{"id":10949,"date":"2012-08-11T10:47:00","date_gmt":"2012-08-11T12:47:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2012\/08\/buraco-da-fechadura-republica-dos-meninos\/"},"modified":"2012-08-11T10:47:00","modified_gmt":"2012-08-11T12:47:00","slug":"buraco-da-fechadura-republica-dos-meninos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2012\/08\/buraco-da-fechadura-republica-dos-meninos\/","title":{"rendered":"Buraco da Fechadura &#8211; &quot;Rep\u00fablica dos Meninos&quot;"},"content":{"rendered":"<div><a href=\"http:\/\/4.bp.blogspot.com\/-ijcp-EGrg9k\/UCV1ML9zwoI\/AAAAAAAAFpg\/a7Lpx-L-RNk\/s1600\/DSC02724_1264605962.JPG\" imageanchor=\"1\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" border=\"0\" height=\"480\" kda=\"true\" src=\"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2012\/08\/DSC02724_1264605962.jpg\" width=\"640\"><\/a><\/div>\n<p><\/p>\n<div>Neste s\u00e1bado, mais um conto <strong>da coluna do compositor Aloisio Villar, a &#8220;Buraco da Fechadura&#8221;.<\/strong><\/div>\n<div><\/div>\n<div><strong><em>Rep\u00fablica dos Meninos<\/p>\n<p><\/em><\/strong><\/div>\n<div><\/div>\n<div>C\u00e9sar Vieira \u00e9 um daqueles caras que podemos dizer que venceu na vida. Nasceu em ber\u00e7o pobre em uma favela no Rio de Janeiro. Lutou e\u00a0perseverou at\u00e9 se tornar um dos homens mais poderosos do pa\u00eds.<\/p>\n<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Nasceu no morro do Dend\u00ea, que fica no bairro da Ilha do Governador, o\u00a0quinto entre\u00a0sete irm\u00e3os. N\u00e3o chegou a conhecer os dois mais velhos &#8211;\u00a0falecidos ap\u00f3s entrarem na marginalidade. Com oito anos de idade C\u00e9sar j\u00e1 vendia balas e chicletes em sinais de tr\u00e2nsito, com dez anos engraxava sapatos.<\/p>\n<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Mas nunca deixou de estudar: sua m\u00e3e dona Penha fazia quest\u00e3o de todos os filhos na escola e C\u00e9sar se empenhava, era um dos melhores alunos do col\u00e9gio e enchia a m\u00e3e de orgulho.<\/p>\n<\/div>\n<div><\/div>\n<div>O garoto acordava todos os dias cinco horas da manh\u00e3. Tomava caf\u00e9, quando tinha caf\u00e9, tomava banho e pegava o 328 (Bananal\/Castelo). Chegava\u00a0\u00e0 Central do Brasil pouco antes das oito e engraxava sapatos at\u00e9 meio dia. Pegava o \u00f4nibus de volta e ia direto ao col\u00e9gio. Aproveitava para almo\u00e7ar l\u00e1, porque almo\u00e7o em sua casa era luxo.<\/p>\n<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Estudava e no fim da tarde voltava para casa. Voltava quando podia subir o morro, quando ele n\u00e3o estava <personname productid=\"em guerra. Nesses\" w:st=\"on\">em guerra. Nesses<\/personname> casos C\u00e9sar se virava e dormia pelas ruas mesmo. Com tudo em paz ele subia, fazia seus deveres, jantava quando a fam\u00edlia tinha grana para comprar comida e dormia &#8211; para no dia seguinte come\u00e7ar tudo de novo.<\/p>\n<\/div>\n<div><\/div>\n<div>C\u00e9sar era aluno nota dez e isso abria portas para ele. <\/div>\n<div><\/div>\n<div>Dono de uma grande intelig\u00eancia, n\u00e3o gostava de jogar bola, nem brincar na rua. O dinheirinho que juntava n\u00e3o comprava roupas e sim livros. Os professores notavam seu grande esfor\u00e7o e capacidade e indicavam cursos gratuitos a ele, davam livros. C\u00e9sar come\u00e7ava a se destacar no meio daquela mis\u00e9ria.<\/p>\n<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Adolescente se converteu e virou evang\u00e9lico. Fez grande amizade com o pastor local e foi morar em sua casa. O pastor lhe tratava como um filho e dava suporte para os estudos de C\u00e9sar tanto na escola quanto religioso. O sonho do menino era ser pastor.<\/p>\n<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Al\u00e9m do lado religioso C\u00e9sar tamb\u00e9m tinha um lado pol\u00edtico. No segundo grau tornou-se presidente do Gr\u00eamio Estudantil e<span>\u00a0 <\/span>um dos l\u00edderes da favela, fazendo parte da dire\u00e7\u00e3o da associa\u00e7\u00e3o de moradores.<\/p>\n<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Esfor\u00e7ou-se, lutou e entrou para uma universidade p\u00fablica. Nesse per\u00edodo o pastor, seu protetor, foi preso acusado de abuso de menores. C\u00e9sar assim assumiu a igreja.<\/p>\n<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Virou pastor e na universidade presidente do DCE: C\u00e9sar era ambicioso e queria cada vez mais. Com seu carisma e talento ampliou a igreja e montou filiais, entrou para um partido pol\u00edtico e decidiu se candidatar a vereador. Com apoio do morro e dos religiosos de sua igreja se elegeu e destacou-se como uma nova lideran\u00e7a na cidade. N\u00e3o demorou muito e foi eleito deputado federal.<\/p>\n<\/div>\n<div><\/div>\n<div>C\u00e9sar Vieira, menino pobre, engraxate, com seu esfor\u00e7o, intelig\u00eancia e carisma transformou-se em pol\u00edtico e l\u00edder religioso poderoso.<\/p>\n<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Nesse momento conheceu Amanda Lacerda, filha de Jos\u00e9 Lacerda, presidente do partido. Engataram um namoro, noivado e se casaram. Tiveram tr\u00eas filhos e a carreira de C\u00e9sar ia cada vez melhor. Conseguiu concess\u00e3o de uma r\u00e1dio, depois de outra&#8230; At\u00e9 ter uma cadeia de r\u00e1dios pelo Brasil.<\/p>\n<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Mas ningu\u00e9m \u00e9 perfeito&#8230; Nem mesmo C\u00e9sar Vieira.<\/p>\n<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Uma tarde foi procurado pelo ex pastor, preso por abuso de menores. O di\u00e1logo foi tenso:\u00a0o ex pastor pedia ajuda e C\u00e9sar negava dizendo que j\u00e1 havia lhe ajudado muito. O homem disse que seria melhor que C\u00e9sar lhe ajudasse, pois teria muito a contar.<\/p>\n<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Basicamente uma chantagem rolava ali e C\u00e9sar cedeu, dando dinheiro ao homem. Antes dele sair virou-se para C\u00e9sar e disse que por tudo que fez ao deputado merecia muito mais. Tentou tocar em seu rosto e C\u00e9sar impediu com viol\u00eancia respondendo que se tentasse tocar nele mais uma vez iria se arrepender amargamente.<\/p>\n<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Nem precisou tocar de novo. Uma semana depois o ex pastor foi atropelado por um \u00f4nibus enquanto esperava no ponto e faleceu na hora. Uma morte muito suspeita.<\/p>\n<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Uma vez me falaram que todo moralista era pervertido e esse ditado se aplicava bem a C\u00e9sar. O homem gostava de pegar o carro depois que a esposa dormia e andar pelas ruas da cidade.<\/p>\n<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Vagava pelos lugares considerados de maior &#8216;baixo n\u00edvel&#8217;\u00a0\u00e0 procura de aventuras e invariavelmente acabava atr\u00e1s dos meninos de rua. Quanto mais jovens melhor.<\/p>\n<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Parava seu carro perto de grupo de meninos e os chamava. Aproximavam-se e ele convidava para entrar. Meninos com mais ou menos nove, dez anos de idade. Idade que C\u00e9sar trabalhava para ajudar a sustentar sua fam\u00edlia.<\/p>\n<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Sa\u00eda com os meninos indo a algum lugar escuro, abandonado e depois voltava para casa. Tomava banho e deitava-se ao lado de Amanda como se nada tivesse acontecido.<\/p>\n<\/div>\n<div><\/div>\n<div>C\u00e9sar era discreto e ningu\u00e9m ficava sabendo de suas pervers\u00f5es. Quem sabia j\u00e1 estava\u00a0a sete palmos debaixo da terra.<\/p>\n<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Os anos passavam e C\u00e9sar cada vez mais poderoso. Tornou-se ministro do trabalho e conseguiu uma concess\u00e3o de tv. Sua igreja j\u00e1 tinha ramifica\u00e7\u00f5es por toda Am\u00e9rica do Sul e Europa, tornando-se a mais poderosa evang\u00e9lica do Brasil. C\u00e9sar j\u00e1 criava novas ambi\u00e7\u00f5es na mente.<\/p>\n<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Com a morte de Jos\u00e9 Lacerda tornou-se presidente do partido e come\u00e7ou a costurar apoios para virar governador do Rio de Janeiro.<\/p>\n<\/div>\n<div><\/div>\n<div>As pesquisas indicavam que ele era a melhor op\u00e7\u00e3o do partido. C\u00e9sar tinha programa matinal em uma de suas r\u00e1dios, onde ajudava a popula\u00e7\u00e3o e isso fez do deputado uma pessoa popular. Nas tais pesquisas encomendadas seu partido viu que ele era l\u00edder disparado na sucess\u00e3o do Pal\u00e1cio Guanabara e assim seu nome foi homologado.<\/p>\n<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Costurou acordos no m\u00ednimo estranhos. Fez reuni\u00e3o com milicianos e dessa forma conseguiu apoio das comunidades dominadas pelos criminosos.<\/p>\n<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Era o \u00fanico pol\u00edtico com acesso a essas comunidades para fazer discursos e mostrar suas propostas. Conseguiu o mesmo acesso em favelas do Terceiro Comando, Amigos dos Amigos\u00a0e Comando Vermelho. O deputado de Deus fez pacto com o diabo. <\/p>\n<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Mas um dia a casa cai..<\/p>\n<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Uma manh\u00e3 C\u00e9sar foi acordado por Amanda, hist\u00e9rica com uma revista na m\u00e3o. C\u00e9sar perguntou qual era o problema e Amanda jogou a revista sobre ele.<\/p>\n<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Eram den\u00fancias.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Muitas den\u00fancias de desvio de verbas, Caixa 2, tr\u00e1fico de influ\u00eancias e acordos com mil\u00edcia e traficantes. Os podres de C\u00e9sar todos escancarados na revista dominical.<\/p>\n<\/div>\n<div><\/div>\n<div>O deputado resolveu reagir e dar uma entrevista coletiva se explicando e negando toda a situa\u00e7\u00e3o, mas a coisa piorava a cada dia. Um jornalista da tal revista, Jairo Mello tornou-se a maior pedra em seu sapato e a cada semana novos esc\u00e2ndalos surgiam.<\/p>\n<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Escutas telef\u00f4nicas surgiram e\u00a0testemunhas das negociatas.\u00a0C\u00e9sar, em desespero, tentou levar a quest\u00e3o para religi\u00e3o. Parou de se defender e acusou a imprensa de persegui\u00e7\u00e3o religiosa.<\/p>\n<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Fez um evento na praia de Copacabana para um milh\u00e3o de pessoas, com shows e discursos em desagravo a ele. A quest\u00e3o virou uma guerra religiosa. C\u00e9sar conseguia levar as den\u00fancias para o lado que queria.<\/p>\n<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Com o tempo tudo foi esfriando, como todo esc\u00e2ndalo no Brasil. Uma novela nova estreou, um jogador de futebol famoso foi acusado de ter filho fora do casamento e ningu\u00e9m mais falava <personname productid=\"em C\u00e9sar Vieira.\" w:st=\"on\">em C\u00e9sar Vieira.<\/personname><span>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0<\/span><\/p>\n<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Voltou \u00e0 lideran\u00e7a das pesquisas mesmo com Jairo Mello batendo nele todas as semanas. As elei\u00e7\u00f5es pareciam decididas e na noite anterior do pleito resolveu sair para espairecer.<\/p>\n<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Percorreu a cidade de carro e achou meninos de rua. Como de praxe conversou com eles e levou dois para dentro do carro. Saiu com os meninos e parou em uma rua escura.<\/p>\n<\/div>\n<div><\/div>\n<div>De repente policiais e imprensa aparecem. <\/div>\n<div><\/div>\n<div>Os policiais socam a porta do carro e um assustado C\u00e9sar Vieira abre. Ele est\u00e1 com camisa e cueca apenas e os meninos nus. A imprensa aparece e fotografa, tenta entrevistar um arruinado C\u00e9sar Vieira preso em flagrante.<\/p>\n<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Antes de entrar no cambur\u00e3o C\u00e9sar olha para Jairo e pergunta \u201cpor qu\u00ea essa persegui\u00e7\u00e3o?\u201d. Jairo olha fixamente o deputado e responde <em>\u201cn\u00e3o foi s\u00f3 o senhor que venceu na vida saindo da mis\u00e9ria; eu fui um dos seus meninos\u201d.<\/p>\n<p><\/em><\/div>\n<div><\/div>\n<div>C\u00e9sar, mesmo\u00a0na cadeia, foi eleito governador e alguns dias depois saiu com habeas corpus. Conseguiu levar o mandato at\u00e9 o fim e virou candidato a presidente.<\/p>\n<\/div>\n<div><span>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 <\/span><\/p>\n<\/div>\n<div>Sim, ele se deu bem&#8230; Ele \u00e9 pol\u00edtico e rico, achavam mesmo que se daria mal?<\/p>\n<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Bem vindo ao Brasil.<\/div>\n<div><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Neste s\u00e1bado, mais um conto da coluna do compositor Aloisio Villar, a &#8220;Buraco da Fechadura&#8221;. 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