{"id":10933,"date":"2012-08-25T10:44:00","date_gmt":"2012-08-25T12:44:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2012\/08\/buraco-da-fechadura-dona-carola\/"},"modified":"2012-08-25T10:44:00","modified_gmt":"2012-08-25T12:44:00","slug":"buraco-da-fechadura-dona-carola","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2012\/08\/buraco-da-fechadura-dona-carola\/","title":{"rendered":"Buraco da Fechadura &#8211; &quot;Dona Carola&quot;"},"content":{"rendered":"<div><a href=\"http:\/\/3.bp.blogspot.com\/-1u5EyVXojmE\/UDfv7bwg6mI\/AAAAAAAAF0Q\/GGeLJ227cns\/s1600\/Penadinho_Frame5.jpg\" imageanchor=\"1\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" border=\"0\" height=\"480\" src=\"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2012\/08\/Penadinho_Frame5.jpg\" width=\"640\" yda=\"true\"><\/a><\/div>\n<p><\/p>\n<div>Neste s\u00e1bado, uma (fantasmag\u00f3rica) edi\u00e7\u00e3o da <strong>coluna de contos do compositor Alo\u00edsio Villar, a \u201cBuraco da Fechadura\u201d.<\/strong><\/div>\n<div><\/div>\n<div><strong><em>Dona Carola<\/em><\/strong><\/div>\n<div><\/div>\n<div>Ter m\u00e3e superprotetora n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil e Henrique era um rapaz que conhecia bem esse drama.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Henrique era filho \u00fanico de uma mulher que ficou vi\u00fava bem jovem, ent\u00e3o dedicou a vida a esse filho. Dona Carola, mulher dos tempos antigos, religiosa fervorosa, moralista ferrenha e que seguia preceitos bem antigos.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Henrique tinha que seguir essa cartilha. Mesmo sendo um rapaz de trinta anos, formado em economia na PUC e trabalhando no Banco do Brasil, era visto por dona Carola como o \u201cfilhinho da mam\u00e3e\u201d.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Ele nunca deixou de morar com a m\u00e3e, por achar mais c\u00f4modo e para n\u00e3o deixar a pobre senhora sozinha, mas isso interferia em sua vida e fazia que o marmanjo fosse tratado como crian\u00e7a.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Dona Carola quem o acordava de manh\u00e3 e quando Henrique sentava \u00e0 mesa para o caf\u00e9 ela j\u00e1 estava posta com tudo que ele gostava. Leite, achocolatado, suco, p\u00e3o, margarina, requeij\u00e3o, presunto, queijo e um delicioso bolo de fub\u00e1 que s\u00f3 dona Carola sabia fazer.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Henrique despedia-se pro trabalho pedindo ben\u00e7\u00e3o a m\u00e3e e dona Carola entregava uma marmita a ele com o almo\u00e7o por n\u00e3o querer que o filho comesse besteiras na rua. Tamb\u00e9m entregava um guarda chuva e um casaco mesmo no ver\u00e3o senegalesco do Rio de Janeiro e que nenhuma nuvem passasse nem perto da cidade.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Era por precau\u00e7\u00e3o, dizia dona Carola.<span>\u00a0 <\/span><\/div>\n<div><\/div>\n<div>E dona Carola passava o dia tomando conta da casa, rezando e ligando para Henrique no trabalho querendo saber se estava tudo bem, se ele se alimentou direito e reclamando que estava passando mal. Dona Carola tinha uma sa\u00fade de ferro, mas era hipocondr\u00edaca.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Como voc\u00eas podem ver as coisas n\u00e3o eram f\u00e1ceis para Henrique e j\u00e1 imaginam como era para o rapaz namorar.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Arrumou muitas namoradas ao longo dos anos, mas nada dava certo. Nenhuma ag\u00fcentava dona Carola e ela n\u00e3o suportava nenhuma. Era inimizade \u00e0 primeira vista e a velha senhora sabotava tanto as rela\u00e7\u00f5es de seu filho que ele acabava sendo largado.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Dona Carola queria Henrique s\u00f3 para ele. <\/div>\n<div><\/div>\n<div>Na cabe\u00e7a da m\u00e3e nenhuma mulher prestava; s\u00f3 que Henrique j\u00e1 trint\u00e3o sentia necessidade de conhecer uma mulher legal, se apaixonar e constituir sua fam\u00edlia. Dona Carola n\u00e3o viveria para sempre, ele n\u00e3o poderia ser eternamente o filhinho.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Nessa situa\u00e7\u00e3o que Henrique come\u00e7ou a reparar numa mulher que come\u00e7ara a trabalhar recentemente no banco. Branca, cabelos negros, cheia de charme&#8230; Linda. Ela devia ter a faixa et\u00e1ria de Henrique e ele resolveu conhec\u00ea-la melhor.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Aproximou-se e papo vai, papo vem, tornaram-se amigos. Descobriu que ela se chamava Carla e um dia Henrique convidou a mo\u00e7a para jantar. Enganou a m\u00e3e dizendo que faria hora extra no trabalho e levou Carla ao cinema e depois para o jantar rom\u00e2ntico.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Jantaram e Henrique levou Carla de carro at\u00e9 sua casa. Estacionados na frente da resid\u00eancia deram o primeiro beijo e a coisa foi ficando mais ardente at\u00e9 que Carla convidou Henrique para entrar.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Henrique se animou com o convite, mas na hora de dizer sim e adentrar os aposentos com aquela gata estonteante seu celular tocou. Era dona Carola dizendo que estava tonta e com sensa\u00e7\u00e3o que desmaiaria.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Henrique desligou o telefone pedindo desculpas a Carla e contando que teria que ir embora, pois, sua m\u00e3e n\u00e3o passava bem. Carla ficou frustrada, mas disse que entendia e que m\u00e3e era importante.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Henrique voltou para casa e continuou saindo com Carla sempre que dona Carola n\u00e3o tentava atrapalhar. Come\u00e7aram a namorar e Carla levou Henrique para almo\u00e7ar em sua casa e conhecer seus pais. <\/div>\n<div><\/div>\n<div>Depois do almo\u00e7o Carla cobrou que o namorado fizesse o mesmo e levasse a ela para conhecer sua m\u00e3e. Henrique engasgou com o licor que tomava e respondeu que n\u00e3o sabia se era uma boa.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Carla perguntou se Henrique tinha vergonha dela e o rapaz respondeu que n\u00e3o, muito pelo contr\u00e1rio e que o problema era sua m\u00e3e, uma pessoa dif\u00edcil. Carla n\u00e3o aceitou aquela conversa e exigiu que Henrique marcasse para se conhecerem.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Resignado o rapaz voltou para casa e contou \u00e0 m\u00e3e que estava namorando e queria que ela conhecesse sua escolhida. Dona Carola fez cara de poucos amigos, mas topou mandando que o filho levasse a namorada em casa.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Henrique levou Carla e dona Carola para almo\u00e7ar em um restaurante e Carla tentou ser toda simpatia tratando a velha bem, mas dona Carola n\u00e3o era f\u00e1cil: parecia zagueira do Bangu.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Dona Carola olhava s\u00e9rio para Carla o tempo todo, n\u00e3o dizia uma palavra e olhava fixamente a menina que se constrangia. O clima na mesa era pesad\u00edssimo e um momento Henrique levantou para ir ao banheiro.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Com o rapaz ausente dona Carola perguntou a Carla quais eram suas inten\u00e7\u00f5es com o filho. Carla sem gra\u00e7a respondeu que as melhores poss\u00edveis, ela queria casar com Henrique e ter filhos. A senhora respondeu que nunca, s\u00f3 passando por cima de seu cad\u00e1ver e que ela costumava comer o f\u00edgado das pretendentes de Henrique com molho ferrugem e salada de alface.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Carla sentiu um arrepio na espinha e Henrique voltou \u00e0 mesa perguntando se estava tudo bem. Carla assustada respondeu que sim e dona Carola, sorridente, pediu mais vinho ao filho.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Henrique e Carla continuavam o namoro, com dona Carola tentando atrapalhar de todas as formas. A mo\u00e7a pensou em ensaiar um \u201cou ela ou eu\u201d, mas sabia que se daria mal nisso e resolveu seguir a pol\u00edtica do \u201cse n\u00e3o pode vencer, una-se a ela\u201d.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Chegou num s\u00e1bado \u00e0 tarde na casa do namorado levando o vinho preferido da sogra que, surpresa, agradeceu \u00e0 nora. Henrique tamb\u00e9m ficou surpreso e perguntou que novidade era aquela. Sem responder Carla contou que tinha mais uma surpresa e tirou um ingresso do bolso.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Dona Carola perguntou o que era aquilo e Carla respondeu que era um presente. A mo\u00e7a sabia que dona Carola era louca pelo filme \u201cO m\u00e1gico de Oz\u201d e soube que o filme totalmente resmaterizado fora relan\u00e7ado em um cinema do centro da cidade. Quis dar o ingresso de presente. <\/div>\n<div><\/div>\n<div>A velha ficou exultante, pela primeira vez deu um sorriso para a nora e deu um beijo em seu rosto agradecendo pelo presente. Entrou correndo em seu quarto para se arrumar e ver o filme enquanto Henrique abra\u00e7ava a namorada elogiando a id\u00e9ia.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Dona Carola foi ao cinema enquanto os pombinhos ficaram em casa namorando. Ela entrou na sala e achou esquisito estar meio vazia e s\u00f3 ter homens dentro. O filme come\u00e7ou e a velha senhora se encantava em rever a pequena Dorothy e seus amigos. Ela lembrava cada peda\u00e7o da hist\u00f3ria, cada m\u00fasica, mas algo estava diferente.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Ela via o filme e se espantava pensando \u201ca hist\u00f3ria n\u00e3o era assim\u201d. Dona Carola se assustava cada vez mais at\u00e9 que ao ver Dorothy fazer certas coisas com o homem de lata deu um grito e desmaiou.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Algum tempo depois, no auge dos amassos, Henrique recebeu telefonema pedindo que fosse com urg\u00eancia ao cinema. Ele foi e l\u00e1 descobriu que sua m\u00e3e estava morta: infarto fulminante.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Henrique chorava a perda da m\u00e3e e Carla tentava entender o que ocorrera. At\u00e9 que prestou aten\u00e7\u00e3o aos letreiros do lado de fora do cinema: n\u00e3o era \u201cO m\u00e1gico de Oz\u201d que passava ali, era \u201cO s\u00e1dico de Oz\u201d, um filme porn\u00f4.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Dona Carola foi enterrada e Henrique se viu sozinho. No meio daquela solid\u00e3o percebeu que estava livre e mesmo com saudades da m\u00e3e notou que poderia fazer o que quisesse.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Ligou para Carla pedindo que ela passasse em sua casa. A namorada entrou e ele foi logo jogando a mo\u00e7a na parede, beijando e tirando sua roupa. Era livre, ningu\u00e9m mais iria lhe impedir, at\u00e9 que ouviu um grito \u201cque pouca vergonha \u00e9 essa?\u201d.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Parou, olhou para o lado e Carla perguntou qual era o problema. Henrique perguntou se a namorada n\u00e3o tinha ouvido nada e ela respondeu que n\u00e3o, o rapaz ent\u00e3o decidiu deixar pra l\u00e1 e continuou beijando at\u00e9 que ouviu um \u201cpara Henrique!!\u201d.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Henrique soltou a namorada, olhou para o lado e deu um grito: \u201cm\u00e3e??\u201d. Era dona Carola, estava l\u00e1 assombrando o filho e Carla perguntou o que ocorria. Henrique assustado perguntou se ela n\u00e3o via sua m\u00e3e ali e Carla respondeu que n\u00e3o e que o namorado precisava descansar indo embora.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>A vida de Henrique virou um inferno. A todos os lugares que ia sua m\u00e3e estava do lado e s\u00f3 ele via. Isso foi fazendo que o pobre Henrique come\u00e7asse a ter problemas no trabalho e pior, com Carla.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Todas as vezes que os dois ficavam sozinhos seja na casa de um deles ou motel dona Carola aparecia e Henrique come\u00e7ava a brigar com a m\u00e3e. Como s\u00f3 ele via o fantasma de dona Carola, Carla come\u00e7ou a pensar que o namorado estava louco.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Essa situa\u00e7\u00e3o levou ao desgaste do namoro e seu fim. Carla n\u00e3o queria ver Henrique mais nem vestido de verde e amarelo e pediu transfer\u00eancia para outro banco.<span>\u00a0\u00a0 <\/span><\/div>\n<div><\/div>\n<div>Henrique ficou solteiro, tentou conhecer outras mulheres, levar para seu apartamento, mas dona Carola era implac\u00e1vel e nada dava certo. O rapaz j\u00e1 se encontrava em desespero por n\u00e3o conseguir se livrar da m\u00e3e e se abriu com um amigo, que achou uma solu\u00e7\u00e3o. <\/div>\n<div><\/div>\n<div>Lev\u00e1-lo a um terreiro. <\/div>\n<div><\/div>\n<div>O amigo levou Henrique a um centro e l\u00e1 o Pai de Santo disse que tinha a solu\u00e7\u00e3o. Recebeu um preto velho e passou uma s\u00e9rie de coisas que Henrique teria que fazer e assim despachar sua m\u00e3e para o al\u00e9m.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Henrique seguiu \u00e0 risca as recomenda\u00e7\u00f5es do preto velho e arriou um despacho na esquina de casa. N\u00e3o encontrou galinha preta e da esquina ligou para o amigo perguntando se podia usar caldo maggi. O amigo puto respondeu que j\u00e1 era quatro da manh\u00e3 e n\u00e3o enchesse o saco. Desligou &#8211; e Henrique resolveu usar o caldo mesmo. <\/div>\n<div><\/div>\n<div>Henrique fez a macumba e ela deu certo. Percebeu com o tempo que a m\u00e3e n\u00e3o aparecia mais. Ele estava livre. Henrique foi at\u00e9 a igreja preferida de sua m\u00e3e, acendeu uma vela para ela pedindo desculpas pela macumba e clamando que sua alma fosse para um bom lugar.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Com as semanas passando e vendo que tudo estava resolvido decidiu procurar Carla em sua nova ag\u00eancia banc\u00e1ria. Com um buqu\u00ea de flores na m\u00e3o pediu desculpas a ex namorada por todas as confus\u00f5es, disse que estava tudo resolvido e pediu uma nova chance.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Carla amava Henrique, deu um sorriso, pegou o buqu\u00ea e lhe deu um beijo apaixonado sob aplauso de todos. <\/div>\n<div><\/div>\n<div>De noite Henrique e Carla entraram no apartamento do rapaz se <\/div>\n<div>agarrando e tirando a roupa. Com o p\u00e9 Henrique abriu a porta do quarto e quando entraram deu um grito. <\/div>\n<div><\/div>\n<div>Carla se irritou, disse que o rapaz n\u00e3o tinha jeito e foi embora largando o coitado l\u00e1 sozinho olhando aquela imagem dantesca em sua cama: Dona Carola pelada rindo abra\u00e7ada ao preto velho.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>N\u00e3o h\u00e1 lugar melhor que o nosso lar&#8230;\u00a0<\/div>\n<div><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Neste s\u00e1bado, uma (fantasmag\u00f3rica) edi\u00e7\u00e3o da coluna de contos do compositor Alo\u00edsio Villar, a \u201cBuraco da Fechadura\u201d. 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