{"id":11312,"date":"2011-09-24T12:45:00","date_gmt":"2011-09-24T14:45:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2011\/09\/cinecasulofilia-fragmentos-cinematograficos\/"},"modified":"2011-09-24T12:45:00","modified_gmt":"2011-09-24T14:45:00","slug":"cinecasulofilia-fragmentos-cinematograficos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2011\/09\/cinecasulofilia-fragmentos-cinematograficos\/","title":{"rendered":"Cinecasulofilia &#8211; &quot;Fragmentos Cinematogr\u00e1ficos&quot;"},"content":{"rendered":"<div><a href=\"http:\/\/1.bp.blogspot.com\/-i0nTdY9dngE\/TnpLHh7wg0I\/AAAAAAAAD0M\/RLUDGYVMNYE\/s1600\/madonnen_maria-speth.jpg\" imageanchor=\"1\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" border=\"0\" height=\"414\" src=\"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2011\/09\/madonnen_maria-speth.jpg\" width=\"640\"><\/a><\/div>\n<p><\/p>\n<div>Em mais um in\u00edcio de final de semana, <b>a coluna &#8220;Cinecasulofilia&#8221;, assinada pelo cr\u00edtico, professor e cineasta Marcelo Ikeda<\/b>. Hoje temos um resumo de filmes vistos e analisados pelo colunista durante este \u00faltimo m\u00eas.<\/p>\n<p>Como sempre, texto publicado <a href=\"http:\/\/cinecasulofilia.blogspot.com\/\">em parceria com o blog de mesmo nome<\/a>.<\/p>\n<p><i><b>Fragmentos Cinematogr\u00e1ficos<\/b><\/i><\/p>\n<p>Nesse corre-corre da vida, n\u00e3o consegui escrever aqui sobre diversos filmes interessantes que vi neste m\u00eas.<\/p>\n<p>A primeira coisa \u00e9 a chamada <i>\u201cNova Escola de Berlim\u201d<\/i>: vi uns dez ou quinze filme do cinema alem\u00e3o deste s\u00e9culo e achei surpreendentemente interessante, um cinema jovem, sobre relacionamentos, e que possui diversas semelhan\u00e7as estil\u00edsticas entre eles. Como esses filmes n\u00e3o passaram com destaque em Cannes ou mesmo na competitiva de Berlim, ficam fora das grandes coberturas cr\u00edticas, o que s\u00f3 assinala a miopia da cr\u00edtica para com o cinema em geral &#8211; porque esses filmes s\u00e3o bastante interessantes e merecem ser vistos dado o cen\u00e1rio do cinema contempor\u00e2neo. Fora o nome do Petzold, que \u00e9 o mais conhecido. <\/p>\n<p>Entre esse conjunto de filmes, destaco alguns que me impressionaram muito: <i>Bungalow<\/i> (Ulrich Kohler), <i>Madonnen<\/i> (Maria Speth, foto acima), <i>Klassenfahrt<\/i> (Henner Winckler), <i>Der Schone Tag<\/i> (Thomas Arslen). Desses, o que mais me impressionou foi o filme do Kohler, embora o filme seguinte dele n\u00e3o ter me pegado tanto. Klassenfahrt \u00e9 talvez o \u201cmenor\u201d deles, mas de todos foi o filme que mais ficou comigo depois de um tempo &#8211; sua sutileza ao abordar o universo jovem \u00e9 desconcertante. Espero retornar a esse conjunto de filmes depois de minha viagem. E fico assustado como um filme como MADONNEN n\u00e3o se torna conhecido no Brasil.<\/p>\n<p>Outros filmes que me encantaram em muito foram alguns filmes do Hou Hsiao Hsien de sua fase dos anos oitenta, antes do \u201ccinema intelectual\u201d de O Mestre das Marionetes em diante. Desses, vi apenas dois, mas que j\u00e1 me marcaram muito: Poeira no Vento e Um ver\u00e3o na casa do vov\u00f4. <\/p>\n<p>Os dois filmes trabalham uma oscila\u00e7\u00e3o entre a cidade e o campo que a princ\u00edpio parece dicot\u00f4mica, mas uma vis\u00e3o atenta mostra que existem muito mais nuances do que um enfoque meramente saudosista e buc\u00f3lico do interior. &#8216;Um ver\u00e3o na casa do vov\u00f4&#8217; parece um filme mais tradicional sobre um neto que vai para a casa do av\u00f4 no campo mas HHH \u00e9 realmente um mestre porque, revendo o filme e pensando um pouco mais, percebemos claramente as sutilezas de sua constru\u00e7\u00e3o f\u00edlmica, a maestria das op\u00e7\u00f5es de encena\u00e7\u00e3o e a brilhante teia das rela\u00e7\u00f5es interpessoais que vai se desvelando de forma nada trivial. <\/p>\n<p>S\u00e3o dois filmes que v\u00e3o crescendo dentro da gente. <i>&#8216;Poeira no vento&#8217;<\/i> \u00e9 sem d\u00favida mais maduro, j\u00e1 com algumas elipses decisivas que antecipam o cinema posterior de HHH. Um filme delicado mas ao mesmo tempo duro; um filme humano mas ao mesmo tempo hist\u00f3rico. <i>Poeira no vento<\/i> \u00e9 mais delicado que os filmes posteriores de HHH. Sinto que s\u00f3 em Caf\u00e9 Lumi\u00e8re que HHH retorna a esse cinema: CL \u00e9 quase um di\u00e1logo com PV s\u00f3 que ao avesso. Precisaria desenvolver mais. Quero ver mais uns dois ou tr\u00eas filmes dessa \u00e9poca para falar mais. E os filmes de Hou devem ser vistos sem pressa, e gosto de caminhar depois de t\u00ea-los visto, para que eles possam \u201cfazer digest\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Vi tamb\u00e9m mais de um filme de Frammartino, Mario Bava, Georges Franju e Kon Ichikawa, diretores absolutamente diferentes, mas \u00e9 sempre muito interessante ver de uma tacada s\u00f3 dois filmes de um mesmo diretor e ficar fazendo rela\u00e7\u00f5es sobre eles. <\/p>\n<p>Dois filmes de Ichikawa \u2013 A Harpa da Birm\u00e2nia e Fogo na Plan\u00edcie \u2013 dois filmes que queria ter visto h\u00e1 muito tempo, mexeram muito comigo, especialmente por eu t\u00ea-los visto nessa ordem. Se gostei muito de A<i> Harpa da Birm\u00e2nia<\/i>, de seu tom humanista, da valoriza\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o f\u00edsico e do tempo ao observar a guerra de um ponto de vista inusitado, esse filme me pareceu datado e absolutamente romanesco em rela\u00e7\u00e3o com o dur\u00edssimo <i>Fogo na Plan\u00edcie<\/i>, que, de cara, considero um dos grandes filmes do cinema japon\u00eas, um daqueles filmes que apenas o cinema japon\u00eas poderia ter feito. Um dos mais duros filmes j\u00e1 feitos sobre a guerra. <\/p>\n<p>Quase em contraposi\u00e7\u00e3o com o humanismo ing\u00eanuo de A Harpa da Birm\u00e2nia (a necessidade do dever, de \u201centerrar os mortos\u201d), Fogo na Plan\u00edcie mostra o absurdo da guerra visto de dentro, a partir da deambula\u00e7\u00e3o sem fim de um dos soldados simplesmente para se manter vivo, como uma travessia \u2013 nada \u00e9pica e nada moral, mas apenas f\u00edsica \u2013 de um soldado pelos campos devastados, em que os pr\u00f3prios aliados se matam uns aos outros pela mera sobreviv\u00eancia, travessia que \u00e9 diretamente associada \u00e0 pr\u00f3pria experi\u00eancia da falta de sentido da condi\u00e7\u00e3o humana e da vida. \u00c9 impressionante que Ichikawa o tenha feito apenas alguns anos ap\u00f3s A Harpa da Birm\u00e2nia.<\/p>\n<p>J\u00e1 Georges Franju \u00e9 um dos grandes mestres injusti\u00e7ados da hist\u00f3ria do cinema, que comp\u00f4s uma filmografia absolutamente admir\u00e1vel, sem compara\u00e7\u00f5es, mas que permeneceu por isso \u00e0 margem de um circuito de reconhecimento, afastando-se da nouvelle vague, ao fazer um cinema nitidamente cl\u00e1ssico mas completamente invulgar. Os filmes de Franju s\u00e3o todos filmes pol\u00edticos, desde seus primeiros document\u00e1rios geniais (Hotel des Invalides e O Sangue das Bestas) at\u00e9 a forma como Franju vai resgatar, por exemplo, o cinema de Feuillade em Judex, numa homenagem incrivelmente po\u00e9tica e pol\u00edtica, que nada tem de ing\u00eanua, mostrando a enorme sabedoria do cinema de Franju. <\/p>\n<p>A obsess\u00e3o de Franju \u00e9 a de olhar debaixo do tapete, desmascarar o que a sociedade vai empurrar para fora do olhar comum por ser inconveniente. Os Olhos sem Rosto, ou ainda mais, A Cabe\u00e7a contra a Parede s\u00e3o dois filmes lindos, porque articulam uma certa den\u00fancia contra uma sociedade que expele a diferen\u00e7a \u2013 e que assim gerou as Guerras Mundiais \u2013 e ao mesmo tempo constroem um discurso l\u00edrico, po\u00e9tico, dialogando com um cinema fant\u00e1stico, mas sem abrir m\u00e3o de uma encena\u00e7\u00e3o tipicamente realista.\u00a0<\/p><\/div>\n<div><\/div>\n<div>\u00c9 essa estranha mistura entre uma encena\u00e7\u00e3o realista e pol\u00edtica e um tom de cinema fant\u00e1stico (ou, como queiram, sua inclina\u00e7\u00e3o ao surrealismo) que faz do cinema de Franju um admir\u00e1vel tour de force entre o poss\u00edvel e o ideal, entre o mundo como ele \u00e9 e a possibilidade de o cinema transfigurar esse mundo atrav\u00e9s de uma f\u00e1bula, mas, claro, uma f\u00e1bula sempre realista. Em A Cabe\u00e7a Contra a Parede h\u00e1 uma cena perturbadora que resume o cinema cr\u00edtico de Franju: \u00e9 quando o rapaz finalmente \u00e9 liberto e vai para um cassino pedir emprego, e ele observa os olhos das pessoas vidrados na bolinha da roleta, e descobre, assim, de que o mundo de fora \u00e9 t\u00e3o assustador quanto o mundo do internato.<\/p>\n<p>N\u00e3o tenho mais energia para falar dos admir\u00e1veis filmes vagabundos de Mario Bava (sua mise en scene barroca, cheia de movimentos falsos, um filme de falsas apar\u00eancias sobre a inevitabilidade e a impossibilidade do amor..) e dos dois filmes extraordin\u00e1rios de Michelangelo Frammartino. Em AS QUATRO VOLTAS h\u00e1 um plano-sequ\u00eancia dos mais extraordin\u00e1rios que j\u00e1 vi no cinema contempor\u00e2neo. Suas rela\u00e7\u00f5es com o neorrealismo italiano s\u00e3o evidentes: um cinema de pura observa\u00e7\u00e3o sobre o tempo, sobre a natureza, e sobre, \u00e9 claro, a decad\u00eancia. Mais italiano, imposs\u00edvel. <\/p>\n<p>Espero voltar a esses filmes um dia, quando voltar de minha viagem de uma semana. Acho dif\u00edcil, pois o m\u00eas de outubro ser\u00e1 cheio, ent\u00e3o j\u00e1 escrevo algo aqui &#8211; mais como um registro.<\/p><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em mais um in\u00edcio de final de semana, a coluna &#8220;Cinecasulofilia&#8221;, assinada pelo cr\u00edtico, professor e cineasta Marcelo Ikeda. 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