{"id":11416,"date":"2011-07-06T08:39:00","date_gmt":"2011-07-06T10:39:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2011\/07\/historia-outros-assuntos-1964-o-golpe-em-marcha-e-a-legitimacao-do-fato\/"},"modified":"2011-07-06T08:39:00","modified_gmt":"2011-07-06T10:39:00","slug":"historia-outros-assuntos-1964-o-golpe-em-marcha-e-a-legitimacao-do-fato","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2011\/07\/historia-outros-assuntos-1964-o-golpe-em-marcha-e-a-legitimacao-do-fato\/","title":{"rendered":"Hist\u00f3ria &amp; Outros Assuntos: &quot;1964: o Golpe em Marcha e a legitima\u00e7\u00e3o do\u00a0fato&quot;"},"content":{"rendered":"<div><a href=\"http:\/\/2.bp.blogspot.com\/-zRuRMxGvMP0\/ThM-m-dcDiI\/AAAAAAAADqg\/ZQgSyreslts\/s1600\/Marcha+Fam%25C3%25ADlia1.jpg\" imageanchor=\"1\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" border=\"0\" height=\"285\" src=\"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2011\/07\/Marcha+Fam%25C3%25ADlia1.jpg\" width=\"400\"><\/a><\/div>\n<p><\/p>\n<div>Nesta quarta feira, a<b> coluna &#8220;Hist\u00f3ria &#038; Outros Assuntos&#8221;, do Mestre em Hist\u00f3ria Fabr\u00edcio Gomes<\/b>, aborda novas pesquisas hist\u00f3ricas sobre o Golpe de 1964. <\/p>\n<p>O texto refor\u00e7a impress\u00e3o que j\u00e1 expus aqui em posts anteriores: de que os setores civis conservadores e reacion\u00e1rios usaram os militares para tomar o poder &#8211; em especial a UDN, que n\u00e3o tinha voto para tanto, s\u00f3 que n\u00e3o contavam que os militares fossem &#8220;gostar&#8221; do exerc\u00edcio do poder.<\/p>\n<p>Vale lembrar que o mandato de Jango se encerraria em 1965 e Juscelino Kubitschek, provavelmente, voltaria ao poder nestas elei\u00e7\u00f5es. A &#8220;amea\u00e7a do comunismo&#8221; estava muito longe de se concretizar na pr\u00e1tica. E, embora n\u00e3o seja o objetivo do texto, n\u00e3o se pode esquecer do papel desempenhado pelo Governo Americano &#8211; <a href=\"http:\/\/pedromigao.blogspot.com\/2009\/12\/resenha-literaria-o-grande-irmao.html\">que j\u00e1 abordei na resenha de &#8220;O Grande Irm\u00e3o&#8221;<\/a>.<\/p>\n<p>Vamos ao texto:<\/p>\n<p><i><b>1964: o Golpe em Marcha e a legitima\u00e7\u00e3o do\u00a0fato<\/b><\/i><\/div>\n<div><\/div>\n<div><a href=\"http:\/\/1.bp.blogspot.com\/-TX5sucswzqo\/ThM_7UERVXI\/AAAAAAAADqk\/01PMGthp9pg\/s1600\/marcha4.jpg\" imageanchor=\"1\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" border=\"0\" height=\"315\" src=\"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2011\/07\/marcha4.jpg\" width=\"400\"><\/a><\/div>\n<div><\/div>\n<div><b>Introdu\u00e7\u00e3o<\/b><\/p>\n<p>Sempre que se discute sobre a ditadura no Brasil, muito se fala sobre a atua\u00e7\u00e3o dos militares como protagonistas do regime de exce\u00e7\u00e3o que se instalou no Brasil a partir do dia 31 de mar\u00e7o de 1964 e que perdurou por cerca de duas d\u00e9cadas em nosso pa\u00eds, s\u00f3 acabando em meados da d\u00e9cada de 1980, quando Jos\u00e9 Sarney, um primeiro presidente civil, mesmo que n\u00e3o eleito democraticamente, assumiu a Presid\u00eancia da Rep\u00fablica. <\/p>\n<p>Para um outro grupo de historiadores, o regime militar acabou, de fato, em 1979, com a Anistia pol\u00edtica concedida a v\u00e1rios artistas, intelectuais e pol\u00edticos \u201cde esquerda\u201d, que retornaram ao Brasil \u201cnos bra\u00e7os do povo\u201d \u2013 como o soci\u00f3logo Herbert de Souza \u2013 o Betinho -, os jornalistas Fernando Gabeira e M\u00e1rcio Moreira Alves, e pol\u00edticos como Leonel Brizola, s\u00f3 para citar alguns \u00edcones do que comumente os livros acad\u00eamicos e a historiografia chamou de \u201cAbertura\u201d. E para um terceiro grupo de historiadores, pretensamente mais \u00e0 esquerda, a abertura pol\u00edtica s\u00f3 veio ocorrer com a elei\u00e7\u00e3o de Fernando Collor de Mello \u2013 o primeiro presidente civil eleito desde 1964.<\/p>\n<p>O protagonismo militar, como centro das aten\u00e7\u00f5es no pr\u00e9-1964 e naturalmente nas d\u00e9cadas seguintes, at\u00e9 a restaura\u00e7\u00e3o da democracia no Brasil, foi confortavelmente destinada (e aceita), visando obliterar, de forma conveniente, algumas verdades que o tempo sombrio dos quart\u00e9is e dos por\u00f5es militares fez quest\u00e3o de esquecer. Gra\u00e7as a estudos recentes feitos por pesquisadores de primeira linha algumas frestas de luz come\u00e7aram a aparecer, contribuindo, de certa forma, para o recrudescimento do esclarecimento sobre o que foi, realmente, o \u201c1964\u2033, em nosso pa\u00eds.<\/p>\n<p>Se nos anos 1980 prevaleceu a historiografia marxista, que buscava culpar unicamente os militares como atores sociais e protagonistas do movimento que derrubou o presidente Jo\u00e3o Goulart, vislumbram-se agora novas possibilidades de entendimento, com o surgimento de novos atores representantes da sociedade civil \u2013 entre os quais empres\u00e1rios, religiosos e movimentos sociais ligados \u00e0 classe m\u00e9dia. <\/p>\n<p>Quem tem mais de 30 anos de idade, como eu e o Editor Chefe deste Ouro de Tolo, certamente aprendeu na escola que tivemos em 1964, no Brasil, um golpe militar. J\u00e1 a turma da caserna, especialmente militares de alta patente e que nos estertores dos anos 1980 j\u00e1 vestiam pijama, preferiu denominar aquilo como \u201cRevolu\u00e7\u00e3o\u201d. &#8216;Revolu\u00e7\u00e3o Gloriosa&#8217;, e fim de papo. <\/p>\n<p>Os novos estudos promovidos por historiadores apontam para mais uma denomina\u00e7\u00e3o: \u201cGolpe civil-militar\u201d, justamente porque teve a participa\u00e7\u00e3o de importantes setores da sociedade civil. O esvaziamento que a historiografia dos anos 80 promoveu procurava eximir a sociedade de culpa, como se apenas um grupo de militares hostis \u00e0 democracia pretendesse usurpar o poder e governar sozinho. De fato existiam militares hostis, assim como tamb\u00e9m existiam militares nacionalistas e favor\u00e1veis \u00e0s reformas que Jango pretendia implantar.<\/p>\n<p>Portanto, \u00e9 importante evitar o problema da generaliza\u00e7\u00e3o, ao afirmar que todos os militares eram reacion\u00e1rios &#8211; assim como o v\u00edcio de se apontar o movimento de 1964 puramente militar. O presente artigo pretende deslindar o monolitismo da afirma\u00e7\u00e3o de um 1964 que teve como protagonistas os militares, assim como desfazer o erro de subtrair de cena a sociedade civil. <\/p>\n<p>Pretendo por conseguinte utilizar o exemplo das &#8216;Marchas da Fam\u00edlia com Deus pela Liberdade&#8217;, como cl\u00edmax e term\u00f4metro dos medos, insatisfa\u00e7\u00f5es e expectativas civis com o governo de Jo\u00e3o Goulart, mas analisando as marchas como manifesta\u00e7\u00f5es civis que se apropriavam de representa\u00e7\u00f5es simb\u00f3licas que atendiam a anseios populares \u2013 antes e depois do golpe civil-militar.<\/p><\/div>\n<div><\/div>\n<div><a href=\"http:\/\/1.bp.blogspot.com\/-Z9Ay8WpNswE\/ThNAWK5KGMI\/AAAAAAAADqo\/EXufhWLNwpM\/s1600\/marcha5.jpg\" imageanchor=\"1\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" border=\"0\" height=\"291\" src=\"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2011\/07\/marcha5.jpg\" width=\"400\"><\/a><\/div>\n<div><\/div>\n<div><b>O Governo Jango e a Indefini\u00e7\u00e3o Presidencial<\/b><\/p>\n<p>Ap\u00f3s a ren\u00fancia de J\u00e2nio Quadros, em 1961, o pa\u00eds viveu momentos de tens\u00e3o, especialmente no que tange \u00e0 indefini\u00e7\u00e3o sobre quem assumiria a Presid\u00eancia da Rep\u00fablica. O vice-presidente Jo\u00e3o Goulart encontrava-se em viagem oficial \u00e0 China, e J\u00e2nio comunicou sua ren\u00fancia esperando que voltasse ao poder em menos de 24 horas, com superpoderes presidenciais. Saiu de Bras\u00edlia direto para o aeroporto de Cumbica e ficou cerca de 25 horas aguardando ser chamado novamente. N\u00e3o foi. <\/p>\n<p>Jango voltou da China mas havia um imenso temor nos gabinetes militares e entre empres\u00e1rios sobre sua ascens\u00e3o ao cargo pol\u00edtico mais importante do pa\u00eds. A raz\u00e3o era que Jango havia sido Ministro do Trabalho durante o governo de Get\u00falio Vargas (1951-1954), propondo um aumento de 100% no sal\u00e1rio m\u00ednimo. Ga\u00facho, trabalhista e estancieiro, um dos expoentes do PTB e vindo de uma abastada fam\u00edlia, Jango era naturalmente o herdeiro pol\u00edtico. Estes grupos queriam evitar que o varguismo voltasse ao cen\u00e1rio nacional e o que para eles seria o pior: a instaura\u00e7\u00e3o de um novo peronismo \u00e0 brasileira. A rela\u00e7\u00e3o de Jango com nacionalistas era tamb\u00e9m percebida como nociva aos interesses de alguns segmentos civis e militares.<\/p>\n<p>A Rede da Legalidade, criada por Leonel Brizola \u2013 governador do Rio Grande do Sul, petebista e cunhado de Jango &#8211; reuniu uma cadeia de r\u00e1dios espalhadas pelo pa\u00eds, que refor\u00e7ava a informa\u00e7\u00e3o de que Jango teria que assumir a Presid\u00eancia. Os quart\u00e9is conspiravam contra Jango, e o general Machado Lopes (ligado \u00e0 corrente conservadora), chegou a ir ao Pal\u00e1cio Piratini, em Porto Alegre, para prender Brizola. L\u00e1 chegando, n\u00e3o se sabe com que motivo, acabou aderindo \u00e0 causa legalista, chancelando e apoiando que Jango assumisse.\u00a0<\/p><\/div>\n<div><\/div>\n<div><a href=\"http:\/\/3.bp.blogspot.com\/-KBg-nNr2Xs8\/ThNAnGjeiHI\/AAAAAAAADqs\/aaabQBBM_Vo\/s1600\/MARCHA7.jpg\" imageanchor=\"1\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" border=\"0\" height=\"303\" src=\"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2011\/07\/MARCHA7.jpg\" width=\"400\"><\/a><\/div>\n<div>O legalismo vencia o golpe e Jango assumiu a Presid\u00eancia, mas sob a tutela de um novo elemento no cen\u00e1rio pol\u00edtico brasileiro: a figura de um Primeiro-Ministro (Tancredo Neves). Ou seja: o poder presidencial seria apenas simb\u00f3lico, cabendo a Tancredo governar de fato.\u00a0No entanto, em 1963, foi promovido um plebiscito nacional, que decidiria se o pa\u00eds deveria continuar com o regime parlamentarista ou voltar ao presidencialismo. Com grande maioria, venceu o presidencialismo. A popularidade de Jango subia e os quart\u00e9is come\u00e7avam novamente a ficar atentos.<\/p>\n<p>As elei\u00e7\u00f5es presidenciais estavam marcadas para 1965 e alguns candidatos j\u00e1 se anunciavam: pelo Partido Social Democr\u00e1tico (PSD), o candidato natural era o ex-presidente Juscelino Kubitschek; pela Uni\u00e3o Democr\u00e1tica Nacional (UDN), o pol\u00eamico Carlos Lacerda, governador da Guanabara, que fizera veemente oposi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica a Vargas, JK e a Jango \u2013 entretanto, dentro da pr\u00f3pria UDN n\u00e3o havia consenso quanto ao nome de Lacerda, sendo o governador de Minas Gerais, Magalh\u00e3es Pinto, que fazia parte da \u201cBossa-Nova\u201d da UDN, um nome que ganhava for\u00e7a dentro do partido. <\/p>\n<p>E pelo PTB? Jango era o nome que aparecia como prov\u00e1vel candidato.<\/p><\/div>\n<div><\/div>\n<div><a href=\"http:\/\/3.bp.blogspot.com\/-ljk1Muk1G0g\/ThNA9bbEDVI\/AAAAAAAADqw\/mOL7EynJeXI\/s1600\/marcha3.jpg\" imageanchor=\"1\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" border=\"0\" height=\"320\" src=\"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2011\/07\/marcha3.jpg\" width=\"216\"><\/a><\/div>\n<div>O programa reformista de Jango \u2013 as reformas de base \u2013 entusiasmava as massas: camponeses, oper\u00e1rios, civis de classes menos abastadas e at\u00e9 militares (de baixa posi\u00e7\u00e3o hier\u00e1rquica). As reformas de base previam mudan\u00e7as na estrutura agr\u00e1ria, urbana, na educa\u00e7\u00e3o, no sistema banc\u00e1rio, na nacionaliza\u00e7\u00e3o de empresas estrangeiras, na lei de remessa de lucros e tamb\u00e9m ampliava o direito a voto aos analfabetos. Consequentemente, partidos de orienta\u00e7\u00e3o de esquerda, assim como centrais sindicais de trabalhadores, ligas de trabalhadores rurais, entidades estudantis e militares (sargentos, cabos etc) aderiram \u00e0 causa e empunharam a bandeira das reformas <i>[N.doE.: como se pode ver, Jango estava longe do que se chamava de &#8220;comunismo&#8221;]. <\/i><\/p>\n<p>Por outro lado, aumentava o medo de outros setores da sociedade. A classe m\u00e9dia, os empres\u00e1rios e militares de gabinete viam a movimenta\u00e7\u00e3o pr\u00f3-reformas com temeridade. Havia o medo do comunismo. Medo esse que habitava o imagin\u00e1rio social brasileiro desde 1935, com a intentona comunista e que crescera paulatinamente no per\u00edodo p\u00f3s-1945, com o acirramento de tens\u00f5es da Guerra Fria, onde o mundo polarizava-se desde ent\u00e3o entre os favor\u00e1veis aos EUA e os favor\u00e1veis \u00e0 Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica. <\/p>\n<p>A Revolu\u00e7\u00e3o Cubana, ocorrida em 1959, que come\u00e7ara nacionalista e a partir de 1961 adquirira tom socialista, era um exemplo pr\u00f3ximo ao Brasil que os EUA faziam de tudo para evitar. Ent\u00e3o, no pr\u00e9-1964, o anticomunismo ganhava tons mais fortes. Inseriam-se tamb\u00e9m novos elementos favor\u00e1veis \u00e0 causa conservadora: o medo de que o comunismo desagregaria a fam\u00edlia brasileira, que tamb\u00e9m fosse contr\u00e1rio ao catolicismo, \u00e0 moral e os bons costumes brasileiros <i>[N.doE.: outra fal\u00e1cia].<\/i><\/p>\n<p>Se Jango enfrentava o temor conservador, de que fosse transformar o Brasil numa nova Cuba, por outro lado tamb\u00e9m era pressionado pela esquerda que j\u00e1 havia abra\u00e7ado a causa das reformas de base. Muitos reformistas achavam que o presidente apenas tentava ganhar tempo, agradando a ambas as partes, visando fins eleitoreiros. Brizola n\u00e3o entendia como Jango n\u00e3o realizava as reformas que precisavam ser feitas. <\/p>\n<p>Ent\u00e3o no dia 13 de mar\u00e7o, na Central do Brasil, no Rio de Janeiro, Jango discursou para cerca de 200 mil pessoas, onde reafirmava seu compromisso com as reformas e atacava \u201c\u00e0queles que se aproveitavam dos sentimentos crist\u00e3os do povo na mistifica\u00e7\u00e3o do anticomunismo\u201d. Conclu\u00eda ainda que \u201cn\u00e3o podem ser levantados os ros\u00e1rios da f\u00e9 contra o povo, que tem f\u00e9 numa justi\u00e7a social mais humana e na dignidade de suas esperan\u00e7as\u201d. Participaram do com\u00edcio Jos\u00e9 Serra (presidente da UNE) e Leonel Brizola (j\u00e1 ent\u00e3o deputado pela Guanabara).<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo que Jango discursava os generais Humberto de Alencar Castello Branco, Golbery do Couto e Silva e Ernesto Geisel acompanhavam pela TV, de um apartamento na Zona Sul do Rio. Fam\u00edlias da Zona Sul acendiam velas em resposta, pedindo o afastamento das id\u00e9ias comunistas que, em suas vis\u00f5es, ganhavam cada vez mais destaque no governo.<\/p>\n<p>O que se viu ap\u00f3s o fat\u00eddico com\u00edcio foi o tensionamento maior das rela\u00e7\u00f5es institucionais brasileiras. Governo e militares j\u00e1 n\u00e3o falavam mais a mesma l\u00edngua. Mesmo acreditando existir o Dispositivo Militar que lhe garantiria o exerc\u00edcio do poder, o que se viu depois foi o desmoronamento da governabilidade. O general Jair Dantas Ribeiro, ministro da Guerra, elemento-chave para a manuten\u00e7\u00e3o do governo, foi operado \u00e0s pressas em 31 de mar\u00e7o. O general Assis Brasil manteve-se fiel at\u00e9 o ultimo instante a Jango. <\/p>\n<p>Mas a partir do momento em que foi declarada a vac\u00e2ncia do cargo \u2013 mesmo em flagrante ilegalidade:\u00a0 o presidente ainda sobrevoava o Rio Grande do Sul, rumo a Porto Alegre, o pa\u00eds ganhava novos atores: os militares que assumiriam o poder, e parte da sociedade civil, chanceladora, patrocinadora do golpe, legitimadora do regime de exce\u00e7\u00e3o que instalara-se a partir de 01 de abril de 1964.<\/p><\/div>\n<div><\/div>\n<div><a href=\"http:\/\/1.bp.blogspot.com\/-362QA8MiQG0\/ThNBerxrWHI\/AAAAAAAADq0\/sp9fo2w2d5c\/s1600\/bol.jpg\" imageanchor=\"1\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" border=\"0\" height=\"300\" src=\"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2011\/07\/bol.jpg\" width=\"400\"><\/a><\/div>\n<div><b><br \/><\/b><\/div>\n<div><b>Institui\u00e7\u00f5es e Movimentos Sociais: Agentes Legitimadores do Golpe<\/b><\/p>\n<p>Desde fins dos anos 1950 \u00e9 percept\u00edvel a presen\u00e7a de empres\u00e1rios ligados \u00e0 Federa\u00e7\u00e3o das Ind\u00fastrias do Estado do Rio deJaneiro (FIRJAN) no cen\u00e1rio pol\u00edtico nacional. Empres\u00e1rios como Jorge Bhering de Mattos (dono da Ind\u00fastria Aliment\u00edcia Bhering) e Henning Albert Boilesen (dinamarqu\u00eas, dono do Grupo Ultrag\u00e1s), entre outros, discordavam das posi\u00e7\u00f5es nacionalistas de Juscelino Kubitschek e posteriormente, de Jo\u00e3o Goulart, j\u00e1 que iam de encontro aos interesses das rela\u00e7\u00f5es com multinacionais. <\/p>\n<p>Boilesen foi um dos principais financiadores do Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais (IPES), uma entidade que promoveu a propaganda contr\u00e1ria ao governo Jango, contando com capital vindo dos empres\u00e1rios e tinha como membros militares \u2013 como Golbery do Couto e Silva \u2013 e integrantes da Igreja Cat\u00f3lica entre seus diretores e idealizadores. Era favor\u00e1vel \u00e0 entrada de capital estrangeiro no Brasil. <\/p>\n<p>O IPES produziu uma s\u00e9rie de 14 pequenos filmes, com dura\u00e7\u00e3o m\u00e9dia de dez minutos, que eram exibidos em cinemas e tinham a dire\u00e7\u00e3o de Jean Manzon, que j\u00e1 trabalhara para o Departamento de Imprensa e Propaganda de Vargas. Os filmes abrangiam temas como o medo do comunismo, a fome e mis\u00e9ria no Brasil, a amea\u00e7a ao catolicismo, a amea\u00e7a que o regime comunista poderia trazer para a fam\u00edlia e a moralidade, entre outros.<\/p>\n<p>As Marchas da Fam\u00edlia com Deus pela Liberdade foram uma reposta direta \u00e0 declara\u00e7\u00e3o de Jango (\u201c\u2026 n\u00e3o podem ser levantados os ros\u00e1rios da f\u00e9 contra o povo\u2026\u201d) e contou com a participa\u00e7\u00e3o de entidades e associa\u00e7\u00f5es civis como a Campanha da Mulher pela Democracia (CAMDE), do Rio de Janeiro, da Liga da Mulher Democrata (Limde), de Belo Horizonte, e da Uni\u00e3o C\u00edvica Feminina (UCF), de S\u00e3o Paulo. Eram mulheres que expunham o radicalismo contr\u00e1rio ao governo Jango, donas de um discurso moral, pertencentes a uma elite empresarial (principalmente as dirigentes). Uma das primeiras causas da CAMDE foi a demonstra\u00e7\u00e3o de contrariedade \u00e0 San Tiago Dantas, indicado por Jango para ser seu primeiro-ministro.<\/p>\n<p>\u00c9 importante tamb\u00e9m detectar os agentes influenciadores das Marchas da Fam\u00edlia. A Concentra\u00e7\u00e3o do Ros\u00e1rio em Fam\u00edlia resultou da associa\u00e7\u00e3o das mulheres com setores conservadores da Igreja Cat\u00f3lica, e segundo a pesquisadora Aline Presot, \u201cfoi o embri\u00e3o das Marchas da Fam\u00edlia com Deus pela Liberdade\u201d. O padre Patrick Peyton foi um dos idealizadores da Cruzada do Ros\u00e1rio, nascida em 1945 e que percorreu diversas cidades no mundo, entre elas, v\u00e1rias capitais brasileiras. O slogan da Cruzada era: \u201cFam\u00edlia que reza unida, permanece unida\u201d. Segundo consta, em 1962, a Cruzada do Ros\u00e1rio reuniu 1 milh\u00e3o e meio de pessoas no Rio de Janeiro, pregando o anticomunismo, e o incentivo a valores morais e \u00e0 fam\u00edlia. O ros\u00e1rio era a arma contra o comunismo.<\/p><\/div>\n<div><\/div>\n<div><a href=\"http:\/\/3.bp.blogspot.com\/-eKShQef7ghE\/ThNBnI31QgI\/AAAAAAAADq4\/hnvWT871FYk\/s1600\/marcha6.jpg\" imageanchor=\"1\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" border=\"0\" height=\"265\" src=\"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2011\/07\/marcha6.jpg\" width=\"320\"><\/a><\/div>\n<div><\/div>\n<div>A primeira Marcha da Fam\u00edlia com Deus pela Liberdade ocorreu em 19 de mar\u00e7o de 1964, dia de S\u00e3o Jos\u00e9, em S\u00e3o Paulo. Reuniu 500 mil pessoas. Em seguida, percorreu diversas cidades do interior paulista. Mas com o golpe civil-militar, de 31 de mar\u00e7o, as Marchas n\u00e3o acabaram. Pelo contr\u00e1rio: se refor\u00e7aram, como agentes legitimadores do novo regime que se instaurara. No dia 2 de abril, 1 milh\u00e3o de pessoas marcharam no Rio de Janeiro. No mesmo dia, 200 mil pessoas marcharam em Uberl\u00e2ndia (MG). Em 10 de abril, 200 mil pessoas compareceram \u00e0 Marcha em Recife. Em 15 de maio, 200 mil pessoas marcharam em Fortaleza (CE). <\/p>\n<p>\u00c9 importante ressaltar que dados apontam para a realiza\u00e7\u00e3o simult\u00e2nea de diversas Marchas nas mesmas datas. De mar\u00e7o a maio de 1964 foram realizadas, ao todo, 69 marchas em todo o pa\u00eds, denotando o apoio de setores m\u00e9dios civis \u00e0 chamada &#8220;restitui\u00e7\u00e3o da ordem e governabilidade&#8221;; e tamb\u00e9m um refor\u00e7o e incentivo aos militares que acabavam de assumir os rumos do Brasil. No entanto, o discurso de legitimidade, que num primeiro momento apoiou, posteriormente mostrou-se contr\u00e1rio aos rumos adotados. A id\u00e9ia era que os militares assumissem, restitu\u00edssem a ordem e depois entregassem o poder novamente aos civis <i>[N.doE.: o que gerou uma ir\u00f4nica par\u00f3dia posteriormente: &#8220;marchou com Deus pela democracia, agora chia, agora chia&#8221;.]<\/i><\/p>\n<p>Com o consequente endurecimento do regime e o acirramento promovido pelas tigradas antes adormecidas nos por\u00f5es dos quart\u00e9is, adeus \u00e0s ilus\u00f5es destes setores conservadores da sociedade brasileira.<\/p>\n<p>Finalizando, disponibilizo o trailer do document\u00e1rio \u201cCidad\u00e3o Boilesen\u201d, que aborda o financiamento de grupos empresariais ao IPES, incentivando o golpe civil-militar de 1964:<\/p><\/div>\n<div>\n<p><b><i>FONTES:<\/i><\/b><br \/><i>DREIFUSS, Ren\u00e9. 1964: a conquista do Estado. A\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, poder e golpe de classe. Petr\u00f3polis: Vozes, 1981.<\/i><br \/><i>FIGUEIREDO, Argelina Cheibub. Democracia ou reformas? Alternativas democr\u00e1ticas \u00e0 crise pol\u00edtica. S\u00e3o Paulo: Paz e Terra, 1993.<\/i><br \/><i>MOTTA, Rodrigo Patto S\u00e1. Em guarda contra o perigo vermelho. S\u00e3o Paulo: Perspectiva, 2002.<\/i><br \/><i>PRESOT, Aline. As Marchas da Fam\u00edlia com Deus pela Liberdade e o Golpe de 1964. Disserta\u00e7\u00e3o de Mestrado. Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Hist\u00f3ria Social. Universidade Federal do Rio de Janeiro. 2004.<\/i><br \/><i>PRESOT, Aline. \u201cCelebrando a \u2018revolu\u00e7\u00e3o\u2019: as Marchas da Fam\u00edlia com Deus pela Liberdade e o Golpe de 1964\u2033 In: ROLLEMBERG, Denise; QUADRAT, Samantha Viz. A constru\u00e7\u00e3o social dos regimes autorit\u00e1rios: legitimidade, consenso e consentimento no s\u00e9culo XX \u2013 Brasil e Am\u00e9rica Latina\u201d. Rio de Janeiro: Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira, 2010.<\/i><br \/><i>REIS, Daniel Aar\u00e3o. Ditadura militar, esquerdas e sociedade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editora, 2002.<\/i><br \/><i>VILLA, Marco Antonio. Jango: um perfil (1945-1964). S\u00e3o Paulo: Editora Globo, 2004.<\/i><\/div>\n<div><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nesta quarta feira, a coluna &#8220;Hist\u00f3ria &#038; Outros Assuntos&#8221;, do Mestre em Hist\u00f3ria Fabr\u00edcio Gomes, aborda novas pesquisas hist\u00f3ricas sobre o Golpe de 1964. OTour Details<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[22],"tags":[35,24],"class_list":["post-11416","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-cacique-de-ramos","tag-historia","tag-politica"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11416","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11416"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11416\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11416"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=11416"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=11416"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}