{"id":11317,"date":"2011-09-20T08:05:00","date_gmt":"2011-09-20T10:05:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2011\/09\/resenha-literaria-os-ultimos-passos-de-um-vencedor-entre-a-vida-e-a-morte-o-jose-de-alencar-que-conheci\/"},"modified":"2011-09-20T08:05:00","modified_gmt":"2011-09-20T10:05:00","slug":"resenha-literaria-os-ultimos-passos-de-um-vencedor-entre-a-vida-e-a-morte-o-jose-de-alencar-que-conheci","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2011\/09\/resenha-literaria-os-ultimos-passos-de-um-vencedor-entre-a-vida-e-a-morte-o-jose-de-alencar-que-conheci\/","title":{"rendered":"Resenha Liter\u00e1ria &#8211; &quot;Os \u00faltimos passos de um vencedor &#8211; Entre a vida e a morte, o Jos\u00e9 de Alencar que conheci&quot;"},"content":{"rendered":"<div><\/div>\n<p><\/p>\n<div>Ap\u00f3s um longo interregno, a nossa coluna &#8220;Resenha Liter\u00e1ria&#8221; est\u00e1 de volta. Na verdade nos \u00faltimos tempos li tr\u00eas livros, mas a pr\u00f3pria correria do dia a dia acabou fazendo com que n\u00e3o escrevesse sobre eles. Entretanto, farei um post pr\u00f3ximo sobre estes &#8211; talvez em conjunto.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>O livro tema de hoje \u00e9 a segunda biografia do ex-vice presidente Jos\u00e9 Alencar, falecido neste ano de 2011: \u00a0&#8220;Os \u00faltimos passos de um vencedor &#8211; Entre a vida e a morte, o Jos\u00e9 de Alencar que conheci&#8221;. <a href=\"http:\/\/pedromigao.blogspot.com\/2011\/02\/resenha-literaria-jose-alencar-amor.html\">Escrevi aqui a resenha da primeira biografia, de autoria da jornalista Eliane Catanh\u00eade<\/a>. Comprei o livro na \u00faltima sexta feira e li praticamente de uma vez s\u00f3, em pouco menos de 24 horas &#8211; interrompendo a leitura da biografia do ex-presidente Jo\u00e3o Goulart.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Na verdade \u00e9 um misto de biografia e relato absolutamente pessoal do jornalista da Rede Globo Jos\u00e9 Roberto Burnier, que acompanhou os \u00faltimos cinco anos de vida de Alencar praticamente de forma diuturna. Tanto que acabaria por se tornar amigo do ex-vice presidente e ver muitas vezes a emo\u00e7\u00e3o pessoal concorrendo diretamente com o dever profissional.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Burnier inicia o relato pelo fim: contando o desenlace com o falecimento do pol\u00edtico, empres\u00e1rio e um guerreiro contra o c\u00e2ncer. Foi dele o &#8220;furo&#8221; de reportagem que permitiu anunciar com exclusividade a morte, e ao mesmo tempo a alegria que sentira por um brilhante desempenho profissional era descompensada pela tristeza de perder aquele que havia se tornado um amigo para ele.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Ali\u00e1s, um par\u00eantese: o livro mostra claramente como a Rede Globo tem bons profissionais e que quando o direcionamento pol\u00edtico de suas lideran\u00e7as &#8211; notadamente o alucinado reacion\u00e1rio chamado Ali Kamel &#8211; n\u00e3o interfere nas coberturas a emissora ainda faz excelente jornalismo. Burnier acabou por ter privil\u00e9gios na cobertura, mas conquistados na\u00a0base\u00a0da confian\u00e7a obtida e de seu trabalho persistente de rep\u00f3rter, n\u00e3o por press\u00f5es ou poderes.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>O livro surgiu de uma entrevista dada por Alencar ao &#8220;Fant\u00e1stico&#8221; (acima, o leitor pode rev\u00ea-la) em 2009, logo ap\u00f3s aquela que foi considerada &#8220;a grande opera\u00e7\u00e3o&#8221;. Durou dezoito horas consecutivas, com a retirada de um grande n\u00famero de tumores e com o uso de uma t\u00e9cnica nova que significava &#8220;lavar&#8221; o abd\u00f4men do paciente com uma solu\u00e7\u00e3o quimioter\u00e1pica aquecida a 42 graus cent\u00edgrados. Uma cirurgia altamente agresssiva, com alto risco de morte na mesa mas que aquele momento foi razoavelmente bem sucedida.<\/div>\n<div><\/div>\n<div><a href=\"http:\/\/4.bp.blogspot.com\/-BdZKkntYT7U\/TnVfsU8jByI\/AAAAAAAADzg\/cHf-LjxaMis\/s1600\/jos%25C3%25A9+alencar+livro.jpg\" imageanchor=\"1\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" border=\"0\" height=\"400\" src=\"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2011\/09\/jos%25C3%25A9+alencar+livro.jpg\" width=\"277\"><\/a><\/div>\n<div>A entrevista citada teve duas horas de material bruto e na edi\u00e7\u00e3o foi resumida a aproximadamente oito minutos. Daquele material surgiu a id\u00e9ia em conjunto de Burnier e de sua colega jornalista &#8211; e depois assistente na pesquisa &#8211; Patr\u00edcia Carvalho de registrar esta conviv\u00eancia com Alencar e escrever uma esp\u00e9cie de biografia.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>O autor esteve na Zona da Mata mineira, local de origem de Alencar, fazendo pesquisas e obtendo informa\u00e7\u00f5es sobre a fam\u00edlia, a inf\u00e2ncia, a juventude e os primeiros passos como empres\u00e1rio. As informa\u00e7\u00f5es restantes vieram de v\u00e1rias grandes entrevistas com o biografado, da conviv\u00eancia de cinco anos, de conversas com m\u00e9dicos, amigos, pol\u00edticos, a esposa Mariza e os filhos.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>N\u00e3o \u00e9 uma biografia cl\u00e1ssica, e bem menos minuciosa na descri\u00e7\u00e3o dos fatos da vida de Alencar at\u00e9 se tornar vice presidente que o livro de Catanh\u00eade. Contudo este \u00e9 o grande m\u00e9rito de Burnier: narra a luta de Z\u00e9 Alencar pela vida dia a dia, momento a momento, nestes cinco anos de conviv\u00eancia. O rep\u00f3rter se tornou um amigo e muitas vezes confidente, de forma que o livro \u00e9 um misto da hist\u00f3ria do biografado, impress\u00f5es pessoais e da conviv\u00eancia de Burnier e do drama vivido na luta contra o c\u00e2ncer.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Um grande m\u00e9rito \u00e9 que o autor consegue passar seus sentimentos no relato durante as 240 p\u00e1ginas do livro. Em diversos momentos ele relata sua emo\u00e7\u00e3o e consegue emocionar o leitor. Eu, que sou uma pessoa de emo\u00e7\u00f5es contidas &#8211; o que me rende muitas vezes uma fama incorreta de &#8220;frio&#8221;, em diversos momentos me vi com os olhos marejados, quase \u00e0s l\u00e1grimas. \u00c9 imposs\u00edvel ficar indiferente \u00e0s linhas escritas.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Esta \u00e9 uma grande vantagem: a biografia de Catanh\u00eade, embora talvez mais completa em termos de hist\u00f3ria pregressa, \u00e9 fria.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Outro ponto de vantagem \u00e9 que ao contr\u00e1rio da autora Burnier n\u00e3o perpassa suas prefer\u00eancias pol\u00edticas no texto. O ex-presidente Lula, que tem seu papel prejudicado pelo \u00f3dio pol\u00edtico e pessoal devotado por Eliane, \u00e9 retratado como ser humano por Burnier, com grande admira\u00e7\u00e3o e sem ju\u00edzos de valor pol\u00edtico. A rela\u00e7\u00e3o dos dois, homens diferentes mas de trajet\u00f3rias de supera\u00e7\u00e3o semelhantes, \u00e9 mostrada com grande sensibilidade pelo autor.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Tamb\u00e9m s\u00e3o reveladoras as informa\u00e7\u00f5es sobre a briga que os dois principais cirurgi\u00f5es de Alencar tiveram por ocasi\u00e3o de uma das opera\u00e7\u00f5es &#8211; chegando a haver um r\u00edspido bate boca entre os dois na presen\u00e7a do paciente. Por outro lado chega a ser engra\u00e7ado o coment\u00e1rio de outro de seus m\u00e9dicos, o doutor Paulo Hoff, respondendo ao jornalista que acreditava o fim estar pr\u00f3ximo:<\/div>\n<div><\/div>\n<div><i>&#8220;- T\u00e1 dif\u00edcil mesmo. Mas, em se tratando de Z\u00e9 Alencar, eu n\u00e3o falo mais nada. Ele derrubou todas as minhas previs\u00f5es.&#8221;<\/i><\/div>\n<div><\/div>\n<div>Burnier deixa claro que o ex-vice presidente chegou a um est\u00e1gio de aceita\u00e7\u00e3o da morte e que em um determinado momento, com sua resigna\u00e7\u00e3o o corpo finalmente &#8220;desligou&#8221;. Tamb\u00e9m s\u00e3o dram\u00e1ticos o veto \u00e0 sua presen\u00e7a na posse de Dilma Rousseff e na transmiss\u00e3o de cargo.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Destaque tamb\u00e9m para a narra\u00e7\u00e3o da amizade entre o rep\u00f3rter e Alencar. Burnier \u00e9 de extrema sensibilidade no relato e faz o leitor se sentir parte da hist\u00f3ria.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>N\u00e3o esgoto aqui os temas, mas \u00e9 leitura indispens\u00e1vel para se entender um pouco da luta deste guerreiro pela vida. Tamb\u00e9m se faz importante pela revela\u00e7\u00e3o de bastidores de jornalismo que muitas vezes passam despercebidos.<\/div>\n<div><\/div>\n<div><a href=\"http:\/\/www.travessa.com.br\/OS_ULTIMOS_PASSOS_DE_UM_VENCEDOR_ENTRE_A_VIDA_E_A_MORTE_O_JOSE_DE_ALENCAR_QUE_CONHECI\/artigo\/6c315ea1-35e1-4832-b8bb-ecd71b33e73c\">Na Livraria da Travessa, custa R$ 35<\/a>. Diria eu que \u00e9 indispens\u00e1vel.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Abaixo o leitor pode ver a mat\u00e9ria feita por Burnier logo ap\u00f3s a morte de Alencar. Tamb\u00e9m disponibilizoum cap\u00edtulo do livro, &#8220;O Vencedor&#8221;.<\/div>\n<p><\/p>\n<div> <\/div>\n<div><b><i><br \/><\/i><\/b><br \/><b><i>&#8220;O Vencedor<\/i><\/b><\/div>\n<div><\/div>\n<div>&#8220;Desde que ficou claro que o homem sairia de novo pela porta do hospital, eu n\u00e3o pensava em outra coisa: uma entrevista exclusiva com o vice-presidente, a primeira depois do &#8220;milagre&#8221;.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Nos \u00faltimos cinco anos, convivi mais com gente ligada a Alencar do que com a minha fam\u00edlia. Entre eles, havia um mineiro baixinho, cara de gente boa e muito gente boa. Adriano Silva, &#8220;sombra&#8221; do fundador da Coteminas desde os tempos de Associa\u00e7\u00e3o Comercial de Belo Horizonte, mais de trinta anos atr\u00e1s. Homem educado, de fala mansa, com &#8220;uais&#8221; para todo lado e de uma fidelidade sem igual. Tudo o que envolvia Alencar passava por ele. E com meu desejo n\u00e3o foi diferente. &#8220;Vamos ver. Primeiro ele precisa acordar&#8230;&#8221;, respondeu Adriano.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>O vice tinha acabado de sair do centro cir\u00fargico e eu j\u00e1 estava querendo falar com ele. Continuei mantendo meu pleito de plant\u00e3o. S\u00f3 quando ele saiu do hospital foi que recebi uma resposta mais positiva. &#8220;Vou falar com ele. Acho que vai dar&#8221;, comunicou o assessor.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Como o leitor pode perceber, jornalista tem muitos motivos para roer as unhas. At\u00e9 dos p\u00e9s, se necess\u00e1rio. Tive que esperar oito dias at\u00e9 que Alencar sa\u00edsse do buraco. &#8220;Oito dias&#8230;&#8221;, sussurrei para mim mesmo. Aquilo era tempo demais, tempo para a concorr\u00eancia tentar o mesmo e acabar com a minha exclusividade. Eu j\u00e1 estava muito \u00e0 frente dos colegas, mas &#8220;quase&#8221; \u00e9 o mesmo que nada. A semana se arrastou, e o pronto-socorro do hospital j\u00e1 &#8220;piscava&#8221; para mim, tamanha era a minha agonia&#8230; Ligava todos os dias para Adriano. E a resposta insistia em permanecer igual: &#8220;Ainda n\u00e3o&#8221;. Alencar estava fraco, tinha dificuldade para respirar. Qualquer movimento, por menor que fosse, j\u00e1 o cansava. A alimenta\u00e7\u00e3o custava a se normalizar, assim como o funcionamento do intestino, retalhado pela cirurgia. Era evidente a tens\u00e3o dos m\u00e9dicos. Ele nunca demorara tanto para se levantar e andar. A essa altura, al\u00e9m de Alencar, eu e os m\u00e9dicos pouco dorm\u00edamos. Cada qual com sua agonia.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Eu fazia uma gin\u00e1stica mental para n\u00e3o ficar imaginando que a qualquer momento algu\u00e9m ia me &#8220;furar&#8221;, ou seja, ia conseguir a entrevista antes de mim. Durante o calv\u00e1rio, Adriano me disse que a cada dia que passava mais e mais ve\u00edculos pediam o mesmo. E eu seguia rezando para o vice-presidente se recuperar, voltar a raciocinar e me atender. Eram muitas as gra\u00e7as e foram muitas as rezas. At\u00e9 que o homem saiu do inferno.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>&#8220;O vice-presidente topou&#8221;, disse calmamente o assessor. &#8220;Ele soube dos muitos pedidos e ponderou que o seu havia sido o primeiro e que voc\u00ea era o jornalista em que ele mais confiava.&#8221;<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Desliguei o telefone emocionado, agradeci aos c\u00e9us e liguei para a Globo: &#8220;Consegui uma exclusiva com o Alencar!&#8221;, disse ao meu diretor. &#8220;Agora \u00e9 com voc\u00ea. Vou precisar de um bom espa\u00e7o no Fant\u00e1stico!&#8221;<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Isso n\u00e3o seria problema. No boca a boca, a luta daquele senhor que, naqueles dias, passava dos 77 anos de vida, j\u00e1 atra\u00eda a aten\u00e7\u00e3o de s\u00e3os e doentes. Virou rotina para mim receber mensagens, cartas, livros de an\u00f4nimos para entregar \u00e0quele lutador. Dentro do S\u00edrio-Liban\u00eas, quem estava internado me puxava pelo bra\u00e7o e falava baixinho: &#8220;Esse homem \u00e9 um guerreiro! \u00c9 um exemplo para n\u00f3s que enfrentamos uma doen\u00e7a. Ele nos d\u00e1 esperan\u00e7a de que h\u00e1 uma sa\u00edda&#8221;.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Pois o homem que se sentou \u00e0 minha frente, numa tarde de quinta-feira, n\u00e3o tinha pinta de gladiador. Estava p\u00e1lido, mais magro, mais envelhecido. Mas orgulhoso. O que o corpo mostrava os olhos ignoravam. Estavam ali, vivos, espertos, loucos para falar. E falou: &#8220;Eu ainda tenho um pouco de cansa\u00e7o. A quimioterapia traz diversos efeitos colaterais, entre eles, esse&#8221;.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Alencar separava bem as palavras e as frases. A respira\u00e7\u00e3o mostrava que ele se cansava sem esfor\u00e7o. &#8220;N\u00e3o foi nenhum hero\u00edsmo, n\u00e3o. Eu tinha que tomar essa decis\u00e3o. N\u00e3o tinha outra. Eu tinha que me operar.&#8221; Dobrou o len\u00e7o com o qual acabara de enxugar o rosto, botou no bolso de tr\u00e1s da cal\u00e7a e seguiu falando: &#8220;Eu n\u00e3o estou habituado \u00e0s coisas f\u00e1ceis. Eu sempre deparei, na vida, com problemas dif\u00edceis. E nunca deixei de enfrent\u00e1-los&#8221;.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>O recado era claro. Quem quisesse lev\u00e1-lo ia ter que suar muito mais do que a camisa&#8230; Aquele homem n\u00e3o ficava com a cabe\u00e7a presa no problema, mas na solu\u00e7\u00e3o. Ele dedicava toda a sua energia para resolver em vez de lamentar. Trocava ansiedade por solu\u00e7\u00e3o. Foi assim sempre.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Tanto sabia que a cirurgia era de alto risco que assinou um documento, quatro dias antes, tomando ci\u00eancia de todos os perigos que a interven\u00e7\u00e3o poderia produzir. O autodidata pediu licen\u00e7a ao fil\u00f3sofo S\u00f3crates e emendou: &#8220;Eu n\u00e3o tenho medo da morte. Tenho medo da desonra&#8221;. E prosseguiu falando do fim de todos n\u00f3s. &#8220;A morte \u00e9 um fen\u00f4meno natural. Assim como voc\u00ea nasce, voc\u00ea um dia vai morrer. A gente n\u00e3o tem que ficar pensando nisso. E voc\u00ea vai viver o tempo que Deus quiser que voc\u00ea viva. Eu n\u00e3o posso pensar que vai acontecer alguma coisa comigo sem que Deus queira. E se Ele quiser que eu morra \u00e9 porque vai ser bom para mim. Deus n\u00e3o faz nada ruim contra ningu\u00e9m.&#8221;<\/div>\n<div><\/div>\n<div>O vice-presidente parecia estar com uma carga extra de adrenalina nas veias e na mem\u00f3ria. Contou &#8220;causos&#8221;, passagens da vida e a bronca antes da cirurgia. &#8220;Eu n\u00e3o podia deixar que a turma entrasse com cara e esp\u00edrito de vel\u00f3rio. Disse que n\u00f3s n\u00e3o pod\u00edamos recuar da opera\u00e7\u00e3o. Eu precisava do empenho deles. E tive dobrado.&#8221;<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Acostumado a decidir, habituado a mandar, mas com eleg\u00e2ncia, com jeito bem mineiro mesmo&#8230; Foi assim que se referiu \u00e0 mulher, companheira e &#8220;fiscal&#8221; contra algumas travessuras. &#8220;Ajuda tanto que at\u00e9 atrapalha. Porque ela n\u00e3o me deixa fazer nada. Por exemplo, n\u00e3o me deixa tomar um golo ! N\u00e3o senhor!, ela fala.&#8221; E comentou dos brasileiros que torciam por ele. &#8220;Eles t\u00eam me ajudado muito. O que eles torcem por mim, as mensagens que eles mandam me deixam emocionado. E v\u00eam de pessoas que n\u00e3o s\u00e3o do nosso dia a dia. S\u00e3o de gente que mora longe, que eu nunca vi.&#8221;<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Humilde, Alencar agradeceu aos c\u00e9us. &#8220;Deus n\u00e3o me deve, e nem quero que Ele me d\u00ea um dia a mais de vida de que eu n\u00e3o possa me orgulhar.&#8221;<\/div>\n<div><\/div>\n<div>E ganhou de vez o cora\u00e7\u00e3o do povo ao dizer o que pensava da vida, dali em diante. &#8220;Espero legar uma heran\u00e7a da qual meus herdeiros possam se orgulhar. Mais nada.&#8221;<\/div>\n<div><\/div>\n<div>O homem fraco, cansado e magro saiu com pose de vencedor.\u00a0<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Se o impacto de ler o que ele disse j\u00e1 \u00e9 grande, imagine ouvir tudo aquilo, cara a cara. Sa\u00ed atordoado do bairro dos Jardins, em S\u00e3o Paulo. Eu e toda a equipe.\u00a0&#8220;Meu Deus! Quanta hist\u00f3ria!&#8221;, era o que eu ouvia de mim mesmo. Se pudesse, colocaria no ar a entrevista bruta. Quarenta minutos de estimulantes na veia. Sabia que muita coisa ficaria de fora. Guardei aquilo na mem\u00f3ria, mas bem por perto&#8230;<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Quando vimos a mat\u00e9ria editada pela primeira vez, n\u00e3o houve testemunha que n\u00e3o tivesse se comovido. Na segunda-feira pela manh\u00e3 comprovei, mais uma vez, a pot\u00eancia da televis\u00e3o. Todo mundo me parava para comentar a entrevista. Pouco depois das oito e meia, meu celular tocou: &#8220;\u00c9 do Pal\u00e1cio do Jaburu. O vice-presidente vai falar&#8221;.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Alencar contou que j\u00e1 tinha visto cinco vezes a reportagem. Estava emocionado por ter conseguido falar aos brasileiros que o apoiavam. Estava agradecido.\u00a0<\/div>\n<div><\/div>\n<div>&#8220;Agradecido estou eu, presidente. Foi um privil\u00e9gio compartilhar daquele momento. As pessoas n\u00e3o param de perguntar sobre sua sa\u00fade.&#8221;<\/div>\n<div><\/div>\n<div>T\u00e3o logo o vice desligou, surgiu na minha frente o ent\u00e3o presidente. Na Fiesp, ao lado de sua colega argentina Cristina Kirchner, Lula desviou-se do caminho e veio na minha dire\u00e7\u00e3o. Abra\u00e7ou-me e disse no meu ouvido: &#8220;Adorei o que voc\u00ea fez ontem com o Z\u00e9 Alencar! Muito bonito!&#8221;.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Definitivamente, as mensagens de Alencar haviam se espalhado pelo pa\u00eds afora e alcan\u00e7ado os lugares mais improv\u00e1veis. No mesmo dia, seus ex-colegas lembraram-se dele no plen\u00e1rio da C\u00e2mara dos Deputados.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Alencar havia virado assunto nacional. A guerra daquele homem pela vida despertou sentimentos e inspirou atitudes que me fizeram acompanh\u00e1-lo, seja de perto, seja de longe. Aquilo me atingiu fundo. Eu precisava ouvi-lo mais e, depois, contar a todos.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Na semana da P\u00e1scoa, fui \u00e0 casa dele apresentar oficialmente a ideia do livro e a minha colega, Patricia Carvalho, que me ajudaria na pesquisa. Eram oito da noite quando entramos na ampla sala de visita. Alencar nos recebeu na porta vestido como sempre, de palet\u00f3 e gravata. Muito cordial, apresentou-nos as duas filhas, Maria da Gra\u00e7a e Patr\u00edcia. Adriano, presente, dispensava a cerim\u00f4nia. Antes de nos sentarmos, o anfitri\u00e3o nos levou ao corredor e nos mostrou diversas fotos que cobriam as paredes. Parou diante de uma que registrava seu casamento, e seus olhos brilharam. Ficou claro por que aquela mo\u00e7a de Caratinga fisgou o comerciante \u00e0 primeira vista. Dona Mariza estava linda.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Entramos \u00e0 esquerda, no seu escrit\u00f3rio \u00edntimo. Era uma sala simples, com um sof\u00e1 de couro preto e uma TV. Apesar de ter se tornado um dos homens mais ricos do Brasil, Alencar mantinha a humildade. Nunca gostou de esbanjar.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>A reuni\u00e3o foi na salona decorada bem \u00e0 mineira, com motivos barrocos. Tinha pompa, era s\u00f3bria e testemunha de tomadas de decis\u00f5es. Quando expus o que faria, o homem destrambelhou a falar. Contou o que lhe veio \u00e0 cabe\u00e7a, sem compromisso com a cronologia. A certa altura, nossos olhos se desviaram. N\u00e3o era para menos. A copeira trouxe sua bebida preferida, o u\u00edsque Buchanan s.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>A surpresa foi geral, at\u00e9 da empregada, que ficou paralisada sem saber o que fazer. &#8220;Serve! J\u00e1 falei que \u00e9 para servir!&#8221;, mandou o patr\u00e3o.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>O &#8220;golo&#8221; nas reuni\u00f5es informais era de lei. E ai de quem o reprimisse. O sil\u00eancio foi tal que deu para ouvir o l\u00edquido cor de caramelo se esgueirando pelo copo e fazendo o gelo estalar.\u00a0<\/div>\n<div><\/div>\n<div>A cada gole, uma hist\u00f3ria diferente. O neto Davi, sua paix\u00e3o, apareceu com uma caixa de chocolate. &#8220;Oferece \u00e0s visitas&#8221;, ordenou o av\u00f4.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Alencar abra\u00e7ou o menino como eu nunca o tinha visto fazer com ningu\u00e9m. Despejou tantas loas ao garoto que o pequeno ficou todo sem jeito. Duas horas e meia depois de entrarmos, sa\u00edmos com a cabe\u00e7a cheia de planos.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>No encontro, o patrono sugeriu diversos parentes e velhos companheiros que dever\u00edamos ouvir. Eu teria que ir \u00e0 regi\u00e3o de Muria\u00e9, onde ele nasceu, para respirar o ar do ambiente que um dia foi o dele e para onde pouco voltou. Mas, antes de todos, teria que gravar com ele o mais breve poss\u00edvel. A preocupa\u00e7\u00e3o com o tempo era minha e dele tamb\u00e9m. Alencar se automotivava, mas mantinha os p\u00e9s bem no ch\u00e3o. Sabia que o inimigo era poderoso e cada vez mais forte. Sabia que poderia morrer logo. Marcar e desmarcar o primeiro depoimento virou rotina. Ora ele estava fazendo quimioterapia, ora estava ocupado com o trabalho, muitas vezes substituindo o serelepe viajante presidente Lula.\u00a0Cheguei a comprar passagem para Bras\u00edlia para uma data que acabou riscada da agenda. Decidi ent\u00e3o come\u00e7ar pelo que estava \u00e0 m\u00e3o. Liguei para Toninho, o irm\u00e3o mais pr\u00f3ximo do vice-presidente, e marquei minha viagem \u00e0 Zona da Mata. Ao mergulhar no passado de Jos\u00e9 Alencar, conheci um personagem chamado Zez\u00e9.&#8221;<\/p>\n<p><i>(pp. 49-55)<\/i><br \/><i><br \/><\/i><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ap\u00f3s um longo interregno, a nossa coluna &#8220;Resenha Liter\u00e1ria&#8221; est\u00e1 de volta. 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