{"id":11716,"date":"2010-11-20T09:07:00","date_gmt":"2010-11-20T11:07:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2010\/11\/sobretudo-as-coisas-boas-da-vida\/"},"modified":"2010-11-20T09:07:00","modified_gmt":"2010-11-20T11:07:00","slug":"sobretudo-as-coisas-boas-da-vida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2010\/11\/sobretudo-as-coisas-boas-da-vida\/","title":{"rendered":"Sobretudo &#8211; &quot;As Coisas Boas da Vida&quot;"},"content":{"rendered":"<div><a href=\"http:\/\/1.bp.blogspot.com\/_KYflagr2MuI\/TOZolhrk9BI\/AAAAAAAADCk\/9YvmCLCz7Vk\/s1600\/21_MHG_mun_novicarebelde.jpg\" imageanchor=\"1\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" border=\"0\" height=\"255\" src=\"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2010\/11\/21_MHG_mun_novicarebelde.jpg\" width=\"400\"><\/a><\/div>\n<p><\/p>\n<div>Mais um s\u00e1bado, final de semana corrido, e de volta ao seu dia habitual a coluna &#8220;Sobretudo&#8221;, assinada pelo publicit\u00e1rio Affonso Romero.<\/p>\n<p>Em u mmundo onde cada vez mais a imprensa enfoca as coisas ruins do dia a dia, texto leve e agradabil\u00edssimo sobre tudo o que gostamos e nos d\u00e1 prazer. Imperd\u00edvel.<\/p>\n<p><b>As coisas boas da vida<\/b><\/p>\n<p>Durante a vida inteira, vi o filme A Novi\u00e7a Rebelde algumas dezenas de vezes. \u00a0Umas cem, talvez. Realizado em 1965, ano anterior ao meu nascimento, e considerado um dos \u00faltimos grandes musicais da fase de ouro do g\u00eanero em Hollywood, o filme estrelado por Julie Andrews \u00e9 um cl\u00e1ssico da minha e outras gera\u00e7\u00f5es. Fui percebendo, com o passar dos anos, que outros malucos, mais jovens ou mais velhos do que eu, tamb\u00e9m eram espectadores seriais daquele musical. A cada lan\u00e7amento em nova m\u00eddia (VHS, DVD, Blue-ray), ou a cada anivers\u00e1rio importante da produ\u00e7\u00e3o, a cada document\u00e1rio ou exibi\u00e7\u00e3o na tev\u00ea, uma irmandade de f\u00e3s tinha nova oportunidade de rever a obra.<\/p>\n<p>No meu caso, houve um evento em especial que me fez ver e rever, escutar e reescutar alguns trechos do filme mais vezes at\u00e9 que a m\u00e9dia desses malucos. Meu pai, que j\u00e1 atuou profissionalmente em teatro, passava por uma experi\u00eancia administrativa num clube semi-falido do sub\u00farbio carioca. Tentava buscar alternativas para que o clube tivesse algum novo faturamento al\u00e9m do eventual aluguel de quadras e campos esportivos. Uma campanha de reten\u00e7\u00e3o e aquisi\u00e7\u00e3o de s\u00f3cios, uma reforma no sal\u00e3o de festas, alguns bailes e, finalmente, o sal\u00e3o estava pronto para receber um grande acontecimento: um show de talentos e variedades.\u00a0 Entre muitos n\u00fameros, um elenco de filhos e filhas dos amigos do meu pai foi escalado para interpretar a can\u00e7\u00e3o Do-re-mi, a cena em que a Novi\u00e7a Maria ensinava aos filhos do Capit\u00e3o as belezas da m\u00fasica e, em seguida, levava-os a cantar pelas ruas de Salzburgo.<\/p>\n<p>N\u00f3s, obviamente, dublamos a m\u00fasica. Um dia desses, volto a este tema da dublagem, que j\u00e1 foi moda no Brasil muita antes de ser descoberta como uma arte travestida. Bem, dublamos a Julie Andrews (representada brilhantemente por minha quase-prima Cristina Couto) e os filhos do capit\u00e3o, e \u00e9 com um pavor retrocedente que eu assumo que eu era uma das \u201ccrian\u00e7as tirolesas\u201d sobre o palco. Aos dezoito anos de idade. Dezoito !!!<\/p>\n<p>O trauma poderia ter me afastado da horda de seguidores do filme mas, surpreendentemente, aquela overdose de Do-re-mi fez eu me envolver ainda mais naquilo. Interessante que todos os adolescentes e crian\u00e7as que passaram juntos por aquele vexame, e se reuniram compulsoriamente para ver a mesma sequ\u00eancia de cenas dezenas de vezes at\u00e9 serem capazes de repeti-las no palco, se tornaram ou se mantiveram f\u00e3s daquele musical, pelo menos pelo tempo que ainda mantivemos contato.<\/p>\n<p>Para n\u00e3o dizer que o trauma n\u00e3o me deixou sequelas, at\u00e9 hoje eu evito a tal cena. Comprei recentemente o filme na edi\u00e7\u00e3o especial para DVD que cont\u00e9m a entrevista com todos os atores (a mais jovem das crian\u00e7as \u00e9 uma cinquentona: Christopher Plummer, o ator canadense que interpretou o Cap.Trapp, far\u00e1 81 anos em dezembro e foi rec\u00e9m indicado a um Oscar), j\u00e1 vi o filme mais algumas vezes, mas pulo a cena do &#8216;Do-re-mi&#8217;.<\/p>\n<p>Desde aquela \u00e9poca, minha can\u00e7\u00e3o favorita &#8211; sem trocadilho &#8211; \u00e9 &#8216;My Favorite Things&#8217;, da cena em que a Maria recebe em seu quarto as crian\u00e7as apavoradas pela chuva com rel\u00e2mpagos e canta sobre as coisas preferidas na vida, e o poder que estas coisas t\u00eam sobre nossos \u00e2nimos. <\/p>\n<p>A letra, quase pueril, fala de pingos de chuva sobre rosas, tortas de ma\u00e7\u00e3, flocos de neve e garotinhas em vestidos brancos (opa!) que perfaziam a extensa lista de prefer\u00eancias da inocente bab\u00e1. \u00c9 uma enorme tolice, mas tolices fazem sentido em musicais adocicados, e \u00e9 a\u00ed que est\u00e1 a gra\u00e7a toda. Musicais s\u00e3o um universo \u00e0 parte, s\u00e3o a magia do cinema (ou do teatro) elevada \u00e0 d\u00e9cima pot\u00eancia porque, se voc\u00ea se permitir, vai chegar ao meio do espet\u00e1culo sem nem perceber que deveria haver uma orquestra inteira acompanhando o mocinho e a mocinha aonde eles fossem, porque nenhuma declara\u00e7\u00e3o importante ou di\u00e1logo amoroso passa sem uma can\u00e7\u00e3o e um bailado.<\/p>\n<p>Musicais entram e saem de moda no cinema (recentemente, Nine foi destaque), nunca deixaram de ocupar espa\u00e7o no teatro americano, e est\u00e3o em grande momento no eixo teatral Rio-S\u00e3o Paulo. Vi recentemente a montagem de A Novi\u00e7a Rebelde que esteve no Teatro Alfa (distante de tudo, mas excelente casa) com Kiara Sasso (\u00f3tima) e adorei, apesar de me ter sido imposs\u00edvel pular a parte do Do-re-mi.<\/p>\n<p>Mais uma vez, gostei mais de My Favorite Things. Al\u00e9m de simbolizar a m\u00e1gica e a leveza do musical \u00e0 moda antiga \u00e9 um tema tern\u00e1rio, jazz\u00edstico. N\u00e3o por acaso, de todo o score original de The Sound of Music (o t\u00edtulo do filme e da pe\u00e7a em ingl\u00eas), de autoria dos reis Rogers e Hammerstein, a can\u00e7\u00e3o mais regravada por artistas de diversas \u00e9pocas e estilos \u00e9 justamente a minha favorita. Ou\u00e7am, sempre que poss\u00edvel, a vers\u00e3o cheia de balan\u00e7o da eterna Sarah Vaughan.<\/p>\n<p>Vim hoje para casa e o computador pensando sobre a coluna e sobre as minhas coisas favoritas na vida. E fiz mentalmente a minha pequena lista, que vou tentar reproduzia aqui. Para come\u00e7ar, eu tamb\u00e9m gosto de meninas em vestidos brancos, mas certamente esta minha prefer\u00eancia \u00e9 num sentido totalmente diverso do mencionado pela Novi\u00e7a.<\/p>\n<p>Gosto de temas tern\u00e1rios jazz\u00edsticos, e prefiro os standarts do olimpo Gershwin-Porter-Berlin. Se forem defendidos por gente como Dexter Gordon, Chet Baker, Dizzie, Bird, Evans ou pela voz do Sinatra, do Bennett ou das grandes damas negras como Ella, Sarah, Nancy Wilson e Billie Holiday, a coisa chega perto do ideal. O que talvez explique o meu apre\u00e7o pelo talento mais comercial da Diana Krall, porque ela pode ser uma vers\u00e3o dilu\u00edda de um pouco de tudo isso e ser ainda, e simultaneamente, a garota num vestido branco.<\/p>\n<p>Tom , Menescal e Piazzolla fazem o contraponto sul-americano e a JazzSinf\u00f4nica, como eu comentei aqui na \u00faltima coluna, \u00e9 a possibilidade de reunir isso tudo num s\u00f3 pacote. \u00a0Apesar de curtir demais m\u00fasica ao vivo, meu favoritismo pessoal ainda \u00e9 por um HD cheio de arquivos de mp3 t\u00e3o diversos quanto poss\u00edvel e um earphone plugado nos ouvidos, indo de l\u00e1 para c\u00e1 no play-list, cortando m\u00fasicas ao sabor da impaci\u00eancia, voltando trechos, ouvindo faixas repetidamente \u00e0 exaust\u00e3o. Minha rela\u00e7\u00e3o com a m\u00fasica \u00e9 ca\u00f3tica e o mp3 foi a inven\u00e7\u00e3o do s\u00e9culo para mim. Incrivelmente, poucas coisas me conduzem mais facilmente \u00e0 paz de esp\u00edrito do que percorrer esta estrada ca\u00f3tica por sons e can\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Gosto, ainda, de m\u00fasicas m\u00e2ntricas, mas nada de som indiano ou ex\u00f3tico. Gosto de mantras pop, mas n\u00e3o os eletr\u00f4nicos, que eu acho geralmente uma chatea\u00e7\u00e3o sem fim. Falo de coisas mais finas que podem entrar em looping eterno, can\u00e7\u00f5es-viagem como A R\u00e3, de Jo\u00e3o Donato. Ou Odara, de Caetano (na \u00e9poca em que Caetano valia \u00e0 pena) ou, em outro extremo da lista, Kashmire, do Led Zeppelin. Pensando bem, esta \u00faltima \u00e9 declaradamente um tema indiano e para as outras j\u00e1 couberam bem vers\u00f5es eletr\u00f4nicas. Ou seja, no final, qualidade \u00e9 coisa dif\u00edcil de delimitar.<\/p>\n<p>Mudando um pouco da audi\u00e7\u00e3o para o paladar, gosto de misturar sabores e saberes. Gostos novidadeiros s\u00e3o sempre necess\u00e1rios, sejam novos vinhos, cervejas ou alimentos. Quando posso, vou para a cozinha fazer novas misturas no meu pequeno caldeir\u00e3o. Ou ainda, ir a um bom restaurante a quilo, colocar muitos e muitos ingredientes b\u00e1sicos no mesmo prato e testar as combina\u00e7\u00f5es e sequ\u00eancias ao paladar.<\/p>\n<p>H\u00e1 um restaurante a quilo excelente no Centro financeiro de S\u00e3o Paulo, o Nova Op\u00e7\u00e3o, e almo\u00e7o por ali quando passo na \u00e1rea. Esta semana, misturei aspargo fresco e em conserva, cogumelo paris, salm\u00e3o, costelinha grelhada de tambaqui, azeitona azappa, tomate cereja e mais umas duas dezenas de min\u00fasculas por\u00e7\u00f5es e me servi daquilo em combina\u00e7\u00f5es de dois ou tr\u00eas ingredientes. Del\u00edcia. Talvez compar\u00e1vel a um pote inteiro de sorvete H\u00e4agen-dazs de macad\u00e2mia.<\/p>\n<p>Gosto do conhecimento. Gosto de descobrir coisas, ler sem compromisso, de bula de rem\u00e9dio a disserta\u00e7\u00f5es inteiras. Isso tem sabor e subst\u00e2ncia. Mas h\u00e1 tamb\u00e9m o conhecimento emp\u00edrico, o andar sem rumo por uma nova cidade, descobrir as cores e jeitos de um povo.<\/p>\n<p>Por fim, gosto de uma boa conversa. Falar e calar horas a fio. J\u00e1 fiz isso muito com os amigos, hoje estou num c\u00edrculo cotidiano bem menor. Por muitos dias, passo minha horas de descanso s\u00f3 com a Mara, minha esposa. \u00c9 que foram tantos anos de desencontro que a gente se d\u00e1 a este luxo da companhia quase exclusiva por um fim de semana inteiro, \u00e0s vezes.<\/p>\n<p>Se eu tivesse que reinventar a letra de My Favorite Things para uma noite de chuva particular teria que contar para mim mesmo uma est\u00f3ria em que eu pudesse ouvir minhas m\u00fasicas preferidas, em frente a uma lareira, na companhia da Mara e da Pandora (nossa Llhasa), experimentando novos sabores, conversando e calando horas a fio.<\/p>\n<p>E, ainda assim, faltaria tanta coisa que eu teria que ser dois ou tr\u00eas, de tantas coisas imperd\u00edveis a vida d\u00e1 de op\u00e7\u00e3o: a companhia dos\u00a0 amigos, estar perto do meu filho Eric, o calor dos meus pais, debater pela internet, pregui\u00e7a de manh\u00e3 sem compromisso, queijo brie at\u00e9 enjoar, vit\u00f3rias do Flamengo de virada com Maracan\u00e3 cheio, mojito, sonhar dormindo ou acordado&#8230;<\/p>\n<p>E pensar que, nos meus dias cinzas, eu acho a vida uma coisa chata. Ora, ora, chato sou eu quando me fa\u00e7o esquecer das minhas \u201cfavorite things\u201d.<\/p><\/div>\n<div><\/div>\n<div><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mais um s\u00e1bado, final de semana corrido, e de volta ao seu dia habitual a coluna &#8220;Sobretudo&#8221;, assinada pelo publicit\u00e1rio Affonso Romero. Em u mmundoTour Details<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[289,100],"tags":[13,12,6],"class_list":["post-11716","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-pedro-migao","category-sobretudo","tag-cinema","tag-cultura","tag-vida-cotidiana"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11716","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11716"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11716\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11716"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=11716"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=11716"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}