{"id":11543,"date":"2011-03-31T08:38:00","date_gmt":"2011-03-31T10:38:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2011\/03\/resenha-literaria-a-dona-das-chaves\/"},"modified":"2011-03-31T08:38:00","modified_gmt":"2011-03-31T10:38:00","slug":"resenha-literaria-a-dona-das-chaves","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2011\/03\/resenha-literaria-a-dona-das-chaves\/","title":{"rendered":"Resenha Liter\u00e1ria &#8211; &quot;A Dona das Chaves&quot;"},"content":{"rendered":"<div><a href=\"http:\/\/4.bp.blogspot.com\/-b8Ue7-JVW_w\/TZJvcIrxreI\/AAAAAAAADb4\/D2WSL1-zBn8\/s1600\/donacapa.jpg\" imageanchor=\"1\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" border=\"0\" height=\"320\" src=\"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2011\/03\/donacapa.jpg\" width=\"214\"><\/a><\/div>\n<div>Pois \u00e9, leitor. Ainda n\u00e3o \u00e9 desta vez que a hist\u00f3ria do petr\u00f3leo estar\u00e1 nesta se\u00e7\u00e3o do blog&#8230;<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Estive rapidamente em Praia Seca no final de semana passado &#8211;\u00a0fiquei\u00a0l\u00e1 pouco mais de 24 horas &#8211; mas encontrei tempo para ler este &#8220;A Dona das Chaves&#8221;, escrito em parceria entre a ex-diretora do Desipe (Departamento do Sistema Penitenci\u00e1rio, \u00f3rg\u00e3o que cuida dos pres\u00eddios do Rio de Janeiro) Julita Lemgruber e a jornalista Anabela Paiva.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Na pr\u00e1tica, o que me parece \u00e9 que a ex-diretora e estudiosa de seguran\u00e7a p\u00fablica contou suas hist\u00f3rias e a jornalistas formatou-as para o produto editorial.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Sendo isso ou n\u00e3o, \u00e9 um retrato bastante interessante dos pres\u00eddios cariocas e, mesmo o livro terminando em meados dos Anos 90 o quadro atual n\u00e3o \u00e9 muito diferente, ao que parece.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>O livro tamb\u00e9m lan\u00e7a luzes sobre uma das maiores mistifica\u00e7\u00f5es da pol\u00edtica carioca: a de que <i>&#8220;Brizola teria estimulado a viol\u00eancia&#8221;<\/i>. A autora, que esteve nos dois governos do pol\u00edtico &#8211; no primeiro como assessora e no segundo como Diretora do Desipe &#8211; deixa claro que a tentativa foi de adequar o tratamento aos bandidos \u00e0 lei, sem torturas, sem comportamentos desumanos ou tratando os presos como animais, mas com a rigidez prevista na lei. Seu lema era <i>&#8220;disciplina 100, viol\u00eancia 0&#8221;<\/i>.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Com certo grau de desconsolo, Julita relata as resist\u00eancias que tal\u00a0pol\u00edtica\u00a0sofreu por parte de setores da imprensa e da sociedade, por um lado, e dos agentes penitenci\u00e1rios, por outro. A impress\u00e3o que as autoras deixam \u00e9 de que a viol\u00eancia, a tortura e a for\u00e7a bruta n\u00e3o somente est\u00e1 enraizada nas for\u00e7as policiais brasileiras como \u00e9 desejada por setores da sociedade, em especial as classes mais abastadas.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Tamb\u00e9m observa que as condi\u00e7\u00f5es dos presos e os maus tratos a que eram submetidos cada vez mais ca\u00edam no esquecimento, ao contr\u00e1rio dos tempos em que esteve no comando. A id\u00e9ia disseminada era de que Brizola <i>&#8220;era frouxo com a bandidagem&#8221;<\/i>, e ap\u00f3s sua sa\u00edda do governo as condi\u00e7\u00f5es dos presos sa\u00edram do notici\u00e1rio da imprensa. O importante era a &#8220;seguran\u00e7a\u00a0p\u00fablica&#8221;, independente de fatos como massacres, torturas rotineiras e execu\u00e7\u00f5es contumazes.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>As autoras relatam que o cidad\u00e3o em geral passou por um processo de &#8220;embrutecimento&#8221; com o passar dos anos, tratando com indiferen\u00e7a quest\u00f5es como as apontadas acima. E chamam a aten\u00e7\u00e3o para o fato de que fugas dos pres\u00eddios e corrup\u00e7\u00e3o nestes estabelecimentos deixaram de ser not\u00edcia, embora continuem ocorrendo.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Outro momento bastante interessante do livro \u00e9 quando relata-se a c\u00e9lebre pris\u00e3o dos bicheiros, em 1993, e as tentativas que estes fizeram para tornar &#8220;mais f\u00e1cil&#8221; a vida na pris\u00e3o. Os estratagemas adotados para burlar as regras eram bastante engenhosos, mas Julita relata que, como diretora do Desipe, empenhou-se em cumprir a lei. O livro inicia-se com um epis\u00f3dio onde o bicheiro Maninho a teria amea\u00e7ado e \u00e9 desestimulado por um delegado que carregava o singelo apelido de &#8220;arm\u00e1rio&#8221;.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>O livro tamb\u00e9m conta o per\u00edodo onde Julita passou a conviver nas cadeias, para uma pesquisa acad\u00eamica, ainda no Regime Militar. A autora conviveu com presas pol\u00edticas e tamb\u00e9m conta como a conviv\u00eancia entre os &#8220;prisioneiros de opini\u00e3o&#8221; e os comuns geraram o que hoje se conhece como &#8220;Comando Vermelho&#8221;.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Tamb\u00e9m est\u00e1 presente a hist\u00f3ria da morte de presos em um inc\u00eandio no pres\u00eddio Ary Franco em 1991. Algum produto qu\u00edmico foi jogado dentro de uma cela que, em contato com o fogo, literalmente\u00a0transformou\u00a0em cinzas os detentos. Foi um caso de grande repercuss\u00e3o \u00e0 \u00e9poca.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Outra faceta do livro s\u00e3o as hist\u00f3rias de corrup\u00e7\u00e3o, de falta de condi\u00e7\u00f5es dos pres\u00eddios e de torturas. Tamb\u00e9m abordam-se as quest\u00f5es da falta de verbas para os pres\u00eddios e a n\u00e3o prioridade que estes eram nas pol\u00edticas p\u00fablicas.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>As autoras reproduzem os <i>&#8220;Mandamentos do Policial Militar&#8221;<\/i>, formulados pelo chefe da PM do Governo Brizola Nazareth Cerqueira, o primeiro negro a comandar a institui\u00e7\u00e3o. Era 1983, mas como poderemos ver abaixo ainda estamos muito, muito distante do que \u00e9 pregado nestas linhas mesmo quase tr\u00eas d\u00e9cadas depois:<\/div>\n<div><\/div>\n<div><i>&#8220;1 &#8211; O uso da for\u00e7a deve ser sempre o \u00faltimo recurso, depois de\u00a0esgotados\u00a0todos os outros meios n\u00e3o violentos dispon\u00edveis;<\/i><\/div>\n<div><i>2 &#8211; a for\u00e7a somente deve ser usada quando for uma necessidade fundamental, e apenas com objetivos leg\u00edtimos;<\/i><\/div>\n<div><i>3 &#8211; o uso da for\u00e7a, quando estritamente necess\u00e1rio como \u00faltimo recurso, deve ser proporcional \u00e0 situa\u00e7\u00e3o e aos objetivos legais que se procura alcan\u00e7ar;<\/i><\/div>\n<div><i>4 &#8211; o uso ilegal da for\u00e7a n\u00e3o se pode justificar por circunst\u00e2ncias especiais, excepcionais ou emergenciais;<\/i><\/div>\n<div><i>5 &#8211; o uso de quaisquer armas, principalmente as armas de fogo, deve ser considerado uma medida extrema, limitada por dispositivos legais, e deve ser feito com\u00a0modera\u00e7\u00e3o; deve-se sempre procurar preservar a vida humana e a integridade f\u00edsica, dos policiais, das v\u00edtimas de terceiros e dos suspeitos ou criminosos;<\/i><\/div>\n<div><i>6 &#8211; no caso de ser necess\u00e1rio o uso da for\u00e7a, em situa\u00e7\u00e3o extrema, e esgotados todos os recursos n\u00e3o violentos, deve ser assegurada a assist\u00eancia m\u00e9dica, o mais rapidamente poss\u00edvel, a qualquer pessoa ferida ou atingida &#8211; incluindo os suspeitos ou criminosos envolvidos.<\/i><\/div>\n<div><i><br \/><\/i><\/div>\n<div><i>(pp.97)&#8221;<\/i><\/div>\n<div><\/div>\n<div>N\u00e3o esgoto aqui os assuntos, mas fica claro como o Governo Brizola foi solapado pelas for\u00e7as a que a ele se opunham. Caso t\u00edpico onde a vers\u00e3o prevaleceu sobre os fatos, ao que parece. Pena.<\/div>\n<div><\/div>\n<div><a href=\"http:\/\/www.travessa.com.br\/A_DONA_DAS_CHAVES\/artigo\/1e3bba06-3266-4507-82f1-60ce1053c73a\">Na Livraria da Travessa, custa R$ 40<\/a>. Apesar de lidar com um tema &#8220;pesado&#8221;, o tom \u00e0s vezes ir\u00f4nico do texto torna a leitura leve. Devorei o exemplar em pouco menos de duas horas.<\/div>\n<div><\/div>\n<div><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pois \u00e9, leitor. Ainda n\u00e3o \u00e9 desta vez que a hist\u00f3ria do petr\u00f3leo estar\u00e1 nesta se\u00e7\u00e3o do blog&#8230; Estive rapidamente em Praia Seca no finalTour Details<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[289],"tags":[54,73,26,74,27],"class_list":["post-11543","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-pedro-migao","tag-imprensa","tag-livros","tag-policia","tag-resenha-literaria","tag-sociedade"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11543","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11543"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11543\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11543"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=11543"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=11543"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}