando uma desorienta\u00e7\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que as principais perguntas s\u00e3o \u201cquem sou?\u201d ou \u201conde estou?\u201d: quase uma s\u00edntese da busca do cinema de Kurosawa pela ess\u00eancia da natureza humana e pela investiga\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o f\u00edlmico. Avan\u00e7ando em forma de espiral, de forma cont\u00ednua e de propor\u00e7\u00f5es crescentes, Cure \u00e9 quase um estudo sobre a genealogia do mal. A partir de uma repentina apari\u00e7\u00e3o (a primeira vez que o criminoso aparece \u00e9 \u00e0 beira do mar), o mal se infiltra na apodrecida sociedade de T\u00f3quio, impulsionando as pessoas a cometerem um ato que no fundo elas sempre gostariam de fazer mas que procuravam reprimir (essa \u00e9 a ambiguidade de Cure). O criminoso n\u00e3o causa diretamente um mal \u00e0s pessoas com quem ele tem contato: sua \u201csutileza\u201d \u00e9 que ele as leva a refletir sobre o que lhes causa prazer ou dor, e as impulsiona para um crime. Mas exterminado o criminoso, qual \u00e9 a certeza de que novos atos n\u00e3o ocorrer\u00e3o mesmo assim? O mal \u00e9 como um v\u00edrus, que uma vez germinado, est\u00e1 pronto para se proliferar, sem controle. \u00c9 esta a caracter\u00edstica comum entre os \u201cthrillers de suspense\u201d de Kurosawa, e inclusive pode ser visto em \u00c1gua-Viva, nesse ser aparentemente ing\u00eanuo que pode causar a morte e se multiplica pela cidade.<\/div>\n<div><\/div>\n<div><i>4.3 \u2013 Pulse\u00a0<\/i><\/div>\n<div><\/div>\n<div>Pulse come\u00e7a num navio navegando ao longo do oceano, uma esp\u00e9cie de imagem-s\u00edntese do dircurso de desespero do filme. \u201cTudo come\u00e7ou um dia sem aviso desta maneira\u201d, e atrav\u00e9s de um flashback somos apresentados a uma esp\u00e9cie de vers\u00e3o do apocalipse. \u201cSem aviso\u201d, \u00e9 como se uma esp\u00e9cie de v\u00edrus tivesse invadido a mente e o corpo dos habitantes de T\u00f3quio, em especial os jovens. Ao ter contato com a \u201csala escura\u201d, em geral por um programa de computador (a analogia com o \u201cv\u00edrus\u201d), os jovens come\u00e7am a ver \u201cfantasmas\u201d. Os fantasmas levam \u00e0 morte, mas assim como o assassino de Cure, eles n\u00e3o causam mal diretamente aos que os v\u00eaem, mas, como um personagem define mais adiante no filme, \u201cos fantasmas tentam apanhar as pessoas em sua pr\u00f3pria solid\u00e3o\u201d. Pulse acompanha em paralelo dois casos, que se encontrar\u00e3o no final: o primeiro, de duas amigas, Michi e Junko; o segundo, de Kawashima e Harue, que trabalha num laborat\u00f3rio de inform\u00e1tica.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Pulse, a princ\u00edpio nos parece um t\u00edpico filme de terror, com a presen\u00e7a de \u201cfantasmas\u201d que assombram a exist\u00eancia dos vivos e os levam \u00e0 morte. Mas com o tempo Pulse vai se tornando cada vez mais metaf\u00edsico, sobre o destino certo da condi\u00e7\u00e3o humana: a solid\u00e3o profunda (a morte). Por isso, mesmo com um certo exagero, alguns cr\u00edticos viram em Pulse (e tamb\u00e9m em Cure) estilha\u00e7os do cinema de Tarkovski, pela investiga\u00e7\u00e3o metaf\u00edsica da condi\u00e7\u00e3o humana, pelos sil\u00eancios e espa\u00e7os f\u00edsicos at\u00edpicos, reinventados. A cidade de T\u00f3quio \u00e9 sempre vista como um cen\u00e1rio sombrio, nublado, em que ruas e mesmo ve\u00edculos coletivos (\u00f4nibus, metr\u00f4) est\u00e3o sempre completamente vazios.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Apesar de os fantasmas n\u00e3o causarem nenhum dano f\u00edsico direto a quem os v\u00eaem, eles est\u00e3o vivos, eles possuem uma presen\u00e7a f\u00edsica. Kawashima chega a tocar o fantasma quando entra na \u201csala escura\u201d, e ouve \u201ceu sou real\u201d. Uma das principais discuss\u00f5es de Pulse \u00e9 sobre a natureza do nosso mundo. Em um di\u00e1logo central (filmado num incr\u00edvel plano sequ\u00eancia de cinco minutos), Kawashima tenta acalmar Harue. Diz que Harue est\u00e1 errada por achar que fantasmas e pessoas s\u00e3o iguais, porque afinal estamos vivos.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>\u201cEst\u00e3o todos loucos. Ningu\u00e9m sabe o que acontece quando se morre. Tudo isso sobre fantasmas, por\u00e9m eu n\u00e3o acredito neles, mesmo se ver um. Por\u00e9m eu sei que&#8230;que eu estou vivo e que voc\u00ea tamb\u00e9m, Harue.Isso \u00e9 seguro, certo?\u201d<\/div>\n<div><\/div>\n<div>No metr\u00f4, h\u00e1 um lindo di\u00e1logo entre Kawashima e Harue, que refor\u00e7a o di\u00e1logo anterior.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>H: N\u00e3o tem ningu\u00e9m&#8230;<\/div>\n<div>K: N\u00e3o&#8230;<\/div>\n<div>H: Onde est\u00e1 todo mundo?<\/div>\n<div>K: Estou aqui. Estou aqui do teu lado. Mesmo que n\u00e3o tenha mais ningu\u00e9m, isso n\u00e3o importa. Ambos estamos aqui.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>O amor pode parecer o \u00fanico rem\u00e9dio para o \u201cdestino certo da condi\u00e7\u00e3o humana\u201d, ou ao menos para reverter a evolu\u00e7\u00e3o do v\u00edrus. Mas apenas parece, pois Kawashima n\u00e3o consegue salvar Harue, nem Michi consegue salvar Junko. Pulse possui uma natureza cada vez mais pessimista e fatalista.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Pulse possui uma estrutura em espiral, assim como Cure, em que os fatos tomam consequ\u00eancias cada vez maiores, at\u00e9 um final que parece uma vers\u00e3o do apocalipse. E um final em aberto, esperan\u00e7a esguia da possibilidade dessa \u201caposta\u201d que \u00e9 continuar vivendo, ainda que num barco sem rumo ao longo do oceano.<\/div>\n<div><\/div>\n<div><i>4.4 \u2013 Sakebi (Retribution) \u2013 V\u00edtima de Uma Alucina\u00e7\u00e3o<\/i><\/div>\n<div><\/div>\n<div>Sakebi, lan\u00e7ado no mercado de homevideo brasileiro com o t\u00edtulo de V\u00edtima de Uma Alucina\u00e7\u00e3o, foi exibido com discri\u00e7\u00e3o no Festival de Veneza em 2006. Tem in\u00fameros pontos de contato com Cure, por tamb\u00e9m mostrar um policial (representado pelo mesmo ator, o excelente K\u00f4ji Yakusho) que investiga uma s\u00e9rie de assassinatos com uma mesma caracter\u00edstica (ao inv\u00e9s do \u201cX\u201d de Cure agora \u00e9 o afogamento numa po\u00e7a de \u00e1gua salgada). Algumas cenas chegam a quase se repetir, como o depoimento de um dos assassinos, que tem um del\u00edrio e revela sua insanidade (em Cure, isso ocorre num estonteante plano sequ\u00eancia de mais de cinco minutos). Mas por outro lado, Sakebi possui elementos que tornam ainda mais complexa a busca do policial pelo assassino: ele aos poucos vai descobrindo ind\u00edcios de que talvez ele pr\u00f3prio tenha cometido o assassinato. Isso poderia nos associar at\u00e9 a alguns filmes \u201cneonoir\u201d americanos dos anos oitenta (especialmente Cora\u00e7\u00e3o Selvagem), s\u00f3 que h\u00e1 ainda outra caracter\u00edstica, t\u00edpica do cinema de Kurosawa, que tornar\u00e1 essa busca mais estranha: o fantasma da primeira v\u00edtima assassinada aparece continuamente para o policial. A forma como Kurosawa mostra o aparecimento desse \u201cfantasma\u201d esgar\u00e7a definitivamente os limites entre o real e a alucina\u00e7\u00e3o. Kurosawa presentifica e corporifica esses fantasmas, de forma que os atormentados personagens de Sakebi acabam contracenando com eles. Nesse sentido, retoma alguns conceitos de Pulse, em que na \u201csala escura\u201d as pessoas interagem com os fantasmas.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Por isso Sakebi deve ser visto como uma tentativa de ampliar (tornar mais complexo) o escopo de Cure e Pulse, seja no processo de busca do assassino como revelador da natureza pr\u00f3pria do policial (Cure) seja na intera\u00e7\u00e3o dos \u201cfantasmas\u201d com os vivos de forma a tornar amb\u00edguos os limites do real e da alucina\u00e7\u00e3o (Pulse). No entanto, falta uma conclus\u00e3o que articule de forma mais org\u00e2nica esses dois elementos, e as solu\u00e7\u00f5es encontradas (um hospital psiqui\u00e1trico do passado, a morte da mulher do policial) acabam parecendo solu\u00e7\u00f5es desgastadas distantes do asfixiante processo de espiral contido tanto em Cure quanto em Pulse.<\/div>\n<div><\/div>\n<div><b><i>Carisma<\/i><\/b><\/div>\n<div><\/div>\n<div>O primeiro aspecto de Carisma \u00e9 sua ambiguidade em rela\u00e7\u00e3o ao cinema de g\u00eanero. A princ\u00edpio, o filme mostra mais um policial representado por K\u00f4ji Yakusho em a\u00e7\u00e3o. Mas a partir do resultado negativo de uma interven\u00e7\u00e3o, que culminou com a morte de um criminoso e de um sequestrado, o policial \u00e9 enviado para o interior, para uma esp\u00e9cie de retiro. \u00c9 quando se envolve numa hist\u00f3ria misteriosa, envolvendo a disputa por uma \u00e1rvore, apelidada de Carisma, considerada essencial para o equil\u00edbrio de uma floresta.\u00a0<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Nisso, o filme muda totalmente de tom, e sua base inicial do filme policial se revela uma hist\u00f3ria de conota\u00e7\u00e3o metaf\u00edsica sobre a vida e a verdade. De uma certa forma, o clima metaf\u00edsico que acaba se impondo \u00e0s conven\u00e7\u00f5es do cinema de g\u00eanero, especialmente do filme policial ou de detetive, \u00e9 comum ao cinema de Kurosawa, como abordamos especialmente em Cure e Sakebi.\u00a0<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Mas em Carisma a ruptura com o cinema de g\u00eanero \u00e9 mais radical: \u00e9 como se seu in\u00edcio fosse uma esp\u00e9cie de Cinzas que Queimam, de Nicholas Ray, e ao final percebemos que se torna uma esp\u00e9cie de A Morte Num Beijo, de Robert Aldrich, ali\u00e1s, dois filmes de dos anos cinquenta de cineastas americanos que, em sua \u00e9poca, romperam conven\u00e7\u00f5es de um certo cinema de g\u00eanero, e que Kurosawa j\u00e1 demonstrou em entrevistas a sua admira\u00e7\u00e3o.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Carisma antecipa os temas desenvolvidos posteriormente em \u00c1gua-Viva. Um deles fala da necessidade de se fazer escolhas. A puni\u00e7\u00e3o do policial se d\u00e1 porque ele acreditava que seria poss\u00edvel salvar as duas vidas: a do criminoso e a do sequestrado. No final, houve a morte de ambos: muitas vezes \u00e9 imposs\u00edvel salvar a todos. \u00c9 preciso ent\u00e3o fazer uma escolha. A travessia do policial representado por Yakusho ao longo da floresta representa a maturidade para se fazer essa escolha: a quem salvar e a quem executar. A floresta serve como uma esp\u00e9cie de travessia espiritual para que o policial decida de que lado deve ficar. O problema \u00e9 que muitas vezes a verdade \u00e9 difusa, de modo que n\u00e3o se base em que lado se quer ficar.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>O segundo tema \u00e9 a da possibilidade de se conviver com a diferen\u00e7a. A \u00e1rvore de Charisma guarda in\u00fameros paralelos com a \u00e1gua-viva de Bright Future. Ambas s\u00e3o seres fr\u00e1geis, aparentemente indefesos, mas que espalham um veneno que pode matar quem lhe toca. Espalhar esse veneno, proliferar esses seres, representaria a possibilidade de luta pela diferen\u00e7a ou aniquila\u00e7\u00e3o de uma comunidade?\u00a0<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Kurosawa trabalha com os elementos do cinema fant\u00e1stico, e coloca diversos pontos de vista em rela\u00e7\u00e3o a essa \u00e1rvore: o de um solit\u00e1rio lun\u00e1tico, que a protege como se fosse sua pr\u00f3pria vida, a de uma cientista, que julga que a \u00e1rvore representa a destrui\u00e7\u00e3o do ecossistema da floresta, e de um bando, que busca a explora\u00e7\u00e3o madeireira do lugar. Entre o cora\u00e7\u00e3o, a raz\u00e3o e a gan\u00e2ncia, o policial precisa fazer uma escolha, e para isso, mergulha numa floresta com pistas difusas.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>A partir de Charisma, alguns cr\u00edticos viram no cinema de Kurosawa uma associa\u00e7\u00e3o com Tarkowski. Essa compara\u00e7\u00e3o contribui mais para confundir do que para esclarecer os objetivos de Kurosawa, at\u00e9 porque, como dissemos, sua ambiguidade em rela\u00e7\u00e3o ao cinema de g\u00eanero \u00e9 um elemento fundamental de sua filmografia. Mas \u00e9 curioso como podemos ver Carisma em compara\u00e7\u00e3o com O Sacrif\u00edcio, de Tarkowski.\u00a0<\/div>\n<div><\/div>\n<div>O policial toma conta de uma fr\u00e1gil \u00e1rvore, que \u00e9 vista quase como s\u00edmbolo da salva\u00e7\u00e3o de um mundo materialista. Al\u00e9m disso, a vis\u00e3o n\u00e3o-realista da floresta e os di\u00e1logos filos\u00f3ficos dos personagens remetem a algumas cenas de Stalker. Ainda, a forma como Kurosawa comp\u00f5e os espa\u00e7os f\u00edsicos, com casas abandonadas, com vidra\u00e7as quebradas e espa\u00e7os vazios lembram algumas das op\u00e7\u00f5es do cineasta russo. Mas creio que esses elementos s\u00e3o mais pontos em comum do que propriamente tentativas de di\u00e1logo entre os dois autores.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Realizado em 1999, Charisma aponta para um estranhamento da filmografia de Kurosawa: n\u00e3o \u00e9 nem um \u201cfilme de juventude\u201d nem \u201cum thriller de suspense\u201d. Seu arremedo de \u201ccinema fant\u00e1stico\u201d contrasta com uma mise en sc\u00e8ne de inspira\u00e7\u00e3o realista, especialmente na forma como o cineasta retrata a floresta: ao redor da \u00e1rvore Charisma, h\u00e1 um espa\u00e7o dessacralizado, como se nenhum elemento apontasse para o fato de que aquela \u00e1rvore \u00e9 especial.\u00a0<\/div>\n<div><\/div>\n<div>No entanto, junto com Cure, talvez seja o filme em que Kurosawa mais explicita a ambi\u00e7\u00e3o metaf\u00edsica de seu cinema. \u00c0 medida em que avan\u00e7a para o seu final, Charisma retoma os temas de seu in\u00edcio: o fracasso do policial em proteger a fr\u00e1gil Charisma possui o contraponto do fortalececimento interior de uma \u00e9tica. O sistema destr\u00f3i a liberdade de ser em disson\u00e2ncia do outro: \u00e9 preciso que a \u00e1rvore se integre ao ecossistema da floresta para que possa sobreviver, sen\u00e3o \u00e9 aniquilada. \u00c9 a partir da consci\u00eancia dessa tragicidade que o policial se declara pronto para deixar a floresta e regressar \u00e0 sua rotina na cidade de T\u00f3quio.<\/div>\n<div><\/div>\n<div><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mais uma sexta feira e mais uma coluna &#8220;Cinecasulofilia&#8221;, publicada em parceria com o blog de mesmo nome &#8211; que, ali\u00e1s, merece um visita detalhada.Tour Details<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[14],"tags":[13,12,11],"class_list":["post-11718","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-cinecasulofilia","tag-cinema","tag-cultura","tag-marcelo-ikeda"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11718","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11718"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11718\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11718"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=11718"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=11718"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}